O que se faz na velhice?

O filme Um divã para dois, com Meryl Streep e Tommy Lee Jones nos conta uma história com final improvável. Uma vovó com cara de vovó que não se conformou em deixar de ser mulher. O filme poderia passar despercebido se não nos trouxesse, mais um vivo exemplo de uma tendência nesse nosso mundo hipermoderno: a de tomar caminhos inusitados para situações antes marcadas por respostas esteriotipadas. Ficar velho significava se preparar para a morte, caminhar rumo ao cemitério podendo desejar, no máximo, o privilégio de ter “uma boa morte”. O filme nos mostra, no entanto, uma mulher velha querendo viver o começo de uma nova vida. E se dissermos que esse projeto incluía mudar o seu casamento-morto com um marido- morto, em um novo casamento, aí a tarefa parece impossível, não é mesmo? Dizemos na psicanálise do século XXI que a velhice é um dos nomes da morte. Nossa cultura nos presenteia com vários deles tais como: a doença ou as perdas que são formas de nos levar forçosamente a acreditar que só temos aquele caminho a seguir e o mal é que nos resignamos a ele e não vemos que existem certamente outros rumos e outras respostas. Aquela velhinha do filme quer se casar de novo ao invés de se resignar e ao final parece uma jovenzinha de 20 anos de idade vivendo numa praia a sua fantasia sonhada com o seu príncipe encantado – que era um sapo- lhe dizendo o que todas as mulheres desejariam ouvir do homem amado. Claro que ela não só sonhou a mudança, mas foi tenazmente atrás dela. Se você não olhasse as imagens do filme diria que aquela era uma jovem mocinha que não se conforma em não ser feliz no casamento e busca, de todas as formas – seduzindo, conversando, buscando ajuda – viver o seu sonho. Ela continua a buscar coisas das quais já deveria ter desistido. Afinal, já teve o seu quinhão. E ela ainda quer romantismo. Que horror! Isso não é coisa para velhos. Quer dizer que prazer sexual, alegria, risos, novos sonhos e sua realização são coisas de gente jovem? Para os velhos doença, solidão, dores várias e queixas de tudo? Bobo de quem continuar a acreditar nisso! Enquanto a morte não chega tem muita coisa para ser feita. Coisas de peso, de valor ou de sonho, pouco importa. A vida só deve acabar quando acabar. Não vamos chamar a morte antes do fim porque assim vamos vivê-lo 10 ou 20 anos antes que ele de fato chegue. O que se faz na velhice? Não se vive esperando a morte chegar. Vive-se tudo o que for possível, da mesma forma que se faz na juventude.

Quem tem história para contar

Quando se escreve uma biografia é básico citar onde a pessoa nasceu e onde morreu. Mera necessidade de satisfazer a curiosidade do leitor? Vejo mais poesia nisso do que a passagem de informação. É a vida que alguém viveu sendo colocada em leque, não simplesmente do nascimento à morte ou do começo ao fim. Vejo o desfilar dos feitos de sua vida. O deslocamento, o percurso, a busca, o tomar posse. Nascemos onde não escolhemos, mas sair ou permanecer, ir atrás, construir são a nossa parte nessa história. Podemos nascer e morrer na mesma rua, na mesma casa, e termos ainda assim saído do lugar que nos deram. Acho mais difícil, mas vá lá: fazer daquela casa de criança uma casa de adulto – daquela vida de criança falada pelo outro (“ele é tão bonzinho” ou “ela é tão danadinha”) e vir a ser nossa própria versão, sem mudar de ambiente – é uma tarefa gigantesca. No entanto, não nos enganemos, sair de uma cidadezinha do interior e terminar em Nova York pode não significar nem crescimento nem mudança. Porém, nessa escolha pelos encontros e desencontros com o desconhecido e o inusitado vão se multiplicando as possibilidades de aprendizado e mudança. Lamentavelmente, acontece com bastante freqüência de algum personagem conhecido, ao ser entrevistado, deixar transparecer aquela mesma criança que olha assustada como que dizendo: “O que estou fazendo aqui?” É o tal do “complexo de fake”, que quer dizer falso, não verdadeiro, imitação. Os que confessam tê-lo afirmam que frases como “Vão descobrir que eu sou uma farsa, que não mereço isso, que não sou quem eles pensam que sou” são as que lhes passam pela cabeça. Que pena porque esse não descobriu que podemos, sim, pertencer ao lugar novo que construímos e conquistamos. Que aquele é o lugar de um segundo nascimento, aquele que nós mesmos provocamos ao escolher e fazer existir. A condição de vida ou o lugar de onde saímos é o ponto de partida, vai ser sempre parte de nossa história, mas não pode ser interpretado como o único lugar “verdadeiramente nosso”. Nascer e morrer em lugares diferentes é nascer de um jeito e morrer uma outra pessoa. Nascer com o que me deram e morrer com o que eu me dei, numa construção que se deu a cada experiência e a cada escolha feita. É isso! Ao morrermos, poderemos estar cheios de vida porque ela foi intensamente vivida. A melhor resposta que podemos dar à morte é viver -e ter tido uma vida na melhor versão possível, sentindo que tem ao fim uma história para contar.

Dois pesos e duas medidas

Com certeza já assistimos a cenas em que alguém irritado, esbravejandogritava: “ Mas você está sendo injusto, pra você são dois pesos e duas medidas”. Que seria o mesmo que dizer: “Você é tendencioso, está puxando brasa para a sua sardinha, quer deturpar as coisas para o seu próprio benefício”. “São dois pesos e duas medidas” deixa a gente na impossibilidade de esperar justiça das pessoas. Melhor seria dizer justeza, uma forma de avaliação imparcial, que refletisse a realidade e não o que se deseja impor. Vou piorar um pouco mais as coisas: é muito pouco ter somente dois pesos e duas medidas, precisamos de muitos pesos e muitas medidas. Se pensarmos que as situações não se repetem, seria mais eficaz usarmos, de fato, um peso e uma medida para cada momento. Bem mais apropriado não acham? O que faz com que não gostemos é, na verdade, a repetição do mesmo peso e da mesma medida sempre – sem saber, é claro, que o que está por detrás é sempre a mesma mensagem. Aí a pessoa vai adulterando a realidade para caber dentro de sua fantasia, falando e fazendo coisas sem sentido, que nos deixam loucas: “Uma hora você diz que quer e quando tem diz que não é isso, quando perde diz que queria sim.” Qual é a lógica? Socorro! Alguém pelo amor de Deus me explique! Boa pergunta: qual é a lógica? É porque cada um de nós tem uma única lógica subjacente a tudo o que fazemos. É o que tem o nome de “inconsciente” em psicanálise. Eis um exemplo: aquele cara que tinha a certeza de sua incompetência e passa uma vida se valendo de fatos ao seu redor para, a cada vez, dar-se o carimbo de incompetente. Esta é a prisão que construímos para nós mesmos. E quando era bem sucedido? Ah! Aí ele se assustava, dizia que era uma sorte, que a vida lhe estava dando mais do que merecia e se sentia um farsante que seria descoberto a qualquer instante. O pobrezinho se media sempre pela mesma medida. O que fazia com que medisse tudo o mais de maneiras absurdas para caber dentro de sua realidade psíquica como dizia Freud. Ou seja, para confirmar a historiazinha de sua vida que contava para si mesmo o tempo todo. “São muitos pesos e muitas medidas” é libertador. É poder admitir as variações infinitas possíveis da vida, das escolhas, dos prazeres… O limitador e escravizante é só ter dois pesos e duas medidas. Para a complexidade do que é o ser humano é ter muitos pesos e muitas medidas. A rigor, pesos e medidas diferentes para cada situação. Enriqueça –se de pesos e medidas. É simplesmente… L-I-B-E-R-T-A-D-O-R.

Você é um narcisista?

Luciene Godoy // O dicionário afirma que narcisista é aquele que nutre amor excessivo a si mesmo e a sua imagem. E se eu dissesse que ser narcisista é, muito pelo contrário, não se enxergar. É ser um cego vagando pelo mundo à procura de um espelho para se ver? Amar-se, então? Nem de longe. Como amar o que não se reconhece? Eu diria que não se enxergar nem se amar está mais para angustiante do que para desagradável, que é o que as pessoas costumam achar de um narcisista. O espelho tem a paradoxal propriedade de refletir a nós mesmos, porém, ao contrário. Enquanto a carinha que vemos lá é a nossa mesmo, os lados se apresentam trocados, direita vira esquerda e vice-versa. E daí? O que tem o narcisismo a ver com isso? Aí estão as bases de uma compreensão psicanalítica do narcisismo: como o narcisista não se vê sem espelho, ele usa as outras pessoas como reflexos de sua imagem, exigindo que a figura corresponda a uma semelhança consigo. Só aceitando o igual e tentando destruir tudo o que é diferente do si mesmo no outro. Por outro lado, o narcisista também usa o outro como imagem oposta de si mesmo. Por exemplo nas maledicências: “Você viu como ele é deselegante?” O que quer dizer: “Olha só como EU sou elegante!” E etc. etc. Nesse uso que faz do outro, o narcisista coloca-o em definições que lhe servem para se colocar no mundo como sendo exatamente o oposto daquilo que criticou. Predação seria um termo para definir relações nesse nível. Para o narcisista o outro não existe. O mundo é só ele com seus espelhos. Não se pode respeitar o que não se sabe que existe. Bem, então vamos banir do mundo esses tipos destrutivos. Quem são eles? Onde estão? Sinto dizer, mas “eles” são todos nós. Todos nós temos a nossa porção narcisista. O nosso primeiro “eu” é o outro. Processo que se dá a partir do sexto mês de vida, no fenômeno que Lacan chamou de “Estádio do Espelho”, no qual vemos o outro como sendo o eu. Esse funcionamento só é ultrapassado descobrindo seu lugar no mundo. Não é perguntando ao espelho como a bruxa da Branca de Neve, mas tentando cavar respostas para perguntas, muitas vezes angustiantes: Quem sou? O que de fato quero da vida? Como é que eu me vejo? Aí o outro será um companheiro de vida e descobertas e não o duro espelho para que eu tente em vão ver que cara tenho. A percepção de si mesmo é algo que não pode vir só dos infinitos reflexos que o mundo retorna, porque isso só vai nos deixar ainda mais perdidos e longe de nós mesmos. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 1º de julho de 2012.

Quem ainda acredita em diálogo?

"Orelha-Feto" (Emma Thomas)

Luciene Godoy // Os mais espertos sabem que não funciona. Muita gente deixou de acreditar no diálogo porque descobriu que ele só gera mais mal entendido. Vou começar contando uma historia de minha amiga que, diante da exigência do filhinho de 5 anos de idade que queria o bolo de aniversário só para ele, respondeu: “Ótimo, aí você vai comer sozinho, cantar o parabéns sozinho, brincar sozinho. Vai ser muuuiiito divertido!” O filhinho, com cara de espanto, percebeu o quão sem graça seria a sua festa de aniversário sem ninguém. Acho que acontece o mesmo com quem não sabe dialogar, que só pensa em se defender do que o outro lhe diz ou tenta impor cegamente a sua própria opinião: vive sua festa sozinho. Ouvi de alguém recentemente que há um novo jeito de conversar. Tomara, porque as pessoas não sabem, não querem, não conseguem escutar. E o diálogo começa do escutar. Só querem falar, falar, falar e, assim fazendo, só conseguem perder uma das melhores coisas da vida. Ficam relegados a uma pobreza eterna porque, para ter repertório e coisas interessantes a dizer, é preciso ter ouvido. Perdem a possibilidade de ter um mundo interior cheio de ideias e interpretações pelo simples fato de não terem ouvido bastante. Ouvir muito nos torna muito mais ricos. Não só ricos como adoráveis, queridos, apreciados por levarmos o outro em conta e com isso as relações ficam tão mais… gostosas. Já pararam para pensar que num diálogo dizemos coisas que só surgem quando estamos conversando com outra pessoa? O conhecimento que se produz num diálogo é muito diferente do que produziríamos se deixados sempre por nossa própria conta. Existe um bate-bola, com estímulos vindos de ambos os lados que redirecionam o pensamento de cada um produzindo um resultado inédito em relação ao que cada um sabia e pensava. Dialogar é perceber o outro. Entre casais, então, o diálogo é o material mais raro que existe. Ali, sim, um não consegue escutar o outro. Cada qual usa todas as suas forças, argumentos, gritos e uivos, mas nada muda o outro. Porque o que se busca é mudar o outro e não cuidar da própria vida, até porque muito do que pensamos ser do outro são nossas próprias questões. São casais que vivem juntos sem aprender um com o outro, sem nem ao menos saber quem é o outro. Pessoas que os amigos ou os colegas amam, admiram e nos quais veem muitas qualidades, mas que dentro de casa são verdadeiros cabides de defeitos. Cada qual vai chegando e dependurando mais uma falha. As duas partes têm a ver com esse eterno desencontro, a completa inexistência de dialogo dentro das relações mais chegadas. Será por acaso? Qual é a nossa parte nisso tudo? — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 3 de junho de 2012.

Vida de morto

A Morte de Sócrates (Jacques-Louis David, 1787)

Luciene Godoy Sabe daquelas perguntas que só crianças de 6 anos de idade como o Pequeno Príncipe podem fazer? Naquele tom direto que usam para perguntar sobre as questões mais difíceis da vida, como se fossem facilmente respondíveis? O que diria você se essa criança lhe perguntasse o que é a morte, assim, à queima roupa? Me peguei fazendo exatamente essa pergunta. Para minha surpresa a resposta veio também à queima roupa. Respondi para o meu Pequeno Príncipe interno, que todos nós, notemos ou não, continuamos tendo: “Morte é não estar vivendo” – veja bem, disse eu explicativamente para o meu pequeno interlocutor. “Eu não disse não estar vivo, mas não estar vivendo.” Não está vivendo quem não vê a beleza de uma chuva caindo numa tarde ensolarada: “casamento da raposa¹”; quem não cai na risada por um escorregão que deu no corredor encerado; quem não ouve uma música dezenas de vezes num estado de emoção acerca de um fato qualquer. É só um momento feliz, um instante de encantamento. Morte é não estar vivendo. É não estar vivendo esses momentos que passam diante de nós no dia a dia. Não são momentos fulgurantes de palco e luzes, de festas suntuosas. Festas sim, por estarmos vivos e vivendo, sorvendo, usufruindo. Passamos quase todo o nosso tempo correndo atrás, correndo para chegar lá. Lá aonde? Lá na morte, que é a única chegada mesmo. Trata-se muito mais de usufruir o que não vemos que temos do que de correr atrás de mais e mais, pois esta é a lógica de um morto que espera viver: viver a vida quando isso ou aquilo acontecer, quando tiver o esperado. Olha que o bicho está mordendo o seu calcanhar e você não vê que já possui muitas das coisas atrás das quais está correndo. Cuidado com a idealização, a busca do momento perfeito, porque quando você acordar, pode ter vivido uma vida de morto esperando chegar a vida plena, que esta sim, não há. Um bem-estar, serenidade, uma certa segurança interna, quentinha, gostosa é possível, sim. Não, é claro, para quem está enlouquecido em desabalada corrida atrás do pote de ouro no fim do arco-íris. O que tanto buscamos não está lá longe, está aqui perto, dentro. Olhe para você mesmo com carinho. Porque não dá para gostarmos da vida sem gostarmos de quem somos. Gostar de quem somos sem termos que ser infalíveis, lindos e maravilhosos. Gostar do nosso jeitinho único de ser que tem sempre uma beleza singular, só nossa, não replicável. Proponho essa nova definição de morto: é aquele que vive esperando a vida chegar. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 6 de maio de 2012. Luciene Godoy é psicanalista luciene.godoy23@gmail.com www.lucienegodoy.com.br

A verdade mentirosa

Pinocchio (Enrico Mazzanti, entre 1852 e1910)

Luciene Godoy Assunto muito apropriado para o Dia da Mentira. Aliás, não é intrigante que tenha um Dia da Mentira? Para quê? Para nos divertirmos enganando os outros, ora! Enganar é divertido? Parece que sim, se tomado em um viés como esse do Dia da Mentira. Algo semelhante acontece no carnaval quando homens se divertem se vestindo de mulher e vice-versa. Nos fantasiamos de palhaços, bichos e personagens conhecidos. Nos divertimos fingindo ser o que não somos. Mentimos para nos divertir. A verdade, no entanto, é outra coisa. Quem somos no dia a dia é a nossa verdade. É o que somos de fato, sem fantasias. Mesmo? Nada disso. Não para a psicanálise do século 21 que faz uso da expressão título desse artigo – A verdade mentirosa – para falar que o que somos, o nosso senso de id entidade, também é uma fantasia. Quer dizer: uma mentira, uma ficção, uma invenção. Não se desespere, vou explicar: é que o nosso eu é fruto de “sucessivas identificações”, como diz Freud. Somos todos frutos de múltiplas identificações como se fôssemos uma cebola. Aquela bola, que parece ser uma unidade indivisível, é na verdade a junção de várias pétalas. Juntas, elas proporcionam a ilusão de ser uma unidade. Cada pétala é um traço que pegamos de alguém, é algo que inferimos de uma situação e aí se faz um mosaico dessas aquisições a que chamamos de eu. É por isso que dá para dizer que o eu é uma invenção, uma ficção tirada da nossa história infantil. Mas, veja bem, esse eu não está fixo no passado – que é só o seu começo. Essas identificações vão sendo mais ou menos mudadas ao longo da vida. Deixamos de ser crianças para nos tornarmos adultos, deixamos de ser solteiros e sozinhos para nos tornarmos pais, reproduzindo outro ser humano. Olhamos no espelho e nos vemos velhos – que mudança! O que pensamos ser (o eu) não é uma verdade absoluta, é uma verdade fictícia, inventada. Que nos desesperamos para não mudar ou que buscamos transformar através de novas identificações, de novas escolhas. Pau que nasce torto morre torto. Bem dito pau, porque o ser humano pode nascer de qualquer jeito: torto, redondo, quadrado, bonito, feio… Disso ele pode fazer alguma outra coisa com a parte que lhe cabe, que é poder transformar sua própria história, reescrevendo-a em seus próprios termos. A verdade mentirosa – porque ficcional – que somos, que parece, em princípio, uma maneira feia de nos referirmos a nós mesmos, pode ser a passagem para sacarmos que podemos nos libertar do que “está escrito”, do que “é assim”, e inventar o que queremos vir a ser. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 1º de abril de 2012.

O direito de ser fraco

Adele Bloch-Bauer I (Gustav Klimt, 1907)

Um amigo que tem “visão de raio X” um dia me saiu com a seguinte frase: “O que eu acho mais admirável é que você não usa suas prerrogativas de mulher.” Frase impactante, meio enigmática que me fez querer saber o que exatamente significava. Veio a explicação: “É que como mulher, certas coisas te são permitidas, são vistas como naturais e próprias de uma mulher. Por exemplo, se colocar como fraca e vítima, cobrar muito do homem, pois a mulher já é tão desvalorizada e explorada e os homens tão cheios de privilégios e poder que eles são obrigados a dar mais, ser mais, fazer mais.” Há uns 30 anos, uma jovem amiga me disse, com ares de sabichona, que eu era muito boba por querer dividir a conta com a outra pessoa (um homem, naturalmente, porque com mulher a gente divide!). Ensinava-me o truque de olhar para o outro lado, quando o garçon viesse com a conta, fingindo não ter visto, ou ir ao banheiro porque “o homem paga até por vergonha!”. E aí, continuava ela, com o dinheiro, você pode comprar um batom ou quem sabe até uma saia. Eu, na minha incipiente onda de dignidade juvenil, afirmava: “Se eu fizer isso, aonde é que eu vou adquirir esse orgulho que eu tenho de mim? Esse brio que tenho na cara? Com esse dinheiro daria para comprar esses dois ítens?” É um desafio deixar de usar as prerrogativas de ser infantil, de encher indefinidamente o saco dos outros com nossas cobranças infernais e infinitas. Não usar as prerrogativas de mulher, nesse contexto, significa não usar e abusar do fato de poder demonstrar fragilidade e transformar isso numa demanda perpétua. Na mesma ordem está não usar as prerrogativas de ser velho, pobre, sem instrução ou qualquer outra. Quer dizer: não usar o fato de estar numa posição de desvantagem, de diminuição para tiranizar, como aqueles velhinhos que são um poço de reclamações aos filhos que tentam deles cuidar. Qualquer que seja a nossa condição desfavorável, se valer dela para o exercício de um poder disfarçado para cobrar, irritar, ou fazer o outro pagar o pato, leva o nome de falta de ética. Um a ética cujo resultado é o orgulho que se tem por si mesmo. É ter o rosto iluminado pela dignidade de não ser um predador disfarçado, escondido atrás da máscara de necessitado. Tem coisa melhor do que gostar de si mesmo e dos seus próprios atos? Se tiver me avise. Ah! Em tempo: os “sacos sem fundo” que se cuidem porque o mundo terá cada vez menos tolerância para com eles. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 4 de março de 2012.

Querer ser

La Reproduction Interdite (René Magritte, 1937)

Luciene Godoy As pessoas não se dão conta de que são o que querem ser. Costumamos achar que estamos em certa situação porque as circunstâncias (ou o destino ou Deus) quiseram assim. Num primeiro momento até podemos afirmar, em alguns casos, que algo aconteceu conosco sem que o desejássemos, já que o acaso existe mesmo. Mas o que fazemos com o acaso, com o que as circunstâncias nos trouxeram é que, de fato, vai ser determinante para o destino – a destinação – que damos ao que nos aconteceu. Tive uma amiga de infância que, com a chegada dos hormônios da adolescência, ficou com um cabelo horrível. Que destino cruel para uma menina que queria ser uma bela mulher! Ela, no entanto, dizia que sabia que “tinha sim” um cabelo bonito, que era só uma questão de tempo para que ele voltasse a sê-lo. Dito e feito. Levou um bom tempo, escorregões, produtos inadequados, mas chegou aonde queria – sempre chegamos – o seu cabelo hoje é lindo! Devemos nos acautelar muito com os costumes, que são cegos para o novo e o diferente. Às vezes nos enfiamos dentro de um papel ou de uma posição, simplesmente porque nos encaixamos dentro das especificações esperadas. Existe um programa chamado Clínica de Psicanálise do Centro do Genoma Humano da USP, dirigido pelo psicanalista Jorge Forbes, que trabalha com portadores de distrofia muscular. Percebeu-se que, imagine, numa situação daquelas, na qual “espera-se” que os doentes sofram muito com seu destino funesto, surpreendentemente, as pessoas se apresentavam, muitas vezes, mais tomadas por sofrimentos banais e corriqueiros do que pela doença. A descoberta é de que pode-se não sofrer aonde é esperado o sofrimento, por isso, as palavras chave para o tratamento são: “É preciso desautorizar o sofrimento padronizado”. Pois é, existe padrão até para sofrer! Então, podem-se outras coisas inesperadas também: pode-se continuar a ser um homem viril e atraente depois dos oitenta, como é o caso o ator Sean Connery. Pode-se, sim, continuar a ser uma mulher desejável depois de “virar” vovó. Claro… se quiser. Muita coisa, mas muita coisa mesmo, será possível se o sujeito desejar. Desejar intensamente a ponto de sustentar a sua busca até o momento da colheita. Se não, ficará nas desculpas e justificativas: é por causa da idade, da doença, do tempo curto, da falta de dinheiro… Não! É porque, de fato, não se quer e não se assume que não se quer. Tenho uma jovem analisante que, com a sabedoria de um monge, dia desses me disse: “Quem quer acha um jeito, quem não quer acha uma explicação”. É isso aí. — Artigo originalmente publicado jornal O Popular em 4 de fevereiro de 2012.

Ano novo não, mundo novo!

Luciene Godoy Nessa passagem de ano convido-os não somente a brindar a entrada de um novo ano, mas de um mundo novo. O mundo não está simplesmente mudando. Estamos numa revolução que inverte o tipo de laço social que nos une em sociedade. Termos como modernidade e pós-modernidade não definem mais o nosso tempo. Estamos numa nova organização sócio-política-ecônomico-afetiva. Sociólogos como Gilles Lipovetsky a chamam hipermodernidade. Filósofos falam de uma nova forma de laço social que Luc Ferry, por exemplo, chama de “um novo amor”. Estudiosos do nosso tempo, como o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, afirmam que estamos vivendo uma revolução imensa, nunca antes presenciada pela humanidade. O que muda radicalmente neste novo tempo é que, pela primeira vez na história da humanidade, a organização dos laços sociais, as formas de relacionamento, não se dão pela obediência a uma figura superior (verticalidade), não de cima para baixo, mas pela troca com o semelhante em rede, lado a lado. Tendemos a não crer cegamente em partidos e instituições. Estamos mais próximos uns dos outros, porém, em nossas diferenças. O ser humano como “um” e não como “um grupo” vale mais. Chegamos à era em que o lado emocional está no foco. Vide as empresas mais bem-sucedidas: são elas as que levam em conta o lado afetivo, as relações, o jeito de ser de cada um. Estamos na era em que as diferenças são aceitas e valorizadas. Pela primeira vez na história da humanidade estamos vivendo num mundo de relações horizontais, em rede, com intensa troca de informações, ou seja, poder – o poder do saber – correndo de um para outro sem muita intermediação. Teoricamente falando, anote no seu caderninho para se situar daqui para frente, estamos num segundo humanismo (o primeiro foi o do Iluminismo), aonde o homem é considerado, não mais na sua parte de razão, mas na sua parte de desejo. E o desejo é o que de mais particular e único alguém pode ter. É respeitar o ser humano naquilo que ele tem de mais seu, de absolutamente singular. O novo mundo já se faz anunciar. Essa nova forma de se relacionar já está por aí na diversidade de relações vividas sem serem consideradas “erradas”. O fora da norma, que é próprio do ser humano, começa a ser aceito. Parece que está-se admitindo a grande descoberta que a psicanálise já tinha feito cem anos atrás: que o ser humano é movido pelo desejo. Sim, o mundo é movido pelo desejo, seja ele consciente ou inconsciente. Então só me resta dizer, feliz mundo novo! Novo mundo de relações nunca antes vividas. Feliz mundo novo! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 30 de dezembro de 2011.