Querer ser

La Reproduction Interdite (René Magritte, 1937)
La Reproduction Interdite (René Magritte, 1937)

Luciene Godoy

As pessoas não se dão conta de que são o que querem ser.

Costumamos achar que estamos em certa situação porque as circunstâncias (ou o destino ou Deus) quiseram assim.

Num primeiro momento até podemos afirmar, em alguns casos, que algo aconteceu conosco sem que o desejássemos, já que o acaso existe mesmo.

Mas o que fazemos com o acaso, com o que as circunstâncias nos trouxeram é que, de fato, vai ser determinante para o destino – a destinação – que damos ao que nos aconteceu.

Tive uma amiga de infância que, com a chegada dos hormônios da adolescência, ficou com um cabelo horrível. Que destino cruel para uma menina que queria ser uma bela mulher! Ela, no entanto, dizia que sabia que “tinha sim” um cabelo bonito, que era só uma questão de tempo para que ele voltasse a sê-lo.

Dito e feito. Levou um bom tempo, escorregões, produtos inadequados, mas chegou aonde queria – sempre chegamos – o seu cabelo hoje é lindo!

Devemos nos acautelar muito com os costumes, que são cegos para o novo e o diferente. Às vezes nos enfiamos dentro de um papel ou de uma posição, simplesmente porque nos encaixamos dentro das especificações esperadas.

Existe um programa chamado Clínica de Psicanálise do Centro do Genoma Humano da USP, dirigido pelo psicanalista Jorge Forbes, que trabalha com portadores de distrofia muscular. Percebeu-se que, imagine, numa situação daquelas, na qual “espera-se” que os doentes sofram muito com seu destino funesto, surpreendentemente, as pessoas se apresentavam, muitas vezes, mais tomadas por sofrimentos banais e corriqueiros do que pela doença.

A descoberta é de que pode-se não sofrer aonde é esperado o sofrimento, por isso, as palavras chave para o tratamento são: “É preciso desautorizar o sofrimento padronizado”. Pois é, existe padrão até para sofrer!

Então, podem-se outras coisas inesperadas também: pode-se continuar a ser um homem viril e atraente depois dos oitenta, como é o caso o ator Sean Connery. Pode-se, sim, continuar a ser uma mulher desejável depois de “virar” vovó.

Claro… se quiser.

Muita coisa, mas muita coisa mesmo, será possível se o sujeito desejar. Desejar intensamente a ponto de sustentar a sua busca até o momento da colheita.

Se não, ficará nas desculpas e justificativas: é por causa da idade, da doença, do tempo curto, da falta de dinheiro…

Não! É porque, de fato, não se quer e não se assume que não se quer.

Tenho uma jovem analisante que, com a sabedoria de um monge, dia desses me disse: “Quem quer acha um jeito, quem não quer acha uma explicação”.

É isso aí.


Artigo originalmente publicado jornal O Popular em 4 de fevereiro de 2012.

Este post tem um comentário

  1. Carlos Nogueira Júnior

    Ora queremos, ora não queremos, e o mais bacana é quando descobrimos que podemos mudar sempre que quisermos.

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