Aguentar as pancadas dos filhos

É meio demais falar que os pais precisam aguentar as pancadas dos filhos para que eles cresçam. Assusta né? Parece até masoquismo! Bem, talvez fique mais digerível se ao invés de falar “aguentar” dissermos “redirecionar” a agressividade dos filhos. Porque ela virá de qualquer forma. Se ajudar os filhos a crescerem – biológica e emocionalmente – é uma das funções dos pais, dentre elas se coloca ajudá-los a aprender a aplicar e manejar a agressividade, parte tão essencial na administração da vida. Essa necessidade vai aflorar com mais força em dois momentos do crescimento humano: ao fim do 1º ano de vida e na adolescência. No primeiro momento o que se passa é o “teste de realidade” no qual a criança bate na mãe esperando uma reação que confirmará a existência da mesma. Seria o teste realidade versus alucinação. O que é requerido da mãe é que não seja destruída. É que permaneça após o ataque. A criança testou a sua potência, mas não destruiu o outro. Na adolescência o ataque vem por outro motivo: a não aceitação da realidade do mundo adulto que começa a ser percebido como cheio de imperfeições, falhas, inconsistências e injustiças. As faltas assustam aquela criança virando adulto. Antes ela acreditava que o mundo fosse coerente, que médico curava, professor ensinava. Agora ela começa a ver que quem existe para curar pode também matar, que aquele que está no mundo para ensinar pode até mesmo emburrecer. Como aceitar que o paraíso não existe? Que o mundo adulto perfeito, que ela quando criança esperava habitar, é cheio de furos que a deixam insegura e perdida? E os pais então. São os primeiros dos quais os filhos enxergam os defeitos e agridem. Aí o que os pais fazem com as agressões? Se vitimizam e reclamam o tempo todo do desrespeito do filho, ou se agarram em permanecer sustentando o discurso de que não erram, de que sabem o que é melhor para os filhos. Tentam esconder suas falhas achando que pais não podem mostrar fraqueza, mas, agindo desse modo, só conseguirão manter o mundo da fantasia infantil. Nem ser vítima, nem ser perfeito. Redirecionar a agressividade mostrando que, por imperfeito que seja, o ser humano é também bonito e capaz. Que as falhas são a nossa condição e não a exceção. Pais bem sucedidos podem ensinar, por exemplo, que a agressividade pode ser uma força usada para construir nos buracos das faltas e não como uma negação das imperfeições. E isso já será muito! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 8 de dezembro de 2011.

Fazer análise custa caro

É. Se tem uma questão que todos concordam é que fazer análise custa caro. Caro não, muuuuito caro. Todos menos, talvez, aqueles que foram imensamente beneficiados por terem passado pelo processo. Opiniões à parte, Lacan dizia que uma análise, por princípio, tem que custar muito ao analisante (aquele que faz análise). Tem que ser algo em que ele empenhe o seu desejo e se jogue com intensidade. Em outras palavras: se uma análise não for um “investimento” alto na vida de alguém, ela não produzirá os grandes efeitos que ela pode e se propõe a produzir. Porém, e aí entramos numa seara delicada, tem analista que cobra caro para fazer a mostração de um produto valioso. “Se cobro caro, logo sou bom”. O alto preço cria uma áurea de superioridade. Falando do analista da hipermodernidade, não daquela sombra caricata que, atrás do divã em silêncio eterno, acha que faz bem o seu papel, ser analista custa muito caro para o próprio. Empreender uma caminhada de vida com alguém é uma empreitada gigantesca. Tem o imenso peso da responsabilidade de lidar com a construção de vidas. Ao cobrar mais, ele pode se poupar (fisicamente inclusive), para estar mais disponível, mais jogado no processo. É a minha prática, não a de todos, concordemos. Análise não é uma roupa prêt-a-porter, que é produzida em série, para se cobrar menos por cada peça. É uma construção longa e única que depende de muita competência, sensibilidade, amor e arte. A parte de um analista no processo, como pode parecer ser, não é nem um pouco passiva. Se assim fosse não haveria mudanças. Falar com as paredes que permanecem mudas nos faria mudar sem nenhuma despesa. Já tive analisantes muito incomodados por não poderem pagar mais, por acharem que o trabalho que estavam fazendo merecia muito mais. Já aconteceu de eu reduzir drásticamento o preço das sessões de analisantes muito ricos que ao pagarem muito, achavam que eu faria a parte deles. Que estavam comprando esforço, empenho e envolvimento. Ficaram sem chão quando lhes mostrei que o seu dinheiro não comprava certas coisas. Fazer análise é descobrir que não é ter, é saber fazer com o que voce tem. Nas palavras de Lacan, é o “savoir faire avec”. É olhar um chuchu velho na geladeira e ver nele um suflê delicioso. Isso é saber fazer, não vai ter ninguém lhe soprando atrás da orelha o que fazer daquele chuchu tão sem valor. É o seu savoir faire que o transformará em souflê. O dinheiro que você gasta na análise é para ficar rico na vida. Rico de saber-fazer. — Artigo originalmente publicado em O Popular no dia 27 de outubro de 2011.

Problemas com a autoestima

– Relações difíceis. – Namoros curtos que nunca dão certo. – Casamentos longos que sobrevivem aos trancos e barrancos ou na indiferença. A lista vai por aí… Podemos pensar que relacionar-se com o outro é difícil mesmo. Pode ser, mas não é o nó da questão. Não é o principal, não é o que conta de fato. Então, qual seria mesmo a fonte da dificuldade? Sinto dizer, não é o outro. É a falta de autoestima. Ao nos relacionarmos, esperamos que o outro nos faça sentir amados, importantes, imprescindíveis, bonitos, inteligentes… e mais um monte de coisas boas. Mas, essas não são coisas para o outro nos mostrar, nos convencer que temos e somos. Precisamos chegar ao relacionamento trazendo-as conosco, senão ficamos mendigos de pires na mão, pedindo uma esmolinha pelo amor de Deus para a nossa autoestima. Pare com isso! Desenvolver um sentimento de apreço por si mesmo é coisa que só a gente pode fazer. Desculpe a comparação, mas é como fazer xixi, ninguém faz por nós. Isso não é tarefa de ninguém mais. Só nossa. Credo! Olha só que cena: eu não gosto de mim, não me acho grande coisa, mas vou mostrar minha melhor “fachada” para o outro me querer, já que eu mesmo não me acho grande coisa. É. Quem sabe o outro me convença a mudar de opinião sobre o meu próprio (des)valor, não é mesmo? Quem sabe o outro consiga fazer com eu goste mais de mim mesmo e quem sabe ele até consiga o milagre de fazer com que eu me respeite mais. Ilusão. Nem tente, não vai funcionar. Suas cobranças só gerarão brigas e desentendimentos porque o outro jamais vai dar o que você está buscando, porque simplesmente ele não pode entrar na sua cabeça e enchê-la de autoestima. Chegue preparado para viver e trocar com a outra pessoa. Não chegue de pires na mão pedindo autoestima. Não espere que o outro vá fazer um trabalho que só você mesmo está habilitado a fazer. Porque simplesmente não funciona! Na psicanálise chamamos de “ter o falo” o fato de alguém ter potência e valor. Sem essas duas coisas a admiração e o desejo simplesmente não rolam. Se você pede e espera que alguém lhe dê, já está implícito que não tem. Como já disse, o encantamento do outro por você não tem como acontecer. Não adiante pedir, emburrar, brigar. Se não tem, não é o outro quem vai lhe dar. Já parou para pensar que, na verdade, só você mesmo pode saber o quanto você vale a pena? Se não acredita nisso, é bem provável que tudo o que vai conseguir é se tornar um colecionador de frustrações e um destruidor de relações possíveis. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 13 de outubro de 2011.

A onipotência do nunca

Le Petit Prince (Antoine de Saint-Exupéry, 1943)

Luciene Godoy Um amigo querido disse-me recentemente que tinha aprendido uma grande lição à medida que percebia que ficava mais adulto: “Nunca diga nunca”. Ele acertou na mosca porque expressões totalizantes como tudo, nada e nunca são muito características da onipotência – forma de funcionamento psíquico infantil. Portanto sua sábia constatação leva em conta que o ser humano é mutante, inconstante, imprevisível e frágil – ou como dizemos na psicanálise, que o sujeito é pulsante, evanescente e inconsistente. Por isso mesmo dizer “nunca” é uma armadilha, pois, mais cedo ou mais tarde, o que foi dito, muito provavelmente, vai ser desrespeitado, não vai ser sustentado. Além disso, tem outros ótimos motivos para o “nunca” deixar de ser nunca. É que a gente aprende, cresce e por isso mesmo muda. Aí o “nunca” de ontem pode ser outra coisa hoje. Nunca é onipotência. Somos por demais humanos para dizer nunca. Falhamos demais, mudamos demais, somos frágeis demais para dizer nunca. Porém, na neurose, o sujeito diz nunca com uma inconseqüência glacial. Como uma criança que não sabe o que diz, nem mede o alcance do que fala. Aí, depois de um tempo, maior ou menor, está lá, fazendo o que “nunca mais” iria fazer e ainda quer que as pessoas ao redor o respeitem e o levem a sério. O pensamento onipotente é também chamado de “pensamento mágico”. Nele não há racionalidade propriamente dita, não há causa e efeito. Se algo errado aconteceu, não foi pela causa real, lógica, mas qualquer outra coisa “inventada” para livrar a criancinha da responsabilidade. Se o carro parou sem gasolina não foi porque a pessoa vive se esquecendo, mas foi porque o motor estava desregulado ou a gasolina adulterada. Pela enésima vez, desculpas e mais desculpas e o dito cujo continua não querendo ver que é com ele mesmo. Ver o que causamos, mesmo quando o resultado não é o esperado, ao contrário do que podemos pensar, aumenta a nossa potência e não os nossos defeitos. Se fiz algo e funcionou, ótimo, fico confiante. Se não, mas reconheço o meu movimento, que não deu certo, mas foi meu mesmo e de ninguém mais, isso também é reconhecer uma potência: a do fazer, mesmo quando não dá certo. Potência de errar, sim, porque só erra quem deu conta de tentar, verbo que indica esforço e luta, portanto potência. Meu amigo, que está de fato tão mais maduro, acertou em cheio: ser conseqüente com o que se diz é mesmo um sinal de maturidade e eu digo: se responsabilizar pelos próprios erros é um sinal de potência. — Artigo originalmente  publicado no jornal O Popular em 29 de setembro de 2011.

A melancolia e a mãe

Luciene Godoy Ou deveria eu dizer: o melancolia e a mãe? Sim, porque aqui refiro-me ao Melancolia, aquele planeta que destrói o nosso indefeso planeta Terra no filme de Lars Von Trier ( 2011). Era possível ver a violência do impacto estampada nos rostos atordoados dos que saiam do cinema. Parecia que todos havíamos explodido também. Ao descermos as escadas cada qual olha para o outro como que dizendo: “Que bom que ainda estamos aqui. Que bom que o nosso mundo não acabou.” Fiquei então pensando que algo tão destrutivo e visível como aquele planeta poderia estar, no filme, representando uma destrutividade tão grande quanto, só que no mundo subjetivo da personagem Justine (Kirsten Dunst). Se cada um de nós pode ser visto como um mundo único, o planeta Justine, no dia de seu casamento, foi explodido, claro que por um outro, há muitos anos em rota de colisão com o dela. Morte anunciada. O planeta destruidor é a própria mãe e o pai. Justine tem uma mãe que não foi mãe. Por isso ela sofre a fome de ter o que não teve jamais, e é destruída pela melancolia, uma tristeza infinita de não receber no presente – veja a cena dos discursos do casamento – nem na origem, o amor tão necessário para seguirmos sozinhos. Justine é só e sempre foi. As pernas pesadas, amarradas com fios de lã, não a levarão a uma vida interna feliz. Na festa de seu casamento, a destruída Justine, tira o seu lindo vestido de noiva e vai para a banheira com a mãe. Volta ao útero, tentando mais uma vez extrair paz daquela relação vazia. Depois vai procurar o pai. O pai, uma ausência pura, que não a reconhece, e que, mais uma vez, não espera por ela. De novo…vazio. A relação com a mãe é a mais vital e fundamental de nossas vidas. Na construção de nossa história com ela estão as pedras angulares do que viveremos para o resto de nossas vidas. No inicio da vida precisamos de olhar, aconchego e reconhecimento, mas depois, e não menos importante, precisamos nos libertar, cavar nosso próprio estilo, saber quem somos para além dos que nos construíram. Justine não tinha construção, tinha vazio. Tinha beleza, juventude, dinheiro, talento, um lindo homem apaixonado por ela. Quem ousaria pedir mais? A lista está completa. Tudo para uma mulher ser feliz! Tudo menos base, alicerce, mãe. E por isso, Justine, no dia do seu triunfo de mulher, rui. Rui como que abalroada por um planeta destruidor, só que este, o dela, não vem de outro lugar senão de dentro dela mesma. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 15 de setembro de 2011.

Entrevista: “O que nos salva do gozo é o prazer”

Luciene Godoy

A sociedade contemporânea vive a “era do gozo”, na qual predomina o excesso. O consumo desenfreado de bens materiais, a busca permanente pelo corpo perfeito, o abuso de drogas denunciam essa era do excesso, diz a psicanalista Luciene Godoy. “A era do gozo é o momento histórico onde todos estamos, o tempo todo, compelidos a ter prazer sem cessar. Se você não está bem, há um problema com você porque o mundo lhe convida a gozar”, diz. Psicanalista lacaniana, com especialização em psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Luciene Godoy atualmente estuda a Clínica da Psicanálise para o Século 21 com o psicanalista Jorge Forbes no Instituto da Psicanálise Lacaniana (IPLA), em São Paulo. Confira a seguir trechos de sua entrevista ao POPULAR. Reportagem do POPULAR de 4 de setembro mostrou que o crack já piorou a sociedade goiana: o tráfico e consumo da pedra repercutiram no aumento de homicídios em geral, e em particular de mulheres e jovens; no aumento de roubos de carros e motos e no abandono de crianças por pais que se envolvem no consumo. Por que essa droga se popularizou tanto? Estamos vivendo não mais na pós-modernidade, mas na hipermodernidade, que também pode ser chamada de a era do gozo, com características de uma hipercomunicação e um hiperconsumismo. Em seu livro A Felicidade Parodoxal , Gilles Lipovetsky, filósofo francês estudioso do tema afirma que: “A sociedade do hiperconsumismo funciona como uma sociedade de desorganização psicológica na qual, como nunca antes, se acelera a sucessão de altos e baixos da vida: movimentos de vaivém que autorizam o pessimismo tanto quanto certo otimismo.” É muito paradoxal, estamos, ao mesmo tempo vivendo as grandes promessas acalentadas desde o renascimento de um mundo melhor dominado pela ciência, a capacidade do homem de melhorar o mundo para nele viver, ao invés de sonhar com um mundo melhor no futuro. Estamos, em alguns aspectos, nesse mundo melhor do futuro, mas, o que pesquisadores como Lipovetsky denunciam é o excesso. Estamos em um mundo de excessos, desenfreado. Onde ancorar-nos? A sra. escreveu um artigo no POPULAR (1º/9) e afirmou que vivemos hoje na “era do gozo”. O que isso significa e como pode estar relacionado ao consumo de drogas? As grandes causas, os ideais não mais ocupam o desejo de transcendência das pessoas. Para a grande maioria das pessoas não há uma ideia pela qual lutar, mas objetos para se gozar, agora, sem demora. É do conhecimento de muitos que, no Natal, o índice de suicídios no mundo todo aumenta muito. É porque os “tristes e sós” se sentem ainda mais desafortunados diante da felicidade geral de todos celebrando na “harmonia fraterna de todos os lares felizes”. Aí se matam por se sentiram pior do que nunca porque não estão participando da festança geral, do amor, dos brindes, dos sorrisos, da união. Coitados, se soubessem o quão pouco desta lista de fato acontece, talvez vivessem melhor com o fato de não terem o que “todo mundo tem” e até conseguissem viver melhor consigo mesmos. A mim, me parece que é algo semelhante o que está acontecendo na nossa aldeia global, só que 365 dias por ano. Os “infelizes” que não estão gozando das ofertas, dos objetos, das possibilidades, das viagens, das descobertas, das diversões, são pobres diabos fora do parque de diversões mundial. A era do gozo é o momento histórico onde todos estamos, o tempo todo, compelidos a ter prazer sem cessar. Se você não está bem, há um problema com você porque o mundo lhe convida a gozar. E quem não pode? E quem não tem? Aí, muitas vezes, entra o uso das drogas, que também podemos qualificar de um hiperconsumo de drogas, como a endemia de crack, e não só, verificada na atualidade. E veja bem, numa sociedade de desorganização psicológica, as pessoas se encontram muito mais perdidas, justamente pelos caminhos não estarem tão bem marcados, de uma oferta descomunal de escolhas quando muitos não as têm. É uma sociedade em movimento acelerado, dá medo, não temos muito dos amparos psíquicos de antes. Deixamos de acreditar em muita coisa. Aí a droga vem como um anestésico para a dor de viver que é grande, paradoxalmente, numa sociedade do gozo. Precisamos erigir proteções contra o gozar sem limites. Como? Existe uma frase na psicanálise que é forte e intrigante e, penso, traz uma resposta possível. A frase é: “O que nos salva do gozo é o prazer.” Não estranhe, é porque para psicanálise gozo é a falta de corte, de interrupção, de limite. A criança é aquela que não quer ir para a cama quando a festa acaba. Acaba, mas ela quer continuar a brincar. Todos já se foram e ela não aceita que “the party is over”, acabou, acabou a brincadeira. Vem o sono. Vem o novo dia. Coisas para se fazer, sofrimentos também, são parte… O prazer seria não ser comandado pelo objeto. Vá até onde realmente quer ir. Compre somente o que quer comprar. Beba, não seja bebido. Isso é prazer, não gozo. Não é porque estamos num mundo onde, é verdade, muito mais nos é permitido, que “temos que” o tempo todo. Podemos, se pensarmos no corte, no oposto, no não é possível agora ter prazer, nos desviar do imperativo de gozo que provoca a violência externa como os roubos por objetos de consumo, a droga, as relações em série. Mas também nos leva a violências contra nós mesmos como a exigência da imagem perfeita, “botocada”, plastificada, que conduz ao vazio da falta de valores não materiais e à depressão. Num mundo com excesso de ofertas, para nos proteger, é preciso dizer não. — Entrevista originalmente publicada no jornal O Popular em 11 de setembro de 2011.

A Psicanálise do Século XXI

Luciene Godoy Alguém pode dizer: “Ora pois, então a psicanálise mudou? Pensei que fosse só uma”. É, as coisas não ficam sempre no mesmo lugar. O mundo caminha. O sujeito freudiano vivia num momento histórico que chamamos de “A era da proibição”. Hoje o mundo vive num que é chamado de “A era do gozo”. Um é o oposto do outro e, por isso mesmo, Lacan, ao ir percebendo o que já se anunciava, escreveu em 1969-70 o seu seminário “O Avesso da Psicanálise” preparando a psicanálise para um mundo que estava se tornando o oposto do mundo freudiano. Depois de sua “volta a Freud”, ele ruma para onde o mundo está rumando. Para dar conta de novas respostas a novas questões de um mundo se revirando. Um mundo onde há um comando para que todos gozem de tudo (sexo, objetos, informações…) ininterruptamente. Você pode tudo: agarre, consuma, experimente! As pessoas são empurradas a “necessitar” do que há para ser comprado, adquirido, vivido. Do “você não pode nada”, agora é “você tem que ter tudo”. E se não entrar na onda, sente-se mal, excluído do parque de diversões onde todos brincam sem parar. Não estamos tão tocados pelos valores antes sustentados, que se mostraram vazios. Há um investimento no presente, no uso pragmático de qualquer objeto. Não se vive pensando em gozar depois. Até mesmo as religiões não propõem mais “sofra agora e goze depois”, mas “seja feliz aqui também porque Deus assim quer”. O que atrai o ser humano hoje é a possibilidade de viver bem aqui e agora. Ótimo! Mas isso não será alcançado de maneira infantil, ingênua, na obediência cega aos meios de comunicação. É preciso relativizar os excessos propostos, e, às vezes impostos. É preciso se dar ao trabalho de saber de você. Do que realmente gosta e quer. Não há receita igual de felicidade para todos, prêt-a-porter, como se as “famílias Dorianas” fossem possíveis para todos, basta comprar margarina. Mas também é prazerosa a construção desse saber de si, porque sem isso não há como escolher o que lhe trará benefícios nessa oferta descomunal de objetos, modos de pensar e viver. Então como é que a psicanálise do séc XXI se propõe a lidar com o que se apresenta? Não mais só explicando (Freud explica!), mas implicando. Implicando o sujeito nas suas escolhas, dizendo que é com ele mesmo já que os ideais, “se seguir o que o meu pai disse vou me dar bem”, não nos sustentam mais. Estamos num mundo onde tudo é volátil, nada nos garante, a não ser saber de nós mesmos, do nosso desejo, o suficiente para enfrentar os riscos das escolhas e das construções. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 1º de setembro de 2011.

O céu e o inferno estão aqui mesmo

Na minha infância, ouvi essa frase muitas, muitas vezes mesmo. O suficiente para não esquecê-la jamais. Ela era frequentemente seguida da “aqui se faz aqui se paga”. Ou outra do gênero: “colhemos o que plantamos”. Achava, então, que o sofrimento era o resultado de nossos atos: “plantando vento e colhendo tempestade”, e por aí vai. Passei uma vida pensando dessa forma. E veja bem, não discordo nem um pouco dessas máximas, mas depois, a psicanálise me permitiu vislumbrar mais uma do mesmo gênero, mas que vai mais fundo, acho eu. No lugar de o céu e o inferno estão aqui mesmo, ao nosso redor, resultado do que plantamos , coloquei: o céu e o inferno estão dentro de nossa cabeça e são aquilo que pensamos de nós mesmos. Agora costumo dizer que estamos no céu quando aprovamos o que fazemos ou que entramos no inferno no exato momento em que nos desaprovamos. Simples assim? É. Faça o teste. Tente se elogiar nas pequenas coisas que sejam que você conseguiu fazer, aquela roupa que ficou bem, o churrasco delicioso para os amigos, o presente acertado para o namorado… E se você evoluir, em pouco tempo vai estar dizendo que você se adora pelo banho gostoso que tomou e colocou aquele perfume que te deixa nas nuvens. Qualquer “bobagem” pode se tornar um alimento para a sua alma, sua estima própria. Eu digo: não desperdice nada, use tudo ao seu redor, recicle. Dia desses me peguei lembrando de um almoço maravilhoso que fiz aos dezesseis anos de idade para uma vizinha em desespero ao receber visitas inesperadas e me deliciei com minha jovem competência de cozinheira. Isso quase quarenta anos depois. Olha eu colhendo frutos de meu apreço por algo que consegui fazer no passado e que me rende orgulho até hoje! Somos capazes de tanta coisa. No nosso dia a dia corrido fazemos tanto e achamos que estamos sempre errando, sempre em falta. Sacos sem fundo, achando que nada é suficiente para a gente aprovar a gente mesmo. Faço aqui uma convocação! Tente daqui para frente dirigir o seu olhar para o que gosta em você mesmo, seja benevolente, aprovador. Isso vai fazer com que viva bem com quem você é. Tem riqueza maior do que esta? Podemos, mais do que se pensa, determinar o nosso estado de espírito, se conseguirmos dar mais valor as pequenas coisas que acertamos e conseguimos no dia a dia. De novo, eu digo, faça o teste. E venha viver mais tempo no céu do que no inferno. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 18 de agosto de 2011.

A uva e o ser humano

Luciene Godoy Seria muito absurdo afirmar que somos como a uva, o resultado de todas as condições nas quais nascemos e fomos criados? Com a uva, se choveu, se fez sol, o quanto e quando – produz-se um resultado. O mesmo se dá com o ser humano, ele é o produto de ocorrências externas, contextualizadas, relacionais. O sujeito é produzido pelo outro: se alguém nasceu ou morreu em tal momento de sua vida, se ganhou ou perdeu, se teve abundancia ou falta e em que momento específico, vai gerar um sujeito com tais ou tais características – como é com a uva. O que produz uma uva de qualidade, cheia de sabores e texturas, são as adversidades, as diferenças, as oscilações e pulsações pelas quais passou – como no ser humano. Uma uva cheia de nuances produz um vinho rico, também ele cheio de nuances. Uma vida cheia de acontecimentos contrastantes produz um sujeito idem. No entanto, podemos pensar, como equivocadamente se faz, que o sofrimento é o que enriquece o ser humano. Não é exatamente isso. O que digo é que o aprendizado, a absorção, a integração do que foi visto, percebido e vivido é que enriquece. Na neurose não se vê, portanto, não se sai do lugar. Não se vive muitas experiências. Não se tem diversidade, só repetição e pobreza. Ou seja, os fatores externos só nos enriquecem se forem percebidos, e se tornado uma significação a mais para nós. Não, não é o sofrimento, é o olhar quando vê e acrescenta. Mas, e afinal, a uva e o ser humano são mesmo iguais? Não tem diferença? Tem, e bem poética. A uva transformada em vinho, não pode beber a si mesma, o ser humano, ao contrário pode, e, na verdade, não faz outra coisa na vida a não ser beber a si mesmo. Beber-se… Viver sentindo o tempo todo o que se é. Vivemos inebriados pelo vinho delicioso que somos ou insuportavelmente desgostosos com o vinho amargo, azedo, sem gosto que bebemos sem cessar. Freud nos diz que a vida (libido) é um vinho que nos é dado a beber todos os dias, se não vivermos o momento, se não sorvermos naquele dia, naquela hora, ele avinagra,e, mesmo assim, tem que ser consumida, adoecendo o pobre sujeito. Pois digo que o vinho do qual Freud fala não é simplesmente a vida, mas nós mesmos, os dias que passamos com nós mesmos, nos sabendo ser como somos, nos sentindo, nos amando, nos odiando. No dizer de Lacan: “Coma o seu dasein” – coma o seu ser. Ou, como digo, beba-se, se encante, se enoje, se ame, se felicite, se cobre, enfim, viva bem ou viva mal com o que você bebe de você mesmo. Não há outra possibilidade além dessa. Beba, o tempo todo, desse vinho que você é. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 7 de julho de 2011.

Já ouviu falar em superego?

Luciene Godoy Ou supereu, como nas novas traduções de Freud. Diz-se de uma instância que nos vigia, exige, corrige, cobra. Cobra o quê? A perfeição é claro! Freud em seu ensaio “O Mal Estar na Cultura” aponta-o como uma das razões da infelicidade humana, talvez a mais forte. Será por isso que, não importa o que façamos, parece que estamos sempre aquém, devendo sempre ao invés de nos sentir “quite” (palavrinha não muito usada hoje que quer dizer livre de dívida, que saldou suas contas)? É mais ou menos isso. Bem, o supereu é definido como as regras da cultura que internalizamos e aí temos o vigia cultural dentro de nós comandando os nossos atos e, pior, determinando o que pensamos de nós mesmos. O supereu só aponta falhas. Não é, absolutamente, do seu campo os elogios e as aprovações, pois está sempre a procura de mais falhas para serem “sanadas”. Não nos dá sossego nem quando acertamos porque, de imediato, passa a apontar outros deslizes que já tivemos ou nos encurrala com medo dos erros que ainda cometeremos. Ficamos apavorados, cercados de medos de falhas do passado, presente e futuro. Também monitora as nossas intenções e nos culpa apenas por haver pensado, como se feito tivéssemos. É o inferno! Não nos dá e nem nos deixa ter paz nunca. No entanto sem ele não haveria a civilização e o ser humano não poderia viver junto. Seria um comendo o outro. O que já acontece apesar dele, já que a perversão é o outro lado da moeda. É o “tudo é proibido” do supereu versus o “eu posso tudo” da posição perversa. É escolher entre ser vítima ou espertinho. O que poderá nos salvar se não quisermos ser nenhum dos dois? A ética. Tomada aqui não só como a capacidade de escolha entre o bom e o ruim, o certo e errado, mas também a capacidade de agir segundo o contexto que se vive e não em ser governado por regras generalizadas, portanto, cegas, não aplicáveis à singularidade absoluta de cada pessoa, a cada momento. Poder fazer escolhas não padronizadas fora do “tem que” da cultura. Transgredir quando for o caso. Transgredir é, por exemplo, nos darmos por satisfeitos (coisa que o supereu nunca, jamais permite), por termos feito, simplesmente por termos feito o que demos conta, nem sempre o nosso melhor, mas o que foi possível. Se não buscarmos a perfeição, daremos um duro golpe nele e recuperaremos território para sermos satisfeitos conosco e com a vida, por imperfeita que seja, que lutamos para conseguir levar. — Artigo originalmente publicado em 2 de junho de 2011 no jornal O Popular.