Luciene Godoy //
O dicionário afirma que narcisista é aquele que nutre amor excessivo a si mesmo e a sua imagem.
E se eu dissesse que ser narcisista é, muito pelo contrário, não se enxergar. É ser um cego vagando pelo mundo à procura de um espelho para se ver?
Amar-se, então? Nem de longe. Como amar o que não se reconhece?
Eu diria que não se enxergar nem se amar está mais para angustiante do que para desagradável, que é o que as pessoas costumam achar de um narcisista.
O espelho tem a paradoxal propriedade de refletir a nós mesmos, porém, ao contrário. Enquanto a carinha que vemos lá é a nossa mesmo, os lados se apresentam trocados, direita vira esquerda e vice-versa.
E daí? O que tem o narcisismo a ver com isso?
Aí estão as bases de uma compreensão psicanalítica do narcisismo: como o narcisista não se vê sem espelho, ele usa as outras pessoas como reflexos de sua imagem, exigindo que a figura corresponda a uma semelhança consigo. Só aceitando o igual e tentando destruir tudo o que é diferente do si mesmo no outro.
Por outro lado, o narcisista também usa o outro como imagem oposta de si mesmo. Por exemplo nas maledicências: “Você viu como ele é deselegante?” O que quer dizer: “Olha só como EU sou elegante!” E etc. etc.
Nesse uso que faz do outro, o narcisista coloca-o em definições que lhe servem para se colocar no mundo como sendo exatamente o oposto daquilo que criticou.
Predação seria um termo para definir relações nesse nível. Para o narcisista o outro não existe. O mundo é só ele com seus espelhos. Não se pode respeitar o que não se sabe que existe.
Bem, então vamos banir do mundo esses tipos destrutivos. Quem são eles? Onde estão?
Sinto dizer, mas “eles” são todos nós.
Todos nós temos a nossa porção narcisista. O nosso primeiro “eu” é o outro. Processo que se dá a partir do sexto mês de vida, no fenômeno que Lacan chamou de “Estádio do Espelho”, no qual vemos o outro como sendo o eu.
Esse funcionamento só é ultrapassado descobrindo seu lugar no mundo.
Não é perguntando ao espelho como a bruxa da Branca de Neve, mas tentando cavar respostas para perguntas, muitas vezes angustiantes: Quem sou? O que de fato quero da vida? Como é que eu me vejo?
Aí o outro será um companheiro de vida e descobertas e não o duro espelho para que eu tente em vão ver que cara tenho.
A percepção de si mesmo é algo que não pode vir só dos infinitos reflexos que o mundo retorna, porque isso só vai nos deixar ainda mais perdidos e longe de nós mesmos.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 1º de julho de 2012.