Adele Bloch-Bauer I (Gustav Klimt, 1907)

Adele Bloch-Bauer I (Gustav Klimt, 1907)
Adele Bloch-Bauer I (Gustav Klimt, 1907)

Um amigo que tem “visão de raio X” um dia me saiu com a seguinte frase: “O que eu acho mais admirável é que você não usa suas prerrogativas de mulher.” Frase impactante, meio enigmática que me fez querer saber o que exatamente significava.
Veio a explicação: “É que como mulher, certas coisas te são permitidas, são vistas como naturais e próprias de uma mulher. Por exemplo, se colocar como fraca e vítima, cobrar muito do homem, pois a mulher já é tão desvalorizada e explorada e os homens tão cheios de privilégios e poder que eles são obrigados a dar mais, ser mais, fazer mais.”
Há uns 30 anos, uma jovem amiga me disse, com ares de sabichona, que eu era muito boba por querer dividir a conta com a outra pessoa (um homem, naturalmente, porque com mulher a gente divide!).
Ensinava-me o truque de olhar para o outro lado, quando o garçon viesse com a conta, fingindo não ter visto, ou ir ao banheiro porque “o homem paga até por vergonha!”. E aí, continuava ela, com o dinheiro, você pode comprar um batom ou quem sabe até uma saia.
Eu, na minha incipiente onda de dignidade juvenil, afirmava: “Se eu fizer isso, aonde é que eu vou adquirir esse orgulho que eu tenho de mim? Esse brio que tenho na cara? Com esse dinheiro daria para comprar esses dois ítens?”
É um desafio deixar de usar as prerrogativas de ser infantil, de encher indefinidamente o saco dos outros com nossas cobranças infernais e infinitas.
Não usar as prerrogativas de mulher, nesse contexto, significa não usar e abusar do fato de poder demonstrar fragilidade e transformar isso numa demanda perpétua.
Na mesma ordem está não usar as prerrogativas de ser velho, pobre, sem instrução ou qualquer outra.
Quer dizer: não usar o fato de estar numa posição de desvantagem, de diminuição para tiranizar, como aqueles velhinhos que são um poço de reclamações aos filhos que tentam deles cuidar.
Qualquer que seja a nossa condição desfavorável, se valer dela para o exercício de um poder disfarçado para cobrar, irritar, ou fazer o outro pagar o pato, leva o nome de falta de ética.
Um a ética cujo resultado é o orgulho que se tem por si mesmo. É ter o rosto iluminado pela dignidade de não ser um predador disfarçado, escondido atrás da máscara de necessitado.
Tem coisa melhor do que gostar de si mesmo e dos seus próprios atos?
Se tiver me avise.
Ah! Em tempo: os “sacos sem fundo” que se cuidem porque o mundo terá cada vez menos tolerância para com eles.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 4 de março de 2012.