Casaram-se e foram felizes para sempre

Latin Celebration (Romero Britto)

Luciene Godoy Frase que finaliza os contos de fada. Interessante… com a mesma frase iniciam-se os casamentos. Se os casamentos iniciam-se no momento que se diz “e foram felizes para sempre”, está dito que após nos casarmos … só felicidade. As novelas também, já notaram? Terminam com todo mundo casando. Depois não tem mais nada, igualzinho aos contos de fada. Por que será? Se todos sabemos que não se é feliz para sempre depois de casado, talvez muito pelo contrário. Parece que se cria uma crença de algo que foi ganho, alcançado a partir daquele ato. Casou levou! E olha que não é pouca coisa! É “só” a felicidade que se leva de presente e, acreditem, para a vida toda, para sempre, sempre… Não estou fazendo piada! Do jeito que falo parece tão ingênuo. Vão dizer que ninguém se casa sonhando tanto e que as pessoas se casam com o “pé no chão”. Sabendo que não vai ser fácil. Discordo totalmente. Primeiro, se as pessoas não fossem ainda tão pegas pela ilusão, as novelas não continuariam a desenvolver o tema oferecendo a mesma versão. Se o fazem é porque todo mundo quer mais é ver a historinha se repetir para poder sonhar e desejar o mesmo. Já viu as produções luxuosas dos casamentos – e no plural mesmo porque muitas novelas terminam não só com um, mas vários casamentos ao mesmo tempo? Felicidade para todos para sempre! Segundo, essas mesmas novelas não nos oferecem exemplos do depois do casamento. Continuam o oferecer o ideal do casamento “sem depois”. Bem, então falemos nós do depois. Para mim o depois é o começo da construção. Da construção de, não se irritem pelo trocadilho, um casamento feliz. Por que não? Gosto mesmo de chamar o casamento do começo de um outro namoro. Um namoro mais difícil de existir dentro do casamento do que foi o de fora, mas igualmente possível. Um namoro com outros desafios como o da proximidade excessiva, dos desafios da vida cotidiana sem as tréguas do namoro de antes, quando cada um se afastava para sua própria vida e as coisas “esfriavam”, a saudade voltava e era bom ter o outro de novo. Mas, vão me dizer que esse processo não é possível no casamento. E eu novamente discordo. Digo que o que vai mudar no casamento é a necessidade de separação, já que a presença é muito grande. Separarmo-nos na nossa maneira de ser única. Senão o outro começa a pesar demais, exigir, corrigir, criticar, desaprovar. O namoro pode continuar se conseguirmos ser juntos o que seríamos estando sozinhos, nas realizações, no modo de comportar e ser. Sem mutilações para se conseguir estar juntos. Desta forma continuaríamos a ter a riqueza de ter a nós mesmos e mais a de uma presença querida em nossas vidas. É difícil mas não tanto que se tenha que evitar falar sobre o “depois do casamento”, transformando o seu começo em término. Podemos fazer do “e foram felizes para sempre” um “e continuam a se namorar e respeitar dando conta de manter as distancias e o seu amor por si mesmo”. Fazendo do casamento uma combinação feliz. — Artigo originalmente publicado em 23 de maio de 2011 no jornal O Popular (encarte “Noivas”).

Eu tive mãe

Luciene Godoy Claro que sim! Todo mundo teve. Claro que não! Todos tiveram uma genitora, aquela que produz a carne, o corpo biológico. Ter mãe é outra coisa. Genitora tem tarefa, mãe tem desejo. Deus me livre! Essa é a coisa mais esquisita que já ouvi falar. Não falo da mãe de propaganda do “dia das mães”, as angelicais, pura doação, que passa por tudo e continua com um sorriso nos lábios. Bonito demais, mas isso existe mesmo ou queremos que exista em nossa fantasia e nos sentimos uns desgraçados porque nossa mãe não é nem tão feliz, nem tão… perfeita? A mãe de verdade, a que existe em nossas vidas não é perfeita, mas é mãe. É mãe porque com suas falhas nos deixa e nos faz crescer. Ninguém nunca nos disse – só a psicanálise – que é nas falhas da mãe que crescemos. Digo sempre que as mães “boazinhas” são as piores. Piores porque são covardes, deixam-nos acreditar que existe perfeição por viver tentando sê-lo. Não somos nem jamais o seremos, incluindo aí as mães. Favor não confundir mãe com Deus! A mãe da realidade é a que tenta, se esforça, erra, aprende, e é sendo assim que está dando ao filho a bússola para o seu próprio caminho que também será de esforço, erros e aprendizagem. Eu tive mãe porque me alimentou. Às vezes com carinho, às vezes com impaciência, às vezes com raiva até… mas, me alimentou. Eu tive mãe porque aprendi a ler e escrever sob sua tutela e supervisão. Perfeitas? Não. Longe disso, mas aprendi e prossegui. Eu tive mãe porque não me deixou, na adolescência, fazer tudo o que queria. Aprendi a saber dos meus limites. Recebi muitos nãos. E isso me fez forte. Recebi, acima de tudo, a lição de que ninguém cuidaria de mim para sempre (coisa que tanta mãe promete). E esse foi o maior presente que a vida me deu, e o deu através de minha mãe. Ter tido mãe é ter tido alguém que, ao longo de nossa infância e adolescência nos amparou e desamparou o suficiente para que, nessa pulsação, desenvolvêssemos a força e direção para construirmos uma vida autônoma e prazerosa. Ser cuidado e protegido em demasia faz de nós fracos! Receber promessas subliminares de que teremos a mãe “anjo da guarda” para sempre também. A mãe “suficientemente boa”, para citarmos Winnicott – grande psicanalista infantil, é aquela que dá conta de deixar o filho sofrer e, portanto… crescer. Só assim teremos, de fato, recebido o dom da vida de nossa mãe, não só aquele que nos deu na maternidade, mas que nos concedeu quando nos ensinou e nos deixou crescer e usufruir da vida como um adulto e não como uma criança perdida esperando apoio e cuidado de algum lugar. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 12 de maio de 2011. 

Será que os filhos crescem?

Luciene Godoy É um costume de nossa cultura as pessoas que não moram na sua cidade de origem virem em férias passar alguns dias na casa dos pais. Dia desses estive na casa de uma amiga que recebia seu filho de férias. Ela toda inchada me apresentava o filho bem sucedido, orgulho da mamãe. Eu olhava para o rosto do filho, com um sorriso sem graça dependurado nos lábios, mas os olhos tristes, muito tristes. Lá dentro daqueles olhos eu via alguém tão distante, tão ausente dali. Tão irreconhecido! Êpa! Essa palavra existe: “irreconhecido”? Não sei, mas é isso que quero dizer. Acontece mais do que nos agradaria admitir que as nossas famílias não reconhecem quem somos. Quem somos mesmo! O grupo nos dá um lugar desde o princípio: o filho comportado, o danado, o bonzinho e, o que é ruim, continua nos vendo como tal mesmo quando através de anos de vida, esforço e aprendizado nos tornamos um outro, diferente do olhar inicial que teima em nos ver do mesmo jeito. Foi o que vi no olhar daquele rapaz, a mãe com olhos brilhantes falando do filho que ela tinha na cabeça e ele completamente só. Ela não enxergava aquele que estava ali em sua frente. Ela sequer via que ele não estava ali. Disso podemos tirar uma lição: além do esforço para crescer e mudar as coisas que não nos agradam em nós mesmos, é preciso também, para tomarmos posse do processo, sustentar a nossa transformação diante do outro. Apresentar a nossa própria construção. Achar meios de fazê-los ver o novo ser no qual nos tornamos. Afinal, se nenhum dia é igual ao outro, se o tempo passa para tudo, passa principalmente para o homem com sua ilimitada capacidade de aprender e mudar. Acho poucas coisas mais desumanas do que aquela conhecidíssima frase de nossa cultura usualmente dita (ainda) pelos pais: “Prá gente, os filhos não crescem nunca, continuam sendo ‘os meninos’ pra sempre.” Que horror! Anões emocionais. Tenho certeza que os que dizem isso jamais pararam para refletir, realmente, sobre o que dizem. Ver seus filhos “pra sempre” como meninos é negar-lhes o reconhecimento do crescimento que conseguiram a duras penas. Não creio ser o objetivo de todos nós mantermos os nossos filhos como eternos anões emocionais, criançonas dependentes de papai e mamãe. Repensemos, pois, essa expressão tão presente em nosso cotidiano e que de forma alguma reflete nossas verdadeiras intenções. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 28 de abril de 2011.

Está tudo de cabeça para baixo!

Luciene Godoy Impressão que muitas vezes temos e com um suspiro de desespero pronunciamos a dita frase que muito bem espelha a nossa incompreensão do mundo. Porém esse fato é tido como normalíssimo e parte de todos nós por Jacques Lacan, o grande psicanalista francês, tendo sido comprovado pela sua teoria do espelho. O eu é paranóico por estrutura. Há uma mistura entre dentro/fora, eu/outro, o mesmo e seu oposto. Desse jeito o mundo só pode estar  “de cabeça para baixo ” porque funcionamos com a lógica da câmara fotográfica. Os nossos olhos captam as imagens de cabeça para baixo. Muito engraçado isso, se não gerasse tanta confusão em nossas vidas. Desde o advento da bipedia (o homem parou de andar de quatro), o faro – instintual – cede lugar ao olhar – relacional – como principal meio de contato com o mundo e estão aí as conseqüências. Confundimos coisas do tipo: não é o outro que não me dá. Sou eu que não consigo pegar. Não é que algo não exista, eu é que não consigo vê-lo – passa diante dos meus olhos , mas o que não é esperado não é visto. Temos um olhar seletivo. Só vejo o que já esperava ver. Quando você se “surpreende” vendo algo novo, procure direito e vai ver que a expectativa já criara forma dentro de você que, depois, foi capaz de identificar de fora. No mundo tem de tudo, infinitas coisas. Nós é que só vemos o que selecionamos. Por exemplo: entre dois tipos de acontecimentos, um bom outro ruim, tem quem só se liga ao ruim a cada vez que ele aparece, aí toda a sua vida vai mesmo ficando povoada de coisas ruins, selecionadas por ela mesma. Não é que tudo só aconteça da mesma forma. Eu é que tenho a tendência de fazer e perceber tudo do mesmo jeito. O circuito pulsional é um percurso na relação com o mundo que se repete sempre da mesma forma: se sou vítima, vou, a cada situação, me significando como tal até ser mesmo. Tornando-me prisioneiro de uma mesma maneira de me ver. Se acho que sou infalível e não vejo jamais os meus erros, apesar de cometê-los aos montes, continuarei para sempre com a certeza da infalibilidade, enquanto todos ao meu redor permanecem gritando a evidência. O mundo me mostra diferentes coisas, eu é que só vejo o que já estou viciado a ver. Tendo aprendido mais esse detalhe sobre o funcionamento do ser humano, quem sabe possamos nos ocupar em tentar ver mais “variado”, em vários ângulos, de várias posições. Sair do nosso modo viciado de ver a vida e a nós mesmos. Talvez assim as relações não sejam tão impossíveis. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 14 de abril de 2011.

Somos todos bisexuais?

  Luciene Godoy É verdade que Freud diz que somos todos bisexuais? É verdade. Ele diz que de origem, sim. Só depois fazemos nossa escolha de objeto (feminino ou masculino) e nos posicionamos também diante desta escolha como homem ou mulher. Estranho não é? Nascemos com a possibilidade dos dois sexos –  não biológica, é claro, mas simbólica. É, mas estranho mesmo, e muito mais complicado, é o que diz Lacan: somos não bi, mas multisexuais. O que quer dizer que qualquer objeto para o ser humano pode estar no lugar do gozo sexual. Uma pessoa enlouquecida para ganhar dinheiro pode, e muito frequentemente o faz, nem se interessar por sexo propriamente genital, porque na verdade, já está “transando” com o dinheiro. Transamos com o comer, o beber, o consumir, o saber, o ter, o poder… a lista é infinita. Não se iluda, podemos gostar mais de homem ou de mulher, mas a nossa sexualidade (a capacidade de sentir prazer) vai muito além de ter dois tipos de objeto. A sexualidade humana não é bi, ela é múltipla, pois pode ter infinitos objetos, porquanto infinitas são também as variações possíveis do nosso desejo. Resumo da ópera: não somos todos bisexuais, somos todos multisexuais. Voce vê como diante disso, ter preconceito sexual não faz mais o menor sentido! Além do mais, para Lacan, para chegarmos a ser adultos, temos que realizar a tarefa de significar o que é sexo para cada um de nós. Com nuances e variações infinitas na maneira de gozar sexualmente (aí sim, o gozo genital). Tem aquele cara que se sente atraído por mulheres viris, ou, ao contrário, pelas muito delicadas. Tem aquele que gosta das que se mostram delicadas, mas no fundo são viris. E os que gostam de travestis, mulheres com corpos femininos, mas o membro sexual masculino para entrar na dança também, coisa que uma mulher, simplesmente mulher, não vai poder lhe oferecer, caso seja esse o seu barato. Tem mulheres com o maior tesão em homens com as mãos grandes, as que adoram peito cabeludo, outras que odeiam etc… etc… Falando apenas de gostos mais gerais, mas, e quando os traços que suscitam o nosso desejo chegam a detalhes mais pormenorizados? O encontro pode ser mesmo muito difícil! Quer dizer, no sexo, nas formas que cada um tem para gozar, as variações são infinitas. Enfim, diante disso tudo, falar que alguém é hetero ou homo (sexual) é muito pouco para definir a sexualidade humana, não é mesmo? — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, em 31 de março de 2011.

Só precisamos de amor

  Luciene Godoy All we need is love. (The Beatles) “Tudo que necessitamos é de amor.” Eles dizem, eu assino em baixo! Repito o que já disse antes: o amor para a psicanálise é um laço. É a relação que construímos com algo ou com alguém. É a história que desenvolvemos ao longo de uma caminhada com suas dificuldades e seus ganhos. A sociedade de consumo nos desvia desse caminho nos incitando a comprar e comprar; consumir e consumir; pular do recém-adquirido para o próximo. Assim não criamos laços, não usufruímos do melhor que qualquer objeto tem a nos oferecer: o tempo que passamos, que gastamos com ele. O tempo é uma preciosidade… Porém, se compro um objeto qualquer já pensando no próximo, não passo nenhum tempo com ele, sabe, assim como acontece com aqueles livros que demoramos lendo, a cada dia saindo de nossa vida cotidiana e entrando na história do livro. Com o tempo e por causa dele, aprendemos a conhecer e ter sentimentos por cada personagem. Se não houver tempo junto, então eu não vivi com aquele objeto e ele passou por mim, mas não me pertenceu! O que estou chamando de tempo junto não é carregar sempre o objeto no bolso ou estar sempre com ele por perto. É, isto sim, permanecer com seu desejo pousado sobre ele, contornando-o, degustando-o, como um sorvete que lambemos até o último pingo. É o usufruto, o descobrir todas as possibilidades, todas as “novas posições” para curti-lo antes de, na sua mente, já jogá-lo no lixo, pensando incessantemente no outro sem nem mesmo ter descoberto o que teve. Triste destino… muito desperdício… pouco prazer… Ao invés de ter tudo, como muitos comerciais nos convencem ser o desejável, adquirimos muito, mas não usufruímos. Na fúria consumista para tudo ter, acabamos nada tendo a não ser o vazio das tentativas vãs. Vivemos no vazio, sem uma vida significativa porque sem amor, sempre olhando o que não temos e querendo mais, sem saber o que fazer do que já possuímos, sem dar conta de usufruir. O que torna um objeto valioso é o envolvimento, o tempo que se passa com ele. É o que cria a intensidade! O amor é o maior e mais lindo acontecimento da vida! O mais importante também! Só posso concordar com a música dos Beatles, que também poderia ser traduzida assim: “Só precisamos de amor”. Amar o que temos já é um bom começo. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 17 de março de 2011.

Uma sociedade de mulheres!

Luciene Godoy Uma Sociedade de Mulheres!! Aviso aos navegantes: nós já nos encontramos em plena sociedade de mulheres! Esta é a surpreendente conclusão a que chegou o sociólogo francês Alain Touraine em seu livro “Um Novo Paradigma para Compreender o Mundo de Hoje”. Mas, espera aí antes de chegarmos a conclusões apressadas! Ele não está, com certeza, falando da guerra dos sexos e apresentando o novo vencedor da disputa. Longe disso, e essa é a boa notícia. Temos, pela primeira vez na história do Brasil, uma mulher presidente e mais outras e outras em posições de importância. Não nos esqueçamos, no entanto, que vivemos ainda numa sociedade patriarcal, falocêntrica e androcêntrica. Então vamos virar uma sociedade matriarcal? Não é bem isso. A lógica funciona da seguinte maneira: numa sociedade patriarcal o gênero de menor valor é o feminino. Não é preconceito não, é assim mesmo por definição. O que Touraine antevê é que, em nosso momento histórico estão sendo criadas as condições para que os desvalorizados (mulheres, gays, grupos minoritários, etnias etc) sejam os poderosos do futuro. Os que, de saída, não tiveram privilégios, são os que possuem maior motivação de luta para mudar o seu destino. Será uma sociedade de guerreiros e não de herdeiros! Guerreiros, que por saírem de uma condição de desvantagem, têm agora, num mundo onde o poder está se individualizando, onde a capacidade de cada um vai contar cada vez mais, as condições para fazer valer o respeito e o reconhecimento ao seu valor. É como se deu no mundo feudal da idade média em que os burgueses –comerciantes e artesãos – que pelo seu trabalho iam ganhando mais e mais importância até ultrapassarem a nobreza em seu privilégio que nada construía. O homem, o princípio masculino, vem vigorando pelos últimos séculos e por isso eles foram se acostumando com o privilégio, abandonando o espírito de luta e crescimento, pois a luta estava ganha, o mundo era seu para ser usufruído e todas as riquezas, incluído as mulheres, esposas ou amantes, eram suas. De objeto de amor e desejo dos homens as mulheres passam agora a donas de seu destino, aquelas que, como qualquer ser humano, querem ser respeitadas e valorizadas. Respeitadas i-n-d-i-v-i-d-u-a-l-m-e-n-t-e, não como parte de um homem. Os que acham que já têm, se acomodarão e os que querem mais serão os senhores do novo mundo, sejam homens ou mulheres (já que falo aqui muito mais de uma posição de que do sexo biológico). Não. Não será uma sociedade de mulheres, mas uma sociedade de guerreiros!!! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular no dia 27 de janeiro de 2011.

Passar de ano ou mudar de ano?

Luciene Godoy Daqui a poucas horas vamos passar de um ano para o outro. Será que ao passarmos mudaremos mesmo de ano ou repetiremos o anterior? Acho que aprendemos com a natureza que a vida anda em pulsações: manhã/tarde, dia/noite, primavera/verão, etc. Pois, nossa vida simbólica também, valendo-se, porém, de marcadores de mudanças de tempos, de períodos, como é o caso da passagem de ano. No ano que passou fiz isso, nesse que entra quero aquilo, desejo alcançar tal e tal objetivo, e assim a vida caminha na pulsação do parar e usufruir/ do prosseguir e criar. A combinação pulsante e dinâmica é: criar/usufruir/cortar. Depois, recomeçar de novo o ciclo, porém, não da repetição neurótica, mas da criação. Até porque cada dia é novo mesmo, mas precisa ser visto (criação), e vivido (usufruto) como tal, mas ele acaba e lá vem outro (corte). É como campeonato de futebol. Um acaba, vem o outro e nisso vamos escrevendo nossa história e tornando realidade o que as circunstâncias de nossas vidas nos oferecem apenas como possibilidade. Achei genial, e por isso partilho com voces o que um cliente amante da computação disse: “Vamos ver qual vai ser minha versão desse ano!”.  Sabemos bem que temos as versões atualizadas dos computadores, com falhas equacionadas e inovações, então pensei: “Por que não investirmos em uma versão melhorada de nós mesmos a medida que o tempo passa?”.  Sonhando demais? Não acho! Bem explicado! O novo a que me refiro não é comprar mais um objeto, o modelo mais recente. Falo aqui de inovações que podem se dar no “OLHAR” ao ver o que você já tem de maneira nova. Acho mesmo que a maior pobreza do ser humano é não perceber o quanto tem, mas ficar sempre ligado ao que não tem. Ter um novo olhar para o que você é e tem e fazer novas utilizações: daquela calça que nunca foi usada com aquela blusa, e que, no entanto, fica linda, se faz uma nova roupa sem que se tenha que comprar mais. Olhar ao redor com olhar reciclador – usando o velho para criar o novo. Como a amiga que, ao ganhar de herança a velha penteadeira inútil da avó, a transformou numa escrivaninha única que nenhum dos amigos admiradores podem comprar. Então, que tal incluir nos seus projetos para o próximo ano, primeiramente gostar e usufruir do que você já tem, e das maneiras as mais variadas, para, só depois, pensar em comprar algo novo? Eu garanto, “redescobrir” o novo em algo que já temos é tão ou mais prazeroso do que comprar uma novidade qualquer. Feliz versão 2011 para todos!! — Publicado originalmente no jornal O Popular em 30 de dezembro de 2010.

Vamos discutir a relação?

Luciene Godoy Frasezinha que costuma produzir horror nos homens! Senão horror pelos menos enfado, desalento, fuga. É claro que existem razões para tal comportamento. Vamos examinar algumas. Na origem de nossa sociedade capitalista houve uma divisão de funções. O homem saiu para o mundo para buscar mudar sua condição de vida. À mulher foi dado o cuidado do lar e da família burguesa. A um foi dado o espaço público e à outra o privado. Um distanciamento se deu. O homem foi usufruindo o poder que suas conquistas lhe conferiam, enquanto a mulher se mantinha confinada a uma vida doméstica em que dependia do que o marido lhe desse ou lhe permitisse. Os privilégios que os homens acabaram por ter foram, em princípio, devido a esta divisão e não simplesmente pelo fato de serem homens. Então, voltando ao “discutir a relação”. A mulher como o gênero de menos valor numa sociedade patriarcal tenderá a dirigir-se ao homem como o que detém os privilégios, o que é forte e “tem que ouvir suas queixas”. Isso pode se tornar muito conflitivo porque o homem pouco sabe do privado, do afetivo. Ele foi constituído em termos culturais para outro mundo, para outra coisa, não para falar de suas falhas e imperfeições. Quando a mulher lhe pede isto ele foge porque não sabe como fazê-lo, não é sua área. E provavelmente nem se sente tão forte e privilegiado, já que a ele são feitas muitas exigências para viver o seu papel de homem. Quer dizer, vida de homem também não é fácil não, só que de maneira diferente da nossa!! Não é que só o homem tenha que mudar. Todos temos! A sociedade é imperfeita, é injusta. Hoje, que estamos nos libertando dos papéis e dos padrões, em que vivemos a possibilidade de sermos respeitados em nossas diferenças, vamos, sim, tentar discutir, conversar, esclarecer. Já que não podemos ainda ler os pensamentos do outro… Temos a conversa! Vamos sair da cobrança (infelizmente, muitas vezes travestida de “discussão da relação”) e do ressentimento. Não há culpados, há o movimento da história. Estamos em mais um momento de ultrapassagem de fatos históricos que nos determinaram de uma forma, mas que podemos, com o tempo, fazer de outra. Façamos, portanto, uma aposta na possibilidade do encontro, da comunhão com o nosso amor, mesmo que não seja um eterno encontro, mesmo que sejam momentos, mesmo que sejam fugidios e parciais. Se não almejarmos a plenitude, muito ainda nos resta para vivermos prazerosamente! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, em 2 de dezembro de 2010.

O que não muda nem nunca vai mudar

    Luciene Godoy Um amigo espirituoso e engraçado não perde a menor oportunidade de afirmar, sempre brincando, que o ser humano não muda  e quando muda é para pior. Se formos por aí, não tem saída… Já Rousseau, o grande filósofo francês, tentando responder à famosa questão do que diferencia o homem do animal, afirma que o animal, como o homem, é inteligente, porém, ele só consegue aprender até um certo limite, a partir daí, faça o que fizermos, ele nada mais consegue aprender. Enquanto o homem, esse sim, tem a capacidade de aprender enquanto viver! No entanto, convivemos o tempo todo com pessoas fazendo as coisas do mesmo jeito, errando os mesmos erros, sofrendo os mesmos sofrimentos, dando as mesmas explicações para tudo. O que será que acontece com a nossa ilimitada capacidade de aprender e mudar? Bem, os animais possuem instinto e os seres humanos pulsão, algo que poderia até ser confundido com o instinto, só que foi aprendido (vivido) em algum momento de nossa formação psíquica e que pode se manter imutável pela vida toda, manifestando-se pelo que chamamos de “Repetição”. A repetição tem uma “cara” de instinto, só que para cada um é uma, ou seja, são próprias de cada pessoa. Ninguém repete igual ao outro. Somos únicos até na nossa neurose. Sem solução? Não exatamente. É difícil, mas não impossível “acordar” alguém do “transe” da repetição. É quando algo “abre os olhos da pessoa”, levando-a a se dar conta do que está fazendo. É como se o seu raciocínio, a capacidade de ver e de dar respostas variadas para situações variadas, passasse a funcionar de novo. Um filme, um livro, uma conversa, e, principalmente, uma psicanálise, podem fazer isso! É quando achamos novas respostas para velhos problemas. É quando podemos viver cada dia de vida como, de fato, o que ele é: um novo dia. Aí sim, o aprender será infinito, os dias nunca serão iguais, as respostas vão variar, a vida se enriquecerá e as relações poderão fluir fora da estagnação. Quando o ser humano está funcionando nessa dimensão da pulsão, parece mesmo que nada evolui, que ele nunca muda, principalmente em questões emocionais. Quem será que tem razão? Meu jocoso amigo ou o filósofo Rousseau? Não menosprezem o meu amigo! Os dois têm razão, dependendo da perspectiva que se tomar. A da repetição, do amigo também sábio nas suas brincadeiras. Ou a da razão e da escolha, de Rousseau. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, em 18 de novembro de 2010.