A Madonna de Port Lligat (Salvador Dali, 1949)

Luciene Godoy
Claro que sim! Todo mundo teve.
Claro que não! Todos tiveram uma genitora, aquela que produz a carne, o corpo biológico. Ter mãe é outra coisa. Genitora tem tarefa, mãe tem desejo.
Deus me livre! Essa é a coisa mais esquisita que já ouvi falar.
Não falo da mãe de propaganda do “dia das mães”, as angelicais, pura doação, que passa por tudo e continua com um sorriso nos lábios. Bonito demais, mas isso existe mesmo ou queremos que exista em nossa fantasia e nos sentimos uns desgraçados porque nossa mãe não é nem tão feliz, nem tão… perfeita?
A mãe de verdade, a que existe em nossas vidas não é perfeita, mas é mãe.
É mãe porque com suas falhas nos deixa e nos faz crescer.
Ninguém nunca nos disse – só a psicanálise – que é nas falhas da mãe que crescemos.
Digo sempre que as mães “boazinhas” são as piores. Piores porque são covardes, deixam-nos acreditar que existe perfeição por viver tentando sê-lo. Não somos nem jamais o seremos, incluindo aí as mães. Favor não confundir mãe com Deus!
A mãe da realidade é a que tenta, se esforça, erra, aprende, e é sendo assim que está dando ao filho a bússola para o seu próprio caminho que também será de esforço, erros e aprendizagem.
Eu tive mãe porque me alimentou. Às vezes com carinho, às vezes com impaciência, às vezes com raiva até… mas, me alimentou.
Eu tive mãe porque aprendi a ler e escrever sob sua tutela e supervisão. Perfeitas? Não. Longe disso, mas aprendi e prossegui.
Eu tive mãe porque não me deixou, na adolescência, fazer tudo o que queria. Aprendi a saber dos meus limites.
Recebi muitos nãos. E isso me fez forte.
Recebi, acima de tudo, a lição de que ninguém cuidaria de mim para sempre (coisa que tanta mãe promete). E esse foi o maior presente que a vida me deu, e o deu através de minha mãe.
Ter tido mãe é ter tido alguém que, ao longo de nossa infância e adolescência nos amparou e desamparou o suficiente para que, nessa pulsação, desenvolvêssemos a força e direção para construirmos uma vida autônoma e prazerosa.
Ser cuidado e protegido em demasia faz de nós fracos! Receber promessas subliminares de que teremos a mãe “anjo da guarda” para sempre também.
A mãe “suficientemente boa”, para citarmos Winnicott – grande psicanalista infantil, é aquela que dá conta de deixar o filho sofrer e, portanto… crescer.
Só assim teremos, de fato, recebido o dom da vida de nossa mãe, não só aquele que nos deu na maternidade, mas que nos concedeu quando nos ensinou e nos deixou crescer e usufruir da vida como um adulto e não como uma criança perdida esperando apoio e cuidado de algum lugar.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 12 de maio de 2011.