Freud (Andy Warhol, cerca de 1980)

 
Luciene Godoy
Um amigo espirituoso e engraçado não perde a menor oportunidade de afirmar, sempre brincando, que o ser humano não muda  e quando muda é para pior.
Se formos por aí, não tem saída…
Já Rousseau, o grande filósofo francês, tentando responder à famosa questão do que diferencia o homem do animal, afirma que o animal, como o homem, é inteligente, porém, ele só consegue aprender até um certo limite, a partir daí, faça o que fizermos, ele nada mais consegue aprender. Enquanto o homem, esse sim, tem a capacidade de aprender enquanto viver!
No entanto, convivemos o tempo todo com pessoas fazendo as coisas do mesmo jeito, errando os mesmos erros, sofrendo os mesmos sofrimentos, dando as mesmas explicações para tudo.
O que será que acontece com a nossa ilimitada capacidade de aprender e mudar?
Bem, os animais possuem instinto e os seres humanos pulsão, algo que poderia até ser confundido com o instinto, só que foi aprendido (vivido) em algum momento de nossa formação psíquica e que pode se manter imutável pela vida toda, manifestando-se pelo que chamamos de “Repetição”.
A repetição tem uma “cara” de instinto, só que para cada um é uma, ou seja, são próprias de cada pessoa. Ninguém repete igual ao outro. Somos únicos até na nossa neurose.
Sem solução?
Não exatamente. É difícil, mas não impossível “acordar” alguém do “transe” da repetição. É quando algo “abre os olhos da pessoa”, levando-a a se dar conta do que está fazendo. É como se o seu raciocínio, a capacidade de ver e de dar respostas variadas para situações variadas, passasse a funcionar de novo.
Um filme, um livro, uma conversa, e, principalmente, uma psicanálise, podem fazer isso! É quando achamos novas respostas para velhos problemas. É quando podemos viver cada dia de vida como, de fato, o que ele é: um novo dia.
Aí sim, o aprender será infinito, os dias nunca serão iguais, as respostas vão variar, a vida se enriquecerá e as relações poderão fluir fora da estagnação.
Quando o ser humano está funcionando nessa dimensão da pulsão, parece mesmo que nada evolui, que ele nunca muda, principalmente em questões emocionais.
Quem será que tem razão? Meu jocoso amigo ou o filósofo Rousseau?
Não menosprezem o meu amigo! Os dois têm razão, dependendo da perspectiva que se tomar.
A da repetição, do amigo também sábio nas suas brincadeiras.
Ou a da razão e da escolha, de Rousseau.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, em 18 de novembro de 2010.