Le Petit Prince (Antoine de Saint-Exupéry, 1943)

Le Petit Prince (Antoine de Saint-Exupéry, 1943)
Le Petit Prince (Antoine de Saint-Exupéry, 1943)

Luciene Godoy
Um amigo querido disse-me recentemente que tinha aprendido uma grande lição à medida que percebia que ficava mais adulto: “Nunca diga nunca”.
Ele acertou na mosca porque expressões totalizantes como tudo, nada e nunca são muito características da onipotência – forma de funcionamento psíquico infantil.
Portanto sua sábia constatação leva em conta que o ser humano é mutante, inconstante, imprevisível e frágil – ou como dizemos na psicanálise, que o sujeito é pulsante, evanescente e inconsistente. Por isso mesmo dizer “nunca” é uma armadilha, pois, mais cedo ou mais tarde, o que foi dito, muito provavelmente, vai ser desrespeitado, não vai ser sustentado.
Além disso, tem outros ótimos motivos para o “nunca” deixar de ser nunca. É que a gente aprende, cresce e por isso mesmo muda. Aí o “nunca” de ontem pode ser outra coisa hoje.
Nunca é onipotência.
Somos por demais humanos para dizer nunca.
Falhamos demais, mudamos demais, somos frágeis demais para dizer nunca.
Porém, na neurose, o sujeito diz nunca com uma inconseqüência glacial. Como uma criança que não sabe o que diz, nem mede o alcance do que fala. Aí, depois de um tempo, maior ou menor, está lá, fazendo o que “nunca mais” iria fazer e ainda quer que as pessoas ao redor o respeitem e o levem a sério.
O pensamento onipotente é também chamado de “pensamento mágico”. Nele não há racionalidade propriamente dita, não há causa e efeito.
Se algo errado aconteceu, não foi pela causa real, lógica, mas qualquer outra coisa “inventada” para livrar a criancinha da responsabilidade. Se o carro parou sem gasolina não foi porque a pessoa vive se esquecendo, mas foi porque o motor estava desregulado ou a gasolina adulterada. Pela enésima vez, desculpas e mais desculpas e o dito cujo continua não querendo ver que é com ele mesmo.
Ver o que causamos, mesmo quando o resultado não é o esperado, ao contrário do que podemos pensar, aumenta a nossa potência e não os nossos defeitos.
Se fiz algo e funcionou, ótimo, fico confiante. Se não, mas reconheço o meu movimento, que não deu certo, mas foi meu mesmo e de ninguém mais, isso também é reconhecer uma potência: a do fazer, mesmo quando não dá certo. Potência de errar, sim, porque só erra quem deu conta de tentar, verbo que indica esforço e luta, portanto potência.
Meu amigo, que está de fato tão mais maduro, acertou em cheio: ser conseqüente com o que se diz é mesmo um sinal de maturidade e eu digo: se responsabilizar pelos próprios erros é um sinal de potência.

Artigo originalmente  publicado no jornal O Popular em 29 de setembro de 2011.