Lady Lilith (Dante Gabriel Rossetti, 1867) - www.metmuseum.org
Lady Lilith (Dante Gabriel Rossetti, 1867) – www.metmuseum.org

Luciene Godoy //
Uma frase proferida diversas vezes por Leandro Karnal – historiador e professor da Unicamp – em uma palestra sobre a vaidade permaneceu ressoando de novo e de novo em meus ouvidos. A ideia era mais ou menos essa: “Ninguém escuta ninguém, ninguém percebe ninguém. Estamos todos sozinhos o tempo todo”.
Para comprovar a afirmativa, ele lança mão de diversos exemplos, tais como a resposta inevitável à afirmação “Eu estou tão cansado” – ou qualquer, literalmente, qualquer outro adjetivo. O que vem é sempre a resposta: “Eu também”. Ou, ao contrário: “Nossa! Imagina que eu não…”
O pobre interlocutor já é barrado de falar de si na primeira tentativa. A próxima tentativa de expressar seus próprios sentimentos já foi rapidamente abocanhada pelo outro. Abocanhada é um bom termo, pois trata-se de pegar o “seu” bocado pela boca.
Bocado de quê? Não seria de falar de si? De pôr para fora o que está dentro? Antes fosse…
Na verdade, “o falar de si” nada mais é do que uma pergunta disfarçada em afirmativa. É que se quer testar sempre o que o outro acha, se o outro aceita, se o outro confirma o que se diz. E estas são tentativas de colher olhares externos para dentro de si tentando se conhecer, se aceitar – aos olhos dos outros. Esta é a armadilha da dependência das expectativas dos outros.
As pessoas, dizemos, não prestam atenção ao que os outros falam porque estão pensando só em suas próprias questões. Sim, quando elas veem o outro, não é o outro que veem, mas apenas o reflexo de si numa procura ininterrupta de se situar. Pluga no outro o seu GPS e ninguém arranca, pois não saber onde estamos é uma grande fonte de angústia.
Não é que ele não consiga sair de si, ele não consegue é entrar!
“Já avançamos bastante na conquista de nosso meio externo, do nosso habitat. É hora de conseguirmos conquistar nosso meio interno, nossos sentimentos, nossas emoções”, afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate. Os grifos são meus, pois trata-se dessa “entrada em si mesmo” de que falo.
Nada mais delicioso do que habitar a própria pele!
Nada melhor do que ter conseguido entrar dentro do próprio corpo – que nasce sendo do outro: outro-mãe (pai, avós, tios, padrinhos, irmãos…), outro-cultura (regras, permissões, coações, aplausos, elogios, críticas…). Para Gikovate, passar a ser nosso e fazer aquilo que é nossa cara, nosso desejo, é um longo caminho que sai de dentro de nós para o outro e depois sai do outro para voltar para dentro de nós.
Nada mais profundo e claro a respeito desse entrar e habitar a própria pele do que a seguinte citação da terapeuta norte-americana Joann Peterson no livro When the body says no (Quando o corpo diz não): “Nossos limites são invisíveis, são o resultado de uma sensação consciente-interna que define quem eu sou. Se você se perguntar ‘Em minha vida ou em meus relacionamentos, o que eu desejo, o que quero mais ou quero menos, o que eu não quero, quais são os meus limites declarados?’, começa o processo… Nesta definição de si mesmo, nós demarcamos o que valorizamos e o que queremos em nossa vida naquele momento específico, provindos de um lugar de refer&eci rc;ncia interna; o lugar de afirmar-se está dentro de nós mesmos.” Tradução é minha.
Será que podemos dizer que, se o lugar da afirmação está dentro de nós, o contrário, o lugar da mentira, está fora? Será que mentimos para o consumo público ao não expor e sustentar aquilo que de fato queremos ou somos? Assim escolhemos “viver para fora, fora de si”.
No século 21 podemos ser o que somos em nossa diferença, em nossa subjetividade. É por isso que a frase título pode ser agora trocada e podemos hoje dizer que o ser humano já pode ser um “ser dentro de si” e existir em paz dentro de sua casinha subjetiva.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 3 de dezembro de 2015.