Escolher esperar – Rejane Soares Ferreira
O dicionário online de português descreve o verbo transitivo direto ESPERAR como “ficar em algum lugar até que chegue alguém ou alguma coisa que se tem como certa ou provável”. De fato, ficamos em algum lugar da subjetividade aguardando chegar o tal do sucesso, a tal da alma gêmea, a tal da felicidade… Mas o restante da definição é que assusta, uma vez que é algo ou alguém que se tem como certo ou provável. Certeza de quê? O provável ao menos é mais verdadeiro. A questão é que a gente tende a esperar, deixar para outro momento a chegada de uma situação (que pode não chegar) pra satisfazermos nossos desejos. Algumas coisas a gente espera mesmo, como a comida ficar pronta, a chuva chegar, o dia da formatura… Um porvir contínuo. Mas dá para viver intensamente o agora, gozando até da espera que se torna prazerosa: sentir o cheiro dos alimentos sendo preparados, aproveitando a seca para reformar a casa, o convívio dos amigos e as atividades aprendidas até a formatura chegar… O danoso está em abrir mão do agora para deixar se preencher com o que pode vir, ou não, no depois. Sofrer porque não se tem ainda o que se quer. E se não chega o que se quer, há de sofrer ainda mais. Se espera-se X e chega Y, daí o pesar corre quente nas veias! E como acontece da gente esperar uma coisa e vir outra! Colocamo-nos em prontidão para acusar e martirizar quem fez essa proeza de não decifrar o que estávamos esperando! E lá vamos nós lamentar porque o presente foi da cor errada, a receptividade do colega foi mínima, o encontro com os amigos foi sem graça… O que mais nos consome, nos angustia, foi ter identificado que a espera, tão sofrida, foi em vão: “Não chegou o que eu queria!” Isso é cair em uma armadilha psíquica muito frequente: a de acreditar que um outro, ou algo, irá lançar um dardo de prazer no alvo das minhas solicitações. Infantilidade emocional! Parece contraditório, mas nem sempre suportamos essa encruzilhada de nos depararmos com aquilo que tanto esperamos. É frequente a gente ouvir uma pessoa que conquistou sucesso, dinheiro, casa bonita, filhos saudáveis e que sente ainda um certo vazio dentro de si. Ela cumpriu o script do que era esperado dela… Ela mesma esperou de si o cumprimento disso tudo, Afinal, sair deste roteiro demanda coragem! A questão é que várias angústias podem estar inseridas nisso: fazer o que é esperado de você ao invés de reconhecer o que você mesmo quer; achar que a completude existe e ficar fixado em coisas que ainda estão faltando; ter se distanciado tanto do presente (projetando para o futuro o bem estar) que estar no aqui e agora perde a graça; perceber que você quer uma coisa, mas se movimenta em direção a outra… Enfim, são várias as alternativas possíveis nesse labirinto das esperas. Um verbo pode ser usado antes do esperar: o ESCOLHER! Eu escolho esperar por aquela viagem dos sonhos. Eu escolho esperar a pessoa linda e maravilhosa que há de chegar e me fazer feliz. Eu escolho esperar o dia certo para parar de fumar. Eu escolho esperar o sucesso bater em minha porta. Eu escolho esperar que o mundo me entenda. Opa! Eu escolho esperar? Sim, é uma escolha (nem sempre consciente) colocar no futuro um bem estar que pode ou não chegar. Eu posso até esperar alguma coisa, mas então que eu seja ciente de que estou escolhendo permanecer na espera. Quando eu deixo isso claro, de verdade, uma coisa incrível costuma acontecer… Eu posso até curtir a espera! E curtir de verdade! Bendizia meu avô: a espera da festa é tão boa quanto ela mesma! Eu me coloco no presente e me proponho a estar ativamente em contato com o que quero! Deixo de me amarrar na ilusão de um futuro idealizado e me preencho com as delícias, as dores, as alegrias, os sustos, as falhas, as grandezas deste presente vivido em carne e osso! Eu escolho tomar a mim mesma como personagem principal de um roteiro que posso construir, desconstruir, construir de novo, usufruindo de tudo que o palco da vida me oferece. Eu escolho esperar as coisas acontecerem de modo atuante e vou selecionando o texto, o figurino, a luz, toda a direção! É assim mesmo! Sou eu quem faço a peça e posso sim dosar o quão de drama, de aventura, de suspense, de terror, de romance ou de comédia incluo nisso tudo. Com escolhas assim esperadas, uma repercussão acontece…Vocês ouviram? São os aplausos que saem de mim! — Rejane Soares Ferreira é Mestre em Psicologia, Neuropsicóloga e Docente Universitária.
Abaixo os cadeados do amor
Paris, cidade dos amantes. Cidade que é uma festa, que é puro romance. Melhor lugar não há para se namorar, mas tem muita gente aproveitando todo esse clima para não só namorar como também garantir o amor para sempre. Como? Trancando o bichinho para que ele não possa escapar. Trancando bem trancadinho com cadeados e tudo. Eu os chamo de “cadeados do amor de Paris”. Pois é, mas eles despencaram… Começaram dependurando as garantias na Passarelle des Arts, uma linda ponte de pedestres sobre o Rio Sena. Feita com tamanha leveza que não combinou com o peso dos cadeados. As laterais da ponte despencaram sob o torturante peso do amuleto-trancador-do-amor. Foi o peso da “segurança”, de aço inquebrável, fechado e garantido, que destruiu a si mesmo. Sim, pois os cadeadinhos do amor caíram junto com a estrutura que quebraram. A desgraça veio de onde não se esperava: a ponte quebrou. Não é bem assim, nem mesmo é uma ponte. É uma passarela, isso sim. Linda e romântica. Mas para tudo tem jeito. Arrumaram outros lugares, outras pontes, agora de concreto, esse sim, inquebrável… Será? Atrás da igreja de Notre Dame, tem uma deliciosa pracinha arborizada que adoro. Vinha eu distraída rumo a uma das pontes que dá acesso a ela quando me deparei com… cadeados, muiiiitos cadeados. Notei mais pelas caras dos namorados com olhos brilhantes, alguns francamente ansiosos, abrindo bolsas, pegando o objeto precioso – o cadeadinho – comprado em alguma loja ou barraca das redondezas; procurando um centímetro vago para trancar o símbolo de seu amor, no meio de tantos outros que, por falta de espaço no guarda-corpo, iam se tornando pencas de cadeados como se fossem cachos de uvas se projetando. Estranha visão de amores agora agarrados uns aos outros. Já não era mais na ponte, mas na argola de outro cadeado. Casais amarrados a outros casais. Alguém me disse que de tempos em tempos a prefeitura vai lá e retira um tanto, faz uma faxina de cadeados para a ponte não cair de novo. Será que os amores vão para onde? Lixo? Pensamento horripilante. As fotos são também obrigatórias. Talvez para não esquecer que seu amor está bem guardadinho, bem trancadinho e bem garantidinho. Pelo menos até que a prefeitura vá fazer o “rapa” ou a ponte não consiga aguentar mais o peso da responsabilidade de segurar e garantir tantos amores sequiosos que fizeram seu investimento comprando o cadeado do amor, escrevendo seus nomes juntos num coração desenhado na barriga do dito cujo e se dando ao trabalho de enganchá-lo em uma nesga de tela ou num outro cadeado do amor de um outro casal desconhecido, mas buscando a mesma coisa. Me vi, assim, no meio da ponte, assistindo a todo aquele movimento, quando reparei em um casal de indianos que vinha flanando – Paris parece que foi feita mesmo para se andar por suas ruas e pontes. Lá vinham os dois namorados sorridentes e leves e que, como eu, olhavam a azáfama dos casais de um lado e de outro da ponte. Olhei para eles e disse em inglês – indianos sempre sabem inglês: “This is horrible. Love is freedom” (Isso é um horror. O amor é liberdade). A moça sorriu afirmativamente e o rapaz disse: “Yes, it is not to lock” (Sim, não é para trancar). Yes, o amor não é para ser trancado e muito menos para nos dar garantias. Amar é estar sempre no risco da perda do objeto amado. O que pode ser muito útil para nos lembrar que o usufruto diário é o que temos. E que, no amor – como na vida -, cada dia é eterno enquanto durar… É sempre desastroso tentarmos obter o impossível. O que acontecia ao “maná do céu” da Bíblia? Era recolhido todas as manhãs e só servia para ser comido naquele dia. Bela metáfora do amor! Bela metáfora da vida! O que temos é o usufruto de cada dia.
Namoro em família
Estamos no clima. Nas festas de fim de ano é hora da família brilhar. Hora da confraternização, de se mostrar que no mundo tem união, tem “amor em família”. Claro que temos outras expressões como “luto em família”, que já mostra o lado triste de um sofrimento conjunto, compartilhado entre os seus membros. Entre as festas e o sofrimento proponho um outro tipo de movimento “em família”. Alguém já ouviu falar de “namoro em família”? Pois é, existe. Dando uma olhada nos dicionários, eu que os adoro constato que, curiosamente, a lista é exígua, deixa a desejar. Parece que namorar é um verbo que está pedindo para a gente ampliar em muito o seu uso e sentido. Só por enquanto, está dando para o gasto. No futuro será uma palavra muito mais requisitada e usada! Mas, vamos ao trabalho. Além dos tão conhecidos “galantear” e “fazer a corte”, a definição que melhor apresenta a ideia é: ‘Namorar é procurar inspirar amor a alguém”. O namorado seria aquela pessoa que exibe um comportamento de delicadeza. Que se ocupa em mostrar que ama. Galantear, que também faz parte do conjunto “namoro”, é um modo amoroso de falar, de demonstrar atenções e finezas com quem se quer agradar. Namorar para mim vai muito mais longe. São olhares cheios de brilho, profundidade e cumplicidade. São sorrisos que dizem de nosso prazer em ver o outro e estar junto. Namorar são pequenos toques no corpo e na alma que demonstram o valor e a importância que aquela pessoa tem para nós. Por outro lado, qual é o oposto de namorado? Você não vai acreditar, mas é: adversário. Gente! O oposto de namorado é adversário, inimigo. Significado surpreendente! Mas é isso mesmo! Nas relações mais próximas, por causa da nossa formação narcísica, no espelho que é o outro, na proximidade do dia a dia, ele se transforma facilmente em inimigo. É justamente por essa grande proximidade que as pessoas que vivem “em família”, ou seja, em grupo, deixam tão facilmente de se namorar e começam a “se estranhar”. Mas já tem gente conseguindo namorar em família. Recentemente, uma analisante mãe de uma moça entrou sorrindo, mostrando a foto de um belo arranjo floral que havia feito e se dado ao trabalho de fotografá-lo para enviar à filha de manhã cedinho com a frase: “Para você. Tenha um ótimo dia!”. A filha respondeu: “Liiiiindo! Obrigada”. Eu, então, perguntei à mãe: “Você sabe o que estava fazendo com sua filha?” Ela me olhou com olhos curiosos e eu mesma respondi: “Namorando. Você estava namorando com sua filha”. Dias depois, outra mãe, também com o rosto feliz, entrou afirmando que tinha “caído a ficha” de que mandava frases bonitas e carinhosas para os amigos, mas nunca tinha pensado em fazer o mesmo com os filhos adolescentes. Começou a escrever-lhes frases elogiosas, amorosas e celebrativas. As suas relações se adocicaram de maneira surpreendente. Para não ficar só no “mamãe, papai, vovó te ama”, temos infinitas maneiras de adubarmos nosso namoro com nossos “amados” em família – e não só com palavras. Paremos de adubar nossas relações com produtos ácidos, grosseiros e rudes. Vamos parar de conversar só sobre problemas e dificuldades e ter “conversas de namorados”. Aquelas em que nos surpreendemos em descobrir novas facetas de quem pensamos conhecer. Desconfie do “eu já sei muito bem como ele/ela é”. Sabe não. Bola de cristal que força a barra só ajuda a doença da repetição a se instalar em sua vida. Pense na possibilidade de “namorar em família”, de trocar doces palavras sem mais nem porquê. Apenas porque você ama e quer demostrar isso com o carinho de suas palavras e seus atos. Transforme o deserto em namoro, a irritação e a cobrança em prazeroso compartilhar de vida. Duvida? Comece o namoro e verá a diferença.
As famílias “urubus na carniça”
A coisa funciona mais ou menos assim: se você fracassa, é esquecido; se faz muito sucesso, é obrigado a se tornar a grande teta que vai amamentar a todos. Senão, passa a ser chamado de todos aqueles nomes horrorosos que recebem os que têm e não dão: “egoísta” e “insensível que só pensa em si mesmo” são só o começo. A revolta fica grande e a lista também. Quando você faz sucesso, a conquista pertence a todos os que têm o seu sangue. O bem sucedido tem que cuidar dos pobres coitados e desafortunados que, embora tendo nascido nas mesmas condições, não tiveram a “sorte” de “chegar lá”. Aí vira “urubu na carniça”: aquele bando desordenado e ansioso tentando pegar o pedaço melhor. Por outro lado, tem as famílias “pau pra toda obra”, que são as que se unem para tudo e para todos. Tem as “unidas na doença”, juntas só nas adversidades, nunca na diversão e na alegria. Há as “boas unidas, mas não reunidas”, que são as das “baixarias natalinas” – as que se encontram para brigar, como dizia um amigo. Existem as “famílias fiscais”, que revistam as vidas uns dos outros, disfarçadamente, olhando a geladeira, prestando atenção às roupas novas ou se alguém trocou o carro. Se melhorou, aí então é raiva incontrolável. Inveja disfarçada em interesse. Cada família é mais ou menos dominada por certas características que falam mais forte, e é assim que é mesmo. Há aquelas em que, o filho que não ganhar dinheiro, coitado! Porque esse é o valor comum. E outras em que pobrezinho do que não for “estudado”: é “burro e preguiçoso”. Isso gera o famoso patinho feio, aquele que é notadamente diferente do grupo. Famílias são grupos que se juntam e formam uma dinâmica. São muitas, mas os tipos se repetem com muita frequência e dá para classifica-las. Acabei de dar uma pequena lista acima. Mas acredite: todas têm o seu lado bom, apesar de nesse momento eu estar falando das “carniceiras”. As do tipo “urubus na carniça” são aquelas em que, por exemplo, uma tia solteirona com um ótimo emprego tem que pagar a faculdade de todos os sobrinhos cujos pais “não podem”. Claro que os porquês das eternas dificuldades dos pais não podem ser questionados, mesmo que sejam dívidas de jogo ou outra descompensação qualquer. Os coitados não dão conta, ora essa. E a titia não tem ninguém para cuidar mesmo, não tem nem um passarinho para dar água. O afortunado parente – ainda que não seja o solteiro sem obrigações, ainda que seja casado ou casada, com múltiplas despesas, mas sendo o que possui – vai parecer um pecador se não carregar alguns nas costas. Fica muito mal visto e mal falado na família. Muitas vezes a “carniça” na qual os urubus estão em cima são os próprios pais, ou um deles. Os velhos ricos, ou com boa aposentadoria (às vezes nem tão boa), são conclamados a “ajudarem” eternamente os “filhos-problema”. Paga uma coisinha aqui, troca o carro ali, compra uma viagem de férias… porque, coitadinho do fracassado, ou daquele que está estudando (há longos anos), se preparando para melhores dias, ele também merece se divertir. Nada de pagar só remédio ou escola, vida boa também deve fazer parte do pacote. Se as coisas funcionam bem assim, por que mudar, não é mesmo? Qual é a sua posição? Se você é dos que confirmam os valores do grupo, faz tudo conforme o figurino e está feliz, bom para você. Se você é dos que obedecem os hábitos familiares só para não ser rejeitado e não tenta abrir os horizontes, pior para você. Se você é o urubu, repense. Melhor seria ter fontes próprias de sustento porque um dia a casa cai e a fonte seca. Se você é a carniça… meu amigo/a, pegue sua viola e vá cantar em outra freguesia, ou mude de posição. Você lutou e é um vencedor para usufruir e não para ser usufruído.
O homem é mesmo o lobo do homem?
“Homo homini lúpus”. O filósofo inglês Thomas Hobbes popularizou essa expressão ao refletir sobre a possibilidade de sermos livres quando somos obrigados a viver numa sociedade em que a lei é determinada por outros. Freud, no mesmo rumo, se interrogou acerca do inconsciente que nos governa e, desta forma, sobre como podemos ser livres se nosso mundo interno desconhecido nos impõe o que não desejamos enquanto o mundo externo também. Por isso, numa “dedução lógica”, pois a nossa impressão é essa, costumamos afirmar junto com Sartre que “O inferno são os outros”. Os “outros” do mundo externo e os “outros” do mundo interno aos quais não reconhecemos e assim são pressentidos como estranhos a nós. Temos a plena certeza de que são os “outros” que nos fazem sofrer, que nos causam dano, nos deixam confusos. Todo mal vem de fora, isso é certo. Sem a menor dúvida. Então, o mal deve ser contra-atacado. Precisamos destruir a causa de nosso mal-estar. Fim ao inimigo. Fim ao aprisionamento e a quem nos aprisiona. Temos direito à liberdade. Vamos conquistá-la. Vamos agarrá-la. Como? Acabando com o que nos impede de alcançá-la, é claro. Deixando o outro sem palavras, intimidando-o com o nosso conhecimento. Humilhando-o para que fique quieto em seu canto e não nos ameace. Mostrando o nosso poder de compra, de feitos, de conquistas para afundar o outro numa pungente vergonha de si mesmo. Paralisemos o inimigo. Neutralizemo-lo e o impedimento para sua liberdade-felicidade acabará. Acabarão também as pessoas ao seu redor, é claro. E aí você pode ficar como o personagem central do romance O Grande Gatsby, dando festas monumentais em que você nem conhece os convidados que usufruem das riquezas que você ostenta. Isso para os ricos. Para os que têm menos, existem outras armas para manter o inimigo distante, embora, bem saibamos, há mais “união” entre os que precisam, os que necessitam seja lá do que for. Eles se juntam e se ajudam. Pena daqueles que, por acharem que têm, não percebem que todos necessitamos sempre e de muitas coisas. Mas isso é só uma pausa. Prossigamos com o extermínio ao inimigo que nos impede de ser feliz. Ah! Vamos parar no momento em que ficarmos sozinhos porque “detonamos” com todos. Impasse: sozinho é ruim e com o outro é mal-estar. Dá para ir além do impasse e achar outra forma de coexistir entre os humanos? Sim, se sentirmos dentro de nossa pele quem somos mesmo quando não entendemos. Se pudermos nos dar conta de que o que fazemos, mesmo que oriundo de nosso inconsciente, vindo do “não-sabido” de dentro de nós, a nós pertence. Que faz parte de nós desde o momento em que entrou. Se é bom ou ruim, cabe a nós reconhecê-lo e dar-lhe um destino – e não o destino de dizer que aquilo que não reconhecemos pertence ao outro. O “homem-lobo” (o outro) pode deixar de ser uma ameaça ao “homem-cordeiro” (você)… Ops! Quem é quem mesmo? Às vezes as coisas se misturam, mas prossigamos… Na verdade, as perguntas a serem feitas são: “Quando deixaremos de ser os lobos de nós mesmos?” Quando pararemos de enxergar no outro o nosso incômodo? Quando o outro deixar de ser nossa sombra ameaçadora, o espelho no qual nos olhamos, nos refletimos e pedimos: “Espelho, espelho meu, diga-me logo quem sou eu”. Quando conseguirmos começar a nos responsabilizar sempre pelo que nos acontece. Não uma responsabilidade obediente das regras, mas a responsabilidade-potência. A força de assumir o concerto mesmo que a autoria do estrabo não seja nossa. A vida é! Quando a posição de vítima for peça de museu em nossa vida, o “lobo-outro” desaparecerá. Pois quem faz o lobo, quem dá consistência ao lobo, é a vítima. Vítima do “lobo-si-mesmo”.
Descobri o sentido da vida
Sempre me encabulou o quanto as pessoas insistentemente querem saber o sentido da vida. Necessidade do ser humano saber qual é o significado de se estar aqui nesse planeta. Ocorreu-me recentemente uma resposta simples e direta como aquelas que o Pequeno Príncipe dava às “grandes” questões da vida. De repente me percebi pensando: “O sentido da vida é para frente, ora essa”. Siga o rumo. O sentido da vida não é em direção ao passado, mas ao futuro. Não esse futuro no qual se tenta adivinhar formas de se proteger ou marcar um encontro certo com a felicidade lá adiante. O sentido da vida é morar no presente, usufruir o presente sempre rumando para frente, para o que vem vindo no fluxo dos acontecimentos. Mas viver mesmo, só aqui nesse momento que é o que temos. Todo esse questionamento acerca do sentido da vida é uma forma de não deixar o passado ser passado. Sem se darem conta, as pessoas se fixam nele. Uma prova de fixação no passado é o “medo de sofrer”. Medo de sofrer o quê? Medo de sofrer o que já se sofreu, obvio. Ninguém tem medo do que desconhece – conhece pelo menos nas fantasias que faz a respeito da ameaça. Quem já namorou alguém que foi traído sabe o martírio que é ser objeto de desconfianças múltiplas. É que o traído tem o “medo-certeza” de que será traído de novo. Nesse caso, qual é o sentido da vida dessa pessoa? Sentido passado. Qual é o rumo que está seguindo? Está indo para trás. Sentido retorno. Sentido sofrimento. E aqueles que dizem que “eram felizes e não sabiam”? Nesse caso, estão dizendo que o passado era bom. Era mesmo, só que estão também dizendo que o presente está ruim. Qualquer uma das duas versões do passado torna o presente um sofrimento. Seguir para baixo, para cima, para esquerda ou direita, tudo parece tão complicado. Complicado é querer se fixar, fazer a vida parar, se agarrar ao conhecido para se garantir e aí morrer agarrado à doce sereia da garantia, que, sedutora, nos convida para o lugar do morto. Qual é o sentido da vida? É reconhecer o presente de ter sido um dia convidado para nela entrar. O presente da vida é vivê-la. O presente da vida é estar presente no presente. O presente da vida é usufruir do presente caminhando para frente, vivendo o que vem aparecendo e/ou sendo construindo. Rumar ao passado é perder-se no que não tem mais vida. O sentido da vida não é a morte nos sofrimentos passados. O sentido da vida é viver “o” e “no” presente. Quando se está no presente o sentido vai rumo ao futuro, e o futuro é cheio de possibilidades e de novas respostas. Isso se não teimarmos em jogar o que foi doloroso no passado lá adiante, num retorno macabro de cartas marcadas pelas nossas crenças no que aconteceu. Quando antecipamos um futuro ruim, com promessas de dor, geralmente não nos damos conta de que não estamos no futuro, mas no passado, de novo com o “medo-certeza” de que os sofrimentos vividos no passado se repetirão adiante. O “medo-certeza” de sofrer “de novo” é a marca de que se está no passado, garantindo um futuro igual. O futuro será mesmo igual ao passado desde que não tenhamos jamais saído lá de trás. Coisa que acontece com muita gente. Nesse caso, o futuro nada mais será do que a repetição garantida de um passado do qual, veja bem, nós nunca conseguimos sair. Agarrar-se às identidades formadas e não abraçar as novas, ver a si mesmo da mesma maneira – prisioneiro da repetição –, é não ter, na estrada da vida, tomado a direção para frente. As pessoas sempre quiseram saber o sentido – o significado – da vida porque não lhes ocorreu que o sentido – direção – é que é o que pesa. Como se tentassem se libertar de um mal estar pela via da compreensão, paradas, “olhando a vaca morta” e refletindo, esquecendo, desse modo, que o sentido é ir adiante. É caminhar rumo ao futuro com os pés pisando firme no presente.
Mãe é para sempre?
Não. Mãe é para o começo da vida. Ela precisa ser metaforizada e se transformar em outros objetos. Mãe é alguém que está no papel de cuidar, adivinhar o que necessitamos, fazer em nosso lugar enquanto, e somente enquanto, ainda não somos capazes de fazê-lo. Isso é o que chamamos em psicanálise de”função materna” e que pode ser exercida pela mãe biológica, mas também por outra pessoa. Esse cuidado que nos parece ser só da mãe se estende a todo o grupo familiar que cuida de suas crianças. Cuida até que não mais seja necessário. O caminho é a autonomia, o fito é a autonomia, mas ela passa por deixar algo para trás – assim como certos animais abandonam a pele velha para se expandir e daí criar uma pele nova. É o que afirma Lacan em seu livro Complexos Familiares: “O abandono das seguranças que a economia familiar comporta tem o alcance de uma repetição do desmame”. Veja que deixar as seguranças do grupo é considerado por ele como um novo desmame, uma nova separação daquele que nos provê com o que precisamos para viver, num momento em que, de fato, não conseguiríamos por nós mesmos. No entanto, note sua posição em relação ao agarrar-se na “proteção” do grupo: “Todo retorno a essas seguranças pode desencadear no psiquismo ruínas sem proporção com o benefício prático desse retorno”. Ruína não é uma palavra leve para descrever o resultado do recuo, da desistência de se andar para frente. Por fim, ele afirma que: “Todo acabamento da personalidade exige esse novo desmame. Hegel afirma que o indivíduo que não luta para ser reconhecido fora do grupo familiar nunca atinge a personalidade antes da morte. Seriam esses argumentos convincentes para que mães e familiares possam se verem mais respaldados e não se sentirem na obrigação de cuidar e cuidar sem prazo de validade? Veja os benefícios e: . Não tenha culpa de deixar o seu filho ir… . Tenha a generosidade de deixar o seu filho crescer para não precisar mais de mãe. Ao contrário, seja capaz de ser mãe, de maternar, todos os que passam por um momento de desamparo e que, portanto, precisam de mãe. Só nesse momento a mãe deve retornar. Todos nós momentaneamente nos tornamos mães cuidadoras de quem cai em desamparo – não confundir com aqueles que vivem em “eterno desamparo” como quem vive de auxilio desemprego. Seu vitimismo torna-se uma maneira fácil de conseguir ser cuidado a um custo baixo. É só dizer que não dá conta “meeesmo” que todos vêm ajudar. A compaixão é um sentimento fácil de se obter das pessoas. Mas, abra os olhos para esse pedido de ajuda: função paterna nele. Inocule a responsabilização como uma vacina contra a dependência. Sensibilize e faça a “vitima” mudar de rumo. Sair da impotência para a potência que tem e não quer usar. Não, mãe não é para sempre porque dependência não é para sempre. Amigos-mãe também ajudam a manter o estado de dependência a baixo custo que tem sustentado tantos frágeis e infelizes no mundo. Abaixo à família “coró na bananeira”, que vive amontoada, embrulhada em cima dos medos, “cuidando-amedrontando” seus membros, deixando-os cada vez mais assustados diante de tantos perigos lá fora! É bom poder se sentir capaz de existir no mundo por conta própria. De se sustentar materialmente e psicologicamente. Ser um criador inventivo de uma forma única de viver, se comportar, ver, fazer. Ser carne da carne do outro, mas também a sua reinvenção. Se jogar em suas experimentações. Barriga fria de emoção, risco e prazer. Encarnar em seu próprio corpo toda a potência herdada da mãe, do pai, da família e dos amigos que o construíram. Ir pela vida feliz e cheio dessas potências absorvidas lhe sustentando em um corpo livre, leve e solto pelos caminhos da existência.
Repudiar a si mesmo
Repudiar, palavra forte. Seria possível repudiarmos a nós mesmos? Repudiamos tantas coisas, as rejeitamos, reprovamos, repelimos, mas fazemos isso só com coisas externas. Será? Como é a nossa relação com nós mesmos? Somos benevolentes, simpáticos com nossas falhas e compreensivos com nossas mancadas? O risco aqui é confundir isso com um movimento muito comum no ser humano que é o de não se responsabilizar. Que é achar um culpado a fim de livrar sua imagem de algum defeito ou mancha. Fazer de conta que não é conosco, correr das consequências… Tudo isso existe, mas ainda assim a culpa é insidiosa e a pessoa não consegue se convencer completamente de que não tem a ver com o que se quer fazer acreditar. Se desresponsabilizar não funciona como salvação de um ego ferido. Mas isso não é gostar de si, isso é uma fuga de quem não é capaz de se ver errando e por isso nega sua participação. Justamente por não gostar de si, tenta limpar sua barra a qualquer custo. Porque para si mesmo a barra é suja e feia. Repudiar a si mesmo é não reconhecer-se no que tem de bom e de ruim.Repudiar a si mesmo é se renegar, é negar se reconhecer, é se deixar em abandono numa recusa de quem se é. Repudiar é se desaceitar. Pois é, existe o verbo desaceitar. A descrição do inferno é a cabeça de quem se desaceita. De quem renunciou a ser o que é e tenta se encontrar em algum lugar no olhar do outro ou nas palavras de aceitação e reconhecimento. Quando não nos repudiamos podemos habitar os nossos pedaços diversos, sendo tantas coisas sem nos perdermos do nosso cerne. Nietzsche dizia que os homens que não amavam o presente estavam blasfemando contra a Terra, contra a vida, acreditando que sempre em outro lugar a vida será melhor. Que venha um mundo melhor, mas esse que temos pode ser muito mais bem usufruído. Se amamos a vida com o que ela é e nos traz, repudiar a nós mesmos pelos defeitos que temos, e temos mesmo, é um contrassenso. Ter amor pelo presente, pelo que acontece, como é a proposta do Amor Fati nietzschiano, é amar o que está ali, que é você. Não deixe que a expressão “Amar a vida” seja uma expressão abstrata. Amar a vida é amar o que está ali, e a primeira coisa que está ali é você. Amar a vida é amar você que está ali na vida. Parece tão estranho, mas é isso: é amar você que está ali para ser amado, cuidado, sustentado. Por quem? Pela mamãe, papai, marido, esposa…? Repudiar a si mesmo é se deixar em desamparo. Desamparo que não vem de fora, mas origina-se de seu próprio descaso com você mesmo. Amar a si é amar suas fragilidades e pisadas na jaca. É rir de seus tropeços com o carinho com o qual a gente trata uma pessoa querida. Pessoa querida que podemos ser para nós mesmos. Sorriso cheio de ternura para nós mesmos. Prazer em nossa própria convivência. Sentimento gostoso de se ser o que se é e quem se é. Sofremos porque não somos perfeitos e por isso nos repudiamos. Abracemos com carinho, num abraço interno e amoroso, esse ser que nasceu, passará toda uma vida e vai morrer com você. Construa, modifique e melhore esse que é seu verdadeiro amigo do peito – o mais das vezes o maior inimigo que temos – e que mora conosco e nos repele, nos reprova e nos desaceita. Abra os braços e abrace você, usufrua de seu cheiro e suas cores. Ouça o barulho de sua risada, a gostosura de sua mão acariciante, o prazer de andar e se deslocar como pode. Não se repudie. Não jogue luxo no lixo. Renasça, recicle-se, utilize-se de formas novas a cada dia. Desenvolva uma nova relação de amor com você que não seja de repúdio, mas de lua de mel. Sim, tenha um casamento feliz com você mesmo. Só assim ficar bem casado com o outro se torna possível.
Defeitos e qualidades – o que é o quê?
Tenho insistido em uma frase que diz que só continuamos a amar o que confirma e enriquece o nosso eu. Daí a questão de tantas pessoas que vivem juntas, que se encontraram pela vida, reclamarem que “no começo” a relação era tão maravilhosa e depois virou “rotina”. Questiono os termos “no começo” e “rotina”. Questiono a própria explicação do fato do amor mudar. Engraçado é que a mudança é sempre para o mesmo lado: o que era melhor, com a passagem do tempo, piorou. Não só o desenrolar da situação, mas até mesmo as explicações são padronizadas. Por isso questiono o termo “no começo”. Porque é um erro interpretativo achar que o começo é que é gostoso. Discordo dessa ideia! Gostoso é o novo. Ih! Agora consegui piorar a situação dizendo que o novo é que é bom. Então isso não seria o mesmo que dizer “no começo”? Um não seria sinônimo do outro? Muita gente apostaria que sim, que começo e novo são a mesma coisa. Mas novo é cada momento da vida.O seu último dia de vida poderá ser um novo dia, vivido como tal se você não estiver artificialmente agarrado em alguma coisa do passado ou do futuro. O começo das relações costuma ser gostoso porque, durante certo período, funcionamos acreditando e vendo tudo novo. Quando vence o prazo de validade do olhar límpido que enxerga o presente, começamos a olhar esse mesmo presente com os olhos cheios de fantasmas que trazemos dos acontecimentos de nossas histórias e de nossas interpretações de sempre. A partir desse momento, começamos a viver uma relação virtual. Não vemos mais aquela pessoa incrível que mudou nossa vida – por um tempo, lembrem-se. Uma das maneiras que isso aparece é quando, imaginem só, as nossas qualidades antes tão elogiadas começam a virar defeitos. Você era tão expansiva e alegre agora virou uma maritaca faladeira. Você que era um cara circunspecto e tão charmoso em sua compenetração, virou um morcego emburrado. A mulher independente e capaz agora incomoda o homem que se sente “desrespeitado” pela sua audácia e atitude proativa. O homem carinhoso e presente vira um bobo à mão, sempre oferecendo o que o outro não pediu. Mudem os gêneros, troquem os lados, multipliquem as situações e verão que isso estrutura os casamentos. Esse é o caminho que eles seguem. Saindo do começo feliz, passando pelo “desgaste” – outra palavrinha gasta para expressar o que acontece – e chegando até a separação final. Que seja diante do juiz ou num dia a dia sem cor e sem sabor. Falando nisso, voltemos à expressão “rotina”, que é outro termo que de tanto uso virou um trapinho que não explica mais nada para as pessoas mais atentas. Rotina não tem que ser repetição. Gente, acorda! Rotina nada mais é do que um dia novo após o outro. Rotina não é repetição. Rotina é renovação. É a possibilidade de viver e fazer de forma diferente, a cada dia, as mesmas coisas. Ou coisas novas. Porque, simplesmente, um dia não tem como ser igual ao outro. Só se a gente disser que é e ficar se convencendo disso, mas, a rigor, o dia que nasce é sempre novo. Você só vai ao trabalho pelo mesmo caminho e faz tudo “igual” – entre aspas mesmo porque não dá para fazer nada igual – se quiser crer nisso. A rua não é a mesma de ontem, nem as pessoas, nem a música que toca no rádio, seus pensamentos agradáveis hoje eram tristes ontem e por aí vai… Podemos fazer aparentemente as mesmas coisas, mas nosso universo interno, nossos pensamentos e sentimentos nos fazem sentir que aquele momento e aquele dia é único. Rotina não existe, acredite se quiser. Cada dia que nasce é novinho em folha para ser vivido conforme sua escolha de estar presente. O presente que a vida nos dá é o presente! Viva-o ou viva morto.
Os sem-teto e os sem-pele
A primeira palavra que me vem ao pensar em sem-pele é uma outra bem parecida e que ressoa em minha mente: sem-teto. Só parecida não, sinônima. Os sem-pele são pessoas que não habitam seu próprio corpo, são os sem-teto de si mesmos. Eles são despossuídos de um lugar subjetivo que seja seu e vivem olhando ao redor e se apossando da vida de quem está por perto. Geralmente as pessoas mais chegadas são as vítimas preferenciais. Os sem-teto precisam de uma casa para morar. Necessitam de abrigo como todo ser humano. Querem um lugar para chamar de seu. Mas o lugar que percebem como seu está lá no outro. Estranho falar dessa forma, mas repare os atos das pessoas ao seu redor que você confirmará a esquisitice operando em seu dia a dia. Vou tentar dar uma imagem dos sem-pele. São pessoas que, por exemplo, quando você está dirigindo o carro vão falando tudo o que você deve fazer. Dar uma ou outra sugestão, ou chamar a atenção para um perigo que você não está vendo é bem vindo. Ninguém dá conta de tudo mesmo. É bom contar com a ajuda amiga e respeitosa dos que lhe rodeiam. Mas aquela história de ter um robozinho tipo GPS humano lhe guiando sem colocar as mãos no volante é outra coisa. As mãos são as suas, mas quem está dirigindo é o sem-pele do lado, que está usando o seu corpo para a execução da tarefa em curso. Você vai fazer ou está fazendo algo e lá vem um sem-pele desavisado dizer como você deve fazer ou não. Você pode se perguntar em desespero por que será que o outro não vai fazer o que lhe compete. Porque não tem corpo, ora. Está usando o seu para realizar, para fazer, para existir. O nosso corpo próprio é meio apagado mesmo para todos nós. Isso é resultado da forma em que nos unificamos em nossa cultura. A “unificação” é um termo da psicanálise lacaniana que quer dizer que nos vemos como um todo, um corpo completo. O verbo ver é bem escolhido porque é por meio da visão prioritariamente que nos reconhecemos como um corpo. Quando no sétimo mês de vida o bebê consegue focar bem as imagens, ele vai se dando conta de que é um ser humano e pertence à categoria da mãe, que é aquela presença constante. Percebemo-nos como um corpo primeiramente no espelho que é o corpo do outro. Não é mesmo verdade que só nos vemos no espelho? Precisamos de uma superfície refletora de nossa própria imagem para nos enxergarmos. Normal. É assim mesmo. Mas por que estar “grudado” em tudo que o outro faz? Por que esse sentimento de que tudo que o outro é tem a ver com a gente. Por que o que o outro faz nos afeta tanto? Porque não temos corpo separado. Sentimos o corpo do outro como se fosse o nosso pela nossa formação na imagem. Somos sem-teto, sem moradia subjetiva, ou seja, sem-pele porque temos dificuldade de entrar em nossa própria casa. É mais fácil cuidar do que está lá fora. Do que eu vejo e não do que não vejo. O que fazer para ter pele? Entrar. Entrar dentro da própria vida. Estar separado e só com suas escolhas, seu modo de ser. Entrar na própria pele, viver a própria vida junto com outras vidas e não dentro dos outros corpos. Buscar sentir o que quer, perguntar a si mesmo e não ao outro. Não é o outro que sabe de você. É, mas isso dá solidão… Solidão ou autonomia? Autonomia é uma bela palavra e uma maravilhosa experiência. É só com ela – que é a sua pele emocional – que podemos viver juntos, porque já estamos separados. Se temos pele, temos corpo. E só assim podemos prescindir de tentar entrar no corpo do outro para viver a “nossa” vida. Imagina entrar no corpo do outro para viver a nossa vida! Muito estranho! Ser sem-teto é muito ruim. Ser um sem-pele é pior ainda.