Novos pais, herdeiros dos filhos
Luciene Godoy // Podemos dizer que os pirralhos estão metidos demais? Que não sabem de nada da vida? Que não têm respeito pelos mais velhos? Ou conseguiremos ver que eles funcionam de uma mesma perspectiva: estão cuidando de si, mostrando o que pensavam sem ficarem paralisados diante do que o adulto propõe? Será que podemos dizer que os pais estão perdidos e os filhos nem tanto? Para a geração anterior, as palavras dos adultos eram verdades pesadas. Até mesmo quando nos rebelávamos contra elas o fazíamos pagando o terrível preço de desafiar as certezas inquestionáveis dos adultos. O que custava, às vezes, uma vida inteira de culpa e fracasso por lutar contra a nossa “escolha errada”. Os mais velhos, quando vinham nos dar conselhos, o faziam do lugar de quem sabia o que deveríamos fazer. E o discurso que mantinham era sempre o de quem estava certo na vida. No modelo social das relações verticais de poder, o adulto não admitia sua falha para o jovem, senão ele – o jovem – perdia o respeito por quem deveria ser o seu guia. Como ninguém chega a dar conta de viver 24 horas por dia cumprindo um ideal, frequentemente aconteciam as incongruências, muitas vezes denunciadas pelos filhos, mas negadas pelos pais. Os papéis eram bastante exigentes e os pais, em sua fragilidade humana, se esforçavam para sustentar o que se esperava de “bons pais”. Muitas vezes ficavam perdidos tentando afirmar valores fixos e se enfiando também na forma, acreditando que aquele era o bom caminho. Claro que isso gerava filhos confusos, e que – e esse era o pior malefício – não conseguiam acreditar em suas próprias percepções. Abriam mão delas para se forçar a ver o que “deveria” existir, mas que só estava sendo falado e não vivido. Sem poder acreditar em suas próprias percepções, sendo os pais os donos da verdade, ao filho nada mais restava do que obedecer. Hoje os filhos estão podendo ver e afirmar o que percebem sem os pais terem que saber por eles. Estão, desde muito cedo, sob a influência de diferentes meios sociais, recebendo informações que facilmente ultrapassam as que os pais lhes fornecem. Você se dá conta de que, pela primeira vez na história da humanidade, a geração mais nova pode ensinar alguma coisa à mais velha e não simplesmente ser envelhecida – ou muitas vezes corrompida por ela? Sim, é assustador, mas é verdade. Estamos aprendendo descaradamente com os nossos filhos. Podemos herdar deles o olhar novo que o adulto padronizado perdeu. Nunca antes a humanidade pôde viver essa troca, só possível hoje pelo momento histórico da existência de um saber horizontalizado. Há cada vez menos a posse exclusiva do conhecimento. O saber está no ar. Aproveitemos! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, em 22 de março de 2015.
Miseráveis valentões
Luciene Godoy Já escutei muito aquela piadinha: “O pai leva um chute do patrão, chega nervoso e dá um chute na mãe. A mãe fica irritada e dá um chute no filho. O filho, revoltado, dá um chute no cachorro. O cachorro chuta o gato”. Termina por aí essa história. Para nós, na vida real, talvez não se dê muito diferente. Temos estado assustados com a violência “gratuita” exercida contra nossos filhos adolescentes. Dia desses, aconteceu com o filho de 15 anos de uma amiga que estava em frente de sua casa mandando mensagens pelo celular. Parou um carro com dois rapazes, um saltou e começou a chutar e a espancar o garoto, que conseguiu fugir, entrar em casa e fechar o portão. Não sem antes ter levado uns pontapés e murros e ter sua calça rasgada quando caiu diante do primeiro ataque inesperado. Minha amiga chamou a polícia, fez a ocorrência e tudo mais. Nossa! Então agora é assim? Antes os marginais agrediam os marginais. Depois começou uma história estranha de adolescentes de classe média atearem fogo em mendigos. De “filhinhos de papai” agredirem homossexuais. Agora, esse mesmo tipo de adolescente – provavelmente gerado em um lar mais ou menos igual à maioria dos da sua classe – sai por aí espancando os iguais? Essa é a novidade: os adolescentes violentos (na rua, porque em casa muitas vezes são calmos e até meio ausentes) não mais espancam os “marginais, infelizes da vida”. Espancam os iguais. Alguns dizem que eles estão passando para frente a violência que recebem em casa. Estão mesmo? Se pensarmos que a sutil ausência de um pai e de uma mãe é uma violência, podemos, sim, dizer que essa é uma violência da qual eles sofrem. Se pensarmos que os pais e a maior parte das mães de hoje, ocupadíssimos em ganhar mais e mais dinheiro para o consumo de todos, não têm muita disponibilidade para estar de fato presentes com os filhos, isso é uma violência. Podemos pensar que é um tipo de violência a existência de pais culpados e sem energia – que foi gasta na luta para ter cada vez mais, pagar colégios bons, cursos disso e daquilo – que não disciplinam seus filhos, deixando-os à mercê de seus próprios impulsos descontrolados. Impulsos que necessitam do trabalho psíquico que só a presença de um adulto pode oferecer para desenvolver na criança e no adolescente a segurança e a autoestima que lhe proporcionarão bem-estar e serenidade para habitar o próprio corpo em paz, sem precisar jogar no outro o seu “kakon” – as suas fezes não processadas, o seu sofrimento interno não compartilhado com os de casa. Vivem num mundo familiar de relações tão pobres que têm que sair por aí colecionando ataques a outros corpos, semelhantes ao seu, até para fazer um teste de realidade – como no filho de minha amiga, indefeso naquele momento. Indefesos são os que fazem isso também porque, não sendo filhos de favelados, analfabetos e miseráveis, se revelam miseráveis de alma. Miseráveis de investimento afetivo real, com a presença de alma que não pode ser substituída por iPhones, iPads, etc. Batem nos desamparados para, em se vendo neles, destruí-los, numa tentativa inglória via espelho de se sentir diferentes. É uma violência própria do narcisismo. Do fato de ver no outro características que não suporta ver em si mesmo e que nenhum adulto o ajudou a elaborar de outras formas. Na sociedade do hiperconsumismo, os pais que têm grandes despesas com os filhos e acham que “estão dando o melhor” para eles estão apenas caindo no conto do “compre mais”. Presença não se compra em nenhum shopping center do mundo. Olho no olho e sorriso de real satisfação em estar junto, em descobrir coisas, em viver momentos banais com carinho, talvez custem apenas deixar de lado alguns “sonhos de consumo” e simplesmente viver cada momento. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 13 de março de 2015.
Boca sem corpo
Luciene Godoy Alguma possibilidade de existir uma boca sem corpo? Uma boca sem um corpo que a carregue, que a siga e que honre o que ela diz? Existe! E em uma quantidade assustadora. Você conhece uma frase muito utilizada quando se chega a um impasse nos atos de alguém: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”? Essa é a descrição de uma boca que fala algo cujo corpo nega. O corpo faz diferente daquilo que prega a solitária boca-sem-corpo. No século 20, que se sustentava num modelo vertical de relações de poder, cada um que detivesse tal posição, para existir, precisava mantê-la ao preço de se enquadrar a um ideal. Fosse a pessoa como fosse, teria de entrar no papel que se esperava dela e se enquadrar ao modelo fornecido pela sociedade para cada um desses papéis. Se o corpo quisesse participar era outra história, isso não entrava nas contas. O pai, por exemplo, precisava cumprir o modelo de comandante – o pátrio poder ; o pai que tudo sabia, que tinha o poder de fazer e desfazer, que gerava a famosa frase da mãe-rainha-do-lar: “Quando seu pai chegar você vai ver”. A mãe, dedicada ao lar e aos filhos, amorosa e nervosa, padecia no paraíso. Os dois conduzindo sua ninhada sabendo que “tinham que” aguentar firme e dar todas as respostas. Quando não sabiam, faziam de conta que não tinham dúvidas. Tinham que bancar os fortes para os filhos não fraquejarem e, horror maior, para que não os “desrespeitassem”. Então, foi essa história de adulto mandar o jovem fazer algo que nem mesmo ele fazia que gerou a frase: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Ela mantém um pouco a dignidade do adulto que, mesmo não fazendo, se mantinha no posto de poder, de ter que ensinar o que era “certo” – leia-se o que era padrão. Lacan, nos últimos anos de sua vida, ensinava aos analistas que, para saber de alguém, para saber de seu desejo, era muito mais eficaz olhar para onde os seus pés estavam indo – para o que o seu corpo estava fazendo – do que escutar aquilo que estava falando. É que, mesmo tendo de obedecer às regras, o corpo continua a querer gozar. Existe um prazer de fazer com o corpo enquanto a boca fala o que é aceito pela sociedade, é essa a divisão. Quando falamos algo e fazemos outra coisa, a boca falou, mas o corpo não obedeceu, A boca não mandou no corpo – boca sem corpo. É que a boca fala o que vai nos deixar bem com o outro enquanto o corpo faz o que vai nos deixar bem conosco. Ao viver nessa cegueira, sem fazer escolhas, fazendo e negando, vivemos de uma forma conflituosa que nos leva a nem gozarmos da aprovação do outro e nem do que o corpo gosta de fazer. Sustentar o que dizemos quando é para nos deixar bem com o outro dá uma meia alegria, a alegria de agradar e de ser aceito, mas nos deixa nas mãos do outro. Sustentar o que se é e fazer o que se quer é o manjar dos deuses da existência. Podemos escolher ser o infeliz do padrão – o que obedece para ser aceito – ou o feliz da singularidade, aquele que se coloca no mundo como é mesmo, único, diferente de todos. É dar existência a si mesmo fora do padrão, sendo o que se é. Exatamente como gozam os artistas, que criam algo estranho e só seu, o apresentam ao mundo para que possa ser integrado como enriquecimento e passar a fazer parte de um universo que foi mudado ao acolher mais um novo objeto. Assim podemos ser todos nós obras de arte vivas e únicas, nem de longe perfeitas, trocando com outras obras de arte únicas que são cada ser humano que existe – embora muita gente não saiba disso e por essa razão permaneça tão feio e descuidado de si. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 6 de março de 2015.
50 tons de dor e prazer
Luciene Godoy Tem gente pensando que os tons de cinza se referem à cor das gravatas que o biliardário Christian usa para amarrar sua amada, garantindo um corpo à sua mercê durante o sexo, no filme Cinquenta Tons de Cinza. Se assim fosse, não faria o menor sentido a protagonista Anastásia se referir ao amado como “o meu Cinquenta Tons”. É que a autora joga, linda e poeticamente, com a polissemia da palavra – só possível no inglês, língua em que foi escrita a história. Fifty Shades of Grey – título original do livro e do filme – pode também ser lido como “cinquenta sombras do Sr. Grey”, nome do protagonista, mas também o nome da cor cinza. Ele mesmo diz que o cinza fala das 50 maneiras que foi “fodido” – leia-se: maltratado – na primeira infância, quando, até os quatro anos, viveu com uma mãe prostituta e viciada em crack. Além de “tom”, o shade do inglês pode ser também traduzido como “sombra”, que é o nome que damos para a ausência de luz, algo inexistente, portanto. Mr. Grey é o Sr. Sombra, é “algo inexistente”, é a ausência de um corpo. Se Christian Grey é uma sombra, ele não tem corpo. Mas pode usar o de alguém. De quem? Só serve o da amada, na qual ele se reflete para ter existência de corpo num corpo que pode ver diante de si, já que o seu é um vazio, uma sombra. O ser humano tem um funcionamento psíquico reflexivo que Lacan chama de “Registro Imaginário”. Nele, todos nós, com maior ou menor intensidade, adquirimos existência através da visão do corpo do outro. Esse é um fenômeno próprio do ser humano que faz parte do nosso psiquismo, instaurado no “Estádio do Espelho” e cuja forma de expressão mais intensa é o que comumente chamamos de apaixonamento. Pois é, não se assustem, mas todos nós, quando nos apaixonamos, fazemos do corpo do amado a nossa moradia psíquica. O corpo do ser amado – que eu posso ver, e paixão é fruto do olhar – é tomado como o corpo próprio. E o que acontece nele é sentido como se estivesse acontecendo no meu. Quando Anastásia pergunta a Christian qual é o prazer dele, ele diz que adora ver a pele branca dela se tornando cor de rosa debaixo de suas mãos (e ele, que precisa tanto de pele e de corpo, deve mesmo ficar fascinado ao ver a vida rosa surgindo da pele da amada pelo toque forte de suas próprias mãos – é criar um corpo para existir nele). Porém é ela que dá os limites (o que, afinal, cabe a cada um de nós em nossas relações amorosas) do que lhe dá prazer ou dor, que, claro, também dá prazer – veja quanta gente saltando de uma doença a outra numa relação interminável de gozo em conseguir vínculo pela dor. Christian também lhe responde que estar no controle máximo sobre a outra pessoa o excita. Isso também é uma forma de estar no corpo dela, como o cérebro comandando o corpo. Ele entra com o mental e ela com o corpo obediente (e extrai um ganho da obediência, é claro). Essa é também a descrição do que chamamos de díade entre a mãe e o bebê: a mãe entra com o psiquismo e o bebê com o corpo. É isso que acontece entre o casal e por isso todas as sensações são tão intensas, misturadas de dor e prazer, passadas numa situação que remonta ao início de nossas vidas psíquicas nos primeiros encontros com o corpo do outro. Encontro que no caso dele foi muito doloroso e por isso a inclusão da dor na cena amorosa. Tudo isso faz parte do encontro apaixonado? Faz sim, com nuances não só cinza, mas amarelas, vermelhas, verdes… Todas as cores matizes do que é próprio da sexualidade humana, que é, como tudo mais, construída a partir de nossas circunstâncias e escolhas. Sustentar o encontro amoroso num mundo de prazer, de descobertas e compartilhamento de cada novo dia, é a nossa construção na obra de arte que pode se tornar o encaixe de um corpo no outro, de uma vida na outra. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 27 de fevereiro de 2015.
Depois da felicidade, a tristeza
Luciene Godoy // Quem tem medo de ser feliz? “Ninguém”, responderão, “todo mundo almeja a tal felicidade”. Muitos afirmam que ela não existe, mas isso como estado imutável de bem-estar. Nessa eu também não acredito pelo simples fato de professar minha profunda crença na pulsação de todas as coisas. No movimento de vai e vem, de tenho e não tenho, de existe e não existe. Quando ela, a desejada felicidade, acontece, o que normalmente ocorre com a gente? Se pegos de surpresa, até podemos embarcar meio que no susto, sem dar tempo de refugarmos, pelo racional de mil explicações ou qualquer outro mecanismo. Porém, quando ela é pressentida – e essa é a mais perigosa -, se der, a gente estraga. Se houver tempo, a gente corre dela. Perigo à vista. Já que somos seres inteligentes, não fugimos de coisa boa, não é mesmo? Claro.Fugimos da felicidade é quando ela é vislumbrada como o começo da desgraça – depois dela o sofrimento será maior ainda. Depois da farra do carnaval, depois da festa ou da viagem, parece que o mundo perde a cor. Dá um banzo. Questiono sempre. Será que a vida é assim mesmo ou é assim que a temos vivido até agora? Há uma passagem para ser feita na pulsação das diferentes posições que tomamos ao longo de nossos dias: preparamos uma viagem maravilhosa, vivemos tal viagem, voltamos dela e retomamos nossa vida cotidiana agora com mais uma “maravilhosa viagem” dentro de nós mesmos numa vida mais rica para sempre. Mas por que a tristeza depois de grandes alegrias? Há uma química, sem dúvida. Química corporal a ser administrada, como é o caso da TPM. Que existe a mudança hormonal no corpo, é fato, mas a maneira como ela é percebida é que faz toda diferença. Se estiver no meio de uma vida que tem margens para acolher a dificuldade, ela não tomará proporções de grande incômodo. Será apenas uma pulsação, uma variação, como acontece na música. Nossa vida é música que toca em harmonias diferentes, em tons, sons, silêncios que nos dão algumas das maiores delícias em nossa existência. Por que não seria também deliciosamente surpreendente a pulsação de cada dia? Temos o maior prazer no novo, no inesperado, admitamos. O pão nosso de cada dia é a pulsação, são as variações. Não ficaremos para sempre no mesmo estado de espírito. Devemos vivê-los na sequência em que se apresentam, podendo dar diferentes respostas. Será que ainda tem quem se sente culpado de estar feliz? Parece coisa da Idade Média. Medo do fogo do inferno? Claro que não. Os medos são outros hoje, mas ainda se tem medo de pagar caro por estar feliz. Tem os olhares de reprovação, de “tira o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. E a famosa frase “post coitum omne animal triste est” (depois do coito o homem é um animal triste)? Que horror! Mas parece que muita gente acredita nisso, que muita gente vive isso. Depois do amor, no que poderia ser um imenso relaxamento de corpo e alma, fica uma tristeza fazia. O que seria isso? Culpa, sentimento de que fez algo errado ou simples incapacidade de administrar, de gerir suas emoções, sua química dos altos e baixos? Somos seres eletroquímicos, temos um corpo com uma química que é determinada pelo modo que interpretamos cada fato, cada objeto. Se digo para mim mesmo que o ocorrido foi lamentável, uma tristeza toma conta de meu corpo; se, ao contrário, digo que foi uma linda resposta, meu corpo se inunda de uma química de bem-estar. A interpretação é o que vai determinar que tipo de química você terá correndo em suas veias e inundando seu corpo de angústia e de tensão ou de tranquilidade, alegria e energia. Somos responsáveis pela interpretação que damos e é ela que deflagra as sensações corporais, que são químicas, agradáveis e desagradáveis. Bom saber que até isso é a gente que escolhe. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 20 de fevereiro de 2015.
Nem junto nem separado
Luciene Godoy // “Tanto os apaixonamentos quanto as separações da nossa vida amorosa são decididas por dinâmica que pouco tem a ver com os defeitos do outro… ou com as circunstâncias”, afirma Contardo Calligaris em um de seus artigos. Em outras palavras: as razões das separações vêm de dentro e não de fora. É como se altos e baixos em nossa vida amorosa fossem, antes de mais nada, a expressão de um conflito entre liberdade e apego que está em nosso âmago e nunca se resolve”, continua ele. Cada vez mais vamos nos dando conta de que é aqui dentro de nós que tudo se resolve, ou não. O ser humano do jeito que o conhecemos hoje, e acreditamos piamente que esse é o seu funcionamento, passa a vida toda nesses conflitos “normais” e infindáveis. Será que tem que ser assim? Continuo citando Calligaris: “talvez a gente se apaixone e se separe, sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito entre nossas aspirações de navegador solitário e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez”. O que ele chama de “antigo conflito” e “nostalgia da fusão” nos conduz para as raízes, a origem, de algo que passamos a vida toda repetindo. Veja bem, o conflito que se põe é entre prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar… Toda a nossa vida segue esse movimento permanente. Na primeiríssima fase de nossas vidas, vivemos nove meses no “planeta-água”, parasitando o corpo da mãe, vivendo envolto num tipo de pele que era o corpo que nos abrigava. Um casulo protetor. De repente, não mais que de repente, tudo se rompe. Vai tudo por água abaixo, inclusive a água que nos cercava. O “planeta-ar” vem em seu lugar. Ar é nada. Ar não se sente. Ar é vazio. Cadê tudo que nós tínhamos? Sumiu. Tudo que era se perdeu. Tudo que me prendia se soltou. Estamos soltos no ar. Cadê todos os barulhos que ouvíamos? Cadê a calefação que nunca falhou? Cadê o doce balanço que nos embalava todo o tempo? Sumiram, de repente. As últimas pesquisas em neurologia e psiquiatria perinatal que estuda a constituição da vida psíquica dos fetos e recém-nascidos nos informam que nos primeiros três anos de vida o cérebro do ser humano realiza mais conexões neurais do que na idade adulta. faz mais ligações neurais do que pelo resto da sua vida. Será que o maior corte que recebemos na vida – a saída de um mundo interno para outro externo – não traria consequência imensas? Agora que já se sabe o quanto os bebês sentem, inclusive dor, muita dor (ao nascer, somos hiperalgégicos por não termos ainda inibidores para dor funcionando eficazmente), agora que sabemos das competências de sensibilidade que o ser humano começa a ter já na sétima semana de vida intrauterina, será que poderemos levar mais em conta o sofrimento, a angústia (segundo Lacan) e a agonia (segundo Winnicott) da perda do suporte corporal que era nosso universo? Éramos parasitas de um corpo que nos é tirado abruptamente. Tem jeito de ser de outro modo? Essa é a proposta de minha pesquisa sobre “O desmame do corpo da mãe”. Ela deu origem à ONG Bebê Canguru, que tem como objetivo conscientizar as pessoas da imensa necessidade que o bebê tem desse amparo que vai intermediar a saída do “planeta-mãe” para o planeta Terra: a bolsa canguru. Não temos registro dessa ajuda, dessa dependência para depois construirmos a saída da independência. Simplesmente somos jogados para fora. O que nos leva a passar a vida tentando entrar novamente – o que todo mundo quer é voltar para o útero materno – porque não se aprendeu a gostar de viver com esforço, com movimento próprio. As questões de prender-se e soltar-se, de sair e voltar, têm suas raízes em um momento inaugural em que as percepções cinestésicas – de tato, calor, ritmo – funcionavam com gigantesca força. É nesse momento que sofremos nada menos que a pior perda da vida. Como não temos o processo de desmame, são só dois movimentos: temos tudo, perdemos tudo. E não conseguimos ao longo de toda vida dar conta de viver essa experiência nas incontáveis vezes que somos chamados a passar por ela. Não conseguimos ter e não conseguimos perder. Não conseguimos ficar juntos e nem separados. Sina de quem não aprendeu a ter e nem a perder no desmame-do-corpo-da-mãe e vai passar a vida toda feito alguém atropelado por um caminhão, tonto, sem rumo, tristemente filosofando: “Onde estou? Quem sou? Para onde vou?” — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 13 de fevereiro de 2015.
Desfrutar das próprias qualidades
Luciene Godoy // Quando pequena costumava ouvir com prodigiosa freqüência uma frase atribuída a William Shakespeare dita: “A beleza só é bela quando ingenuamente ignora a si mesma”. Passei toda a minha vida adorando e louvando a tal frase. Dia desses me peguei de surpresa pensando: então, não saber o que se tem de belo é bom? Então, ignorar as próprias qualidades é uma virtude? Parece que a busca do saber quase sempre trouxe consequências funestas para o curioso, o ambicioso de conhecimento. Prometeu recebeu de Zeus o castigo de ter seu fígado comido pelos abutres. A cada novo dia, ele, acorrentado a um penhasco, imobilizado e impotente, testemunhava a destruição de suas próprias entranhas. Castigo pior que a morte. O pecado? Ter roubado de Atena a inteligência para compensar todas as fragilidades físicas do ser humano, uma vez que seu irmão, Epimeteu, já havia distribuído entre todos os animais todas as qualidades para a sobrevivência de cada espécie e o homem tinha ficado no desamparo. Saber é perigoso. Saber dá poder. Será que é esse o perigo do saber? O fato de ele nos conferir poder? Sim, sem dúvida isso também existe, mas não parece ser esse o espírito da frase em questão. “A beleza só é bela quando ingenuamente ignora a si mesma” é uma mensagem para desencorajar o leitor a se tornar um vaidosopresumido. Será que reconhecer as próprias qualidades sempre torna as pessoas pretensiosas? Mas, por que o ser humano tem que ficar mais feio quando começa a ver que tem qualidades? Essa história tem mais a ver com uma outra frase: “O dinheiro, quase sempre, empobrece as pessoas”. Dá para expandir a ideia para: “Qualquer qualidade excepcional que alguém tem e passa a perceber torna-o menos do que era na ignorância de sua posse”. Por que, afinal, “o dinheiro torna as pessoas mais pobres”? Pelo fato de terem a certeza de tê-lo. O inteligente, idem. O bonito, também. Quando o ser humano passa a ter uma certeza inabalável da posse de algo, ou de alguém, ele deixa de duvidar e de cuidar. Perde a relação com a condição humana que é não ter segurança de nada, já que nem sobre a nossa vida e morte temos comando. A cada passo que dá certo, celebramos e “vamos passear na floresta enquanto seu lobo não vem”. Enquanto a morte, a doença e as perdas, não nos alcançam. A pobreza toma o lugar da riqueza quando aquele que conquistou algo se torna o “pobre conservador de sua conquista” e passa a ser o vigilante carcereiro das riquezas que tem que manter a qualquer custo. Deixou de ser solto. Deixou de ser livre. Deixou de não saber – condição tão humana. Virou sabe tudo, tem tudo, pode tudo, conquista tudo e aí… vira pobre. Perde a beleza da dúvida e da incerteza. Vira animal empalhado e fica feio e sem vida. Já tem, já é, já sabe. E, para manter a sua condição imutável, rouba no jogo para fazer de conta que a vida não anda e para se enganar que sua condição está e sempre estará vulnerável. Toda conquista é temporária, é ameaçada, é um presente momentâneo; por mais longa que seja, vai acabar, nem que seja quando acabarem nossas vidas. Poder se saber belo, endinheirado, brilhante, potente e degustar esses atributos com a modéstia dos que se sabem frágeis, com a gratidão dos que sabem que tudo passa, que o que têm só existirá em seu usufruto e não trancado a sete chaves para que ninguém lhes tire. Assim, a beleza poderá continuar bela num rosto que se sabe belo, mas também muitas outras coisas e todas não garantidas. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 6 de fevereiro de 2015.
Eu? Vítima?
Em julho desse ano será realizado em Bruxelas o 3º Congresso Europeu de Psicanálise, cujo tema é “Victime” Será um congresso só sobre… vítimas. Seus organizadores afirmam que, sendo tomada como sintoma ou causa, a palavra vítima tem servido para intensas e múltiplas utilizações na sociedade consumista pós-moderna. Vítima do calor ou do frio, da chuva ou da falta dela. Vítima do cansaço eterno e da doença que espreita. Vítima do seu trabalho e dos políticos. Já se perdeu a noção entre grandes e pequenas coisas, de forma que o sentir-se vítima pelo atraso do avião ou pelo acidente que ocorreu parece não ter muita distância. Tudo fica do mesmo tamanho: enorme. Na esfera pessoal, somos facilmente vítimas das cobranças de alguém, do mau humor incontrolável do outro ou da desatenção geral. “O que posso fazer?” “Reclamar e me sentir vítima de algo ou de alguém” – parece ser a resposta dada. Ser vítima ficou tão comum e invisível que se tornou uma moeda de troca social. Se você não tem o que dizer, não se tornou uma pessoa com qualidades para atrair, para encantar e seduzir – o que dá um certo trabalho – não tem problema. Não vai fazer falta. É só sacar da manga uma reclamação qualquer de alguma coisa que a relação flui. Assim fica fácil, né? Sim, fácil e improdutivo. Fácil e estagnado. Assistir aos noticiários nadando de braçada entre as informações das últimas catástrofes é ótimo para a gente se sentir a vítima acuada, mas que dessa se safou. A próxima pode ser você, mas até agora é alívio. Tem carne fresca no açougue: caiu um outro avião, uma bomba explodiu num shopping nesse momento, naufragou tal navio nessa manhã, um tufão na noite passada matou tantas pessoas. E isso tem algum frescor? Tem alguma novidade? O avião caiu mesmo? Quantas pessoas morreram? Qual foi a causa? E o culpado? Achem o culpado! O interesse passa, e muito, de meramente ser informado e lamentar pelos desafortunados. Essa repetição insana nos mantém desocupados da nossa própria vida. Ou melhor dizendo, ocupados conosco nos comparando com o de fora. Não se (pre)ocupe com as mazelas alheias porque as suas também chegarão, e só nessa hora será a hora de se ocupar delas. Num mundo que desconfia das regras e das instituições, como o nosso, que não mais ingenuamente tem a certeza da justiça, num mundo sem parâmetros fixos, ficam homens e mulheres mais sujeitos ao discurso do impotente porque desprotegidos da segurança do pai. A crença em um outro poderoso não nos sustenta mais. Parece que não há mais valor e garantia em simplesmente ser homem. E isso para os próprios homens. Parece que não existem mais homens como antigamente para as mulheres – as mulheres não topam mais se mascarar para sustentar a potência masculina. Desvalor de lá e de cá os instala na posição passiva de vítimas. Mulher ser vítima é a posição por excelência ocupada por ela na sociedade patriarcal – com e sem razão, Quantas mulheres fortíssimas fizeram muito por não se verem como menores. Mas a raiz disso é que somos vítimas sutis de uma “impotência de base” desde o nascimento. A violência da troca do mundo intrauterino para o “Planeta Ar” de forma tão abrupta nos deixa sem conseguir achar prazeroso fazer esforço. Parece que não damos conta, só o outro dá. É lá que tudo de bom ou de ruim acontece. O que se contrapõe ao vitimismo, por mais sutilmente disfarçado que seja ele em nossas vidas, é tomar para si a potência do “é comigo mesmo e eu dou conta”. Falamos que “é o dono do defunto que pega na alça do caixão”. Isso, tomado de outra forma, pode virar: “É o dono da vida que faz as coisas acontecerem”. É aqui dentro do nosso corpo que todas as coisas são resolvidas, ou não.
De perto todo mundo é feio
“De perto, ninguém é normal”, cantou nosso querido poeta Caetano Veloso num tempo em que ser normal significava dizer “ser saudável”. Ser igual ao esperado. De perto, todo mundo mostra o quão doente é emocionalmente. De perto, vemos a excessiva preocupação de quem achávamos tão tranquilo ou a pão-duragem daquele que nos passava a impressão de generoso. O homem tão forte, de perto, fica infantil em suas exigências prepotentes. A mulher tão delicada e prestativa vira uma insistente enfermeira, professora ou mãe-de-adulto de plantão (e nada mais triste e anacrônico do que mãe-de-adulto). Isso existe? Existe. De fato, existe. Por isso, além de doente – o não-normal do Caetano –, todos ficam tão feios de perto… Tão sem brilho, tão sem áurea, tão sem magia. De perto, todo mundo é feio. Não tem dúvida, é fato. Tem um mistério nessa situação, porém. Conheci um estudante de direito de uns 30 anos que se confessava muito intrigado com um certo fato que se repetia em sua vida. Uma colega de curso lhe fazia queixas sobre o marido: “Aquele traste, aquele sem noção e mal cuidado”. Alguns colegas homens que iam mais ou menos pelo mesmo caminho afirmavam que suas mulheres eram cansativas e enfadonhas, que já nem tinham mais vontade de ficar perto delas. Mas quando, por uma ou outra razão, chegava a conhecer o cônjuge mal falado, levava um choque. Geralmente, era um cara super gente boa, agradável, bem apessoado, com tudo para agradar o gênero feminino. A mulher, idem. Muitas das vezes bonita, bem cuidada, bem humorada e cheia de vida. E essa conta não fechava, não só não fechava como nem chegava perto do que lhe tinha sido dito. É que ele, ingênuo, nem desconfiava de que se tratava de um caso de “intimidade indecente”, “intimidade deformadora e desrespeitosa”. Se chega perto, começa a estragar tudo. Fica muito tempo junto, o que é bonito começa a enfeiar. Por quê? Porque as pessoas que ficam muito perto da gente viram nosso “eu”. E o “eu” é visto por nós como muito feio lá no mais fundo de nossa alma. Porque o “eu” não é perfeito e para o narcisismo, a relação que passa pelo espelho, tudo que não é perfeito é feio. E ainda tem o “supereu”, que não é imagem, mas é regra internalizada, e regra que exige também perfeição. Então ele nos cobra e critica o tempo todo apontando todas as mancadas que damos, e, já que mancamos para caminhar a cada passo, pois ninguém tem pernas absolutamente simétricas, falhamos a cada passo e isso não tem perdão para nós mesmos. Podemos disfarçar e buscar a absolvição do outro, dos elogios tão cobiçados que vão nos arrancar do poço do desvalor. Mas as estratégias têm vida curta, pois logo na esquina seguinte já estamos nos cobrando de mais alguma pisada na bola. Então é isso: quem chega perto vai ficando feio porque o confundimos com o nosso “eu” feio e maltratado. Tentamos fugir dele nos distraindo com diversões, belezas, surpresas que nos arrancam momentaneamente de nosso sentimento de menos valia. O “eu” é uma instância projetiva, é um espelho. Nós só nos vemos nos olhando no espelho – superfície refletora – ou para o olho de outra pessoa que nos diz, pela sua reação, como estamos na foto. Por isso, o outro que se torna próximo vira “eu”. Quem é que, ao olhar sua imagem refletida no espelho, vai dizer que aquela imagem é do outro? Vai dizer, isso sim, que aquela imagem é de si mesmo e pode tomá-la facilmente pelo seu “eu feio” do qual o outro – mesmo tendo as qualidades que tiver – vai ser o reflexo. O reflexo de alguém que, se sentindo feio, dirá que é o outro, o feio que está por perto. E ele? Ah, ele continuará lindo! Enganando a si mesmo que não se acha feio. Feio é o outro.
Medo de aprender?
Será que existe tal coisa, medo de aprender? Será que não seria medo de sofrer, de adoecer, de se arrepender, ou qualquer outro coisa do gênero? Ninguém tem medo de aprender, não. Seria aceitável dizer que tem muita gente com preguiça de aprender ou que não tem “força de vontade e disciplina” para o “esforço” exigido para a atividade da aprendizagem. Coloco essas palavras entre aspas porque tenho dúvidas sobre elas. Coisas prazerosas não nos exigem o esforço da disciplina, a gente faz porque gosta, porque está tendo um ganho de prazer. E aprender, por acaso, não dá prazer? O prazer divertido da descoberta? A visada do psiquiatra e psicanalista Guy Rosolato, que teorizou o que chamou de “relação com o desconhecido” nos permite dizer que não é bem assim. Ele afirma que as aprendizagens, assim como todas as atividades exploratórias e criativas – veja bem que se tratam de incursões em um mundo desconhecido –, só podem acontecer se enfrentarmos a angústia que dá o medo do desconhecido. Há um medo central, uma angústia deflagrada pelo sinal de perigo que começa a soar em todo o nosso ser quando começamos a dar os primeiros passos em território novo, portanto, desconhecido. Para aprender é preciso dar um passo adiante no… desconhecido. Que pode ser bom ou ruim. Que podemos ou não gostar de saber. Nesse caso, imaginamos, é melhor ficar quieto, parado e não correr riscos. Vamos ficando com o que já conhecemos e a vida fica mais segura – e mais limitada. Antes um pássaro na mão do que milhões voando à sua volta, ao alcance de um fechar de mãos sobre a presa disponível nos livros, nas telas, nas conversas. Corremos do perigo se aprender, por exemplo, assistindo aos noticiários que reportam as mesmas tragédias, só mudam os lugares e os nomes dos desafortunados. Corremos do perigo de aprender tendo aquelas conversas conhecidas e repetidas que fazem com que saiamos tanto de um cumprimento de alguns segundos como de um papo mais longo com uma sensação de vazio. Vazio, mas garantido. Nenhum vexame. Tudo nos conformes. Pois é, o ato de conhecer, de querer saber, tem um fundo emocional também.Querer saber, querer descobrir e querer inventar, em outras palavras, querer ter um encontro com o não sabido, provoca um medo a ser ultrapassado antes que possamos pegar o fruto gostoso da árvore do conhecimento e da descoberta. Que tal sairmos das explicações já tão batidas de que quando a gente tem que aprender o que os outros querem a diversão perde a graça? Ou que aprender o que é só repetição de informações que não nos interessam e que não tem aplicabilidade em nossas vidas é desanimador? Fato. Disso a gente já sabe. Mas “medo de aprender” é mais estranho, e parece que pode ser o maior inimigo do risco, do salto no escuro que representa entrar num território novo. Ganhos da ousadia? Uma vida muiiito mais divertida! Mais cheia de aventuras, de surpresas e de descobertas. Mais ameaçada, mais perigosa? Sim, mas não menos do que as vidas-repetidas. Os perigos existem para quem está vivo. E não adianta se fingir de morto para escapar. Isso é coisa de bicho do mato para escapar de um predador momentâneo. Não se escapa da morte se fingindo de morto; se escapa da vida, isso sim. Mas para quem escolhe permanecer sempre quietinho, não se arriscando para não ser destruído, será que funciona? Morrer, morreremos de qualquer forma. Que morramos tendo vivido e não tendo passado nossos anos esticadinhos e garantidinhos, fazendo do nosso corpo o caixão de uma alma que queria se mexer e viver. Então o que está por trás do medo de aprender é no fundo o medo de mudar? É.