Self-portrait in a convex mirror (Parmigianino, 1524) - www.metmuseum.org
Self-portrait in a convex mirror (Parmigianino, 1524) – www.metmuseum.org

Luciene Godoy //
Não dá para negar que é bom agradar aos outros. É bom, não. É uma verdadeira delícia. Menos para aqueles para os quais desagradar ou irritar é a forma de pedir amor e arrancar a atenção do outro na marra e na violência. Que ninguém diga a eles, mas é tão manjado!
Tem um “porém”. E um “porém” bem grande: para garantir que teremos sempre essa apetitosa e sempre tão bem-vinda aprovação, em geral faz-se necessário viver para os outros. E isso para ganhar o quê? O brilho no olhar do outro e a doce aprovação expressa em seu sorriso de Mona Lisa? Tem isso sim, mas não só.
Ao sermos confirmados pelo outro, é a própria sensação de existir que ganhamos. É o outro dizendo que te vê e que você é real. Se não queremos dar espaço a alguém, por outro lado, é só não olhar para ele, ou olhar com o “olhar de peixe morto”, aquele que você olha, mas parece que está vendo o nada.
Transformar o outro em nada dói no fundo da alma. Mata o sujeito que está diante de você te perguntando o que você acha dele, já que ele não se vê mesmo. Não tem jeito, maldição humana, só nos vemos no espelho ou no olhar do outro – espelho por excelência.
O próprio Freud, quando apresentou a teoria da sexualidade infantil, teve os médicos da audiência saindo um por um e mais anos de viradas de cara na rua. Não era visto pelos seus pares. Não existia em Viena? Pelo contrário, ele se via com seus olhos internos e só por isso sobreviveu e nos deu de presente a psicanálise, que hoje nos ajuda a viver melhor, para dizer pouco dela.
Para quem não sustenta nem se firma em seu jeito único de ser, não dá para continuar existindo quando o outro vira a cara. É para garantir o olhar confirmativo do outro que nos fazemos de vitrine. Pegamos as melhores roupas e colocamos nos manequins, disfarçando com alfinetes a que está grande demais, escondendo um rasgado dos embates com a vida. Maquiamos o que somos para o outro olhar, se sentir atraído e nos querer de alguma forma.
É isso que é ser vitrine. É ser uma montagem para atrair o outro para mim. Ser vitrine é um pedido de amor, um pedido de atenção. Mesmo daqueles que, ao contrário, desarrumam, rasgam, sujam a vitrine, só para atrair de uma outra forma a atenção preciosa que garante a confirmação de que existe para o outro. Só assim podemos nos sentir existindo para nós mesmos. Essa é a relação em espelho de Lacan. Esse é o sujeito-vitrine que sobrevive do que mostra ser.
Isso porque ele ainda não descobriu que viver sozinho, estar quentinho aqui dentro do peito, é melhor do que a vitrine de vidro frio. Além do íntimo prazer de habitar o próprio corpo, também tem o efeito colateral – pois ele não é buscado prioritariamente como no corpo-vitrine – de tocar e seduzir quem está por perto. É o perfeito exemplo de quem não procura, mas acha. Nada mais atraente do que a autenticidade. Imitação não agrada mesmo.
O corpo-vitrine é só para ser olhado mesmo, do lado de fora, e lá se vai a nossa confirmação quando o passante que sorriu e gostou de nossas roupas bem exibidas se foi e deixou a pobre vitrine vazia e sem sentido, à cata do próximo olhar para reanimá-la, fazê-la se sentir viva.
Oposto disso, entrar em si, bancar o que se é e o que se quer, malgrado os desagrados, é para quem decidiu deixar de ser vitrine e virou parque de diversões para si e para o mundo.
Gente feliz faz bem para o planeta.
Vamos, então, instaurar uma “homoecologia”? Seria uma ciência que lida com o mundo do homem interno antes de ele entrar na natureza. Nosso lema bem que poderia ser: “Gente feliz faz bem para o outro ser humano e para o planeta Terra”.
Então, vamos lá? Mãos à obra?

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 15 de maio de 2015.