Serial Killer: quem é o próximo?
“Poderia ser eu, mas agora estou a salvo. Ele já está preso. Agora estamos todos seguros.” Tenho presenciado, como aliás é o costume, a inquietação, olhos abertos procurando ver melhor, a boca trocando informações. Comentários rolando daqui e dali.Rostos preocupados, surpresos e assustados. Todos os matizes estão presentes. Querem ler, querem saber dos detalhes, querem entender. Para quê? Para fofocar e falar irresponsavelmente sobre uma novidade palpitante? Não. Para que então? Para tentar se proteger. Seria masoquismo? Não. Freud chamou isso de “neurose pós-traumática”. Ao invés de fugir das imagens e dos pensamentos que provocaram a dor, o sujeito os revive de novo e de novo na tentativa de dominá-los. Mas, como num círculo vicioso, a ideia de buscar a superação retornando à cena – para procurar as saídas – geralmente termina em mais aprisionamento. Sim, o interesse suscitado pelas informações do “serial killer” que foi descoberto é, ele também, uma tentativa de retorno às cenas, de análise dos detalhes, compreensão dos porquês. E isso tudo para quê? Para tentar nos pôr em segurança. A segurança de saber quais os motivos que levaram àquele ato destruidor e para, com isso, “descobrir-nos” fora do grupo de risco. Quando não entendemos a razão pela qual aquele que até ontem era um cidadão comum, trabalhando todos os dias, cumprimentando as pessoas, namorando, vivendo como todos nós, matou, nos sentimos no risco do desconhecido. Claro que as coisas acontecem por algum motivo, mesmo que jamais venhamos a saber dele. Um furacão se forma por condições atmosféricas definidas e nem por isso podemos antever exatamente todos os detalhes de seu caminho destruidor. O imponderável faz mesmo parte de nossa condição humana. Entre o “eu não quero saber de nada, já que a vida vai me levar de qualquer jeito para onde ela quiser” e o “eu quero saber de tudo para que não aconteça o mesmo comigo”, existe uma enorme distância. Saber de todos os detalhes para poder dizer baixinho ao pé do seu ouvidinho que aquilo não vai acontecer com você também não é muito eficaz. Se fosse, a quantidade enorme de pessoas que querem saber dos porquês para se colocarem fora da área de risco viveria tranquila e feliz. Mas, não. A cada nova tragédia, recomeça a corrida aos fatos para se reiterar que, desta vez, se está fora, são e salvo de mais uma tragédia lá fora. Estar fora de uma tragédia a cada vez que ela ronda as nossas imediações é um alívio, é claro. Quando digo que buscar saber o que a provocou para nos proteger não tem a eficácia pretendida é porque o imprevisível, o diferente, o impensável, sempre vai existir. Circunscrever o fato aterrorizante como estando fora de nós não acalma nossa alma. Haverá sempre motivos e motivos para as loucuras humanas – algumas compreensíveis, outras não. Não é a tentativa de previsão que vai nos proteger. A proteção mais eficaz seria viver de corpo presente. Sabia que, quando não estamos com os circuitos ocupados com muita informação e emoções acumuladas, o nosso inconsciente – que é muito poderoso – nos mostra muita coisa que o eu, viciado em ver o mesmo, não vê? O que pode nos proteger é habitar o nosso próprio corpo e não buscar desesperadamente saber o que é ameaçador (no geral) para fugirmos do perigo. O perigo também tem contexto para se fazer presente. Envolver-se por demais com a tragédia do outro é deixar nossa casinha sem cuidado enquanto estamos lá examinando por que a casa do outro foi arrombada.
I love Goiânia
Quem é que já foi a Nova York e não voltou com pelo menos um souvenir, uma camiseta com “I love NY” (Eu amo Nova York)? A NY “deles”, os nova-iorquinos, é para ser amada mesmo. É com intimidade e carinho que não só portam a frase, mas também vivem suas vidas “in love with NY”. Eu confesso que fiquei surpresa quando lá estive. Esperava uma cidade fria, de cimento e asfalto, com pessoas correndo, se esbarrando sem pedir desculpas, passando por cima dos corpos e das almas em todas as relações. Achava que lá o “Time is money” reinava acima de todas as escolhas. Não foi o que vi. Vi uma cidade muito limpa, os meios-fios e calçadas mais bem cuidados que conheci. Cidade cuidada com carinho, com muitas flores no público e no privado. Com detalhes arquitetônicos de quem se importa. O trânsito, apesar de intenso, corre num fluxo assustadoramente eficaz. As pessoas correm, sim, mas sorriem, cumprimentam, facilmente dizem “sorry” por qualquer esbarrão ou pedido. Choquei! Então, Nova York tem alma? Tem alma e é profundamente amada por aqueles que acharam lá o seu lar. Aqueles que nela construíram uma carreira e uma vida. Vê-se – para quem não é cego – o orgulho estampado na cara das pessoas que ali se construíram: “Eu amo o que essa cidade fez de mim”. Tenho uma camiseta de Paris com a inscrição “Je suis foule de Paris” (eu sou louco por Paris). Sim, muita gente é louca por Paris porque ela é uma festa, porque é linda e romântica, e, não menos importante, pelo muito que ela nos deu de arte e de pensamento, tendo abrigado durante séculos grandes artistas e pensadores que mudaram nossas vidas. E nós, será que podemos dizer “I love Goiânia” à nossa maneira, com a nossa “goianidade”? Eu amo Goiânia porque aqui nasci (ou renasci) – de alguma forma. Nem sempre nascemos no dia do nosso parto. Aqui cresci (vários crescimentos) e fiz amigos de infância (aqueles cuja intimidade é imediata e merecem esse nome) – um dos grandes tesouros da vida. Amo Goiânia porque aqui estudei e aprendi a ser adulta – vivemos fazendo isso até o dia de nossa morte. Aprendi a me relacionar com o sexo oposto – isso também é tarefa que não tem fim, já que quem vive conoscovai se tornando um outro, um outro um desconhecido que buscamos conhecer e viver com ele enquanto conseguirmos fazer valer. Amo Goiânia porque aqui ganho o meu sustento material. Ganho também muitas razões para existir pelo encontro feliz de tantas coisas e tanta gente que aqui se reuniu, cada um por um motivo. Aqui nos encontramos e nos amamos, cada qual vivendo melhor por ter o que só foi possível possuir por estar nesse encontro de caminhos que é a nossa cidade. Amo Goiânia a ponto de me sentir uma turista, nela andando às vezes mais vagarosamente a pé ou de carro, apreciando qualquer detalhe que saltou aos meus sentidos, descobrindo e redescobrindo o mundo onde vivo. Sei que amo Goiânia porque me enfurece aquele que quebrou uma mudinha nova de árvore, que pichou feio um muro bonito, que maltratou de alguma forma essa mãe cheia de filhos dentro de sua enorme barriga. Me causam mal-estar aqueles que não amam Goiânia, que não fotografam (com os olhos que seja) seus ipês floridos, suas sibipirunas, que não notam a sapucaia majestosa do Parque Agropecuário. Tem também as pessoas que amam Goiânia fazendo todo tipo de trabalho social e político. Melhorando, tirando e colocando. Fazendo associações, construindo lugares para ser feliz. Tem os que amam lutando por mudar as injustiças e fazer acontecer um mundo melhor aqui em nosso mundinho goiano. No aniversário de nossa cidade-mãe, vamos oferecer o presente de sermos filhos amorosos e gratos que usufruam e cuidem bem do que ganharam para que outros também possam dizer junto conosco: nós amamos Goiânia. — Luciene Godoy é psicanalista. I love Goiânia Quem é que já foi a Nova York e não voltou com pelo menos um souvenir, uma camiseta com “I love NY”. A NY “deles”, os nova-iorquinos, é para ser amada mesmo. É com intimidade e carinho que não só portam a frase, mas também vivem suas vidas “in love with NY.” Eu confesso que fiquei surpresa quando lá estive. Esperava uma cidade fria, de cimento e asfalto com pessoas correndo, se esbarrando sem pedir desculpas, passando por cima dos corpos e das almas em todas as relações. Achava que lá o “Time is money” reinava acima de todas as escolhas. Não foi o que vi. Vi uma cidade muito limpa, os meio-fios e calçadas mais bem cuidados que conheci. Cidade cuidada com carinho, com muitas flores no público e no privado. Com detalhes arquitetônicos de quem se importa. O transito, apesar de intenso, corre num fluxo assustadoramente eficaz, as pessoas correm, sim, mas sorriem, cumprimentam, facilmente dizem “sorry” por qualquer esbarrão ou pedido. Choquei! Então, Nova York tem alma? Tem alma e é profundamente amada por aqueles que acharam lá o seu lar. Aqueles que nela construíram uma carreira e uma vida. Vê-se – para quem não é cego – o orgulho estampado na cara das pessoas que ali se construíram: “Eu amo o que essa cidade fez de mim.” Tenho uma camiseta de Paris com a inscrição Je suis foule de Paris, eu sou louco por Paris. Sim, muita gente é louca por Paris porque ela é uma festa, porque é linda e romântica, e, não menos importante, pelo muito que ela nos deu de arte e de pensamento, tendo abrigado durante séculos grandes artistas e pensadores que mudaram nossas vidas, e foi lá que foram acolhidos. E nós, será que podemos dizer “I love Goiânia” à nossa maneira, com a nossa “goianidade”? Eu amo Goiânia porque aqui nasci (ou renasci) – de alguma forma – nem sempre nascemos no dia do nosso parto. Aqui cresci
A comunicação não existe
Quem é que diz esse absurdo? Jacques-Marie Émile Lacan. Pois é, ele mesmo, o Lacan. Ele diz que pelo fato de cada um de nós falarmos uma a-língua, ou seja, uma não-língua, não dá para a gente se entender de fato. Habitamos, cada um de nós, um universo único, um mundo do qual, a rigor, ninguém mais participa. Somos de planetas diferentes. Planetas também únicos. Ninguém mais, além de nós mesmos, habita cada um desses planetas tão numerosos quanto é o número de seres humanos na face da Terra. O planeta Terra é o conjunto de bilhões de pequenos planetinhas que vivem por aí, cada qual com sua forma e sua cor única, cada qual em sua órbita imprevisível – sim, porque esses planetinhas-gente não são obedientes às leis da objetividade, mas sim, às leis da subjetividade. Nessas órbitas de infinitos circuitos tem muitas colisões. Às vezes elas são fatais, às vezes machucam, às vezes criam algo novo. Então, como é que cada planeta único, diferente de todos os demais, se comunica com o outro? É, já disse que não tem comunicação, mas explicando melhor: não dá para pensar que o que falamos é o que o outro vai entender. Não tem jeito de ser igual ao que imaginamos, e isso pelo fato de que cada palavra tem um mais-além do que o que consta no código, no dicionário. Por exemplo, alguém pode pedir um copo de água a um amigo, mas esse amigo, que já conhece algumas palavrinhas da a-língua de quem lhe pede, vai pensar: “Ih! Ele está me pedindo um tempinho para conversar. Quando ele pede água é porque está buscando ser ouvido”. Estranho, né? Nem tanto. Fazemos isso o tempo todo. Falamos algo querendo dizer outra coisa. Então o tal amigo achou a chave de leitura do outro? Negativo, vai ter dia que o amigo pede água e é água mesmo o que quer: Ou pior um pouquinho: pode nem ser água e nem ser a conversa amiga, mas uma terceira, ou quarta ou quinta coisa. Não se assuste, mas, na verdade, pode ser qualquer coisa. As possibilidades são infinitas. A língua não é fixa e o ser humano muito menos. Os sentidos vêm e vão ao sabor de nossas emoções, de nosso olhar a cada momento. Gosto de laranja, mas nesse momento estou detestando esse tipo de fruta. Falo sempre disso, mas nesse momento estou falando daquilo. Nos movemos o tempo todo, e, se não brigarmos com o fato, a vida pode fluir bem gostosa, sem que tentemos para-la para a nossa suposta segurança. Somos feitos para o movimento e, portanto, teimar em morar no passado é já abandonar a vida antes mesmo de irmos habitar o cemitério que nos aguarda a todos um dia. Não precisa se precipitar. Espere que seu dia chegará. Não precisa morrer em vida. Deixe para parar e morrer quando ela acabar mesmo. Como a vida é nova a cada dia, mesmo com nossa teimosia em viver no passado ou de passado, ela está aí, nascendo novinha em folha com o sol a cada manhã. A vida é sempre o dia novo que nasce. Fazemos dele velho se não enxergarmos que é novo quando os olhos não estão pousados aqui, mas lá no passado, repetindo, repetindo e repetindo. Comunicar-se só é possível estando vivo e presente para captar o novo sentido que surge das sentenças antigas. É estar receptivo ao surpresivo, ao inusitado, para poder atingir um sentido a mais, ligado àquela situação única que está sendo descrita e que às vezes a gente lê como antiga e fica tudo parado na mesma. Dar conta de parar de olhar só para o nosso umbigo e nos encontrar, por um momento que seja, com aquilo que outro está dizendo. Ter um minuto de comunhão, quando percebemos que entramos no espírito do que o outro propôs, quando percebemos que fizemos uma visitinha no planeta do outro e voltamos felizes e enriquecidos com o que trouxemos para o nosso planetinha que agora fica mais interessante. Não nos comunicamos, mas nos encontramos e nos amamos. Inexplicável, mas verdadeiro. Ainda bem!
Juventude, onde estarás?
Me dou conta de que estão chegando as celebrações do Dia da Criança. Quero ser a primeira a entrar na onda, à minha maneira, é claro, justamente fazendo a pergunta: juventude, onde estarás? Muito apropriado mesmo trazer à baila o tema da juventude eterna. Ops! Aí já resvalamos para a fantasia, território infantil de fato e de direito. Que fazemos nós, adultos, passeando por essas plagas que não mais nos pertencem? Por que o adulto desde tempos imemoriais vive perseguindo a fonte da juventude? Mitos, músicas, livros, filmes, feitos e mais feitos visando chegar lá. A Shangri-lá, onde o ser humano não envelhece jamais, nunca deixou de nos encantar e atrair, um pouquinho que seja. Não querermos morrer é o mesmo que querermos permanecer jovens para sempre? Victor Frankenstein é o mesmo que Dorian Gray? Um busca os segredos da recriação da vida não aceitando seu fim e o outro vai atrás da possibilidade de não parecer envelhecido. Em ambas as histórias, o fim fatídico se impõe, nos deixando a lição de que na perda da vida e da juventude não se pode mexer sem o risco de que tudo termine em tragédia. Conversa muito sorumbática para falar de juventude e de Dia da Criança. Sim, verdade, e de propósito, para que possamos estar bem certos de andarmos em território perigoso, areia movediça, terreno minado, poço de piranhas devoradoras. Com todo o cuidado que a matéria requer, comecemos vagarosamente com a pergunta: o que é mesmo juventude? Será que é ter a pele lisa e sem rugas? Cabelos fortes e vigorosos sem os brancos denunciadores do que se teme? Seria ter um corpo de sereia para a mulher ou de um deus grego para o homem? E a velhice, seria o quê? O contrário de tudo que foi dito? Ter as rugas, os cabelos brancos, o corpo diminuído e endurecido? A velhice seria não andar mais de patins, ter dores por todo o corpo e reclamar que tudo no passado era melhor? Que “no meu tempo se fazia assim e assado”? Ou que “no meu tempo é que era bom”? O que define o que é um ser jovem? Não é a idade, não é a aparência, não é o corpo. O que define o jovem é ser novo. Vamos a algumas definições da palavra novo. Definição 1: o que existe há pouco tempo. Definição 2: acabado de fazer. Definição 3: que é dito, tratado ou visto pela primeira vez. Novo nada mais é do que movimento. O deslocamento que vai fluindo e trazendo em sua calda os próximos objetos que encontraremos em nossas vidas. Novo é cada dia que nasce com tudo diferente de ontem, tudo novo, portanto. Nossa impressão nos engana quando temos a certeza de que aquilo estava lá. Nem mesmo o lá continua lá. Já mudou de lugar e a gente se enganando. A criança é um jovem ser humano, pois está na definição do que existe há pouco tempo. Porém, não nos esqueçamos de que tudo para ela também existe há pouco tempo. Uma criança vive produzindo o novo, porque aprende o tempo todo, acaba de fazer algo e já tem mais novidade para aprender e fazer. Fazer coisas pela primeira vez, então, nem se fala, é essa a praia da criança. Ela vive fazendo muitas coisas pela primeira vez. Quem é novo e é jovem precisa e quer ver sempre como as coisas funcionam. Quer saber o por que, o pra quê, o de quê e mais uma infinidade de “quês” que vai soltando como flechadas questionadoras. Jovem tem curiosidade. Ok, ok, mas a juventude está mesmo onde? Procurem por todos os lados. Não está aqui, não está lá e nem acolá. A juventude encontra-se bem dentro, bem no fundo dos olhos daqueles que, não importa que idade tenham, veem o mundo com curiosidade. Morrem eternamente jovens aqueles que continuam a olhar o mundo com curiosidade. Os curiosos jamais conhecerão a velhice. A fonte da juventude se chama curiosidade.
Família, lugar onde o desrespeito é permitido
A família é o primeiro lugar onde nos relacionamos com o outro. Quais seriam as consequências disso? Será que é por isso que ela tem a permissão de continuar a ser o lugar que permanece para sempre com trocas primitivas, iniciais, sem evolução, sem melhora ou aperfeiçoamento? Li, me encantei, levei para casa e preguei na frente da geladeira com um ímãuma pequena e adorável lista que fala de características que seriam muito bem vindas nas relações familiares. As palavras que trazem magia ao mundo doméstico são: gentileza, originalidade, humor, otimismo e generosidade. Vamos a uma volta de reconhecimento da área. O quanto de gentileza é praticada nas relações familiares? Parece que o que mais há é irritação, impaciência, intolerância e outros “im” por aí. Originalidade, aí a coisa está longe de acontecer, porque a família é o lugar por excelência onde se manifesta a repetição neurótica. Ninguém muda de papel. É cada um por anos a fio repetindo as mesmas frases e os mesmos atos. Brigando as mesmas brigas. Humor. Ah, como é gostoso rir juntos! Como faz bem! Mas como pode existir humor (bom humor então…!) num lugar de desrespeito e da cegueira da repetição? Então o humor e o bom humor ficam de fora. Coitados, tão maltratados nas famílias! E o otimismo? Já viu relações mais baseadas no pessimismo? Olha que posso provar! Sabe aqueles telefonemas que um dá pro outro, muitas vezes diários? “Tá tudo beeeeeem?” Assim mesmo, com ênfase no “beeeeem”. Como se estivesse suspenso num medinho qualquer de que haja algum problema. Se for de saúde: “Ai, vou ter que levar alguém ao médico”. Dinheiro: “Ai, vou ter que emprestar alguma grana”. A ideia é: vai sobrar alguma encrenca para mim. Estamos, na verdade, menos preocupados com o bem estar do outro do que com o fato de que ele nos cause transtornos. Porque família tem que cuidar, né? Por último, nos resta a generosidade. Dar para o outro. Difícil, já que família é lugar de receber, ganhar. Até a mãe que é toda “dar” quer o dela – permanecer mãe para sempre cuidando de quem já é grande, por exemplo. No fundo, puro exercício de poder de quem não quer “largar o osso”. Claro, que bom nem todas são assim e confessam imenso prazer e alívio de deixarem os filhos crescerem. De conseguir ver nos filhos os adultos que são. Ou maridos que querem ser cuidados pelas esposas como se fossem mais um filho, o mais exigente e insatisfeito da prole. Voltemos à generosidade, ao dar. Se de fato crescemos, podemos dar e não pedir como criancinhas impotentes. Dar gentileza, originalidade, humor. Dar ao outro porque já demos a nós mesmos. Se não for assim, o que restará é um bando de famintos, brigando e cobrando uns dos outros o que ninguém tem para dar. José Ângelo Gaiarsa, grande psicólogo brasileiro, escreveu um livro cujo título é em si sugestivo: “A família de que se fala e a família de que se sofre”. O mundo não padronizado nos presenteia com a possibilidade de termos um novo tipo de família que não é calcado na necessidade de enquadrar cada membro num modelo prévio. Isso está permitindo uma grande mudança na qualidade das relações familiares que agora ganham contornos de uma verdadeira cumplicidade e amizade onde antes havia “amódio” – palavra que Lacan usava para expressar a ambivalência nas relações primitivas onde amor se misturava com ódio. Por ser baseada no respeito ao modo de cada um ser e não na imposição de modelos, imaginem o prazer de pertencer e de estar juntos que as novas famílias vão usufruir. As novas famílias serão os lugares mais deliciosos do planeta. Aposto nisso.
E aí o amor acaba
Só nos é prazeroso o que confirma nossa identidade. Enquanto o outro for um espelho que reflita nossa bela imagem, ele é bem-vindo. Mas no cotidiano, com a intolerância narcísica – Narciso acha feio o que não é igual a si ou ao que idealizou –, a presença do outro passa a ser alvo de críticas, agressões que nos desconfirmam e nos fazem sentir um mal estar indizível. Então, não podemos nomear, denunciar as falhas do outro? Não é em absoluto disso que se trata. Existem falhas que o ser amado tem e podemos tentar ajudá-lo, com inteligência e sensibilidade, a se livrar delas. Refiro-me à “invenção” de falhas. É isso mesmo. Nas relações mais íntimas existe a tendência de se misturar. Um projeta sobre o outro aspectos pertencentes à sua própria vida e história e tem a certeza inabalável de que aquela é uma realidade inquestionável. É ao acontecer esse tipo de projeção cega que a relação passa de construtiva para destrutiva. Isso porque: – Queremos que o outro atinja um ideal de perfeição que nem mesmo nós temos. – Queremos que o outro esteja sempre bem disposto a nos acolher, ajudar, perceber, considerar e todos os verbos afins ad infinitum. – Não damos conta de ter um amor e mesmo assim nos sabermos sós; sentirmos que o parceiro não tem que ser sempre compreensivo, bom, apaixonado, cuidador, e todos os adjetivos afins ad infinitum. Só um bebê precisa ter outro sempre a cuidar dele, uma vez que efetivamente não consegue fazê-lo. Às vezes acontece mesmo que justo naquele dia em que você está péssima, brigou no trabalho, tudo deu errado e espera conforto do seu amado, ele também está de mal humor. Mesmo assim, você acha que ele lhe “devia” algo. Devia não. Não é porque temos alguém que esse alguém tem que estar “sempre” presente. Ele também vai estar ausente, lhe deixar na mão, lhe desiludir, e é assim mesmo que é a relação adulta. Quem não pode mesmo ser deixado na mão é o bebê, que não tem ainda autonomia para cuidar de si quando necessário, como é o nosso caso. Não nos esqueçamos: somos adultos. Damos conta de sermos frustrados, mas não queremos que isso exista na relação e é claro que vai existir, o que nos deixa como eternas crianças emburradas, beiços caídos, olhos pedintes. Vivemos mais infelizes pelo que não temos do que felizes pelo que temos. Tem o outro lado da questão que é tentar se adequar às fantasias do outro. Nessa onda começamos a nos empobrecer, deixamos de ser nós mesmos, deixamos de crescer e, às vezes, morremos. É verdade que de início nunca demos conta de nós mesmos sozinhos. Sempre precisamos do outro: da mãe, do pai, da babá; daí até saltar para a namorada, o marido, a esposa na fase adulta é um pulo que nem notamos. Estar sempre tentando trazer esse outro até nós, o atraindo e envolvendo, é o nosso trabalho de uma vida toda. Esta parece ser a nossa sina. Porque queremos demais, queremos em excesso, estragamos nossas relações. Se não aceitamos o possível e se não aprendemos a nos alegrar como o parcial, a cada momento pode acontecer conosco o que diziam os nossos avós: “Quem tudo quer tudo perde”. Há quem queira usar o seu amor como se fosse aquela fraldinha ou travesseirinho que o bebê carrega inevitavelmente para todo o canto e submete a todos os seus caprichos. Deixa e pega quando lhe interessa. É o que chamamos em psicanálise de objeto transicional, o substituto da mãe que queremos dominar e garantir ao nosso lado para sempre com o fito de não experimentar a perda. Inútil. A perda é a entrada na vida. Evitá-la é possível muitas vezes com sensibilidade e inteligência. Com os caprichos infantis, é fracasso na certa.
Produzir seres humanos
Crianças são produzidas à imagem e semelhança (genética) de seus pais. Até aí tudo bem. O que é mais estranho de se dizer é que o mesmo acontece com o seu modo de ser, que é produzido à imagem e semelhança do desejo de seus pais, das circunstâncias de seu nascimento e das ocorrências de sua infância. Ninguém tem o mesmo pai e a mesma mãe. Ninguém tem exatamente as mesmas circunstâncias de vida. Nem irmãos gêmeos univitelinos (vindos de um mesmo óvulo). Uma abelha já nasce com seu destino traçado, vai repetir a mesma dança, colher o pólen, exatamente como as gerações que a precederam. Nós não temos instinto, mas temos algo tão forte quanto – a pulsão, de onde vem a palavra compulsão, que nos leva a repetir “aprendizados” adquiridos na infância com a força e a insistência de um instinto. Os esquimós Netsilik, do Alasca, usam abertamente a expressão “façonner les enfants”, que pode ser traduzida como construir de uma certa maneira, fazer de um certo modo, moldar, modelar, dar a forma às crianças. Eles falam claramente o que esperam delas quando crescerem: “Você vai ser um grande caçador, você vai correr muito rápido”, etc. Como a avó descontente com o marido “bobo” que tinha e que “dava forma” ao seu netinho dizendo: “Você não vai ser bobo como seu avô a quem todos enganam, você vai ser esperto”. Bem, talvez essa avó tenha sido excessivamente forte em seu desejo. Fato é que o neto se tornou um espertalhão que passava as pessoas para trás. Coisa muito incomum na cultura Netsilik. Em nossa cultura nós não nos damos conta de que “formatamos” nossas crianças, embora expressões como “formamos nossas novas gerações” sejam usadas. Formamos mesmo. Damos forma, damos cara e pensamento. Mesmo que não percebamos, estamos em todas as circunstâncias que passamos com a criança mostrando, por diversos meios, o que é o mundo e o que é a própria criança nesse mundo. O que não nos damos conta é das mensagens que passamos. Aí sim, reside a questão. Pais que poupam os filhos e que não se dão conta de que estão passando uma mensagem de descrédito na potência desse filho. Pais que não querem que os filhos sofram o que eles sofreram e que por isso dão à criança o direito de viver o que a vida lhes trouxer, de superar as suas próprias dores e não as dores dos pais. Verificamos com frequência que uma geração que sucede à outra num maior ou menor espaço de tempo assume posições opostas às anteriores. Sabemos que os anos 70 – dos hippies e da busca do desrespeito aos padrões aceitos – geraram filhos conservadores. Tem também os que hoje são chamados de “a geração coxa de galinha”. São os que recebem o melhor do casal, numa referencia a um costume antigo de se oferecer a coxa à pessoa mais importante da mesa. Pois é, as crianças, que ainda têm muito a conquistar, andam sendo tratadas como se tivessem conquistado o direito que deve estar adiante para que elas queiram ir atrás. Falamos de pais que se desrespeitam vivendo de migalhas e enchendo filhos de mimos desnecessários, não de saúde e educação, mas de caprichos infantis dos quais nossas crianças estão ficando inchadas, gordas por fora e por dentro. Sem mobilidade, sem desejo. Já entediadas ou raivosas quando não ganham a última versão de tal ou tal objeto de consumo. Enfim, o gato vai fazer miau nasça aqui ou na China. O ser humano vai ser a produção, consciente e inconsciente de seus pais e de sua vida infantil. Falamos a língua aprendida nas relações que nos ensinaram a ser gente, na infância. Por não sermos marcados pelo instinto, não nascemos para dar respostas padronizadas. Nascemos para sermos formados pelos outros seres humanos que nos cercam. Ter consciência de que o ser humano é “produzido” pelo meio já ajuda bastante a não se esconder atrás da biologia.
Quem me diz quem eu sou
Quem me vê é quem diz quem eu sou. Temos uma dependência do que o outro vê e nos mostra. O outro me diz quem eu sou porque eu não sei quem sou. O saber quem se é não pode vir pelo olhar porque não nos vemos. É impossível para um ser humano ver a si mesmo. A menos que existisse a possibilidade de desatarraxarmos um de nossos olhos e fazê-lo flutuar à moda desses helicópteros de brinquedo que filmam a cena de cima. Esse olho flutuante com certeza nos mandaria nossa própria imagem interagindo com o mundo. O que seria de grande utilidade. Mas, como sabemos, isso não é possível. Permanecemos, pois, cegos de nós mesmos. O ser humano só se vê através de outro aparato. O que mais rápido nos vem à mente é um velho companheiro, o espelho, mas há outros: a fotografia, a filmagem de nossa pessoa e outros mecanismos refletores menos percebidos, mas não menos presentes em nossas vidas. São eles a fala e o olhar do outro. Sim, o que as pessoas dizem de nós nos fornece uma ideia do que somos. Aprendemos desde criança a interpretar com precisão todas as nuances de olhares que nos são dirigidos. Lembro-me de um amigo que dizia que, quando chegava visita em sua casa, a mãe comandava os filhos pelo olhar. O olhar passa também uma mensagem de quem somos nós, de como somos avaliados e classificados. Como poderíamos não permanecer tão dependentes do que outro nos diz com a voz ou com o olhar? Como poderíamos, dentro de nossa cegueira sobre nós mesmos, nos orientar em cada momento dentro desse escuro onde não vemos mesmo? Sentindo-nos. O sentirmo-nos é a forma de conseguir nos “ver”. É isso: uma outra forma de conseguir se ver seria dar conta de “sentir-se”. O sentir-se bonito, feio, inteligente, flexível, etc, pode vir da fonte interna, do olhar/sentir, e não da imagem externa, do que o espelho que é o outro me diz que sou. Olha só a boa notícia: temos um tipo peculiar de olhar, de capacidade de ver; nesse caso, um tipo de capacidade de ver que só vale para o próprio sujeito, que é justamente o sentir a si mesmo. Como se desenvolve esse “ver-se sem o olhar”? Passa pela estimulação dos “olhos da pele”. Os olhos que sentem e não os olhos que veem. Uai! Pele tem olhos? Tem sim. E olhos potentes: o tato é o único dos cinco sentidos que não conseguimos enganar – o nojo e o asco são indisfarçáveis – enquanto no olhar, olfato, audição e mesmo no paladar a gente dá uma dribladinha, sempre que necessário. O que sentimos é muito mais forte do que o que sabemos. Anote essa frase em seu caderninho que ela ainda vai render muito. Repito: o que sentimos é muito mais forte do que o que sabemos. Frases como “É uma questão de pele” ou “É a prova do corpo” demonstram a força do sentir no ser humano. O sentirmo-nos (em nós mesmos) poderá nos guiar mais do que o sentido (do outro), se tivermos aprendido a sentirmo-nos dentro da própria pele. Teremos presença, por isso necessitaremos menos do olhar e do sentido que vêm do outro. Ficamos perdidos ouvindo um e outro. Sofrendo porque disseram isso ou não reconheceram aquilo. Ficamos perdidos não porque não sabemos quem somos, mas sim porque não sentimos quem somos. O sentimento de uma “presença” também responde à questão de quem sou, onde estou, para onde vou. Presença é um preenchimento que sentimos dentro do peito. Um sentimento quentinho de bem estar. Algo que eu diria ser o oposto do sentimento do buraco no peito que é a angústia. Chegamos ao ponto: o sentimento de angústia – buraco, vazio gelado no peito – e o bem estar quentinho e confortável são dois sentimentos que lhe dirão quem é você, onde você está e para onde é o rumo. Aprenda a se ver através do que sente.
O pequi e outros frutos de Goiás
Garanto que tem muita gente pensando que vou falar de gabiroba, araticum ou mangaba. Poderia. São nossos frutos queridos do cerrado, que nos trazem sabores só nossos e doces lembranças de nossa infância. No entanto, foi o encontro com um jovem artista goiano que me fez pensar em outro tipo de fruto da terra. Nos frutos-gente que Goiás já produziu e que perdemos muito se não provamos ainda do seu sabor. Pois é, dia desses, numa sala vip do programa de TV “Sobre Todas as Coisas”, onde convidados normalmente esperam para entrarem em cena, aconteceu para mim a descoberta de mais um fruto goiano. Eu esperava um “violeiro” que seria um dos entrevistados. A palavra violeiro suscitava em mim uma imagem de um senhor de uns 60 anos de idade, que seria o padrão de alguém ligado a uma tradição da roça, dos povoados, não muito amiga das grandes cidades. Mas nada disso e muito pelo contrário. Entra pela porta um lindo e jovem rapaz, com um sorriso aberto para o mundo e olhos cheiros de doçura e simpatia. Energia boa, a marca dos verdadeiros artistas. Nos cumprimenta e a sala se enche de sua presença. Carregava uma caixa que ele rapidamente abre e retira de dentro a sua viola. Senta-se e começa a dedilhar Bach. Somos invadidos de doce serenidade. De repente, seu rosto se transfigura, tomando um jeito matreiro. Ele abre um sorriso nos avisando que lá vem surpresa e pula da música clássica para o som vigoroso e cadenciado da catira. Nós, goianos da gema que estávamos lá, pulamos nas cadeiras, atingidos em nossa emoção com gosto de infância. Ele, com a generosidade característica da alma de artista, deleita-se com a emoção que provoca a partir de seus dedos na viola. Tivemos a nossa festa prévia de um programa que discorreria sobre o tema “Emoções”. Já estávamos no clima. Pois esse jovem fruto da terra não é um violeiro que arranha a viola, não, senhor. Tem uma formação surpreendentemente consistente. Digo isso porque violeiros não costumam fazer a faculdade de música. Mas esse se formou na Universidade Federal de Goiás. Ele nos presenteia com um livro que tem por título “A Viola” e, desbunde total, o subtítulo é: “Digitação de Escalas maiores e Menores na afinação Cebolão em Mi Maior e Sistema ECsA”. Coisa séria e de qualidade. Tocou em Londres e em Paris, mas formou-se no amor pelas Folias de Reis, uma das paixões que cultiva até hoje. Compõe músicas, além de tocar, e toca não só a viola mas também o coração das pessoas que o ouvem e o veem. Resplandesce algo bom que eu chamo de Amor de Artista. Essa coisa que eles têm de querer transmitir aos outros a riqueza que carregam dentro do peito. E isso faz o mundo ficar melhor. Preocupa-se com os valores que passa nas letras que compõe. Sabe que é uma figura identificatória para os jovens e adolescentes e cuida com carinho do que transmite para as novas gerações – de violeitos. Que beleza! Ele é a transmissão viva de nossas tradições goianas que permanecerão e crescerão pela existência de pessoas como ele. Que presente é para Goiás ter um fruto como esse. Um fruto do cerrado que produz suas sementes e sai jogando em terras daqui e dalém, e que ao nascerem e crescerem não deixarão morrer nossos valores culturais de raiz. Frutos goianos como Almir Pessoa devem ser colhidos, degustados e as suas sementes jogadas por todos nós nas terras vizinhas para encher o mundo da felicidade da música, e particularmente da que é nossa, de Goiás, com nossa cara. É isso que estou fazendo nesse momento: espalhando em vocês as sementes do fruto da terra Almir Pessoa. Valorizem, experimentem, usufruam, espalhem também as sementes de nossa cultura goiana.
O que significa viver na hipermodernidade
Prestando uma homenagem especial aos membros da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, que me ouviram recentemente sobre o tema. O ser humano necessita se localizar no tempo e no espaço. Compreender um pouco o momento histórico no qual estamos vivendo pode nos dar uma bússola, ou melhor dizendo, um GPS. Ih! Já começaram as diferenças. Estamos num mundo de GPS, bússola já passou. Estamos numa nova organização sócio- político-ecônomico-afetiva em que termos como pós-modernidade já não mais descrevem a nossa realidade. É o sociólogo Gilles Lipovetsky que denomina essa nossa era de hipermodernidade. O que seria característico da hipermodernidade? A globalização – o mundo todo interligado pela troca rápida de informações – e a queda dos ideais, das certezas do certo e errado que as gerações antigas passavam para as novas, são duas as principais características. Para compreendermos como chegamos aqui, vamos a um pouquinho de história. Na Antiguidade, a civilização grega, por exemplo, se organizava por um modelo que se espelhava na natureza (cosmos) e na sua forma “perfeita” de mundo, com regras fixas e justas e lugares marcados: artesão , guerreiro, senhor… Num segundo momento, na Idade Média, a humanidade guiava-se por um modelo religioso. O “céu” nos orientava naquilo que deveríamos buscar. Também com lugares marcados. Quem nasceu nobre o era para sempre, plebeu idem. Num terceiro momento, veio a revolução que criou as condições para uma outra, a nossa atual. Foi a revolução da razão, um tipo de humanismo (o homem é colocado no centro) em que a explicação religiosa deixou de ser o suporte para se “entender” tudo no mundo e foi substituída pela capacidade do ser humano de raciocinar e dominar tecnicamente a natureza e as ameaças diversas à vida humana. Porém, o uso da razão se mostrou insuficiente para explicar e ajudar o homem a viver. Muito se fez, mas nos séculos 19 e 20 veio a “Era da Desconstrução”, da qual Freud fez parte por dizer que a razão não salvaria o homem de si mesmo. Que o ser humano não sabe quem é, que a nossa vida afetivo-emocional nos transcende, não a alcançamos, não a dominamos. Ou seja, chegamos à Era em que o lado emocional dos seres humanos está no foco, ganhou lugar e relevância. E isso chega às relações de trabalho. Empresas bem sucedidas são as que cada vez mais valorizam a subjetividade – leia-se: a criatividade de seus funcionários. A obediência cega e burra já não é o valor mais buscado e sim a capacidade de inventar, propor e fazer andar. Nas relações em rede, onde todos têm acesso à informação, o jeito único de cada um juntar as informações e achar saídas inusitadas passa a ter muito mais valor. Muitas vezes o próprio valor da sobrevivência da empresa. Por essa razão, as diferenças, ao invés de darem medo – da mudança, da destruição –, são as promessas de respostas criativas revigoradoras e sustentadoras em um mundo de mudanças rápidas e constantes. Isso que estamos vivendo, uma abertura para a aceitação e valorização da “unicalidade” de cada um, as boas-vindas dadas à diferença, ao singular, à criatividade e às emoções como parte essencial em nossas vidas, é chamado de Segundo Humanismo. Enquanto o Primeiro Humanismo considerava o ser humano em sua parte de razão, o Segundo Humanismo adiciona à razão a nossa porção de emoção, aceita a força que o desejo tem em nossas vidas. Desejo que, mesmo funcionando de forma camuflada na maioria das vezes, acaba sendo a razão maior que determina nossas escolhas e modos de ser. É um mundo das muitas escolhas, feitas não porque o outro aprova, mas porque você quer e, portanto, vai bancá-las. Vão ser seus tanto a dor quanto o prazer. É um mundo no qual a obediência é suplantada pela inventividade. Estamos inventando um novo mundo. Quem viver verá.