Quem me vê é quem diz quem eu sou.
Temos uma dependência do que o outro vê e nos mostra.
O outro me diz quem eu sou porque eu não sei quem sou.
O saber quem se é não pode vir pelo olhar porque não nos vemos. É impossível para um ser humano ver a si mesmo. A menos que existisse a possibilidade de desatarraxarmos um de nossos olhos e fazê-lo flutuar à moda desses helicópteros de brinquedo que filmam a cena de cima.
Esse olho flutuante com certeza nos mandaria nossa própria imagem interagindo com o mundo. O que seria de grande utilidade.
Mas, como sabemos, isso não é possível. Permanecemos, pois, cegos de nós mesmos.
O ser humano só se vê através de outro aparato. O que mais rápido nos vem à mente é um velho companheiro, o espelho, mas há outros: a fotografia, a filmagem de nossa pessoa e outros mecanismos refletores menos percebidos, mas não menos presentes em nossas vidas. São eles a fala e o olhar do outro.
Sim, o que as pessoas dizem de nós nos fornece uma ideia do que somos. Aprendemos desde criança a interpretar com precisão todas as nuances de olhares que nos são dirigidos.
Lembro-me de um amigo que dizia que, quando chegava visita em sua casa, a mãe comandava os filhos pelo olhar. O olhar passa também uma mensagem de quem somos nós, de como somos avaliados e classificados.
Como poderíamos não permanecer tão dependentes do que outro nos diz com a voz ou com o olhar?
Como poderíamos, dentro de nossa cegueira sobre nós mesmos, nos orientar em cada momento dentro desse escuro onde não vemos mesmo?
Sentindo-nos.
O sentirmo-nos é a forma de conseguir nos “ver”.
É isso: uma outra forma de conseguir se ver seria dar conta de “sentir-se”.
O sentir-se bonito, feio, inteligente, flexível, etc, pode vir da fonte interna, do olhar/sentir, e não da imagem externa, do que o espelho que é o outro me diz que sou.
Olha só a boa notícia: temos um tipo peculiar de olhar, de capacidade de ver; nesse caso, um tipo de capacidade de ver que só vale para o próprio sujeito, que é justamente o sentir a si mesmo.
Como se desenvolve esse “ver-se sem o olhar”?
Passa pela estimulação dos “olhos da pele”. Os olhos que sentem e não os olhos que veem.
Uai! Pele tem olhos?
Tem sim.
E olhos potentes: o tato é o único dos cinco sentidos que não conseguimos enganar – o nojo e o asco são indisfarçáveis – enquanto no olhar, olfato, audição e mesmo no paladar a gente dá uma dribladinha, sempre que necessário.
O que sentimos é muito mais forte do que o que sabemos. Anote essa frase em seu caderninho que ela ainda vai render muito.
Repito: o que sentimos é muito mais forte do que o que sabemos.
Frases como “É uma questão de pele” ou “É a prova do corpo” demonstram a força do sentir no ser humano.
O sentirmo-nos (em nós mesmos) poderá nos guiar mais do que o sentido (do outro), se tivermos aprendido a sentirmo-nos dentro da própria pele. Teremos presença, por isso necessitaremos menos do olhar e do sentido que vêm do outro.
Ficamos perdidos ouvindo um e outro. Sofrendo porque disseram isso ou não reconheceram aquilo. Ficamos perdidos não porque não sabemos quem somos, mas sim porque não sentimos quem somos.
O sentimento de uma “presença” também responde à questão de quem sou, onde estou, para onde vou. Presença é um preenchimento que sentimos dentro do peito. Um sentimento quentinho de bem estar. Algo que eu diria ser o oposto do sentimento do buraco no peito que é a angústia.
Chegamos ao ponto: o sentimento de angústia – buraco, vazio gelado no peito – e o bem estar quentinho e confortável são dois sentimentos que lhe dirão quem é você, onde você está e para onde é o rumo.
Aprenda a se ver através do que sente.