Só nos é prazeroso o que confirma nossa identidade. Enquanto o outro for um espelho que reflita nossa bela imagem, ele é bem-vindo. Mas no cotidiano, com a intolerância narcísica – Narciso acha feio o que não é igual a si ou ao que idealizou –, a presença do outro passa a ser alvo de críticas, agressões que nos desconfirmam e nos fazem sentir um mal estar indizível.
Então, não podemos nomear, denunciar as falhas do outro?
Não é em absoluto disso que se trata. Existem falhas que o ser amado tem e podemos tentar ajudá-lo, com inteligência e sensibilidade, a se livrar delas.
Refiro-me à “invenção” de falhas. É isso mesmo. Nas relações mais íntimas existe a tendência de se misturar. Um projeta sobre o outro aspectos pertencentes à sua própria vida e história e tem a certeza inabalável de que aquela é uma realidade inquestionável. É ao acontecer esse tipo de projeção cega que a relação passa de construtiva para destrutiva.
Isso porque:
– Queremos que o outro atinja um ideal de perfeição que nem mesmo nós temos.
– Queremos que o outro esteja sempre bem disposto a nos acolher, ajudar, perceber, considerar e todos os verbos afins ad infinitum.
– Não damos conta de ter um amor e mesmo assim nos sabermos sós; sentirmos  que o parceiro não tem que ser sempre compreensivo, bom, apaixonado, cuidador, e todos os adjetivos afins ad infinitum.
Só um bebê precisa ter outro sempre a cuidar dele, uma vez que efetivamente não consegue fazê-lo.
Às vezes acontece mesmo que justo naquele dia em que você está péssima, brigou no trabalho, tudo deu errado e espera conforto do seu amado, ele também está de mal humor. Mesmo assim, você acha que ele lhe “devia” algo.
Devia não.
Não é porque temos alguém que esse alguém tem que estar “sempre” presente. Ele também vai estar ausente, lhe deixar na mão, lhe desiludir, e é assim mesmo que é a relação adulta. Quem não pode mesmo ser deixado na mão é o bebê, que não tem ainda autonomia para cuidar de si quando necessário, como é o nosso caso. Não nos esqueçamos: somos adultos.
Damos conta de sermos frustrados, mas não queremos que isso exista na relação e é claro que vai existir, o que nos deixa como eternas crianças emburradas, beiços caídos, olhos pedintes. Vivemos mais infelizes pelo que não temos do que felizes pelo que temos.
Tem o outro lado da questão que é tentar se adequar às fantasias do outro. Nessa onda começamos a nos empobrecer, deixamos de ser nós mesmos, deixamos de crescer e, às vezes, morremos.
É verdade que de início nunca demos conta de nós mesmos sozinhos. Sempre precisamos do outro: da mãe, do pai, da babá; daí até saltar para a namorada, o marido, a esposa na fase adulta é um pulo que nem notamos.
Estar sempre tentando trazer esse outro até nós, o atraindo e envolvendo, é o nosso trabalho de uma vida toda. Esta parece ser a nossa sina.
Porque queremos demais, queremos em excesso, estragamos nossas relações.
Se não aceitamos o possível e se não aprendemos a nos alegrar como o parcial, a cada momento pode acontecer conosco o que diziam os nossos avós: “Quem tudo quer tudo perde”.
Há quem queira usar o seu amor como se fosse aquela fraldinha ou travesseirinho que o bebê carrega inevitavelmente para todo o canto e submete a todos os seus caprichos. Deixa e pega quando lhe interessa. É o que chamamos em psicanálise de objeto transicional, o substituto da mãe que queremos dominar e garantir ao nosso lado para sempre com o fito de não experimentar a perda.
Inútil.
A perda é a entrada na vida. Evitá-la é possível muitas vezes com sensibilidade e inteligência.
Com os caprichos infantis, é fracasso na certa.