O que fica do Fica

Luciene Godoy // O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental na cidade de Goiás acaba de acontecer mais uma vez. O que será que ele deixa plantado? Afinal, o que fica do Fica? Ficam encontros, muitos encontros. Encontros com nós mesmos e com os outros. Encontros de almas, de projetos, de visões. Encontros de universos e de visões de mundo. Ficam sementes plantadas para um novo mundo criado por cada um de nós, mas no Fica elas ficam mais fortes, mais robustas. Crescendo e aparecendo mais a cada ano. No Fica, ficam plantadas novas sementes de ideias, de novas parcerias de invenções. Novos amores. Amores pela terra e pela Terra. Amores novos e amores antigos, revigorados e replantados. No Fica, fica um “cheiro” no ar, espalhado por todas as ruas de Goiás – cheiro de gente cheia de vida se movendo e buscando mais vida. Todos eles “ficantes” do Fica. Namoros que duram. “Ficadas” profícuas. Goiás germinando, parindo, florescendo e deflorando cabeças virgens em busca de mais conhecimento e de mais consequência. Eu confesso que fiquei mais goiana-Cora, mais goiana-índia. No Fica acontecem muitas fertilizações, muitos bebês novos nascem, muitas promessas de futuras crias são firmadas. De cada Fica, fica outro Goiás, mais daqui e mais do mundo. Fica mais goianidade e mais universalidade. Muitas novas espécies de todos os ecossistemas culturais são aqui plantadas e enxertadas. Muitas trocas de DNAs. Ficam as palavras da psicanalista Maria Rita Kehl, que nos ensinou que a floresta para os índios se chama Tekoha (pronuncia-se “têcorrá”). Essa palavra quer dizer “lugar onde nós exercemos nosso modo de viver” e me fez, já produzindo novas ligações, lembrar das seguintes frases atribuídas a Chico Xavier: “A gente pensa que está em Londres, Paris, Milão. A gente pensa que está em um carro importado. A gente pensa que está dentro de uma mansão. Mas na verdade a gente está dentro de um corpo, e se nós não estivermos bem com nosso íntimo, estaremos mal em qualquer lugar”. O nosso corpo é o nosso primeiro Tekoha. É nele que exercemos o nosso modo de viver. É dentro dele que estamos antes de estar em qualquer outro lugar. Do Fica , também ficam os ecos da fala de Vincent Carelli, antropólogo e cineasta franco-brasileiro que me permitiu “lembrar” que os índios não estão lá e nós aqui. Nós, brasileiros, nos esquecemos de que somos índios em nosso sangue, em nossos costumes e em nossa alma. Somos uma nação tricolor: de brancos europeus, negros africanos e índios, os locais, os daqui, os únicos brotados da terra em que nascemos e vivemos. O quanto da maneira cordial, amorosa, aberta e alegre do brasileiro vem da nossa porção índia? Por que ainda queremos só imitar europeus (ou americanos, mais recentemente) nos esquecendo do quanto o corpo, o festejar e o fazer tudo ficar mais leve e prazeroso que vem do negro também são nossos? Lembremo-nos fortemente do barro de que somos feitos. Por causa dele somos ricos de um jeito de ser que o sociólogo Domenico de Masi aponta como o novo modelo para o planeta que necessita ser “reinventado”. Muitas das nossas características são preciosas num mundo que se torna cada vez mais mestiço e que exige coexistir de uma forma que dominamos melhor do que nenhum outro povo em nossa aldeia global. Ficam, pois, muitas construções do Fica. O mundo fica melhor com o Fica. Que se reproduzam muitas dessas árvores pelo planeta e que nossa nave-mãe fique mais respeitada e bem cuidada. Fica do Fica, mais do que nunca, uma “terra boa e abençoada”: é Goiás, Goiás, Goiás…

Falar sem dizer

Luciene Godoy // Falar ao vento. Falar para as paredes. Desperdiçar o verbo. Não ser levado em conta. Você gosta disso? Se a resposta é não, então, vejamos como conseguir chegar lá – principalmente para nós, mulheres, que falamos, falamos, falamos e… nos queixamos de não sermos ouvidas. Está em questão o que falamos (conteúdo), como falamos (prosódia) e com que palavras (léxico); mas também está em questão a repetição ou a invenção. Disso ninguém fala muito. Você fala usando as mesmas palavras e expressões que sua mãe falava, que seus amigos e parentes sempre usavam nas tentativas de dialogar e “esclarecer” algum problema, buscando saídas novas? Você fica repetindo a mesma ladainha tentando desesperadamente comunicar ao outro o que lhe vai na mente? Não seria um contra-senso buscar saídas novas usando raciocínios repetidos, insossos e inodoros que não tocam quem os houve? Que não causam nenhum impacto? Que não fazem a pessoa “levantar a orelha”, querendo escutar aquela coisa interessante e nova que sai da sua boca? Se você fala sempre o mesmo, como quer que se preste atenção? A repetição nos faz dormir mentalmente. Que tal se começássemos a substituir expressões que de tão usadas perderam a cor, a consistência, a força, o sentido… a graça? Viraram um trapo velho e carcomido. Invente novas expressões que possam exprimir seus sentimentos. Fale “poetando” mais. Fale buscando palavras que definam melhor o que você busca transmitir. Dê-se ao trabalho de não repetir invenções, não só as alheias, mas também as velhas, usadas e com a fraqueza do fósforo riscado. Sem a força de acender a chama do interesse do outro. Crie expressões novas, calcadas nas experiências domésticas, assim como os apelidos que colocamos nas pessoas queridas, derivados do seu jeitinho de ser. Faça as suas invenções. Estamos num mundo de artistas, mundo que acolhe bem as subjetividades, as diferenças e, portanto, a invenção que cada um de nós é. Use sua própria linguagem. Invente. As pessoas vão gostar, vão se surpreender, vão rir, vão pensar, vão se questionar. Tudo menos bocejar, se anestesiar e fechar os ouvidos porque já sabem tudo o que será dito. Fizemos uma viagem em família para Buenos Aires e, toda vez que íamos a uma casa de câmbio, acontecia algum evento desagradável. Depois de alguns dias, Frederico, nosso filho, voltando de um passeio onde encontrou alguém de trato desagradável, saiu com essa: “O cara não tem jeito, ele não ‘cambeia’. Caímos na gargalhada e, a partir daí, o verbo “cambear” foi incorporado ao vocabulário familiar para denotar quem é de relacionamento difícil e que complica o que é simples. É quando o câmbio, a troca emocional, se faz difícil. Essa história produziu seus efeitos entre nós. Ficamos mais unidos e bem humorados. É mais uma descoberta que vivemos juntos, que nos une, nos dá uma intimidade e carinho que só nós, desse pequeno grupo, experimentamos. É isso que você está perdendo, se vive descrevendo fatos com expressões vencidas. Que foram usadas em outras circunstâncias, mas que, na sua, são fogueira queimada, fósforo usado. Pessoas desligam a mente diante do conhecido. O conhecido pede o piloto automático. Se você quer ser ouvido e escutado, pare de falar a língua alheia e destituída de gosto próprio. Repetição é um convite ao sono, ao fechamento e ao descanso diante do conhecido. Invente o seu fósforo, risque-o e ilumine sua vida e a das pessoas que te rodeiam com a luz necessária para se enxergar e saber onde construir, onde derrubar; onde avançar, onde recuar. E depois tem gente que quer saber o que é cegueira. Falemos da luz que é se exprimir de maneira nova para dizer o novo que acontece. O que se repete não é o ato – cada um é único. O que se repete e nos aprisiona é a descrição dele. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 13 de agosto de 2015.

O pai: uma nova mãe

Luciene Godoy // Em maio, proferi uma palestra em São Paulo com o título de A Nova Mãe. Porém, a primeira imagem que projetei na tela foi a de um homem com um bebezinho bem no meio de seu peito firmemente atado por uma faixa – conhecida como sling – que dava o formato de um ninho. “Cadê a mãe?”, lia eu nos olhos surpresos do auditório. “Aqui está a nova mãe’, disse. Por que está havendo essa mudança? Afinal, desde os primórdios, a mulher vem cuidando da prole; o homem, primeiro, saiu para caçar e buscar sustento para o grupo familiar, em um mundo onde a força física era determinante. Depois, quando a fábrica dominou as relações sociais, o homem foi conclamado a sair de casa e de novo buscar – não na natureza, mas nos escritórios e nos galpões de produção – o sustento para os seus que esperavam em casa pelo pão de cada dia. O que mudou afinal? Desde a Segunda Guerra Mundial, as mulheres saíram de casa para substituir os maridos e, como sabemos, nunca mais deixaram esse lugar. Hoje, cada vez mais, na busca da competência e da eficácia no trabalho, o que conta não é o sexo, mas o resultado. Porém, se as mulheres estão no mundo como profissionais, quem cuidará das crianças? Babás e vovós? Mais atual falar de creches (não só para operárias, mas também para mães com salários altos) e de escolas infantis que começam tão cedo. Esse fenômeno criou uma expressão irônica: as mães estão “terceirizando” a criação dos filhos. Não necessariamente. É claro, sempre houve mães de faz-de-conta “totalmente” devotadas ao lar e aos filhos, que nunca estiveram lá. Assim como tem as que ficam muito tempo fora ou muito tempo dentro de casa, sempre vão existir também mulheres que não dão conta de serem mães, confessem isso ou não. A boa notícia é que existe uma nova mãe no mundo: o pai. Nas aulas que ministro no curso de gestantes da Unimed Goiânia, os pais têm tido participação destacada. Vejo seus olhos brilhantes e cheios de interesse quando falo da necessidade que o bebê tem de não perder abruptamente o corpo da mãe. Os pais fazem perguntas, acenam a cabeça com convicção e fazem comentários. No final, vêm mães e pais querendo adquirir uma bolsinha canguru para cada um deles. E são eles, muitas vezes, que pedem para colocar para “ver como é que é”. Se vamos a um restaurante, vemos pais sorridentes deixando seu bebê usufruir do seu gostoso e forte colo, fazendo do corpo do pai o seu parque de diversões. Cada vez mais os pais se tornam mães. E o fazem com gosto e com interesse. Não é só porque hoje é difícil manter uma babá. Trata-se de uma conquista histórico-social: assim como às mulheres está dada a condição para viver papéis antes só masculinos, ao homem também está sendo franqueada a entrada no mundo feminino em vários setores, inclusive o da maternidade, que nesse caso chamamos de maternagem – o cuidado que se dá ao bebê em seu estado de dependência, campo antes restrito só as mulheres. Poderíamos até inventar um slogan: maternidade para todos. Sim, a maternagem é, hoje e cada vez mais, um trabalho em conjunto. Não há mais mulheres só mães. Elas se multiplicam em muitos lugares no mundo e por isso podemos também – e por que não? – termos mais mães para além das mulheres? Todos temos colo, temos pele, abraço, sorriso e presença para trocar com nossos pequenos. Útero-gestação, parto e amamentação só com as mães-mulheres. Extero-gestação e todas as demais necessidades do bebê podem ser compartilhadas com muitos: vovó, vovô, padrinho, madrinha, amigos, parentes… com quem quiser entrar na roda e usufruir da imensa energia de vida que uma criança traz para quem tem a competência de conviver com ela de corpo presente. Parabéns aos papais-mamães de 2015! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 6 de julho de 2015.

Quando eu tiver um tempo…

Luciene Godoy // Vivemos dizendo que faremos um montão de coisas quando tivermos um tempo. Cabe perguntar: o que podemos fazer para termos tempo? Esperarmos pacientemente ou, quem sabe, ansiosamente? Fazermos as contas do tempo comprometido para ver quando será a próxima brecha? Jogarmos um dadinho e contarmos com a sorte de “aparecer” um tempinho extra para realizar aquele pequeno sonho? Afinal, quando é que teremos um tempo para fazer aquelas coisinhas que nos são prazerosas, mas ficam sempre esperando pela “oportunidade” que nunca chega? O que não notamos é que estamos sempre “tendo um tempo” – favor não confundir com “dando um tempo”, expressãozinha que de tão usada pede desesperadamente substituição. O que você faz quando está subindo o elevador? Vejamos algumas possibilidades: imagina que está atrasado e qual justificativa vai dar? Consome-se de raiva pensando no trânsito pesado que te fez perder mais tempo que o previsto? Bate os pés no chão de ansiedade lembrando-se que após aquele compromisso “tem que” buscar o filho na escola ou ir para uma reunião de trabalho etc., etc.? Tenho uma amiga que quando sobe o elevador realiza contrações no glúteo para manter – e, benza Deus, mantém – aquela parte linda do seu corpo, deixando a ginástica para outros detalhes. Ela achou um tempo onde não havia. Quando está no carro escuta livros em francês para curtir, relaxar no trânsito e incrementar seu aprendizado da língua. De novo, ela achou um tempo onde não havia. Um analisante desenvolveu uma capacidade de organização e logística que é deliciosamente eficaz. Ele afirma que seu dia a dia é um jogo de videogame em que se esgrima para conseguir a melhor performance. Isso lhe dá o prazer da vitória e o relaxamento de ter a vida bem cuidada, do tipo dois em um, vantagem em dobro em uma só atividade. Exemplo? Ele faz o bife do almoço de hoje e deixa enfarinhado e tostado o que será o filé à parmegiana de depois de amanhã. Pula um dia, ele cobre o filé com queijo, orégano e molho de tomate e o cardápio (o mesmo) não se repete. Ele achou um tempo onde não havia. Assim, para essas pessoas, o tempo vai se multiplicando e fica três em um, quatro em um. No entanto, geralmente o que acontece é que fazemos o usual: entramos no elevador e nos preocupamos, por exemplo. Não dá para fazer algo mais produtivo e prazeroso? Algo que, como os exercícios de minha amiga, faça você se sentir vivendo intensamente, fazendo acontecer e não um pobre coitado que mais se assemelha a um cachorro correndo atrás da roda do carro sempre mais veloz que ele? Não é ter um tempo, é usar o tempo. Usar e não simplesmente deixar escorrer entre os seus dedos um tempo precioso, enquanto nos “pré-ocupamos” com o que não podemos fazer naquele momento. Estar presente é descobrir o que podemos usufruir daquela exata situação que estamos passando. Enquanto espero a consulta, leio um livro de piadas, ao invés de fritar meu cérebro de raiva do atraso (ficar bem humorado vai ajudar nessa circunstância, não duvide). Que tal ouvir aquelas palestras maravilhosas que você gravou no congresso, enquanto o dentista remexe a sua boca? Múltiplos ganhos: você, concentrado nas mensagens da gravação, nem terá tempo para sentir o desconforto da situação, deixará o dentista feliz e se enriquecerá profissionalmente num momento nem um pouco previsto para isso. E tem mais ganhos. É só procurar que você acha. Podemos finalmente responder à pergunta: “Quando tivermos um tempo” é agora. Ter tempo não é sobra de tempo, é uso de tempo. É sentir-se inteiro dentro de cada circunstância de forma que outras oportunidades são, por isso, engatilhadas. Ter tempo é estar no presente, é usufruir dele, é degustá-lo, é inventá-lo e se sentir senhor de sua vida… aos pedaços… pedaços de presente. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 30 de julho de 2015.

Identidade mutante

Luciene Godoy // A identidade é o chão de todos os seres humanos. É o chão sobre o qual crescemos e frutificamos. É o nome que damos ao fato de nos reconhecermos existindo. Segundo a bíblia, fomos feitos com o pó da terra. Quando Deus soprou em nossas narinas o sopro da vida, nos tornamos seres viventes. Nessa versão, fomos feitos de terra e ar (terra = raiz, solidez, carne; ar = transcendência, movimento e criatividade). Somos chão e somos ar, nossas identidades primeiras. Depois nos tornamos muitas identidades – identidade caleidoscópica, bela e mutante imagem que se vê. Só nos reconhecemos no movimento, sem as referências externas, se tivermos o nosso corpo próprio, se sentirmos que existimos em cada situação, se percebemos nossa identidade. Se você está confuso, não diga que não sabe quem é. Encarne a realidade daquele momento que é a de um ser em estado confuso. Estar mudando, estar estranho e estar num lugar desconhecido são todos estados, identidades que temos no viver essas situações. “O urubu-caçador dorme na perna do vento”, diz o poeta Tom Jobim. O ar move, o urubu dorme. Dorme porque tem as garras firmemente fincadas na perna do vento. Nos firmamos em algo indizível em nós mesmos, o que nos dá chão no vento, a tal identidade caleidoscópica, feita no movimento, com combinações variadas – que pode ser muita coisa sem se perder de si. O ar nos salva do chão quando ele, ao invés de oferecer firmeza, se mostra movediço e traiçoeiro. Tem abismos e pântanos. Não há segurança total no chão firme. Terremotos vêm do chão, da água vêm os maremotos e do ar os tufões. Somos ameaçados pelos três elementos, mas todos passam. E as hecatombes internas que fazem com que nos percamos de nossa identidade identidade? Dessa não temos jeito de fugir. O chão é quem somos, nossa identidade, e ao mesmo tempo a realidade sobre a qual caminhamos. Escolhemos onde pisar? Claro que sim. Escolhemos ser quem somos? A resposta é a mesma. Fomos feitos do barro do outro, mas somos mutantes. Nascemos, crescemos e nos transformamos. Saber-se mutante, saber-se só e único. Saber-se um ser “trocante”. Vivemos de nossas trocas com o outro – simbioses produtivas, não parasitismos mutilantes. Sós, mas muito bem acompanhados por nós mesmos e os que escolhemos deixar entrar em nossas vidas. Sós, porque não entramos na pele do outro, no corpo dele, como muitas vezes tentamos, para adivinhar-lhe os pensamentos e articularmos respostas que supomos ser o que querem. Impossível! Não se sabe nunca o que emociona intimamente alguém e quando isso acontece. Não adianta guardar a receita para o futuro, pois diante de outras circunstâncias o que causou emoção antes já não mais produzirá a mesma resposta. Não sabemos de antemão nem de nós. Sentimo-nos a cada instante. Pensamos que agiríamos de tal ou tal forma e na hora em que estamos dentro da cena aparece um outro “eu”, um “eu” que nos surpreende. Que bom! Não se assuste, é sinal de vida e saúde. Quando parecemos sempre os mesmos estamos na “doença da repetição” – marasmo criado para não deixar a vida passar e correr o risco de não dar conta de ir atrás. Então habilmente “fazemos a vida parar” fingindo que nada muda nunca. Vivemos sós, com os outros. Trocamos, criamos, sentimos prazer. Nos misturarmos, sermos capturados e nos tornarmos prisioneiros do que veem em nós só se quisermos abrir mão de sentir de forma dinâmica quem somos e passarmos a perguntar para o outro. O outro não é meu documento de identidade. Identidade caleidoscópica se situa a cada momento em cada situação. É divertido, vivo e eficaz. Estranhando a palavra eficaz, que não rima com divertido? Eficaz porque nos dá a consistência – sempre temporária, pois vai mudar, mas firme o suficiente – para nos fazer “seguros de nós” a cada passo. Viver no movimento e ao mesmo tempo na segurança de dormir na perna do vento é possível, se estiver lastreado numa identidade flexível e mutante. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 23 de julho de 2015.

O maná dos céus e o da mente

Luciene Godoy // Sempre me encantou a história do maná que Deus enviava ao povo hebreu todas as manhãs durante os anos em que fazia sua longa viagem de travessia do deserto rumo à Terra Prometida. Alimento novo a cada manhã. Alimento que não servia para ser consumido depois, nem sequer na manhã seguinte. Ele simplesmente apodrecia e morria junto com o dia que acabava. E o alimento da alma, qual será? Nossa mente se alimenta do que pensamos. Ela se alimenta do que interpretamos de tudo o que nos acontece. E qual é o alimento que damos à nossa mente todos os dias? O pão nosso de cada dia da alma é o olhar nosso de cada dia. Porém, o olhar nosso de cada novo dia – lembrando que cada dia só pode ser novo e se não for é porque o dono do dia está dodói da percepção – pode estar desfocado, embaralhado, ocupado com imagens antigas, vendo filmes e tragédias de nosso passado. Quando você bater na porta querendo entrar, vai ler na porta de seu olhar: “Ocupado com o passado e o futuro”, o que equivale a dizer “ocupado com o rancor, o vitimismo, a felicidade que acabou, o que seria e não foi”. Ou então, “ocupado com a ansiedade do que virá e também com os eternos sonhadores – que se ocupam com suas ilusões que nunca viram realidade”. Ao pensar no futuro com a alma presa no passado – enquanto é de viver o presente que se trata -, o medo de sofrer a mesma e conhecida dor de antes leva a uma ansiedade provocada pela “certeza” que nos torna uma presa fácil e submissa. É um medo/certeza de que retornem acontecimentos que estão mortos. Que foram e não são mais, a não ser que o tragamos de volta com o nosso olhar-mente. No fundo, são crenças em “verdades acabadas” – acabadas mesmo, findas, que não mais existem. Crenças em verdades acabadas que são vividas como “verdades eternas”, ou “verdades imutáveis”. Se você fica preso a uma explicação cristalizada (“eu sou tão preguiçoso” ou “cozinhar é ruim demais”), você cria certezas que não te deixarão descobrir o novo, se surpreender com você mesmo. Quem sabe descobrir um “você novo e desconhecido” do qual pode gostar bastante? Você pode ficar maior, mais fortalecido, mais expandido e mais livre, se for alimentado do maná-dos-céus-da-mente, que está novinho e à nossa disposição para a colheita diária. Uma analisante afirmava insistentemente que seu sonho era de que pelo menos um rapaz gostasse dela. Afirmava que era “uma moça que ninguém quis”. Precisei de pouco tempo para fazer uma pequena lista do que ela já havia me relatado de namoros que não foram para frente. Detalhe: não continuaram porque ela não quis. Mas os poucos casos em que os namorados terminaram prevaleceram sobre toda a realidade dos fatos. Ela via sempre a mesma história que ela mesma se contava. Ver com olhar novo os velhos fatos nos dá um novo sopro de vida. Nos faz mudar do lugar aprisionador e imutável no qual nos reproduzíamos dia após dia comendo maná-podre-da-mente. O que nos falta é amanhecer com olhos novos. É comer o maná novo de cada dia. É o maná-olhar! A comida que o olho vê e engole mandando alimento – renovado ou podre – para dentro da nossa alma diariamente. E o nosso estado de espírito é mantido bom ou ruim conforme a qualidade do que escolhemos comer. Não pulemos fora disso: a escolha do que pôr para dentro é nossa, o prazer ou sofrimento é a consequência óbvia. O pão-nosso-de-cada-dia, como expressa a metáfora do maná, é sempre novo. Colher o maná-olhar-de-cada-dia é aproveitar o que vem, o que acaba de acontecer. É nos apossarmos da surpresa, do inesperado e fazê-los parte de nosso novo dia. É fazer uma diferente interpretação do que surge, porque sempre surge em uma contextualização nova, e desta forma ir criando e sustentando nada menos do que… a nossa nova-vida-de-cada-dia. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 16 de julho de 2015.

Parentalidade, ser pai e mãe hoje

Luciene Godoy // Será que já nos demos conta de que nos mudamos do planeta “Terra 1” e hoje vivemos no “Terra 2”? Tudo mudou de forma incontrolável, diz o psicanalista Jorge Forbes, que nos define hoje como seres desbussolados, pois a maneira de se nascer, crescer, se casar, estudar, trabalhar, se aposentar não é mais a mesma. Aviso aos navegantes: a ciência também não é mais aquela que desde o século 17 afirmava que “a missão da ciência é conseguir conhecimento que pode ser usado para dominar e controlar a natureza”. Já não temos mais essa certeza, uma vez que hoje é a própria ciência que ameaça o planeta com suas descobertas com poderes tanto construtivos quanto destrutivos. Cientistas da Nova Biologia, como Bruce H. Lipton, acreditam que é o ser humano que necessita entender como nós podemos nos incorporar à comunidade que chamamos de Natureza. Não para dominar, mas para participar e nos perpetuar. Criar filhos tem tudo a ver com isso. Não se trata de uma relação de inimizade, de necessidade de se subjugar ao outro lado a fim de que o melhor aconteça, mas sim de uma busca de convivência entre partes distintas que podem se complementar e se enriquecer. Desde a revelação, com a conclusão do projeto Genoma Humano em 2001, de que não temos os 140 mil genes que eram esperados, mas apenas 34 mil, descobriu-se também que as múltiplas informações que fazem com que sejamos como somos, do ponto de vista biológico e comportamental, têm muito mais a ver com as relações que mantemos com o ambiente do que com nossa genética. Foi, então, criada a epigenética, que é a parte da genética que estuda as influências do meio ambiente sobre nosso gene. A corrente do determinismo genético pregava que éramos constituídos e limitados pelos nossos genes, passados pelo óvulo da mãe e pelo espermatozoide do pai na concepção. A Nova Biologia da qual a epigenética faz parte vai na contramão dessas afirmativas dizendo que o ambiente é que funciona como um interruptor que aciona ou neutraliza o que nos faz “ser como somos”. Grande surpresa! O que nos controla são nossas crenças, nossas atitudes, emoções e percepções. Parentalidade é o estado ou condição de quem é pai ou mãe. De que forma se daria ser pai ou mãe dentro de valores como esses? Os pais de hoje, que não são mais os donos da verdade nem aqueles que “sempre sabiam o que era melhor para os filhos”, podem crescer e aprender a serem pais junto com filhos que estão aprendendo a crescer. Valéria, mãe de Sofia, uma adolescente que de repente se vê gravando suas músicas prediletas da aula de canto em um estúdio de verdade. Presente da mãe e presença da mãe, que enxergou o peso e o valor que aquele acontecimento poderia trazer à filha E emoção total! Amigos e parentes embasbacados ao ouvirem a doce voz, um dia antes desconhecida e que de repente surge no meio de todos. Mãe que ajuda a filha a se descobrir, a corajosamente ir atrás do que quer. Que se expõe e cria o inesperado e depois curte os efeitos deliciosos. Janaína, que, na mesa do café da manhã, ao folhear os desenhos do filho Pietro, de 8 anos, tomada de emoção resolve lhe fazer uma surpresa: enquanto o garoto ainda dorme, prepara uma “exposição íntima”, colando lindamente os desenhos na parede da sala. Quando o pequeno se levanta é recebido pelos pais com um café da manhã especial – feito no último momento – e ovacionado pela pequena família que no íntimo da convivência doméstica saúda a beleza produzida pelo filho. Filho esse que depois disso não mais se verá da mesma forma. Pais que estão juntos com os filhos, aprendendo a serem pais e mães, se deixando emocionar pelos seus feitos e conquistas. Ser pai e mãe é um way of life, é o nosso estilo de vida, é como vivemos em nossa verdade. A genética tem menos poder do que supúnhamos. As nossas relações com nossos filhos, essas, sim, criam a sua maneira de ser. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 9 de julho de 2015.

Consciente versus inconsciente

Luciene Godoy // A psicanálise inaugurou na humanidade o uso da palavra inconsciente que, a partir de um setor acadêmico específico, passou a ser um vocábulo de uso comum para expressar maneiras de agir que são alheias a nossa vontade. Como algo para expressar o que desconhecemos de nós mesmos. A teoria do recalque nos fala do desaparecimento de certas informações em nossas mentes com o intuito de nos poupar sofrimento ou nos permitir ter prazeres proibidos de forma desviada. Tanto que um dos conceitos de recalque é “o sujeito não quer saber que sabe”. Por outro lado, chama a atenção a quantidade de textos na mídia e livros sobre o tema dos benefícios de se estar consciente do momento presente. Existe mesmo uma expressão – mindfulness – que nos convida a “prestar atenção às experiências do momento presente com abertura, curiosidade e desejo de estar em contato com o que for que esteja acontecendo”. É focar intencionalmente e sem culpa nas nossas emoções, pensamentos e sensações. É, sem dúvida, um convite a estar no presente. Esse movimento ensina que a maneira de exercer o mindfulness – que me faz pensar em consciência ativada – é estar atento a todas as pequenas coisas que acontecem ao nosso redor. É o oposto de estar no piloto automático. É ter os sentidos aguçados para vivermos intensamente o que está acontecendo. Isso nos faz sentir vivos e cheios de energia. É o que acontece quando estamos pela primeira vez em um local antes desconhecido. Nossa curiosidade se aguça e passamos a perceber um novo mundo ao nosso redor. Mas, veja bem, isso só ocorre porque pensamos que vai ser novo e o olhamos como novo. O mesmo pode acontecer em nossa rotina. Se olhado com abertura e curiosidade, nosso cotidiano que parece tão conhecido pode nos revelar sempre coisas novas que vamos incorporando de maneira a darmos mais vida à vida. Viver dentro desse espírito é comparável à ideia de se viver viajando para novos lugares onde sentimos a curiosidade por todos os pequenos detalhes que constituem o novo mundo que estamos visitando. A essa viagem-estado-de-espírito eu dou o nome de presença. Ela nos conduz a viver intensamente o momento presente nos dando realmente a sensação de estar visitando um lugar novo. Se você aceita a lógica de que cada dia é um dia novo, não há nenhum igual ao outro, você está prestes a fazer muitas viagens que nem custam dinheiro, custam mente presente – mindfulness. Porém, não é sem motivo que as pessoas não estão quase nunca no presente. Ou estão no passado pensando no que lhe foi feito ou no futuro aquilatando quando chegará a prometida felicidade ou amedrontadas pelo castigo que está prometido aos que erram. E quem não erra? O recalque é motivo para não estarmos no presente, pois sermos guiados pelo inconsciente é justamente não saber o que está acontecendo. Saber o que está acontecendo pode nos trazer infelicidade, esse é o princípio da eficácia do recalque, só que, junto com o que escondemos de nossa consciência, escondemos de nós mesmos um mundo de coisas maravilhosas também, como os grandes pequenos milagres do dia a dia. Olhamos e vemos, escutamos e ouvimos, sentimos sensações esquecidas, saboreamos em degustações intermináveis o gosto de cada acontecimento. Sem estarmos mais num mundo de tantos certos e errados, podemos errar sem desespero, podemos ser felizes sem medo do castigo, podemos ter mais consciência e aposentar a brutal necessidade que tínhamos de esquecermos de nós mesmos. Estar no presente é ter a consciência de que não temos nada para esconder e subtrair – roubar – de nós mesmos. Dessa forma, podemos aumentar a nossa vida – não vivendo 100 anos, mas fazendo-a mais intensa. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia, em 2 de julho de 2015.

Especial Namorados (III): Dançar na cama

Luciene Godoy // É impensável escrever uma trilogia sobre o namoro, um presente que quis dar aos meus leitores-namorados no mês dos namorados, sem falar em cama. Há duas semanas, escolhi a metáfora da dança para falar de namoro. Namorar, para mim, é um processo de conhecer o outro que jamais terá fim para os que não morrem no marasmo, tentando garantir a posse do outro ou a posse da situação de ter alguém. Dançar no salão, dançar na vida e dançar na cama. Penso que só dançamos bem na cama se dançamos bem com o corpo próprio e com o corpo do ser amado. Se dançamos nos olhares que ainda buscam interpretar as luzes ou as sombras que passam pelo olhar de quem queremos bem. Se dançamos nos múltiplos sorrisos que desabrocham em diferentes intensidades para dizerem tantas coisas. Pequenos grandes milagres do dia a dia que muitas vezes ignoramos. Um roçar de dedos, uma mão que desliza sobre o nosso braço, uma mão espalmada que nos percorre os cabelos e nos aperta a nuca. E os abraços, então! Desde os mais suaves, amigos, ternos, carinhosos, até os mais arrebatados, ferozes e possessivos. Abraços cheios de eletricidade, de choques que percorrem as veias, que bambeiam as pernas, que botam o coração para dar pulos. Beijos são uma parte toda especial. Pelo beijo entra-se dentro do corpo do ser amado também. Nele entramos no coração, nas entranhas, no mais fundo do peito que arfa buscando mais ar e mais presença da outra boca na nossa. Beijos suavemente sedosos percorrendo etapas de nosso corpo ou tomando posse de outras de forma afirmativa, possessiva e apaixonada. Dançar no corpo do outro. É isso que se passa entre duas pessoas que usufruem de tal intimidade. Dentro do mesmo princípio do ativo e passivo, do que toma e do que dá, a cada encontro, de acordo com o seu desejo naquele exato momento. Dançar na vertical é o maior preparo para a dança perfeita na horizontal. Dançar falando belas palavras à pessoa amada. Emprenhando sua alma pelas palavras que lhe conferem o sentimento de existir no reconhecimento do amado que lhe percebe as características mais sutis, que lhe faz descobrir sobre si, coisas que nem suspeitava. Redescobrir-se no amor é muito gostoso! Palavras, toques, olhares, tudo isso misturado em receitas únicas que a cada momento que nos produzem perfumes insondáveis. Levamos alguém para cama quando temos firmeza de caráter, a alma carinhosa e uma ética pessoal. Ética que não se trata de uma obediência cega ao que é considerado “certo ou errado” sem nos darmos ao trabalho de julgar e tomar para nós o peso das escolhas por responsabilidade pessoal, sem eleger ninguém para imputar os resultados não exitosos. Muito atraente quem se valoriza, valoriza as pessoas e o mundo ao seu redor. Muito atraente quem sabe o que quer e vai atrás sem subterfúgios. É mesmo muito sedutor quem não vive “se explicando nem se justificando”, vestido da pele de sua própria identidade sem plagiar nenhum modelo televisivo nem intelectual. Levar para cama o amado que tão bem conhecemos e que ao mesmo tempo desconhecemos totalmente é comparável a subir o Monte Everest, descer ao mais fundo oceano, voar pelas correntes de vento mais insondáveis. O encontro de dois seres humanos em sua infinita riqueza subjetiva é comparável a qualquer grande feito digno de estar relatado nos livros que manterão vivos feitos únicos dos da nossa espécie. Estar na cama com alguém a quem admiramos, amamos e desejamos tem a força para lavar a alma de toda dor e recomeçar limpinho por dentro, para viver mais um dia ensolarado, envolvido na brisa fresca, perfumada e oxigenada que é própria da vida de quem aprendeu a se amar, a amar e usufruir do prazer de ter corpo e compartilhá-lo numa relação, que pode durar toda a vida, e que se chama namoro. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 25 de junho de 2015.

Especial Namorados (II): Quem comanda o casal na dança?

Luciene Godoy // Prólogo: esse mês especial em que decidimos como cultura celebrar o encontro com o ser amado que chamamos comumente de “namoro”, quero passá-lo com você, meu leitor, a falar das novas formas de namorar que já estão no mundo. Você talvez nem tenha se dado conta e está perdendo a festa. Falemos hoje do namoro a partir da dança de dois! Fui criada sendo ensinada que, na dança, o homem deveria conduzir e a mulher, seguir. Que com dois conduzindo seria impossível haver dança. Dançar é fazer dois em um. É o imenso prazer de voltar a fazer um de dois corpos. Então um pensa e o outro obedece, certo? Certíssimo! Isso mesmo! Posso dizer isso porque tenho tido aulas de dança de salão com um grande professor, Felipe Mazetto Perin. São aulas não só de dança, mas de teoria subjetiva, de filosofia, arte, sociologia, história… encontros para dançar e aprender. Aprendi muitas coisas sobre o novo modo de dançar com ele que compartilho com você. E ainda lanço a minha pitada de psicanálise porque tenho descoberto que dançar a dois é uma grande metáfora da relação amorosa entre o casal. Ensinou-me Felipe que, de saída, a primeira condição do dançar é saber onde está o nosso próprio peso (onde o corpo está apoiado – pé esquerdo, direito ou no centro). A segunda é saber quem está propondo. O que antes era só tarefa masculina hoje não é mais. Na dança, que está mudando com o mundo, quem propõe não está mais determinado pelo sexo, mas pela posição de se estar mais a fim de agir (ativo) ou de seguir (passivo), a cada momento. E isso sem juízo de valores. Não tem posição melhor do que a outra, mas desejos diferentes a cada momento. A princípio, pode até parecer o caos, mas não, é muito prazeroso e criativo não se saber de antemão quem propõe. Vive-se cada passo sem saber qual será o próximo e, de repente, um toma a dianteira e propõe. É deliciosamente surpreendente. Felipe me diz sorrindo que, nessa nova forma de se encarar a dança de casal, quem está de fora não sabe qual dos dois está dirigindo e qual está seguindo. É um segredo da intimidade do casal. Achei linda essa intimidade própria do casal que dança a música do século 21! E dançar dessa forma é possível? Na dança, os deslocamentos se dão com cada parceiro sempre voltando para a base – o que na subjetividade podemos expressar como o nosso núcleo, o ponto-de-ser que cada um de nós tem. É só a partir daí que se conseguirá sair para o próximo passo, quer seja seguir o outro ou conduzi-lo. É sempre da nossa base, do nosso lugar de equilíbrio que nos lançamos para novos passos na dança e na vida. A nossa base é que é o “ponto de encontro” com o outro. A partir da nossa base, nos deslocamos com a segurança de encontrar o outro – que não é garantido. Mas a segurança vem de nossa posição e não da dele. O “ponto de encontro” é um ponto de conforto. Quem segue só o fará a partir da sua base também porque precisa oferecer ao outro um corpo equilibrado – do ponto de vista psíquico é um corpo inteiro, não despedaçado – para que o outro tenha o que usar, senão os dois se desequilibram. É um “eu estou te presenteando com o meu corpo inteiro”. E a gente não dá presente quebrado para ninguém! Corpo presente é corpo inteiro na cena. Se está aqui, está aqui comigo e não em outro lugar. Presença e inteireza são sempre um grande presente que podemos dar às pessoas amadas. Por isso, deixar-se ser levado, ser conduzido na dança e na vida, numa deliciosa pulsação (“agora é minha vez, agora é a do outro”), não se trata de humilhação, mas da capacidade de sentir prazer na boa medida entre passividade e atividade. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 18 de junho de 2015.