Maria Rita Kehl na Cidade de Goiás (Foto: ThiagoJesus-Fica)
Maria Rita Kehl na Cidade de Goiás (Foto: ThiagoJesus-Fica)

Luciene Godoy //
O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental na cidade de Goiás acaba de acontecer mais uma vez.
O que será que ele deixa plantado? Afinal, o que fica do Fica?
Ficam encontros, muitos encontros. Encontros com nós mesmos e com os outros.
Encontros de almas, de projetos, de visões. Encontros de universos e de visões de mundo.
Ficam sementes plantadas para um novo mundo criado por cada um de nós, mas no Fica elas ficam mais fortes, mais robustas. Crescendo e aparecendo mais a cada ano.
No Fica, ficam plantadas novas sementes de ideias, de novas parcerias de invenções.
Novos amores. Amores pela terra e pela Terra. Amores novos e amores antigos, revigorados e replantados.
No Fica, fica um “cheiro” no ar, espalhado por todas as ruas de Goiás – cheiro de gente cheia de vida se movendo e buscando mais vida.
Todos eles “ficantes” do Fica. Namoros que duram. “Ficadas” profícuas. Goiás germinando, parindo, florescendo e deflorando cabeças virgens em busca de mais conhecimento e de mais consequência.
Eu confesso que fiquei mais goiana-Cora, mais goiana-índia.
No Fica acontecem muitas fertilizações, muitos bebês novos nascem, muitas promessas de futuras crias são firmadas.
De cada Fica, fica outro Goiás, mais daqui e mais do mundo. Fica mais goianidade e mais universalidade. Muitas novas espécies de todos os ecossistemas culturais são aqui plantadas e enxertadas. Muitas trocas de DNAs.
Ficam as palavras da psicanalista Maria Rita Kehl, que nos ensinou que a floresta para os índios se chama Tekoha (pronuncia-se “têcorrá”). Essa palavra quer dizer “lugar onde nós exercemos nosso modo de viver” e me fez, já produzindo novas ligações, lembrar das seguintes frases atribuídas a Chico Xavier: “A gente pensa que está em Londres, Paris, Milão. A gente pensa que está em um carro importado. A gente pensa que está dentro de uma mansão. Mas na verdade a gente está dentro de um corpo, e se nós não estivermos bem com nosso íntimo, estaremos mal em qualquer lugar”.
O nosso corpo é o nosso primeiro Tekoha. É nele que exercemos o nosso modo de viver. É dentro dele que estamos antes de estar em qualquer outro lugar.
Do Fica , também ficam os ecos da fala de Vincent Carelli, antropólogo e cineasta franco-brasileiro que me permitiu “lembrar” que os índios não estão lá e nós aqui. Nós, brasileiros, nos esquecemos de que somos índios em nosso sangue, em nossos costumes e em nossa alma. Somos uma nação tricolor: de brancos europeus, negros africanos e índios, os locais, os daqui, os únicos brotados da terra em que nascemos e vivemos.
O quanto da maneira cordial, amorosa, aberta e alegre do brasileiro vem da nossa porção índia? Por que ainda queremos só imitar europeus (ou americanos, mais recentemente) nos esquecendo do quanto o corpo, o festejar e o fazer tudo ficar mais leve e prazeroso que vem do negro também são nossos?
Lembremo-nos fortemente do barro de que somos feitos. Por causa dele somos ricos de um jeito de ser que o sociólogo Domenico de Masi aponta como o novo modelo para o planeta que necessita ser “reinventado”. Muitas das nossas características são preciosas num mundo que se torna cada vez mais mestiço e que exige coexistir de uma forma que dominamos melhor do que nenhum outro povo em nossa aldeia global.
Ficam, pois, muitas construções do Fica. O mundo fica melhor com o Fica.
Que se reproduzam muitas dessas árvores pelo planeta e que nossa nave-mãe fique mais respeitada e bem cuidada.
Fica do Fica, mais do que nunca, uma “terra boa e abençoada”: é Goiás, Goiás, Goiás…