Office at Night (Edward Hopper, 1940)
Office at Night (Edward Hopper, 1940)

Luciene Godoy //
Falar ao vento. Falar para as paredes. Desperdiçar o verbo. Não ser levado em conta. Você gosta disso?
Se a resposta é não, então, vejamos como conseguir chegar lá – principalmente para nós, mulheres, que falamos, falamos, falamos e… nos queixamos de não sermos ouvidas.
Está em questão o que falamos (conteúdo), como falamos (prosódia) e com que palavras (léxico); mas também está em questão a repetição ou a invenção. Disso ninguém fala muito.
Você fala usando as mesmas palavras e expressões que sua mãe falava, que seus amigos e parentes sempre usavam nas tentativas de dialogar e “esclarecer” algum problema, buscando saídas novas? Você fica repetindo a mesma ladainha tentando desesperadamente comunicar ao outro o que lhe vai na mente?
Não seria um contra-senso buscar saídas novas usando raciocínios repetidos, insossos e inodoros que não tocam quem os houve? Que não causam nenhum impacto? Que não fazem a pessoa “levantar a orelha”, querendo escutar aquela coisa interessante e nova que sai da sua boca?
Se você fala sempre o mesmo, como quer que se preste atenção? A repetição nos faz dormir mentalmente.
Que tal se começássemos a substituir expressões que de tão usadas perderam a cor, a consistência, a força, o sentido… a graça? Viraram um trapo velho e carcomido.
Invente novas expressões que possam exprimir seus sentimentos. Fale “poetando” mais. Fale buscando palavras que definam melhor o que você busca transmitir. Dê-se ao trabalho de não repetir invenções, não só as alheias, mas também as velhas, usadas e com a fraqueza do fósforo riscado. Sem a força de acender a chama do interesse do outro.
Crie expressões novas, calcadas nas experiências domésticas, assim como os apelidos que colocamos nas pessoas queridas, derivados do seu jeitinho de ser. Faça as suas invenções. Estamos num mundo de artistas, mundo que acolhe bem as subjetividades, as diferenças e, portanto, a invenção que cada um de nós é.
Use sua própria linguagem. Invente. As pessoas vão gostar, vão se surpreender, vão rir, vão pensar, vão se questionar. Tudo menos bocejar, se anestesiar e fechar os ouvidos porque já sabem tudo o que será dito.
Fizemos uma viagem em família para Buenos Aires e, toda vez que íamos a uma casa de câmbio, acontecia algum evento desagradável. Depois de alguns dias, Frederico, nosso filho, voltando de um passeio onde encontrou alguém de trato desagradável, saiu com essa: “O cara não tem jeito, ele não ‘cambeia’. Caímos na gargalhada e, a partir daí, o verbo “cambear” foi incorporado ao vocabulário familiar para denotar quem é de relacionamento difícil e que complica o que é simples. É quando o câmbio, a troca emocional, se faz difícil.
Essa história produziu seus efeitos entre nós. Ficamos mais unidos e bem humorados. É mais uma descoberta que vivemos juntos, que nos une, nos dá uma intimidade e carinho que só nós, desse pequeno grupo, experimentamos.
É isso que você está perdendo, se vive descrevendo fatos com expressões vencidas. Que foram usadas em outras circunstâncias, mas que, na sua, são fogueira queimada, fósforo usado.
Pessoas desligam a mente diante do conhecido. O conhecido pede o piloto automático. Se você quer ser ouvido e escutado, pare de falar a língua alheia e destituída de gosto próprio.
Repetição é um convite ao sono, ao fechamento e ao descanso diante do conhecido.
Invente o seu fósforo, risque-o e ilumine sua vida e a das pessoas que te rodeiam com a luz necessária para se enxergar e saber onde construir, onde derrubar; onde avançar, onde recuar.
E depois tem gente que quer saber o que é cegueira. Falemos da luz que é se exprimir de maneira nova para dizer o novo que acontece.
O que se repete não é o ato – cada um é único. O que se repete e nos aprisiona é a descrição dele.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 13 de agosto de 2015.