Os tempos verbais do nosso corpo

            Onde está o nosso corpo? Em todos os lugares menos no presente, menos na cena, menos no momento que está sendo vivido. Geralmente quando estamos vivendo algo, o nosso corpo ali presente está dividido, lançado em outro mundo. A mente não está junto com o corpo quase nunca. Tomemos o exemplo de uma festa que projetamos. Antes da festa, nos preparativos, corremos pra lá e pra cá. Temos ideias e nos ocupamos em tentar torná-las realidade, inventamos, decoramos, definimos, imaginamos, fazemos escolhas, já estamos numa festa. Fazemos tudo imaginando o que acontecerá – note bem que o verbo está no tempo futuro. A preparação é, em si, uma grande festa, mas será que estamos mesmo de corpo presente nesse momento, curtindo a preparação? Não. Usualmente não. Se você é dos poucos que degusta o preparo, nem preciso lhe dizer parabéns porque você faz parte do pequeno grupo dos que têm o seu corpo no tempo presente. Dos que conseguem amarrar o seu corpo no momento vivido. Se você é assim, curte o presente nos dois sentidos – o tempo presente, o agora e os presentes que a vida lhe dá, que são os acontecimentos momentâneos,iguais ao Maná do Céu, eles só podem ser comidos na hora. Depois se perdem e só no futuro para ter outros. Aqueles nunca mais. E quem não os aproveita fica na fome. A grande maioria das pessoas passa, aguenta e sofre nos preparativos para a festa com a cabeça no grande dia. Aguenta firme os desencontros, o trabalho de organizar, a ansiedade e o medo de não ficar bom – leia-se: não agradar. Mantém o seu pensamento e coração no grande dia. Para estas pessoas, esse, sim, é o momento de curtir o prazer de estar ali, na festa. Chega, então, o grande dia ansiosamente esperado. Agora, sim, chegou a hora de curtir, de usufruir da trabalheira toda da organização, que, é claro, o sujeito não curtiu porque estava com a cabeça no dia em que, finalmente, a diversão estaria franqueada. Durante a festa, a pessoa fica ainda ligada ao “Será que tudo vai dar certo?” Veja só, de novo posicionada no futuro. Sorrisos para todos os lados, porque cara feia, cara de preocupação para a posteridade, nem pensar. Fotos, filmagens  – se assegura de que tudo esteja sendo registrado. Ou seja, na festa, o “festeiro” tem mais a cabeça – e o corpo, que não está tão presente assim – no passado (será que algo que preparei não vai funcionar?) ou no futuro – quando estiver contando o quanto a festa foi maravilhosa. Felicidade, então, só no passado ou projetada no futuro. Felicidade vivida e degustada no presente, isso existe? Felicidade vivida até tem. No passado, quando “eu era feliz e não sabia”, ou no futuro, para onde jogamos nossas promessas de tê-la. Viver a felicidade no momento que ela aparece, degustá-la, dançar com ela, é coisa para poucos. Nada contra a degustação da felicidade do passado e a do futuro, que muitas vezes só existe em nossa mente, porque quando aconteceu mesmo nem foi vivida no corpo. Nem participamos direito. É aquela viagem tensa – antes e durante – e que depois é descrita como tendo sido maravilhosa. Só nas palavras – o que já é alguma coisa, veja bem –, senão seria tudo perdido. Não ter nem a felicidade de se imaginar feliz também já é demais! Porém, por que viver só de imaginação, se jogando no passado ou no futuro? Felicidade é vivida no corpo, no corpo presente na cena, no agora, na pele. Ponha seu corpo na sua vida presente, não o jogue nem para trás nem para frente. Afunde-se nas águas tépidas da banheira da vida presente. Afunde-se até o pescoço nas emoções do tempo presente. Literalmente, sem medo de ser feliz.

O que é ser um bom pai hoje.

“Esse foi um negócio de pai para filho.” Frase muitas vezes proferida por quem quer expressar que alguém ajudou outra pessoa de forma tão evidente, tão forte e diferenciada que só um pai faria pelo próprio filho. Me peguei pensando sobre o que descreveria uma relação de amor de um filho para com seu pai de forma tão amorosa e cuidadosa quanto. O que um filho poderia dar como um grande e inesquecível presente para o pai no dia em que desejar comemorar o seu bem sucedido (será que isso existe?) papel de pai? Ah! Está aí a resposta: o maior presente que um filho pode dar ao seu pai é mostrar que ele, o pai, foi bem sucedido como pai. Se isso (o tal pai bem sucedido no papael de pai) existe mesmo, quais seriam as evidências? Pai bem sucedido é aquele que conseguiu – com todos os percalços e dificuldades, alegrias e preocupações, acertos e erros – criar um filho que foi para a vida viver e aprender. Pai bem sucedido é aquele cujo filho por ele criado tem algo para lhe ensinar. Sim, é isso mesmo o que estou dizendo: pai bem sucedido é o que tem um filho com o qual  pode aprender. Que não permanece a vida toda como o senhor da verdade para um filho obediente, acovardado diante dos desafios da vida e impotente. Dependente de um Pai Todo Poderoso que não é aquele que está no céu, mas um Rei Leão que não deixa suas crias crescerem. Não pense você, pai, que seu papel hoje na pós-modernidade é fazer de conta que sabe tudo e que nunca erra para seus filhos “não perderem o respeito”. Isso era no seu tempo de ser filho. Hoje, no seu tempo de ser pai, o ser pai mudou de conceito, exatamente porque os tempos mudaram. O que tem valor e constrói hoje não é mais o mesmo tipo de atitude que tinham nossos pais e que, no contexto de sua época, estava correto. Num mundo padronizado, pai bom era pai que fazia cumprir as regras e reproduzir o padrão. Sem culpados. Cada época produz seus ideais de comportamento. Estamos numa época em que o que se pede das relações com os pais é outra coisa. Não mais que seja o dono da verdade, que será contestada e desmascarada na próxima esquina por alguém que também tem o poder de saber. Aliás, papai de hoje, não tenha medo de não saber, pois o que você não souber o seu filho pode descobrir , inventar, criar. E será dele o mérito e a segurança adquiridos. Que melhor presente pode ser, nas palavras do psicanalista françês Jacques Lacan para definir o amor, “dar o que não se tem”? Para Lacan, amar é dar o que não se tem. É oferecer ao outro sua falta, sua falha. E a falha, meu querido, é o terreno que – por estar vazio – pode receber as sementes novas que germinarão e  produzirão as novas árvores e os novos frutos de uma outra vida que é a dos nossos filhos. O entulho do “eu sei tudo”  impede as novas brotações. Cena de filme ilustradora de pais (mães incluídas, é claro) que hoje são bons pais, quer dizer, bons parceiros de vida: a filha, aproveitando-se da ausência anunciada dos pais, resolve usar o chalé de inverno para hospedar três clientes para um curso intensivo de coaching. Um contratempo na viagem dos pais os traz de volta. Ao entrarem em casa e perceberem a “armação”, começam a fazer de conta diante dos clientes e do chefe da filha que são dois outros clientes marcados para o curso. A partir daí, todo tipo de situações cômicas são vividas pelos três cúmplices. Sim, porque os pais se tornaram cúmplices da manobra não ortodoxa da filha para crescer na carreira, e, ao invés de censurá-la por ter se apossado da casa, assumem a posição de companheiros de luta e avalizam a escolha da filha, construindo com ela uma solução inusitada. Pais que podem aprender com os filhos, que podem viajar em suas histórias como felizes coadjuvantes e não os donos da bola, são os pais bem sucedidos.

A perfeição e o inferno

A perfeição é para Deus. Se ela é um atributo somente de Deus, como posso então afirmar que a perfeição tem conexões diretas com o inferno, que não é o território de Deus? A conexão se torna possível desde que desloquemos a perfeição para o território dos humanos. O ser humano que quer ser perfeito ou que, pelo menos, acredita na possibilidade já comprou a passagem, tomou o voo e entrou nos domínios do inferno. Pincei algumas definições de inferno para ficarmos mais esclarecidos sobre a questão. Definição 1: lugar destinado ao castigo eterno. Definição 2: vida de sofrimento. Definição 3: coisa desagradável. É, pois, um lugar de sofrimento. Lugar onde pagamos os nossos pecados, pelos nossos erros. Querer ser perfeito, acreditar que esse é um atributo acessível ao ser humano, não é cometer um pecado, mas um erro. Erro grande. Equívoco colossal. Pagamos esse erro com o quê? Vivendo no inferno. Inferno da cobrança sem fim, da insatisfação que não acaba nunca. Pois, se a condição de ser perfeito não é conseguida, a cobrança permanece, insidiosa e atormentadora. Ora, mas podemos pensar que, se pelo menos não tentarmos chegar à perfeição, aí é que a vaca vai para o brejo mesmo. Verdade? Você acha mesmo que se impor um alvo impossível é abrir caminho para uma vida melhor? Muito pelo contrário: propor-se a realizar o impossível é condenar-se a uma vida de frustração e desaprovação eternas. Não confunda buscar se aperfeiçoar, melhorar, crescer, se deslocar e aprender com buscar a perfeição. E mesmo o aperfeiçoamento não é perfeito – desculpe o trocadilho, mas é isso mesmo. O processo de aperfeiçoamento se dá mais como o andado do bêbado, dois passos para frente e um para trás, do que como o passo de desfile militar: pomposo, perfeito, reto, sem falhas. Falhamos o tempo todo. Que horror! Será? Mancar não é pecado, mancar é a condição humana, afirma Lucien Israël – grande psicanalista europeu que escreveu um livro com esse título. Nesse livro ele discorre de forma interessante sobre o tema dizendo que, como nenhum ser humano tem o comprimento das duas pernas exatamente igual (nem que a diferença seja milimétrica), todos mancamos a cada passo que damos. Nem por isso, no entanto, deixamos de andar lindamente. Alguns mais que os outros, como é o caso da nossa deusa das passarelas, a brasileira Gisele Bündchen. Mas até ela manca ao caminhar. Não tem no mundo Garota de Ipanema que não manque, e, veja só, não faz a menor diferença. A gente nem nota. Defeitos aparecem sob a lupa de quem fica procurando ver falhas em tudo. Para que ver as falhas? Para consertar, é claro. Para tudo ficar perfeito. A intenção é boa, mas o resultado desastroso, melhor dizendo, infernal. Quer passar a sua vida queimando no fogo do inferno? Com sua mente te cobrando dia e noite que não fez isso, que aquilo não está bom, que aquilo outro que vai fazer não vai funcionar (leia-se: não vai ficar perfeito)? É só querer ser perfeito que você cai imediatamente nesse território. Passagem direta sem escalas nem conexões. Quer fechar as portas do inferno atrás de você e não mais retornar àquelas plagas? Conviva bem com suas falhas. Não queira ser igual a Deus – ele, sim, perfeito. Contente-se em seguir o seu caminho tentando viver bem, da melhor maneira que puder, nem sempre conseguindo, mas sabendo que é assim mesmo que é a vida. O destino do ser humano é a imperfeição. E tudo bem, não arranca pedaço. A vida é boa assim mesmo!  

Pensamento mágico e magia

            Magia é o incomum, o inexplicável, o indizível. Uma emoção que nos toma quando temos a sensibilidade de nos deixar levar. Porém, não nos esqueçamos de que é o nosso olhar/interpretação que nos diz o que é magia para nós a cada vez que ela mostra a cara.             Sim, porque, se mostra a cara e não é vista, ela, é claro, não existe. O pensamento mágico, por sua vez, tão parecido como expressão, é uma atitude de passividade diante dos fatos. É querer algo a qualquer custo, principalmente ao custo de negar a realidade. É o recurso inoperante que as crianças lançam mão para não perder algo que supõem terem tido. O pensamento mágico é uma fábrica de frustrações. Ele nada mais é do que a tentativa de restaurar um estado de onipotência. Um período da vida em que a criança ainda não se dá conta das contingências da vida: da morte, da perda, da fraqueza. Pode tudo. Nada faz  limite. Ser capaz de viver a vida com magia é se deixar encantar pela vida em si. Pelas artes, sim, pela poesia, mas também pelos pequenos milagres que ocorrem a cada momento, como, por exemplo, quando nos lembramos que o nosso frágil coraçãozinho –  um músculo, um simples músculo, no frigir do ovos –  não é de aço nem de titânio; está ali, em nosso peito, batendo sem parar há anos ou décadas. Sem descanso, sem manutenção preventiva, dia e noite sem descanso. É um milagre! É magia respirar, é magia ter os olhos úmidos, simplesmente lubrificados ou completamente inundados por lágrimas de felicidade. Ou de tristeza, sabendo que passarão e que depois você  constatará que foi capaz de superar e crescer. Magia é olhar dentro dos olhos das pessoas e ver o que tem lá dentro. Ver quem é o morador daquela casa e convidá-lo para participar de sua vida e sua história. Magia é paixão e fascínio a ponto de se arrepiar de emoção. Barriga gelada de susto, sorriso solto, gargalhada de puro prazer e contentamento. Pensamento mágico, ao contrário, é a garantia de uma vida pobre, improdutiva, baseada na negação dos desafios que nos convidam a ultrapassá-los. Ultrapassar o quê? Se para o onipotente não existe sua própria fragilidade, a dos outros também não. Todos somos super-heróis que não falhamos jamais. Sabe aquela historinha da criança que bate a perninha na cama e o adulto corre e bate na cama dizendo: “Cama boba, cama boba, bateu no Joãzinho”? Pronto, salvou a autoestima do pequerrucho. A cama é que errou, ele jamais. Pensamento mágico é acreditar em poderes sobrenaturais da maneira mais ingênua e disfarçada. Como, por exemplo, negar a conexão entre causa e consequência. O pequeno super-herói de 20, 30, 50 ou 60 anos tem uma total incapacidade de ligar causa e efeito. É um paradoxo, pois, ele sendo onipotente e, por definição, tudo podendo, não pode nada. Ao não assumir a administração de sua vida abre mão de ter poder sobre ela. A lógica é clara. Não sou nunca eu que faço, portanto sou incapaz. Quem fez é o que é potente. Eu só sou um dedo apontando para o outro, pedindo cuidado e cobrando ajuda. Magia enche a vida de pó de pirilim pim pim. Pensamento mágico nos enche de raiva e fracasso. Magia está na vida de quem faz, se expõe, se joga em seus projetos e suas apostas, correndo riscos e colhendo os resultados. Pensamento mágico é o material que constitui a vida dos covardes que usam o corpo do outro para projetarem o que não querem assumir e acabam colhendo vazio, insatisfação, sofrimento. É, mas pelo menos sentem que têm um ganho, pensam que a culpa das imperfeições não é deles. É dos outros. Coitadinhos! Não descobriram ainda com Nietzsche que esse mundo imperfeito é que é o nosso. A transcendência não está no além perfeito. É aqui mesmo que está o que de precioso temos. Sustentar uma vida com magia nada tem a ver com pensamento mágico.

Para que um novo tipo de responsabilidade?

            Sim, “para que “ e não “por que” um novo tipo de responsabilidade? O que vamos fazer com ela, para que nos servirá esse novo tipo de responsabilidade?             Responsabilidade, palavrinha bem conhecida nossa, ligada à noção de dever e obrigação. Valor muito apreciado na sociedade porque denota um respeito ao outro, a um trato, um combinado, algo tido como sendo o que se deve fazer. A fórmula é: responsabilidade = dever e obrigação. Nós, psicanalistas do século 21, estamos às voltas com essa palavra, diria eu, o tempo todo. Ela está sendo apontada como a resposta, por excelência, às grandes questões que nos desafiam na contemporaneidade. O sociólogo Hans Jonas afirma que a tecnologia moderna – concebida para a felicidade humana, por buscar o submetimento e controle da natureza, a proteção maior para o homem contra doenças e ameaças diversas – se converteu, quem diria, em um ameaça letal. Nunca nenhuma ação humana chegou ao ponto tão alto de, paulatinamente ou em um segundo, poder destruir todo o planeta. Estamos na condição do Rei Midas, que, tendo obtido o dom de transformar tudo o que tocava em ouro, não podia mais comer nem beber, pois também comida e bebida viravam uma riqueza que lhe era letal. A Nova Responsabilidade faz-se necessária exatamente pelo poder que hoje temos. Ela se firma no fato de nos sabermos e nos sentirmos autores. Grandes autores? Não, autores de pequenas coisas. Conheço uma pessoa como outra qualquer que, com a perda da mãe, resolveu plantar árvores nas imediações de sua casa e pelas ruas adjacentes em homenagem a ela.  Trinta anos depois, voltou para visitar a cidade natal e teve o imenso prazer de ver crianças brincando nas praças sob a sombra das lindas árvores. Casas se beneficiando da beleza e do frescor que brotava dos buracos das calçadas que décadas antes estavam vazios. E aquela senhora que tinha ensinado sua empregada doméstica a administrar o seu salário e anos depois a reencontra dona de um restaurante, exultante de gratidão pela patroa-professora? A Nova Responsabilidade não é obrigação, é potencia. É saber-se capaz, pegar e fazer. Não é dever, é opção. Não é sacrifício, é prazer. Não é simplesmente pensar no outro, é cuidar do mundo cuidando de você. A Nova Responsabilidade dá prazer. O prazer do jogo, do tentar, do ganhar e do perder, para então aprender e jogar de novo. Jogar o quê? Jogar o xadrez que é a vida. A partida de futebol. Fazer e levar gols, mas não ficar dizendo que a bola não é sua e não dá pra jogar. A Nova Responsabilidade não é com o outro, é com você, mas um você que, bem cuidado, bem amado, vai espalhar as mesmas sementes pelo mundo. Freud diz que só é capaz de amar quem foi amado. Se você é desses que acha que ninguém te amou, é bom lembrar que quem ama a gente é a gente mesmo. O outro pode se matar para nos provar amor e ainda ficaremos impávidos se dentro de nós não houver o mesmo material, no caso, o amor. Pois é, temos hoje a Nova Responsabilidade porque temos uma autonomia nunca antes experimentada pelo ser humano. Desfrutamos de uma sociedade organizada horizontalmente, Cada vez menos alguém tem o poder de nos guiar ou coagir. Nossos dedinhos estão no celular, denunciamos, nos juntamos. Trocamos informações, nos defendemos. A Nova Responsabilidade não é “Eu tenho que”, mas “eu quero, eu posso e escolho fazer, eu colho os bons e os maus frutos, eu sustento ou desisto, mas é comigo mesmo, não é com meu pai, nem com minha mãe, nem meu patrão ou minha namorada”. Pra que serve? Para viver bem num mundo de escolhas. Para degustar o que o que temos, não ficar buscando o culpado e cuidar bem de nossa casa global.

Quem é quem?

Não se tratam das perguntas filosóficas: Quem sou? Onde estou? Pra onde vou? A pergunta é bem mais bucólica: o quanto de nós é completamente desconhecido por nós mesmos, os donos da casa? O que a psicanálise diz é que a criança, nos seus primeiros anos de contato com o mundo, apreende o que as pessoas mais chegadas esperam ou pensam a respeito dela. A partir daí, passa o resto da sua vida repetindo as informações dessa época, sob a forma das respostas que são sempre as mesmas. Somos um poço de repetição. Repetimos o que não sabemos que somos. Vemos pessoas com grandes e inegáveis qualidades que passam o tempo todo mostrando o quanto são faltosos. Aquele tipo que vive se diminuindo e não vê valor em si. Conheci alguém que achava maravilhoso os amigos terem conseguido comprar seus apartamentos. Porém, quando ela comprou o seu, novo, bonito, bem localizado, fazia de conta que ter seu próprio apê era uma conquista banal, todo mundo tinha. Ao mesmo tempo, cuidou criteriosamente de mantê-lo vazio, frio, sem móveis bonitos e nem cortinas. Sem nenhum cuidado especial para valorizar o que tinha, ou seja, morava mal. Ela fazia o mesmo com o carro que possuía, que tratava como se fosse uma “Brasília Amarela”, enquanto todo mundo podia ver o carrinho mil, fofinho que era o dela. Ela fazia o mesmo com tudo o mais: os estudos, o trabalho e, veja só, com o amor também. Por mais que se esforçasse não conseguia “acreditar” que alguém estivesse, de fato, gostando dela, e quando as evidências de interesse do outro ficavam por demais inegáveis, ela começava a desvalorizar o “interessado”. E como conseguia isso? Transformando qualquer fato banal no maior indicativo de que aquilo não era amor. Não tinha saída: ou ela não era digna de amor ou a outra pessoa era incapaz de amar. Dava na mesma. Ela continuava aquela que não era amada nem valorizada. Detalhe: era bem bonita, inteligente, ética, uma verdadeira guerreira. Outra pessoa que conheci era, muito pelo contrário, alguém que via tanto valor em si que perdia os parâmetros da realidade. Feia, sorry, mas era mesmo, muiiito feia, desarmoniosa, dentes cavalares e irregulares (que – imagina! – ela não precisava corrigir porque era linda daquele jeito mesmo). Um cabelo preto de fios grossíssimos, arames armados, com uma franja  monumental. Com um pouco de esforço, viraria o próprio Capitão Caverna, inclusive pelo corpinho batuca e cheinho. Como dizemos nós aqui em Goiás, ela era uma verdadeira pamonha amarrada pela cintura. Achava a sua voz linda. Sorria e gesticulava com a segurança dos que se sabem belos, convidando todos a admirar a sua presença encantadora. Pois essa pessoa também não conseguia sustentar uma relação amorosa porque a imagem que tinha de si era tão onipotente que desencantava qualquer interessado. Pode  rir, mas não se trata de uma piada. São duas pessoas completamente fora das suas realidades! Ou, quem sabe, podemos dizer: dentro de “outra” realidade. Freud diz que a psicanálise se baseia “no amor à verdade, ou seja, no reconhecimento da realidade”.  Mas também afirma que a realidade do ser humano é a fantasia, e que a fantasia é – e esse é o problema – o que nós fomos para o primeiro outro de nossa vida, nossa mãe e o grupo familiar em geral. Temos duas histórias verdadeiras, de duas pessoas que não conseguiam ter uma imagem mais aproximada de si e de seus atos. Pareciam grandes estranhas para si mesmas. Cuidavam da vida de um personagem outro que não elas mesmas, e por isso a vida não fluía. Estagnada na repetição de uma posição eterna. Podemos cada um de nós ter alguma ideia de quem somos na vida? Seríamos  totais cegos para nós mesmos como as duas “desencontradas de si”? Desta vez fica a pergunta: quem é você mesmo?

A Copa e o jogo de identidades

A Copa do Mundo é uma festa de muitas coisas. Festa de cores, de alegria, de expectativas, de garra, de nacionalidades e muitos outro itens. Tem um item que permeia tudo o que diz respeito ao evento e que se encontra nas bases de encontros humanos como o da Copa. Algo que é a estrutura que sustenta a existência, o valor e a permanência de tal costume. A Copa do Mundo é uma oportunidade riquíssima de permitir ao ser humano gozar, confirmar sua existência na comparação com o outro e se unir aos “seus”, que se deslocam do mundo todo para estarem juntos num determinado lugar cantando, compartilhando, gritando que  são parecidos, que estão do mesmo lado – enfim, que são irmãos em alguma coisa. Sentir-se  incluído, parte de um todo, seja um grupo religioso, social ou intelectual, é um dos maiores prazeres que o ser humano pode experimentar. Podemos, pois, obter nossas carteiras de identidade – condição para que existamos – de muitas e diversas maneiras. Amigos que nos reconhecem e dizem o que somos: generosos, irritados, preocupados, amorosos… A lista é infinita. Mas estamos nós sempre sendo situados pelas falas dos amigos. Dos inimigos também. Não se esqueça que os inimigos também dizem ao mundo que somos isso ou aquilo – e é por isso que se tornam tão importantes para nós, por nos exporem perante todos. Dá medo de nos jogarmos ao público, nos expormos, porque sabemos que tem muito vampiro por aí pronto para adulterar o que mostramos e dizer que somos o que não somos. Estamos nas mãos do outro, sim. Ora, se dizemos que identidade são os nossos caracteres próprios e exclusivos, como é essa história de confirmar o que nós somos nas circunstancias externas? Assim é. E o que a Copa do Mundo tem a ver com identidade? Tudo! Tanto que proponho uma mudança de nome para “Copa das Identidades” porque o que atrai os torcedores é a grande possibilidade de prazer gerado pelas “surpresas” dos jogos. Prazer que vai ser milhares de vezes –  milhões, se pensarmos na televisão – multiplicado pela alegria dos “meus iguais”. É o prazer do pertencimento, da inclusão, de poder se encontrar com o outro em algo que nos una. É, sim, algo do sentimento oceânico de participar de um todo e ser algo ali que fica muito grande. Existe a identificação ao “seu” time, aos jogadores nas pernas dos quais o torcedor joga. O gol é de todo aquele que estava colado na cena. E tudo isso sem pormos em risco nossa querida identidade. Não somos nós que estamos lá correndo os riscos: quando o outro erra, não é com a gente; a vitória, porém, é de todo mundo. Esse pertencimento gigantesco nos leva de novo – como, aliás, tudo o que gera união – à sensação de vida intrauterina antes da separação. Olhar para o rosto do lado e no sorriso que esboça sentir que ele está sentindo “o mesmo” que você, que vocês estão na mesma onda, e um momento de glória, um momento de júbilo e êxtase como se nos tornássemos todos aqueles corpos que se levantam ao mesmo tempo gritando “gooool”. Nós voamos nas asas de todos eles. É um prazer indizível. Daí vem o valor de  um encontro humano vultoso como esse que hoje abrigamos em nosso País e que, aliás, faz com que tenhamos muito mais o sentimento de sermos “nós, os brasileiros” que recebemos o mundo para jogar em “nossa casa”. E isso mesmo considerando os que não se unem porque discordam desta ou daquela política, do que foi feito com o dinheiro para aquilo, pessoas que dizem: “Isso não me pertence, não faço parte da Copa”. Ainda assim, sempre que algo fica bonito, dá certo ou é elogiável, brota um sorrisinho satisfeito se reconhecendo naquilo.

Poder sem saber

Quem são os donos do poder hoje? Os ricos, os políticos, os intelectuais? Quem arrisca uma resposta? Ah! Já sei: os três. Afinal sempre foi assim, de alguma maneira as “elites” sempre comandaram. E a classe média, em uma determinada altura da história, não começou a ter poder? Sim, porque na sociedade de consumo aquele que consome as mercadorias acabou tendo um tanto de poder, exatamente por decidir para que mão iria o seu suado salariozinho nas múltiplas compras de cada mês. Mas hoje as classes C e D também têm seu poder de compra, como afirmou de forma bem-humorada a filósofa Viviane Mosé em brilhante palestra ministrada recentemente no “Café de Ideias” do Centro Cultural Oscar Niemeyer: “Gente, hoje o mercado de consumo está atrás de pobre. Cadê os pobres? Onde é que tem pobre? Porque a classe média já têm dentro de suas casas tudo e muito mais. São os pobres, com seus pequenos salários, a nova faixa de interesse do mercado”. Então, agora pobre também tem um poder que, antes, nem pensar. Rico sempre teve poder. Rico é quem tem dinheiro. Hoje quem tem dinheiro não precisa tê-lo em grandes quantidades. Basta ter um salário (maior ou menor) todo mês que lhe permita se tornar um consumidor assíduo. O “salário nosso de cada mês” dá o poder do dinheiro. A maioria – que se encontra nessa condição – não pode reclamar que não tem o poder do dinheiro. Vamos para o segundo item do que confere poder: o conhecimento. Há uma gigantesca disseminação de saber pelo mundo, na internet e em outros meios. A oferta de informação é imediata, rápida e abrangente. Quantas conversas são momentaneamente interrompidas por alguma dúvida quando alguém vai “ver no Google” do que se trata e, de posse do novo saber, prossegue o papo. Aliás, paro um pouquinho e “vou ver no Google” os significados da palavra “político” para tentar achar um viés novo. Sai a definição: “(…) relativo aos cidadãos e aos negócios públicos”. E público, o que é mesmo? “Pertencente ao povo, à população, que serve para uso de todos”. Ora pois, se somos cidadãos, somos políticos. Temos também o poder do político? Responda você mesmo. Será que você tem o poder do dinheiro – se é você quem decide o que compra com o seu rico dinheirinho, sagradinho de todo mês? E o poder do saber (cada vez mais à disposição de qualquer cidadão comum que não morra de preguiça de ir atrás)? E o poder de, sendo cidadão comum, ser uma presença política no mundo, juntando-se com os que comungam do mesmo pensamento e passando a ter o poder de ser muitos, o que hoje é cada vez mais possível: juntar-se sem a intermediação das instituições que decidiam quem saberia do quê. Os flash mobs e outros estão aí para provar. Poder de comprar, poder de saber, poder de decidir, todos eles nós temos e cada vez mais. Resta a pergunta: será que sabemos disso? Uma segunda pergunta: será que sabemos usar isso que já é nosso?*   Pela primeira vez na história da humanidade, o ser humano é dotado do poder de destruir todo o planeta.Temos grandes e pequenos poderes. Podemos quase tudo, mas o que vale a pena e o que não vale? Quando e onde dizer não? Começemos a usar bem os pequenos poderes que temos no dia-a-dia e que somados, se tornam grandes. Eles definirão em que mundo viveremos. Para quem não acredita muito nessa possibilidade cito o escritor norte-americano Malcolm Gladwell autor do livro The tipping point: How little things can make a big difference, “O ponto de inflexão: como pequenas coisas podem fazer uma grande diferença.” Lembrando que inflexão é modificação de sentido, de rumo. Essa é uma realidade cristalizada? Não, essa é uma tendência brotando. Cuidemos dela para que cresça e frutifique.

Sua vida?

            A vida é sua? Será? Vejamos: o que dá sentido à vida hoje não é mais o pertencimento a um grupo que nos situa na vida, que nos dá sentido (direção e significado), se bem o seguirmos e obedecermos. Perdemos a crença cega nas lideranças e nos “valores inquestionáveis”. E isso na contemporaneidade, pois ao longo da história da humanidade já havíamos perdido a crença numa natureza justa e perfeita (ela muitas vezes nos destrói com sua fúria incontrolável). Depois perdemos a crença num Deus que ameaçava com o fogo do inferno. Com Freud, perdemos também a crença de que poderíamos contar sempre com a razão, que ela não falharia jamais. Descobrimos que nem mesmo sabemos quem somos! “Será que fui eu mesmo que fiz isso?” O que temos então? Temos o hoje. Com um pouco de passado, com um pouco de futuro, mas essencialmente o hoje. Aprendemos com Nietzsche o “amor fati”, o amor pelo que nos acontece agora e não o eterno habitar nas tristezas ou alegrias do passado (não esqueçamos: no momento em que o vivíamos, “não sabíamos que éramos felizes”). Ou o amor pelo futuro, projeções de felicidade ou medo de “acontecer o pior”. Para que não aconteça o pior, vivemos o presente sofrendo, numa fórmula que traz muito prejuízo, mas que muitos ainda não perceberam: “Se estou sofrendo hoje, já estou pagando o castigo de minhas faltas e outro castigo não será necessário no futuro”. Como um acerto de contas no qual pagamos antes para não recebermos um castigo maior, sem o nosso controle. Assim mesmo: soframos hoje e garantamos um futuro de contas acertadas. Alguém diz que viver é poder amar o outro. Concordo, assino em baixo e digo que o primeiro outro a receber o nosso amor somos nós mesmos, já que não sabemos totalmente quem somos. Grande parte do que somos nos é desconhecida. Portanto, somos um outro, um estranho para nós mesmos. Se amarmos o “nós-outro”, poderemos passar a perna no supereu e nos permitir gostar de nós mesmos, incluso a nossa imperfeição. Assim teremos o caminho livre para curtir as pequenas coisas sem culpa, sem vergonha. Para viver mais serenamente, e não ameaçados por qualquer acontecimento que nos invada como se fosse nosso dono. Para sentir o prazer das pequenas coisas: do vento no rosto, do cachorro abanando o rabo fagueiro, do avião que corta os céus. Assim nós conseguiremos sentir o que vemos, tocamos, cheiramos, tateamos… Ah, se notássemos a existência das pequenas coisas ao nosso redor! Imagine-se chegando à sua terra natal depois de uma guerra onde só viu destruição e morte. Como perceberia tudo? Como enxergaria e adoraria as pequenas coisas banais: a visão de uma bela árvore, a textura do sorvete, o aroma do café, a maciez de uma almofada…? Se você não está aqui, a sua vida não é sua. Você está de passagem e muito apressado, sem olhar para os lados, para a festa de cores e acontecimentos que tece uma vida – até os ruins , que têm seu lugar em nossa vida, como contraponto para o bom e prazeroso. Ora, quando o sofrimento vier, e ele vem, passe por ele e saia do outro lado crescido. É possível acolher o aprendizado que ele nos traz, se o convidarmos para se apresentar sem dele fugir como o diabo foge da cruz. Nada disso, sofrimento faz parte e faz bem. Nos lembra de muita coisa necessária para mantermos um equilíbrio. Viver com qualidade só é possível se vivermos nossas falhas como parte integrante do pacote e não como a exceção. Não dê mole para que os desencontros – a regra das relações – e os mal-entendidos – outra regra da convivência humana – deixem você sem uma vida de qualidade. A vida continua sendo, como sabia bem Vinicius de Moraes, a arte do encontro embora haja tantos desencontros. E o encontro fundamental é aquele com você mesmo.

Paris, cidade luz e de cangurus

  Torre Eiffel, chuva vindo, voltando, ameaçando. Vento frio, cortante. Céu azul, nuvens brancas e cor de chumbo. Cascalho claro sob os pés. Gente do mundo todo, olhando, surpresos, embevecidos. Sorrisos bobos, embasbacados, às vezes francos, brilhantes e, sem dúvida, deslumbrados. No meio desse mar de olhinhos mirando o monumento, de bocas meio abertas, esquecidas de se fechar porque o cérebro está muito ocupado processando a visão, surge, saindo correndo de um miniônibus, um grupo de… de quê mesmo? Seres humanos. Também eles, gente do mundo, de alguma terra distante, vinda também como os outros tantos diferentes, prestar sua homenagem à bela e esguia torre. Curvar-se em deslumbramento diante daquela que foi construída para ser desmontada algum tempo depois do uso específico para o qual havia sido feita. Seria o arco de entrada da Exposição Universal de 1889 e um monumento de gratidão da França pela Revolução Francesa. Pois é, ela foi feita para honrar um dos mais importantes movimentos que a humanidade já produziu por liberdade, igualdade e fraternidade entre os homens. Mas a moça seduziu pela sua beleza, leveza, graciosidade e virou – quem diria – o maior símbolo da cidade que a construiu para ser desconstruída. Não bastando isso, também representa o país que a abriga. Então, irrompe de um veículo aquele grupo de… de quê mesmo? Ah! De seres humanos orelhudos, com orelhas de uns 20 centímetros de altura, e um após o outro correm em direção ao centro do jardim com a torre nas costas e formam um grupo de orelhudos. O fotógrafo “clique, clique”. Sorrisos, agitação e de dentro das orelhas surge a torre na telinha da máquina fotográfica. Imagem de uma torre que brotou das orelhas. Nascendo de orelhas… orelhas cangurus. Por um breve momento, os muitos turistas desviam seus olhos da torre, e eu que fazia parte dos bichinhos orelhudos pude correr os olhos e rapidamente vislumbrar os olhos ao redor que se voltaram, olharam e sorriram para e com os cangurus. Alguém fazendo parte de um dos grupos de turistas orientais corre e, solidário, entrega uma bandeirinha da França ao grupo de bichinhos humanos. Havia a participação tácita a algo que não se sabia o que era, mas que, ouso dizer, como a torre, também encantava. Um bando de orelhudos felizes e risonhos dando à luz a bela torre que saía de dentro de suas orelhas naquela fria e ventosa tarde de sábado parisiense. De repente, a formação canguru se desfez, alguns entregaram panfletos para os turistas “capturados na cena” de um bando de orelhudos agitando o pedaço. Uns pegaram os folhetos falando do bebê canguru. Outros, com medo de ser um golpe, pedido de dinheiro, sabe-se lá, no mundo não há nada de graça, recusaram. Mas, algo aconteceu. Cangurus estiveram mesmo em Paris, não só na torre mas em outros locais e deixaram uma mensagem, um convite. Sim, a ONG Bebê Canguru visitou Paris, falou com mamães carregando seus bebês em lojas, aeroportos, nas ruas e divulgou que o ser humano tem a necessidade de ter um desmame do corpo da mãe. Que nós, como os cangurus, precisamos ainda de um tempinho numa barriga externa – a Bolsa Canguru – para acessarmos com menos sofrimento o mundo fora do útero e termos um processo de desmame do corpo assim como temos do leite materno. Divulgamos que o “buraco no peito”, a abismal “angústia existencial”, é fabricada pelo vazio que nos cerca assim que perdemos o planeta-mãe onde fomos gerados antes de sermos jogados aqui nesse mundo de fora. A gente esquece disso, né? Chega de esquecimento! Vamos dar consequência a esse fato: nascemos ainda necessitando da ajuda do corpo da mãe. Vamos instituir o Desmame do Corpo e não somente o do leite. Falei aqui na passagem do ano que 2014 seria o Ano do Canguru. E é.