A vida é sua? Será?
Vejamos: o que dá sentido à vida hoje não é mais o pertencimento a um grupo que nos situa na vida, que nos dá sentido (direção e significado), se bem o seguirmos e obedecermos.
Perdemos a crença cega nas lideranças e nos “valores inquestionáveis”. E isso na contemporaneidade, pois ao longo da história da humanidade já havíamos perdido a crença numa natureza justa e perfeita (ela muitas vezes nos destrói com sua fúria incontrolável). Depois perdemos a crença num Deus que ameaçava com o fogo do inferno. Com Freud, perdemos também a crença de que poderíamos contar sempre com a razão, que ela não falharia jamais.
Descobrimos que nem mesmo sabemos quem somos! “Será que fui eu mesmo que fiz isso?”
O que temos então? Temos o hoje. Com um pouco de passado, com um pouco de futuro, mas essencialmente o hoje.
Aprendemos com Nietzsche o “amor fati”, o amor pelo que nos acontece agora e não o eterno habitar nas tristezas ou alegrias do passado (não esqueçamos: no momento em que o vivíamos, “não sabíamos que éramos felizes”). Ou o amor pelo futuro, projeções de felicidade ou medo de “acontecer o pior”.
Para que não aconteça o pior, vivemos o presente sofrendo, numa fórmula que traz muito prejuízo, mas que muitos ainda não perceberam: “Se estou sofrendo hoje, já estou pagando o castigo de minhas faltas e outro castigo não será necessário no futuro”. Como um acerto de contas no qual pagamos antes para não recebermos um castigo maior, sem o nosso controle. Assim mesmo: soframos hoje e garantamos um futuro de contas acertadas.
Alguém diz que viver é poder amar o outro. Concordo, assino em baixo e digo que o primeiro outro a receber o nosso amor somos nós mesmos, já que não sabemos totalmente quem somos. Grande parte do que somos nos é desconhecida. Portanto, somos um outro, um estranho para nós mesmos.
Se amarmos o “nós-outro”, poderemos passar a perna no supereu e nos permitir gostar de nós mesmos, incluso a nossa imperfeição. Assim teremos o caminho livre para curtir as pequenas coisas sem culpa, sem vergonha.
Para viver mais serenamente, e não ameaçados por qualquer acontecimento que nos invada como se fosse nosso dono.
Para sentir o prazer das pequenas coisas: do vento no rosto, do cachorro abanando o rabo fagueiro, do avião que corta os céus.
Assim nós conseguiremos sentir o que vemos, tocamos, cheiramos, tateamos…
Ah, se notássemos a existência das pequenas coisas ao nosso redor!
Imagine-se chegando à sua terra natal depois de uma guerra onde só viu destruição e morte. Como perceberia tudo? Como enxergaria e adoraria as pequenas coisas banais: a visão de uma bela árvore, a textura do sorvete, o aroma do café, a maciez de uma almofada…?
Se você não está aqui, a sua vida não é sua. Você está de passagem e muito apressado, sem olhar para os lados, para a festa de cores e acontecimentos que tece uma vida – até os ruins , que têm seu lugar em nossa vida, como contraponto para o bom e prazeroso.
Ora, quando o sofrimento vier, e ele vem, passe por ele e saia do outro lado crescido. É possível acolher o aprendizado que ele nos traz, se o convidarmos para se apresentar sem dele fugir como o diabo foge da cruz. Nada disso, sofrimento faz parte e faz bem. Nos lembra de muita coisa necessária para mantermos um equilíbrio.
Viver com qualidade só é possível se vivermos nossas falhas como parte integrante do pacote e não como a exceção.
Não dê mole para que os desencontros – a regra das relações – e os mal-entendidos – outra regra da convivência humana – deixem você sem uma vida de qualidade.
A vida continua sendo, como sabia bem Vinicius de Moraes, a arte do encontro embora haja tantos desencontros. E o encontro fundamental é aquele com você mesmo.