Sobre o sentimento de incompletude

Luciene Godoy // Tenho me surpreendido com o susto das pessoas quando digo que todo ser humano nasce prematuro aos 9 meses, ou mais ou menos 40 semanas de gestação. As pessoas da área das ciências biológicas, que bem sabem disso, geralmente afirmam: “Nossa, é mesmo! Por que a gente nunca pensa nesse detalhe?” O leigo, por outro lado, só acha mesmo estranho tal afirmação. Em qualquer curso de antropologia, psicologia, biologia ou outro que aborda a teoria evolucionista, é informação básica o estudo sobre o advento da bipedia, ou seja, sobre como o homem começou a andar sobre dois membros. A bipedia se produz entre 6 e 4 milhões de anos atrás e deflagra uma série de consequências a longo prazo: o uso das mãos, que criam utensílios que alteram o modo de sobrevivência da espécie humana; o crescimento do volume cerebral, que nos torna cada vez mais inteligentes e criativos… Também se produz – fato da maior importância para a psicanálise – a perda do olfato como determinador do instinto que ordenava a reprodução pelo cio. Começamos a nos relacionarmos prioritariamente pela visão, que passa a comandar os processos sexuais e, portanto, de procriação. O que não ouvimos falar muito é que, como consequência da assunção da posição erétil, a fêmea humana ficou com a pélvis mais estreitada e isso começou a provocar a morte da mãe e do bebê que nascia com a cabeça muito grande para uma pélvis cada vez mais estreita. Temos, então, neste momento, uma modificação adaptativa para que a espécie humana não desapareça que é, veja só: o ser humano começou a nascer antes do tempo para que a mãe e o bebê não morressem no parto. Podemos nos comparar a mamíferos mais conhecidos nossos como o bezerro e o cavalo, que, mal nascem – com dentes e tudo mais -, já estão de pé e rapidamente vão adquirindo uma certa independência. Já cachorrinhos e ratinhos nascem mais “fetalizados” e precisam de um ninho, que é o corpo da mãe, aquecendo-os e abrigando-os até um amadurecimento maior. O ser humano está mais para o segundo time. Nascemos muito inacabados ainda e necessitamos de cuidados prolongados dos adultos até podermos ser considerados capazes de cuidar de nós mesmos. Chamamos de neotenia esta condição de prematuridade prolongada do ser humano – assunto para outro artigo. A prematuridade humana se expressa em termos da incompletude: o não acabamento e a funcionalidade precária de certos sistemas vitais. O sistema digestivo, por exemplo, só está funcional no terceiro mês pós -nascimento, e é por isso que as cólicas melhoram tanto a partir desse momento. A visão só se torna apta a focar, distinguindo bem os objetos, aos seis meses de vida, o que provoca nos pais afirmativas de que antes o bebê ia com todo mundo e agora começa a “estranhar” as pessoas. É que ele passa a ver com clareza o que antes não era possível porque o olho ainda não funcionava normalmente. Este não acabamento é verificado em quase tudo: no sistema muscular, no sistema respiratório e, acima de tudo, no sistema neurológico, que, por não termos as bainhas de mielina que recobrem os axônios dos neurônios, produz a sensação de um corpo despedaçado. Só conseguimos nos sentir aos pedaços, com o nosso corpo funcionando parcialmente como os das pessoas que têm distrofia muscular – elas perdem gradativamente o controle do próprio corpo porque suas fibras vão se “dismielinizando”. Moral da história: a sensação de incompletude não é inventada. Nós nascemos incompletos mesmo. A incompletude é característica dos “nascidos antes da hora”. Que transformemos esta incompletude, de início biológica, em um fato emocional com suas dores e seus prazeres, ou que façamos disso poesia e muitas outras coisas – como a busca do encontro com o outro no amor -, é a nossa grande marca. Haveria outras respostas possíveis a essa condição humana? — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 5 de novembro de 2015.

Quem semeia desejo colhe muita coisa!

Rejane Ferreira // Aquele dito popular de que “Quem planta, colhe” pode não estar funcionando direito. Ao menos não numa sequência linear. Estamos numa fase de muitas mudanças rápidas e podemos adaptar o plantio para outra finalidade a qualquer momento. Em um mundo hipermoderno, de um homem desbussolado (parafraseando o psicanalista Jorge Forbes), as possibilidades são tantas que podemos iniciar o preparo do terreno para receber um tipo de semente e, de repente, nos arriscarmos num outro tipo que nos sugere maior entusiasmo. Isso não quer dizer que as pessoas deixaram de ter sonhos e empenho com seus sonhos. Não é um raciocínio que afunila para o caos! É apenas um ser humano que está se permitindo ser mais flexível consigo mesmo. E, por certo, vão surgir ventos uivantes, seca árida, chuva pesada, além de olhares carregados de ervas daninhas… Tudo isso requisitará cuidados! E que venham os adubos do prazer com a tarefa, assim como os inseticidas íntimos contra as desaprovações alheias! Investimento naquilo que decidirmos fazer: dedicação, observação e entrega. Tudo isso numa inclusão da incerteza sobre aonde essas ações vão nos levar. Isso mesmo! Suportar a angústia de não saber quando, como ou quanto vai colher. E tem gente que colhe e só depois descobre que não era bem aquilo que deveria ter plantado… Mas, nos dias de hoje, o “agora é tarde” pode ser assumido juntamente com um “posso recomeçar”. Lacan ressaltou: “Por nossa condição de sujeitos somos sempre responsáveis”. Eu sou sim a dona da horta! E, mesmo que uma intercorrência caia sobre os meus projetos, não poderei passar para outras mãos os cuidados da minha seara de desejos. Alguns optam por uma dedicação exclusiva a um tipo de plantação. Outros escolhem repartir a terra e fazer um combinado agrícola. Tem aqueles que aguardam o descanso do solo para que os nutrientes sejam revitalizados. Ainda se ouve de uns que continuam na arcaica técnica de queimar o terreno antes de plantar… Cada um apostando que frutos chegarão! Essa aposta é necessária! Afinal de contas, não estamos com todos os frutos nas mãos! Ainda bem! A falta deles nos faz desejá-los! O que contraponho é que os tais frutos poderão ser bem diferentes dos imaginados… É que a arte agrícola passará por variáveis antes não identificadas… É que o próprio agricultor, que se julgava tão apto em sua tarefa, poderá se deparar com situações de baixíssimo controle próprio. Mas, então, o que poderá sustentar a sobrevivência desse ser humano tão permeado por vulnerabilidades? Primordialmente, vem o desejo de se realizar. Ah, o desejo! Essa fonte íntima que nos conduz! O desejo inspira, alavanca, turbina nosso poder de realização! Também podemos contar com nossa capacidade de adaptações. O recriar, a reinvenção, tudo isso viabiliza um novo contorno às nossas ações. E também a inserção neste mundo atual que está menos rígido, que comporta uma redução de sofrimentos com os reajustes de rotas. Outra preciosidade que nos faz firmar as sementes de desejo ao solo é saborear o que já está sendo colhido! Não estamos somente aguardando a colheita chegar… Alguns frutos já estão disponíveis! Cabe a mim recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão e me fartar de pão! — Rejane Ferreira é neuropsicóloga, psicoterapeuta e professora universitária. *Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 29 de outubro de 2015.

Desejos imediatistas

Luciene Godoy // Um dos maiores e mais respeitados pesquisadores sobre comportamentos viciados do mundo é o médico húngaro-canadense Gabor Maté. Ele trabalha em uma comunidade de viciados em drogas pesadas em Downtown Eastside, na cidade de Vancouver, no Canadá, e afirma que vício é a relação que temos com qualquer objeto que seja passível de nos dar prazer. Em sua lista, ele coloca vícios bem mais prosaicos: comida, bebida, consumismo, televisão, internet – e até mesmo trabalho, dinheiro e poder, elogiados na vida social. Um comportamento pode ser considerado viciado quando, por exemplo, só conseguimos sentir o ganho imediato. Quando nem o preço caro e o custo-benefício desfavorável são levados em conta. Os ganhos maiores que poderiam advir do não atendimento imediato daquele imperativo são sequer percebidos. É um atendimento imediato como o da criança que não aprendeu a esperar, construir, querer coisas maiores e verdadeiramente melhores para sua vida como um todo. É que o vício, de uma certa forma, está mais no momento da expectativa, naquele momento glorioso em que esperamos obter o desejado, como um leão saltando sobre a presa. É o prazer de achar que vamos saltar e agarrar a completude, o prazer infinito, que quando chega é, imagine só, um prazer fugaz, como uma refeição gostosa, mas que não tem o poder de sanar o desconforto da fome que inevitavelmente virá depois de algumas horas. Essa pulsação em si já é prazerosa. Como diz Freud em O Mal-estar na Cultura, a evitação da dor já é em si um prazer. O prazer que se busca no vício não está na degustação, mas na caça sem fim ao objeto desejado, que nada mais é do que se sentir pleno. O que até acontece. Podemos, em muitos momentos, ter a sensação de plenitude, só que ela passa para que venham outras coisas, boas e ruins – inclusive outras plenitudes pulsantes. Uma amiga gastava todo o seu dinheiro extra na compra de pequenas bugigangas que desapareciam da cena tão logo eram adquiridas. Ela não se via capaz das grandes coisas, só das conquistas de R$ 1,99. Anos atrás, disse isso a ela. Afirmei que ela não se via juntando os poucos para fazer o grande, que só pensava e fazia pequeno. Ela não conseguia ver como a adição de um pequeno mais outro e mais outro faz no final um grande. Fazia, isso sim, um uso descartável do que lhe aparecia diante dos olhos. Dessa forma, não há soma, só a manutenção do zero, do nada, quando se joga sempre fora o que nem sequer foi bem usado. Não dá tempo nem de usufruir para se jogar fora. No momento mesmo do uso já se está olhando o próximo objeto. É o paradoxo do comportamento viciado: ele é repetido insanamente porque existe o gostinho do desejar e obter o objeto – que, por ser pouco degustado, perde-se rapidamente, e aí precisamos correr atrás do próximo de novo e de novo. Se desejar também é um prazer, por que não integrá-lo mais em nossas vidas, hoje tão consumistas? Se o gostinho de esperar aumenta o sabor do que é degustado, por que não variar os caminhos percorridos para a obtenção do prazer? Para falar da atitude que leva a uma ou a outra posição, uma coordenadora do Vigilantes do Peso descreve da seguinte forma uma criança obesa e uma magra: “Se você oferece um Sonho de Valsa para a obesa, ela enfia correndo na boca, mastiga ansiosa, engole e estende a mão pedindo outro; quando você repara a magra, ela está se lambuzando vagarosamente, curtindo o seu que ainda vai durar muito tempo”. É revoltante, mas a verdade é que quem come mais e mais gostoso é quem come menos! Essa é a ideia! Só temos quando vemos/sentimos o que temos e usufruímos. Senão, foi um vento sem cor nem sabor que passou: não o pegamos e imediatamente começamos a corrida atrás do próximo. É… o imediatismo pode apequenar mesmo as grandes coisas da vida. — Artigo publicado originalmente no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 22 de outubro de 2015.

O que comemos quando comemos?

Luciene Godoy // Quando o assunto é obesidade, a pergunta fundamental seria por que comemos tanto? Não. A pergunta é: o que comemos tanto? Freud diz que, em princípio, o aparelho psíquico tem a função de evitar a dor e buscar o prazer. Outro viés sustentado pela psicanálise é que todas as nossas necessidades vitais são, de alguma maneira, ligadas à produção de um prazer ao serem realizadas. Será que, se comer não fosse tão prazeroso, ou a fome tão incomodativa, faríamos tanto esforço para comer várias vezes por dia? Mamãe natureza, sábia, coloca como o maior de todos os prazeres o orgasmo. Lembro-me de uma pesquisa com pessoas com profissões emocionantes, como pilotos de Fómula 1, e praticantes de esportes radicais, como escaladores de montanhas, sobre qual a experiência de suas vidas que lhes deu um prazer mais intenso. O orgasmo ganhou o primeiro posto. Hoje, diante de um mundo que oferece prazeres variados e intensos e, por um lado, desfavorece os encontros entre os corpos, talvez o orgasmo perdesse a posição. Numa sociedade de consumo, tudo aquilo que atrai, que é desejado, pode facilmente tornar-se uma mercadoria, Temos ofertas de prazeres aos montes, nos jogos, nas revistas… É o corpo bonito, são as viagens paradisíacas, os carros que nos fazem levitar em quatro rodas… Por detrás de todas, o prazer de ter uma identidade ligada a algo de valor e, portanto, sentir-se como prolongamento da mercadoria valorizada. O prazer gastronômico vai em um rumo um pouco diferente. É um prazer direto da boca – que passa também, é claro, pelo sentido do que se está comento –, mas no qual muitos vazios podem estar sendo preenchidos. Por isso, a pergunta: o que será que comemos quando comemos? Tem gente que come presença, a fome sendo sentida como uma ausência e o preenchimento da barriga como uma presença reconfortante de alguém. A comida pode ser outro nome que se dá para um certo apaziguamento que ela, na sua utilização natural, provoca mesmo. Daí a razão para buscá-la mais e mais, igual àquele ratinho de laboratório que descobriu que a alavanca lhe dispensava um choque prazeroso no cérebro e que morre de tanto acioná-la para ter mais e mais prazer. A comida é um caminho mais à mão, mais direto, para obtenção de prazer. As comidas que mais associamos ao prazer são as que nos dão mais calorias – pela nossa história de animais que tinham mais chances de sobreviver se comessem o que mais lhes dava energia. Hoje esse excesso de energia se torna excesso de gordura: o que antes nos salvava, agora nos mata. Difícil manter o peso com tudo tão fácil, tão oferecido ao olhar. Tantas festas, tantas reuniões, happy hours. A diversificação de prazer não acontece, pegamos o que está mais a mão e, quando nos damos conta, aqueles quilões a mais já se instalaram. Dizer “não” a eles é outra história. Quando o acesso ao alimento é dificultado, come-se menos. Entre um saquinho de nozes com cascas que que têm de ser abertas uma a uma e um saquinho com as castanhas prontas para pularem para a boca, qual você comerá mais? Mas, paradoxalmente, onde ficaria o prazer de ter o corpo saudável e mais ao seu gosto? Poderia ser mais fácil se não comêssemos tanta coisa como se fosse comida. Nossa boca está comendo chocolate, mas o nosso cérebro, presença. A nossa boca come um hambúrguer gigante, mas nosso cérebro está comendo apaziguamento. Será que, se estudássemos um certo tipo de gastronomia para conseguir separar o que é prazer da comida e o que é prazer de saciar outras fomes, daria resultado? Será que, se tivéssemos a clareza para sentir do que temos fome e comêssemos o item correspondente, muitas outras comidas não entrariam necessariamente pela boca? Procedendo assim, não sobrecarregaríamos nossas células adiposas. Quem sabe inventaremos aulas de “psigastronomia” para aprendermos o que é da boca e o que é da alma comer? — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 15 de outubro de 2015.

As crianças do futuro

Luciene Godoy // Ultimamente, tenho recebido em meu consultório mães e pais de crianças – veja bem, não de “aborrecentes” (perdoe-me o interessado no assunto, fica aqui a promessa de dar o meu viés muito mais simpático a essa fase da vida) – que se sentem perdidos e impotentes diante do que suas crianças fazem. Elas os deixam completamente deslocados porque em suas próprias infâncias aquele comportamento era impensável. Como sabemos, o ser humano não é abelha, que a cada geração reproduz-se exatamente da mesma forma. Nós, que recriamos o mundo a cada geração, temos o chamado “choque de gerações”. Não é choque, é mudança de tipo de relação social, que sai do modelo vertical – relações de comando e poder – para um modelo horizontal, em rede, com a troca de informação de um para o outro e não do líder, pai, mãe, donos da verdade, para os pobres cidadãos comuns. Hoje, o cidadão comum cada vez mais se empodera pelo acesso ao saber que vem da informação “no ar” e não nas cátedras. Note bem: o mundo dos adultos mudou e o das crianças, que se nutrem do que esses adultos lhes dão, também mudou. Hoje, o adulto valoriza muito mais a criança. Claro que a sociedade de consumo se apropria disso e tenta transformar esse valor em um empurrão para o consumo. Se o mundo não é calcado na obediência cega a um líder ou a regras, isso quer dizer que a criança não vai se curvar a uma posição, a um título, mas a uma competência. Não é porque o pai é pai, mas por quem ele é. É isso que significa estarmos num mundo de relações horizontais. Ele é mais justo. Não adianta ter um título de doutor ou um anel no dedo, ou nome de pai ou mãe; é a competência naquilo que se diz ser ou fazer que pesa. É ser coerente com o que se diz. Não vale mais a mãe irritada falar para o filho se acalmar e culpá-lo de ser agitado. Nós, adultos, “somos” o alimento emocional e comportamental dos pequenos. Por isso, os grandes centros de estudos da primeira infância estão dando ênfase na ajuda aos pais para se transformarem também enquanto pais, pois o modelo de sua própria infância simplesmente virou de cabeça para baixo. Tem também muita gente preocupada dizendo que as crianças estão deixando de viver o lúdico e vivendo demais a vida de adulto. Perguntinha: a criança aprende brincando de quê? Brincando de ser adulto, ora bolas! Agucemos o nosso olhar e poderemos ver que essas atividades do dia a dia que dizemos serem coisas de adultos, com responsabilidades demais, aula disso, aula daquilo, tal e tal compromisso, até festa de aniversário dos amiguinhos que se torna “um compromisso que é um saco”, podem der ser vividos de forma lúdica. Estudar, fazer esportes e aprender línguas podem ser deliciosos. Depende do estresse ou da leveza com qual são vividos. Porém, o mais bonito é o que Lacan diz: que ser criança é ter ainda o frescor de um ser em formação que não está engessado pela expectativa dos outros. A criança fala coisas inesperadas, faz conexões profundamente aguçadas a respeito de fatos que nunca tínhamos visto daquela maneira. Ela renova o mundo com seu olhar. Triste é ver a criança que não brinca de ser adulto, que “é” um adulto porque não faz para seu prazer e sim para o olhar dos outros. Lacan nos convida, no fim de uma análise, a voltarmos a ser crianças, a termos um olhar curioso para o mundo, a inventar e usufruir do prazer de sermos como queremos e não como os outros querem. É um chamado para “ir além do Pai em tendo se valido dele”, quer dizer, ultrapassar as regras da cultura , mas sabendo segui-las, sabendo viver em grupo e pensar na coletividade. Ser responsável não é só coisa de adulto, testemunhamos hoje crianças ativas e conscientes. Ser lúdico não é só coisa de criança. Tem muito adulto livre, leve e solto. Podemos ser crianças brincando de adultos e adultos brincando de crianças e, assim, sermos livres e felizes, sustentando nossas escolhas e dando conta de nossas vidas. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 8 de outubro de 2015.

O luxo de se presentear

Luciene Godoy // Dar-se um grande presente certamente não é comprar um objeto descartável qualquer. Estamos em um mundo cheio de descartáveis. Nada contra. Algumas coisas são para uso e descarte – palito de fósforo riscado, por exemplo. Mas parece que estamos sendo levados a um “pensar descartável”: já compramos algo sentindo que ele está envelhecendo no momento mesmo em que saímos da loja. Talvez, para alguns, o entusiasmo do brinquedinho novo não o permita, mas fatalmente chegará, e rápida, a sensação de substituição necessária. Será que podemos chamar isso de um comprar inconsequente? Parece mais um comprar sem degustar, sem curtir prolongadamente de forma que a necessidade imperiosa de outro objeto fique, de fato, em suspensão. Sentir-se tranquila e prolongadamente satisfeita pela aquisição de algo: será que isso existe no século 21? Entre o descartável e o luxo, está, veja só, o seu desejo. Não o desejo de agradar ou ser aceito, mas o seu desejo que muitas vezes nem é tão socialmente aceito e reconhecido. Quando ousamos nos escutar e dar corpo às nossas “loucuras”, será que pagamos um alto preço? Alto preço pagamos pelo que fazemos contra nós e não a favor. Quando temos a coragem de bancar aquilo que sussurra dentro do peito, aquilo que pertence a nós, de que temos fome e não o que alguém pensa que devemos desejar, experimentamos alegrias indizíveis. Às vezes, adquirir algo muito caro, muito na contramão do bom senso, pode não só nos dar uma prolongada sensação de bem-estar como abrir novas portas em nossas vidas. Tenho uma amiga que, de última hora, com a viagem “oficial” que comemoraria seus 50 anos marcada, mudou tudo, bancou a escolha de um outro destino e fez a viagem de sua vida. Hoje com 60, ela diz que sua vida não foi mais a mesma depois daquela ousadia. Ela não só se descobriu sendo capaz, como mudou seu estilo de vida e banca muito mais tudo o que quer. O presente de aniversário dos 50 dura até os 60 e parece que vai continuar. Quando temos a coragem de nos ofertar grandes presentes, nos pomos em risco – risco esse, inclusive, de no mínimo perder muito e não pouco. Perder não só dinheiro, mas o respeito das pessoas, pois a nossa escolha pode ser inaceitável. Uma vez comprei uma blusa que custou o preço de várias. Até hoje vesti-la é sentir-me coberta de algo que é mais do que roupa. Ela vale por 10 ou 20 blusas que passaram por minha vida e nem na memória estão mais. Existirá para sempre. Tem muitos presentes luxuosos e caros que podemos nos dar como, por exemplo, deixar de trabalhar tanto. Para alguns profissionais, deixar de ganhar dinheiro pode lhes dar o luxo de dispor de tempo para o que bem entenderem. Luxo total, o luxo de não ganhar dinheiro! Workaholics de plantão que se indignem, mas existe prazer no trabalho e também fora dele. O luxo que nos damos é a grande marca de nossa identidade. É a prova dos nove do que realmente tem valor para cada um de nós. O que você mais preza? É aí que você está. É aí onde se manifesta a sua diferença, pois não estou falando do que é luxo para o grupo, mas do que é luxo para você. Escolher o seu luxo pode mais te excluir do que incluir. Se você não suportar a desaprovação, então, aí, vai escolher sempre o que é luxo para os outros. Ainda bem que a questão vai ficando cada vez mais a favor do sujeito do que do grupo. O filósofo e sociólogo Gilles Lipovetsky afirma que o exercício do luxo está cada vez menos ligado ao olhar do outro e mais colocado a serviço do indivíduo em sua vida íntima, tomando o tom de suas sensações subjetivas. Bom para nós, bom para o mundo, que terá menos infelizes obedientes e medrosos. Trata-se de discriminar entre o luxo e o lixo, o descartável e o desfrutável e pimba na gorduchinha! Vamos entrar no jogo! Entre o ganhar e o perder, viveremos… viveremos o luxo de correr riscos e ter emoções. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 1º de outubro de 2015.

As três “naturezas” do ser humano

Luciene Godoy // Dentre tantos conceitos acerca do que seria característico do ser humano, do que representaria a sua essência, poderíamos tomar um e dizer que o ser humano é racional. É um animal racional que busca se sobrepor à natureza e que também acredita poder dominar a si mesmo, aos seus impulsos e paixões. A natureza, por sua vez, é tudo o que existe no mundo material, que existe independentemente das atividades humanas. Ou seja, se não fomos nós que inventamos a natureza, então, será que foi ela que nos inventou? Parece, pois, pela própria definição que temos dela, que fazem parte da natureza os seres vivos em geral: animais (que nós somos, não nos esqueçamos), plantas, formas geográficas, fenômenos climáticos… O planeta Terra é a expressão ampla da natureza. Orgulho de Homo sapiens – o homem que sabe – à parte, é a natureza que nos possui e não nós que a possuímos. Fizemos tanto esforço, especialmente nos últimos séculos, para nos distanciarmos do nosso “lado animal” e nos tornarmos os mais artificiais possíveis – artificial que quer dizer simplesmente não natural, não criado pela natureza, mas sim pela inteligência do homem que pensa. Parece que queremos, isso sim, “dominar” a natureza. Será que tudo o que a natureza criou é ruim e precisa ser repaginado pela prodigiosa inteligência do Homo sapiens – o sabidão? Será que a natureza é a inimiga a ser vencida ou a companheira a ser intergrada? Como afirma a filósofa Viviane Mosé em seu livro O Homem que Sabe, “a humanidade que construímos, nesses últimos 100 mil anos de Homo sapiens, mesmo com suas inegáveis conquistas, mais do que estabilidade e autocontrole, apresentou requintes de crueldade superiores aos da animalidade, da qual queríamos tanto nos livrar”. Achamos que o pensamento era mais amplo do que a vida. Que nossas interpretações alcançariam todos os fatos e ocorrências da vida. Até começarmos a descobrir que o pensamento é sempre um recorte, um pedaço da realidade que configuramos para buscar a compreensão, e isso, necessariamente, é uma limitação da pluralidade do mundo. O que dizemos que o mundo é, na verdade, é o que percebemos dele, e isso, pasme, depende de nosso estado de espírito. Depende de nossas emoções. Cadê a razão para tomar o comando de tudo? Pesquisadores atuais nos convidam a percebermo-nos como seres biopsicosociais. E note bem que o bio – de biologia, de corpo, de vida – vem primeiro. Isso em si já choca os seres pensantes. É verdade que somos seres pensantes, mas dentro de um corpo que não é fruto só do racional. Que é fruto da carne biológica e das relações com os outros que fundam nosso psiquismo. O grande médico e pesquisador – dentre outros temas, das causas do câncer – Ryke Geerd Hamer aponta que, na sociedade moderna, perdemos a atenção e a escuta às experiências sensoriais diretas. Tudo tem que ser mediado pela mente. No entanto, nossa porção “animal biológico”, que tem respostas acumuladas por milhões de anos de adaptação à vida no planeta, também é fonte de ajuda para vivermos melhor. Quando, por exemplo, vemos uma cobra no meio da trilha, damos um salto provocado pela descarga de adrenalina e o mecanismo de ataque e fuga é acionado, independentemente de nosso comando. Claro que existe uma interpretação do que é ou não perigoso por detrás da reação – informação passada pelo outro. Mas, ainda assim, o corpo trabalha de forma direta, sem passar pelo seu aval com muito mais frequência do que você imagina. Pensemos, hoje, o ser humano como esse carrossel que gira tendo nossas três “naturezas”: a “bio-lógica”, a “psico-lógica” e a social, em um movimento ininterrupto em que cada uma, com mais ou menos proeminência, nos conduz às boas respostas ao desafio de permanecermos vivos. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 24 de setembro de 2015.

Nossos “eus”

Luciene Godoy // Será que nós já nascemos com “eu”? Curto e grosso, não. Não nascemos com um “eu”. Então, quando é que ele nasce? Ops! Será que o “eu” nasce? Será que ele é desenvolvido? Será que aparece de repente? Você já pensou no assunto? Será que o meu “eu” é quem eu sou? Muitas e interessantíssimas interrogações. Nós não nascemos com um “eu”, não. Nascemos, isto sim, com o corpo biológico e prematuro, ainda por cima. Se você duvida, dê uma lida na teoria evolutiva que você vai ver que, com o advento da bipedia – o ser humano assumir a posição de marcha sobre as duas pernas –, tivemos que fazer uma adaptação em nossa espécie. Como a pélvis da fêmea se estreitou, os bebês tiveram que começar a nascer antes do tempo para que mãe e bebê pudessem sobreviver. Isso aconteceu entre sete e quatro milhões de anos atrás. A título de curiosidade, muitos estudiosos, dentre eles Leakey (1997), afirmam que, para atingirmos a condição do mamífero que somos, deveríamos nascer com 21 meses de gestação, ou seja, com um ano de idade após o nascimento. E o “eu”, o que tem a ver com tudo isso? Segundo Lacan, nosso nascimento precoce, que ele chama de Complexo do Desmame, nos relega a viver os primeiros seis meses de vida sem termos a percepção do nosso corpo, pois o inacabamento neuronal nos dá a sensação de corpo fragmentado. Veja só, nascemos incompletos, ainda em acabamento, como uma casa que já tem alguns fios, mas ainda precisa de outros. Que tem canos colocados, mas carece de algumas conexões para o funcionamento geral. Pode ser que uma parte do telhado ainda esteja incompleta, nos deixando meio expostos e desamparados. Aos seis meses, nossa visão já consegue focar com justeza e nós, bebês, passamos a ver o que antes não tinha muita forma. Quando o bebê “vê” a mãe, figura já muito presente, ele vai tomar a imagem dela por si mesmo. Depois disso, demora mais de um ano para compreender que o “eu” está aqui nesse corpo e não no outro. Sim, meu querido, o primeiro “eu” é lá, no espelho que é o corpo do outro. Lacan chama este momento de “Estádio do espelho”. É por isso que nos afetamos tanto com o que o outro é e faz. Nosso primeiro “eu” já foi o outro. Mas, o título do artigo fala de “eus” no plural. Mais essa agora: será que temos mais de um “eu”? É, temos, sim. É um “eu” primitivo que funciona antes do “eu especular” – redundância porque esse “eu” que já conhecemos é sempre especular – é sempre na imagem do outro. O segundo “eu”, na verdade o primeiro, que lhe apresento agora é o que o psicanalista francês Didier Anzier chama de “eu-pele”. É que a pele é o nosso primeiro grande sentido que nos permite nos situarmos. O primeiro lugar de troca com o outro. A própria visão que tanto nos orienta depois dos seis meses é um desdobramento do tato, segundo muitos estudiosos. Ou seja, o primeiro “eu” que nos orienta e nos situa na vida vem do sentir. Do sentir a pele do outro e, a partir disso, ter a sensação de sua própria pele, de seus próprios limites, de seu próprio corpo. Se o nosso “eu-pele” for bem constituído num contato pele a pele intenso nos primeiros meses de vida, o nosso “eu-espelho” – que é um “eu-no-outro” – não vai ficar tão violentamente predominante em nossas vidas. Teremos mais paz dentro do nosso corpo e menos dependência e medo da não aprovação do outro. Moraremos mais no “eu-pele” quentinho, gostoso e nosso, do que no sapato apertado que é o corpo do outro. Daí poderemos dizer: “Sai do espelho que está lá e entra no seu corpo que ele te pertence!” — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 10 de setembro de 2015.

Amar & Desejar – quem já se tem

Luciene Godoy De que amor estamos falando? Do “amor-desejo” ou do “amor-amizade”? Do amor Eros, de Platão, para quem amar é desejar. Fácil de definir: se você deseja é porque você ama. No amor erótico é isso mesmo. Só se ama enquanto se deseja. A contrapartida é que, para desejar, você não pode ter – uma lógica clara e límpida: não se deseja o que se tem. Só se deseja o que não se tem. Você só ama enquanto deseja. Quando o desejo acaba, o amor acaba. Desejamos o que nos falta. Se o conquistamos, o desejo, coitadinho, morre. Já pensou que coisa triste o desejo assassinado pela presença? Dessa forma o encontro é impossível mesmo. Essa é a fórmula do desencontro eterno tão bem narrada no poema de Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,/ que não amava ninguém”. A base do erotismo é buscar satisfazer a falta obtendo – o que dá uma sensação sublime de ganho de potência. Mas, quando se obtém, perde-se aquele desejo que nos movia rumo ao objeto amado. O cavalo com a cenoura dependurada diante do seu focinho que o faz correr atrás – e que, quando comida, é substituída pelo vazio do “E agora, José? A festa acabou…” Até parece a maldição do “que é bom dura pouco”. Não exatamente. Tem amor que dura e é o amor-amizade, que na Grécia Antiga era chamado de Filia. É o amor que temos pelo que temos. A amizade não funciona na falta e na descoberta, mas na continuação do que conhecemos e apreciamos. É um amor contínuo, reassegurador entre pessoas que se gostam. Seria possível os dois juntos? Podemos desejar e ter ao mesmo tempo? Aposto na junção possível de Eros e Filia. Aposto nessa parceria, nesse encontro, nesse Amar & Desejar quem já se tem. Basta uma pequena mudança de perspectiva. Um pequeno deslocamento que mude sua visão fixada nos tipos de amor separados que tínhamos. Foque melhor e veja que é um tremendo engodo nos convencermos que temos definitivamente o ser amado. Não cultive a crença no “agora que casamos, ele/ a é meu/ minha para sempre” ou “agora que temos filhos, temos mais garantias de ficarmos juntos”. Você pode argumentar que ninguém pensa mais assim. Concordo! Não pensa, mas age como se pensasse, porque para de namorar, para de querer “conhecer” o outro para sempre. O “para sempre” pode até existir. E o “até que a morte nos separe” – quer dizer, até que o desinteresse nos separe – pode não existir se sua vida a dois for tão cheia de acontecimentos como a sua vida a um. Você pode ter alegria com o que já é seu, ter o imenso prazer de ter o que você já tem – tudo provisório, não se esqueça. Quando isso acontece, vivemos coisas do tipo que aconteceu a uma analisante que, com pouco tempo de casada, já passava meses sem fazer sexo, numa perfeita vida de irmãos que se dão bem – destino, aliás, dos bons casamentos. Ela me relatou a seguinte cena: “Estávamos na sala de TV, cada um de um lado do sofá, e de repente olhei com estranheza aquele homem lá na ponta. Para minha surpresa, pensei: ‘Como ele é bonito, como é inteligente e fala gostoso’”. Ao se dar conta de que vivia com um estranho – o que é destino de todos nós, veja bem –, ela enxergou um outro e não mais aquele que se misturara a ela. Ela contou que foi tomada de um desejo repentino por aquele estranho que também era conhecido. Cujo beijo ela gostava, mas já não sentia mais. Cujo cheiro do corpo lhe dava prazer. Esse conhecido gostoso voltou pela presença do estranho. Mais ou menos isso. Podemos juntar amizade com desejo dentro dessa pulsação de ter e não ter, de usufruir e perder, de Amar & Desejar. Perder para reencontrar de novo nessa aventura que é o nosso dia a dia. Aventura que existe para aqueles que não vivem a vida morta. Se você vive uma vida de vivo, ela é uma aventura, pois que desconhecida a cada momento. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 3 de setembro de 2015.

Mudando de casa

Luciene Godoy // Falemos hoje de mudanças. Mais especificamente de mudança de casa. Decisão tomada, tudo arranjado, objetos nas caixas e lá vamos nós para habitar uma nova morada. Quando a nova casa é melhor, quando a mudança foi desejada, temos o transtorno de ver tudo revirado, mas a satisfação e o prazer estão ali do ladinho rindo para a gente sem parar. Como seria fazer uma mudança repentina, sem saber sequer para onde vamos? E se a tal mudança se der como uma série de ocorrências que vão se sucedendo, cada uma mais estranha que a outra, e terminar com o ato de você ser botado fora de casa? Fora de casa e dentro de uma outra casa? Bem, mais ou menos, porque a casa que você tinha era quentinha, aveludada, deslizante e molhada. Ah! E era preenchida também pelos ruídos das redondezas. A sua ex-casinha também era flutuante, com movimentos acalentadores e suaves. A nova casa não tem paredes e é uma amplidão sem fim. Não tem o abraço apertado, nem aguinha quente deslizante. Tem o ar, que é algo que você nem sabe ainda o que é. É um vazio, coisa que você nunca nem ouviu falar que existe. Parece que a casa não tem gente: você está sozinho, enquanto na outra só se sentia acompanhado. Acabou o doce balanço, acabaram-se os ruídos que eram a música para seus ouvidos. Vácuo? Talvez pudéssemos dizer que a nova casa é um vácuo. A verdade é que temos de fazer muito esforço e levamos muito tempo para começarmos a nos dar conta de como a nova casa funciona. A nova casa é totalmente diferente da primeira. Sumiram de repente todos os nossos prazeres. Qual a chance de gostarmos da segunda casa? Só se for masoquista. Mas para tudo tem jeito. Esse vácuo é habitado por uns corpos bem interessantes. Quando alguém nos abraça, é gostosinho… até parece “a outra casa”. Esse calorzinho e a sensação de existir quando estamos encostados no corpo, na pele de alguém, são tudo do que mais precisamos para nos sentirmos seguros. Quando nos embalam é uma delícia, por isso andar de carro é “o programa”. Comer, que é uma novidade, é a melhor parte. Tem uma sensação gostosa que vai da boca até dentro do nosso corpo, que se inunda de presença e serenidade. Muito diferente da primeira respiração que inundou lá dentro de um frio queimante e vazio que foi o primeiro encontro com o oxigênio. Essa primeira entrada deixa um vazio que teima em voltar, mas depois vêm o leitinho quente, o toque, os sons e o abraço, e o buraco desaparece. A essa altura, você já sabe que estamos falando da primeira mudança de casa que fazemos na vida. Mudança de casa que equivale à mudança de universos. Nos relacionar com o vazio da perda e com as novas relações que vamos estabelecer com esses objetos do universo sem limites é o nosso desafio dali em diante. O que temos para nos situar e para trocar com esses novos seres aos quais vamos sendo apresentados? Os nossos cinco sentidos comandados pelo cérebro, que por sua vez é comandado pelo que apreendemos desses objetos que se revelam muito especiais e que são chamados de seres humanos. É, engana-se quem pensa que nosso DNA é que comanda nossa maneira de ser. Nascemos do outro em tudo, inclusive no que pensamos e sentimos. Hoje sabemos que a “arquitetura cerebral” e os comportamentos são frutos das relações que a criança tem com os adultos. E isso por meio dos sentidos, portanto, da pele, pela maneira que fomos tocados; da boca, por como fomos alimentados; pelos ouvidos, por como nos falaram; e pelo olhar, pela forma que fomos interpretados pelos “olhos que falam” das pessoas que fundaram nossa vida. Mudança gigantesca! Para que ela se transforme em uma forma de viver prazerosa, precisamos da competente ajuda do outro num laço que nos laça para a vida e que se chama amor. Falemos hoje de mudanças. Mais especificamente de mudança de casa. Decisão tomada, tudo arranjado, objetos nas caixas e lá vamos nós para habitar uma nova morada. Quando a nova casa é melhor, quando a mudança foi desejada, temos o transtorno de ver tudo revirado, mas a satisfação e o prazer estão ali do ladinho rindo para a gente sem parar. Como seria fazer uma mudança repentina, sem saber sequer para onde vamos? E se a tal mudança se der como uma série de ocorrências que vão se sucedendo, cada uma mais estranha que a outra, e terminar com o ato de você ser botado fora de casa? Fora de casa e dentro de uma outra casa? Bem, mais ou menos, porque a casa que você tinha era quentinha, aveludada, deslizante e molhada. Ah! E era preenchida também pelos ruídos das redondezas. A sua ex-casinha também era flutuante, com movimentos acalentadores e suaves. A nova casa não tem paredes e é uma amplidão sem fim. Não tem o abraço apertado, nem aguinha quente deslizante. Tem o ar, que é algo que você nem sabe ainda o que é. É um vazio, coisa que você nunca nem ouviu falar que existe. Parece que a casa não tem gente: você está sozinho, enquanto na outra só se sentia acompanhado. Acabou o doce balanço, acabaram-se os ruídos que eram a música para seus ouvidos. Vácuo? Talvez pudéssemos dizer que a nova casa é um vácuo. A verdade é que temos de fazer muito esforço e levamos muito tempo para começarmos a nos dar conta de como a nova casa funciona. A nova casa é totalmente diferente da primeira. Sumiram de repente todos os nossos prazeres. Qual a chance de gostarmos da segunda casa? Só se for masoquista. Mas para tudo tem jeito. Esse vácuo é habitado por uns corpos bem interessantes. Quando alguém nos abraça, é gostosinho… até parece “a outra casa”. Esse calorzinho e a sensação de existir quando estamos encostados no corpo, na pele de alguém,