Os novos filhos respeitam os pais?
Luciene Godoy // Se fôssemos borboletas, cupins, formigas, geração após geração, teríamos os mesmos comportamentos, uma sendo idêntica à outra. O termo “conflito de gerações” não faria o menor sentido. Até o século passado, com a tentativa de padronizar o ser humano que era tão cara ao mundo industrializado, com necessidade dos iguais para produzir e consumir, até que tínhamos muita coisa que “parecia” igual aos outros. Sim, só “parecia”, graças a um esforço imenso em corresponder ao ideal proposto para não ser excluído do grupo de semelhantes ao qual pertencíamos. Aos pais sobrava a grande tarefa de “enquadrar” os filhos nesses padrões e a felicidade era garantida pela sociedade. Se no frigir dos ovos o filho desse um “bom pai de família”, a luta estava ganha. Se a filha não “se perdesse” e se casasse – para sempre – de véu e grinalda, os pais tinham tido sucesso. Isso tudo se encontra tão distante de nós que parece até que nem fomos nós que vivemos sob esses valores e hoje estamos aqui, recém-instalados em um novo planeta feito cachorro que caiu da mudança. Nossas crianças e adolescentes que são os novos cidadãos do século 21 nadam de braçada, surfam sobre ondas gigantes e a gente, meio de fora, meio de dentro, tentando fazer parte. Isso é de arrepiar os cabelos. Como pode uma geração mais nova saber mais do que a mais velha?! Eles vão tomar o poder “gerontocrático” (quer dizer: o poder dos mais velhos). Deus nos salve! Eles já têm a juventude, a força física e agora também as informações, que eram tudo que o adulto tinha para colocá-los na linha? É, concordo! Estamos correndo um risco enorme… de vir a ter relações construtivas e de respeito ao jeito de ser de cada um, já que não tem padrão no qual acreditamos a priori. Mas “se Deus não existe, então eu posso tudo”? Se as crianças não têm “respeito” pelos pais, elas vão bater neles? Tenho colecionado histórias de crianças e adolescentes com seus pais que ilustram essas novas ocorrências. Uma delas compartilho com você aqui: recebi um casal com um filho de 4 anos em minha chácara e me deliciei por três dias com a relação que presenciei entre pai, mãe e filho, e dele – o pequeno humano – conosco, os da casa. Vi, acima de tudo, uma criança que conseguia se expressar, comunicar suas necessidades e, pasme, seus desejos. E isso de forma eficaz, respeitosa, inteligente e sutil. Ai, que alívio! Que colírio para os meus olhos, não ver uma criança mimada/onipotente/insegura (trata-se da mesma coisa), retrato fiel de pais que se gostam através dos filhos ou culpados que compensam os filhos com permissividade, mas um serzinho feliz no seu lugar de criança que depende, que respeita, mas que vai atrás do que quer com segurança e poesia. Ainda me pego rindo sozinha quando lembro da carinha de “pequeno príncipe” dele, com aqueles olhinhos sorridentes me dizendo: “Será que dá pra sair um lanchinho?” Com todo aquele respeito e sedução que ouso dizer… adequados. Ele sabia se situar na delicadeza das frases, das palavras e dos tons. Estava frio e não queríamos que ele fosse para a piscina, e ele cheio da imensa vontade de se jogar na água. Nem pense que caiu na birra do “eu quero agora”. Esperou o sol despontar e saiu informando a todos que estava “com muito calor”. O que será que a gente lhe sugeriria para se refrescar? Gente! Será que nos damos conta de que um ser humano que pode cuidar de seu desejo tão competentemente e tão cedo é fruto de uma valorização – sem culpa nem protecionismo doente – que lhe foi proporcionada? Está dando certo! Está acontecendo! E com muitas crianças e adolescentes que conhecemos. Graças a isso, vamos ter adultos menos “infantiloides”, dissimulados e chantagistas, pois saberão conseguir o que querem. Não vão usar o outro porque usam a si mesmos para obter o que desejam. Os novos filhos respeitam seus pais porque respeitam a si mesmos. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 14 de janeiro de 2016.
Ano novo, medos velhos
Luciene Godoy // Então, estamos todos começando um ano novinho para ser vivido! Com promessas, projetos, expectativas. Esperando muita coisa boa acontecer, não é verdade? Bem, pelo menos esse é bem o discurso de começo de ano. Será que o que se vive é o que se fala? Li algumas pesquisas recentemente que falam do que mais incomoda as pessoas, o que mais as faz sofrer. Tentei adivinhar: será doença, morte, ficar sem dinheiro? Olha que esses são sofrimentos barras-pesadas. Difícil concorrer com eles. Mas, não, o grande ganhador foi o medo. Mais especificamente medo de quê? Medo generalizado. Medo de tudo. Medo de qualquer coisa que “pode” dar errada. Claro, incluso, o medo da doença, da morte, da pobreza. Mas, veja bem, medo de que venham a acontecer e não o próprio mal já evidenciado. E esse medo é regado diariamente por vários comportamentos que são verdadeiros adubos e água fresca para o crescimento do mal (in)desejado. Sem ironias! Sem piadinhas! Vamos logo incorporando esse “in” no desejado porque é claro que ninguém deseja o medo em sua própria vida. Consertemos, pois: então, é verdade, ninguém deseja o medo, mas cultiva com muita competência a manutenção e, quem sabe, até a proliferação do hóspede indesejado. Falta a consciência de que se está regando a planta errada. É isso. O enorme interesse de saber qual foi a última tragédia, onde o avião caiu, quantos morreram, se o piloto errou. Ou será que é a última baixaria de casal, assassinato, marido que matou por quê? E os últimos assaltos, que comparamos com os antigos que já conhecemos para nos certificarmos que a coisa está piorando mesmo? E inevitavelmente, não sei por que, chegamos à conclusão de que estão, sim, piorando. Talvez a razão da impressão de que as ameaças estão sempre aumentando venha do fato de que estão mesmo, em número e gênero, dentro de nossos arquivos mentais, pelo menos. É uma lógica óbvia: ao fim de 2016 teremos muito mais informações sobre conflitos, doenças novas e velhas, desastres naturais e produzidos pela mão humana do que tínhamos ao fim de 2015. E daí? Vamos fechar os olhos para as desgraças que estão acontecendo ao nosso redor, e o que é pior, ao redor do mundo, já que nos tornamos uma aldeia global e queremos saber de todas as desgraças existentes porque todas nos concernem? Olha a lógica maléfica. Mantenha o seu cérebro durante horas a fio observando, se questionando sobre as ameaças, que você passará horas de dedicação exclusiva ao aumento de seu medo em todas as direções, pensando, inadvertidamente, que está “se preparando” para quando a desgraça bater à sua porta. Coisa que inevitavelmente ocorrerá, mas você nem sabe o que vai ser, quando ou como. Não seria melhor que ela – a desgraça da qual tanto fugimos – nos encontrasse fortalecidos com muita energia para ser gasta, com muita margem de manobra para fazer as coisas darem certo, do que encontrar seres exauridos, de olhar assustado, e cansados de tanto olhar na esquina para ver se seremos a próxima vítima? Existe antídoto para não se alimentar o medo sem ter a mínima intenção de fazê-lo? Claro. E você, a essas alturas, já deve estar formulando suas novas respostas. Fazer uma seleta escolha dos temas que vão ocupar nossas mentes no dia a dia é como escolher o alimento que entrará em nossas bocas. Nossa saúde emocional dependerá disso, acredite. Mais um avião que cai não mudará a sua vida. Mas descobrir que tem alguém que na sua idade está vivendo uma aventura que você tanto quis e achou que já não havia mais tempo pode lhe inspirar a viver a sua. Você pode escolher viver cada dia – que é sempre novo, não se esqueça – tendo decidido começar a ver e fazer. O quê? O que há em seu contexto para ser visto e feito. Trata-se de ultrapassar o medo de viver… o novo, a vida. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 7 de janeiro de 2016.
Fazer o Ano ser Novo
Luciene Godoy // Quantas vezes seu ano virou nesses 365 últimos dias? Não dá para ser todo dia, senão a bola murcha. A vida é som e silêncio, é ter e não ter, é virar e é ficar. Falamos, falamos, mas tem uma energia no ar quando o fim do ano vai chegando. Claro, muita gente investe nisso. É a vontade – ou a fantasia, se quiser – de um grande número de pessoas que faz com que haja esta sensação no ar de que coisas boas vão acontecer. E acontecem, malgrado os pessimistas de plantão que só veem o lado ruim de tudo. Acontecem celebrações, que, por mais previsíveis que pareçam, deixam algum prazer de estar com colegas, amigos ou familiares, com os quais celebramos mais um ano de vida – juntos. Ah! Os milagres da vida… É o aniversário da nossa sociedade. O nosso estar juntos, por mais espinhoso e espinhento que seja, continua a existir. Celebramos uma paz universal que não existe, mas que continuamos insistindo e querendo que exista. Celebramos uma fraternidade da qual estamos longe, mas não a jogamos de lado com os braços cansados de carregá-la, enquanto tantos a sabotam. Celebramos o estar juntos quando, também, vivemos nos empurrando. Tentamos não desistir de tentar estarmos juntos, tentamos não esquecer de sonhar. Ah! Chegou a palavra mágica do Novo Ano que se anuncia: sonhar. Se sonhar é desejar que aconteça,este é o momento universal que escolhemos para mostrar deslavadamente que sonhamos. Que sonhamos com um mundo “melhor”, sem tantas desigualdades e violência. Se sonhar é querer que aconteça, é muito bom querermos que aconteçam coisas boas para nós e para todos. Porque sim, este é o momento que escolhemos – como sociedade – para desejarmos tudo de melhor para todo mundo. É o momento de pensar no grupo, em quem está do nosso lado. Fogos, champanhe, gritos, abraços e mais abraços que, numa ola universal, vão se propagando pelo planeta afora. Será que isso tudo é ruim? É fútil e raso? Para que celebrar, e o que é pior, o que celebrar? Vamos virar todos avestruzes e enfiar a cara dentro do chão? Afinal, o que temos para comemorar esse ano? Tanta coisa ruim. É, mas se não comemorarmos o que tivemos de bom e não botarmos no mundo o nosso sorriso aberto, o nosso brilho no olhar e o nosso desejo de que haja mais do que vale a pena, talvez o mundo fique mais triste e mais morto. Sonhar é querer, esse querer pode nos levar a fazer, fazer algo pelos nossos sonhos. Fazer do sonho um projeto arquitetônico de uma obra que se queira mesmo construir e não somente sonhar que ela exista. Podemos pular do sonhar para o fazer. Esse pulo, sim, seria uma grande virada de ano. Virar o ano sonhando, mas não sonho para sonhar e sim sonho para fazer. Desses sonhos que viram realidade. Talvez você até aprenda a já ir sonhando & fazendo. Podemos fazer uma virada de ano memorável em nossas vidas. Vire de lado e perceba quem mais está ali. Vire-se de bruços para sentir o cheiro da terra molhada. Vire-se costas e repare mais o céu, as estrelas, seu belo Planeta Azul. Vire o ano revirando seus conceitos. Vire o ano virando outra pessoa e quebrando junto com o champanhe suas identidades que não mais lhe servem. Vira, vira, virou… vire a criança feliz que continua a habitar em você e em todos nós. Vire o amigo que você não tem sido e usufrua mais de você com eles, todos eles, os seres humanos que passam o ano inteiro com você. Vire os 50 tons de prazer que nunca ousou experimentar. Vire-se do avesso e surpreenda a vida – e todos ao seu redor – com um presente inusitado: você novinho em folha, vestido de Ano Novo. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 31 de dezembro de 2015.
O que os comerciais nos vendem
Luciene Godoy // Comerciais nos vendem produtos, responderíamos. Mercadorias, diria o velho Marx. Nos vendem coisas, afirmariam os menos detalhistas. Hoje – afirmam os sociólogos, historiadores, filósofos e afins – nenhuma empresa “pega” e subsiste se não vender cultura. O que viria a ser vender cultura? Ora, vender modos de ser de pessoas ou grupos aos quais queremos nos identificar. Queremos ficar lindas como Gisele Bündchen e charmosos como Reynaldo Gianecchini. A Chanel não vende bolsas, sapatos e vestidos. Vende elegância garantida, vende bom gosto, poder de compra, nível social, tudo garantido. Comprou a marca, levou o produto e a ideia que ele transporta dentro de si. As marcas nos vendem ideias, nos vendem cultura, nos vendem sentimentos. Um certo comercial de carro começa mostrando o belo modelo em paisagens estonteantes e nos afirma que, ao adquiri-lo, é liberdade o que sentiremos. Ele – o carro – promove encontros, e é a realização de seus sonhos. Ao adquiri-lo e viver todos esses sentimentos a partir da sua existência – do carro –, você terá escrito sua história. Poderíamos colocar liberdade, encontros, sonhos e história de vida em que tipo de lista? Pertenceriam estes vocábulos à lista das mercadorias que podemos comprar e vender? Ao comprar o tal carro e não ganharmos o que está anunciado, será que poderíamos levar a empresa à Justiça por propaganda enganosa? Sendo assim, como faríamos com os comerciais que oferecem desejo, felicidade, masculinidade, potência (hoje não só atributo oferecido aos homens, pois já temos muitos comerciais com mulheres de atitude e dinheiro fazendo acontecer)? Todos para a cadeia! Todos vendedores de falsas ilusões que deixam os pobres e indefesos cidadãos comprando gato por lebre. Será que a família que compra – ou comprava – a margarina Doriana acorda feliz cantando “Oh! Happy day”? Você dirá que é claro que não, mas a gente bem que entrava no clima, não é? Pois é, os comerciais têm mesmo um enorme poder sobre os nossos sentimentos. Não se esqueça: sobre os nossos sentimentos. Eles nos fazem “sentir” uma enormidade de sensações, desde o sentimento de necessidade ou vergonha por não ter aquilo que é anunciado até o de ter achado a resposta para uma falta de sabe-se lá o quê. Aquele vazio no peito que a gente está sempre procurando preencher. Será que os comerciais oferecem produtos que preenchem o vazio? Claro! E como! O carro não preenche o vazio, mas a liberdade, os sonhos, os encontros, o ter um história digna de ser contada, sim, preenche. Gente! Orelhas em pé, olhos abertos, ouvidos atentos, faro aguçado para perceber o que se sugere que vamos obter de valores subjetivos ao comprar um produto material. Não podemos vender ou comprar valores sobre os quais só se pode sentir, mas existem objetos que poderiam ou não despertar tais sentimentos. Sentimentos não se compram, mas não parece que a coisa é clara. Existe a mistura, e o ser humano que quer tanto sentir-se bem consigo mesmo tenta comprar a aceitação social, o reconhecimento de bom gosto e riqueza, a sensação de liberdade e milhares de outras coisas, todas à venda. À venda, sim, mas não a pronta entrega. O tal produto material pode mesmo lhe encantar e enriquecer, mas isso só se você já tiver substância. Nesse caso, ele pode ser uma das suas extensões, parte de suas conquistas que falam de você e não será você que será falada por elas. Em outras palavras, se você já tinha, você pode ter mais; senão, o oco continuará porque a solução não vem de fora. Sentimentos se ligam de dentro para fora. É como uma matéria igual que, como falamos, “dá cola”. Aqui vale lembrar do ditado: “As coisas mais importantes da vida não se podem comprar”. Que neste Natal você dê, a você mesmo e aos que estão ao seu redor, muitos presentes que não se podem comprar. — Artigo publicado originalmente no jornal O Popular em 24 de dezembro de 2015.
Como amaremos no futuro
Luciene Godoy // Como será a nossa forma de amar quando nossa identidade não for mais tão fortemente determinada pela identificação que fazemos ao outro, nos tornando parecidos ou o oposto do que vemos? Como amaremos se tivermos uma identidade essencial e flexível e não mais precisarmos de “parasitar” o corpo do outro para sentir que existimos? Todo o avanço tecnológico e o acesso à informação de que somos usufrutuários nos conduzem numa rota de independência, de individuação. Essas mudanças da vida em sociedade nos darão um novo arcabouço psíquico. Não vamos mais ter a necessidade de nos completar no outro. Quando estivermos juntos, será uma união pelo prazer do usufruto das características reais da pessoa e não uma complementação do que nos faltou. As relações não serão a repetição dolorosa de marcas “incompreendidas” no corpo clamando por uma resposta, por um encontro aliviador. Não haverá mais a necessidade do “sofrimento e reencontro” com o “objeto aliviador” para que o amor aconteça. Haverá a possibilidade de encontros e não de reencontros das experiências de dor e prazer do que se viveu. O que contará é o que se vive. O amor como um prazer deriva do fim da dor do desamparo, exige que esses dois momentos sejam muitas vezes construídos por nós: o momento doloroso e desagradável e a irrupção de algo que vai nos conduzir à homeostase de um estado de serenidade, de paz e segurança, que mais ou menos rapidamente será retirado e o carrossel dor/alívio começará de novo. Veja que essas são características do chamado amor romântico. Neste modo de amar, de se ligar ao outro, fundado no momento em que, em espelho, descobrimos o outro salvador – aquele que eu amo e que me ama ou não – , a tônica da relação é o sofrimento e o alivio. Se não se tem, sofre. Assim que se tem, começa outro tipo de sofrimento: o do medo da perda. Se não perde, o que se perde é o interesse intenso e aí o amor intenso acaba de qualquer forma. Aí fica no eterno “eu não te quero, mas não te deixo”. Como disse o psicanalista Contardo Calligaris em palestra recente no Café de Ideias do Centro Cultural Oscar Niemeyer: tem muitos casais que vivem três anos felizes e depois dez infelizes pensando em se separar sem conseguir fazê-lo. E isso se dá por estarem misturados, o que torna o medo de perder-se de si ao perder o outro uma ameaça muito palpável. É por necessidade e não por prazer. Ou está fusionado, dependente, mesmo sem amar mais, ou se separa drasticamente. Será que outros movimentos mais eficazes e sutis são possíveis? Por exemplo: a sensação pulsante de “ter e perder” já existe naturalmente quando vivemos com alguém que não tenha se tornado nosso reflexo nem “parte de nosso corpo”. Pois alguém que é o que é, que vive conforme o seu singular modo de ser nos acontecimentos do dia-a-dia já traz um mundo de surpresas e de imprevistos que nos tira a possibilidade de nos sentirmos “garantidos”. Além do mais, por ser outro – e não simplesmente o nosso espelho – a pessoa amada será um olhar que nos vê, nos descobre em coisas que nós mesmos não podemos e nem temos o aparato para ver – e por isso nos enriquece com o reconhecimento que sozinhos não podemos obter. Se o corpo próprio existe porque foi e é prazerosamente marcado pelo fato de ser habitado, o encontro amoroso não estará aprisionado ao espelhamento, ao “achei a mim mesmo”, fazendo do outro meu escravo e meu algoz. O encontro amoroso será o usufruto prazeroso e desafiador do estar com alguém numa presença com sua diferença, de uma diferença que não está lá nos completando ou frustrando, mas fazendo parte da nossa vida em suas ausências e em suas presenças, nos possibilitando, assim, nada menos do que amar e desejar. — Artigo publicado originalmente no jornal O Popular em 17 de dezembro de 2015.
Ser homem&mulher
Luciene Godoy // Qual é o sexo forte? Hã?! Será que esta pergunta ainda faz sentido? É… não estamos mais em situação de cair na armadilha de acreditar que tem UM sexo forte ou mesmo UM sexo frágil, mas a resposta a respeito do sexo forte é possível, sim: os dois, se estiverem juntos na mesma pessoa. Freud termina seus últimos anos de vida numa reflexão sobre a eficácia da psicanálise em ajudar as pessoas a, de fato, alcançarem mudanças consideráveis em suas vidas. Ele chega à conclusão – um tanto desconsolado – em seu texto Análise terminável e interminável que o homem não consegue abrir mão de ser homem à moda que lhe foi ensinado pela cultura e do mesmo modo a mulher. O homem, obsessivo, preocupado em proteger seu lugar de privilegiado; e a mulher, histérica, se sentindo desvalorizada e insatisfeita para sempre. Mas tudo isso são águas passadas. Tem gente vivendo assim, mas já no encerrar das cortinas históricas desse período. Os homens de hoje, embora perdidos ainda no que podem vir a ser, já sabem que não cabe mais o estereótipo. As mulheres, por sua vez, já conseguiram, por terem sido convidadas a participar do mercado de trabalho substituindo os homens na Segunda Guerra Mundial e não mais terem abandonado a possibilidade de ocupar a posição masculina. Os homens timidamente começam a transitar pelos domínios antes só femininos. Vejo isso por onde passo, mas, principalmente, no Curso para Gestantes da Unimed, onde ministro palestras sobre a exterogestação, o Bebê-Canguru. Lá é onde vejo os olhos brilhantes de pais superinteressados e participantes que mostram o quanto eles desejam fazer parte do cuidado dos seus bebês de forma intensa e afetuosa. Tudo isso já se apresenta como fruto da época contemporânea que pretende liberar o ser humano cada vez mais de suas origens culturais, morais, religiosas e genéticas. O que está em questão é a invenção de si. Os papéis também estão mudados na relação amorosa. O amor romântico nos ensinou que o ser humano só fica bem – em última instância, só é feliz – se achar a sua “metade” e se fundir com ela. O ditado “É impossível ser feliz sozinho” vale até o último fio de cabelo. Assim, o homem, à sua maneira, precisa de uma mulher que o complete naquilo que lhe faz falta e a mulher, idem. Lacan, em suas fórmulas da sexuação, ao falar das posições sexuais, as divide em dois campos – dois quadrados que se sucedem: o campo feminino e o masculino. O homem se dirige à mulher como o seu objeto de desejo: uma boca, um bumbum, um sorriso, o atributo específico que lhe atrai. Por seu lado, o que a mulher deseja do campo masculino é a sua potência fálica, ou seja, o valor que ele tem, simplesmente pelo que é – homem – e não necessariamente pelo que faz. Hoje já poderíamos criar um terceiro campo. O campo do encontro. Uma composição que une em nós mesmos o nosso ser feminino e o masculino. Estas duas maneiras de ser que, no fundo, habitam cada um de nós em uma mistura única que cada um faz de si, dependendo de sua história e suas escolhas. A revolução racional, com seu avanço tecnocientífico que promove grandes mudanças nas relações sociais, criou um mundo que “pede” pessoas mais autônomas, mais inteiras em si. E isso por terem desenvolvido um força pessoal em sua forma de se colocar no mundo sem tanta dependência das informações, da aprovação, da permissão e tudo o que já não vem mais do interesse ou da boa vontade que o outro tem para nos dar, mas, sim, de nossas conquistas – sejamos homens ou mulheres. Não somos mais metades buscando a completude no outro, mas pessoas buscando um relacionamento amoroso não mais entre duas metades (a feminina e a masculina), e sim entre duas unidades. E cada unidade possui em si o masculino e o feminino, que são formas múltiplas, integradoras, ricas, e por que não dizer, amigas, de se lidar com a vida em sociedade. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 10 de dezembro de 2015.
O ser humano é um ser fora de si
Luciene Godoy // Uma frase proferida diversas vezes por Leandro Karnal – historiador e professor da Unicamp – em uma palestra sobre a vaidade permaneceu ressoando de novo e de novo em meus ouvidos. A ideia era mais ou menos essa: “Ninguém escuta ninguém, ninguém percebe ninguém. Estamos todos sozinhos o tempo todo”. Para comprovar a afirmativa, ele lança mão de diversos exemplos, tais como a resposta inevitável à afirmação “Eu estou tão cansado” – ou qualquer, literalmente, qualquer outro adjetivo. O que vem é sempre a resposta: “Eu também”. Ou, ao contrário: “Nossa! Imagina que eu não…” O pobre interlocutor já é barrado de falar de si na primeira tentativa. A próxima tentativa de expressar seus próprios sentimentos já foi rapidamente abocanhada pelo outro. Abocanhada é um bom termo, pois trata-se de pegar o “seu” bocado pela boca. Bocado de quê? Não seria de falar de si? De pôr para fora o que está dentro? Antes fosse… Na verdade, “o falar de si” nada mais é do que uma pergunta disfarçada em afirmativa. É que se quer testar sempre o que o outro acha, se o outro aceita, se o outro confirma o que se diz. E estas são tentativas de colher olhares externos para dentro de si tentando se conhecer, se aceitar – aos olhos dos outros. Esta é a armadilha da dependência das expectativas dos outros. As pessoas, dizemos, não prestam atenção ao que os outros falam porque estão pensando só em suas próprias questões. Sim, quando elas veem o outro, não é o outro que veem, mas apenas o reflexo de si numa procura ininterrupta de se situar. Pluga no outro o seu GPS e ninguém arranca, pois não saber onde estamos é uma grande fonte de angústia. Não é que ele não consiga sair de si, ele não consegue é entrar! “Já avançamos bastante na conquista de nosso meio externo, do nosso habitat. É hora de conseguirmos conquistar nosso meio interno, nossos sentimentos, nossas emoções”, afirma o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate. Os grifos são meus, pois trata-se dessa “entrada em si mesmo” de que falo. Nada mais delicioso do que habitar a própria pele! Nada melhor do que ter conseguido entrar dentro do próprio corpo – que nasce sendo do outro: outro-mãe (pai, avós, tios, padrinhos, irmãos…), outro-cultura (regras, permissões, coações, aplausos, elogios, críticas…). Para Gikovate, passar a ser nosso e fazer aquilo que é nossa cara, nosso desejo, é um longo caminho que sai de dentro de nós para o outro e depois sai do outro para voltar para dentro de nós. Nada mais profundo e claro a respeito desse entrar e habitar a própria pele do que a seguinte citação da terapeuta norte-americana Joann Peterson no livro When the body says no (Quando o corpo diz não): “Nossos limites são invisíveis, são o resultado de uma sensação consciente-interna que define quem eu sou. Se você se perguntar ‘Em minha vida ou em meus relacionamentos, o que eu desejo, o que quero mais ou quero menos, o que eu não quero, quais são os meus limites declarados?’, começa o processo… Nesta definição de si mesmo, nós demarcamos o que valorizamos e o que queremos em nossa vida naquele momento específico, provindos de um lugar de refer&eci rc;ncia interna; o lugar de afirmar-se está dentro de nós mesmos.” Tradução é minha. Será que podemos dizer que, se o lugar da afirmação está dentro de nós, o contrário, o lugar da mentira, está fora? Será que mentimos para o consumo público ao não expor e sustentar aquilo que de fato queremos ou somos? Assim escolhemos “viver para fora, fora de si”. No século 21 podemos ser o que somos em nossa diferença, em nossa subjetividade. É por isso que a frase título pode ser agora trocada e podemos hoje dizer que o ser humano já pode ser um “ser dentro de si” e existir em paz dentro de sua casinha subjetiva. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 3 de dezembro de 2015.
Eu sou o máximo!
Luciene Godoy // Acho louvável o esforço que as pessoas estão fazendo para se sentirem bem consigo mesmas, para se valorizarem e, por isso mesmo, conseguirem gostar de si mesmas. Acho um feito alguém conseguir, deveras, gostar de si mesmo. Louvo as tentativas, já são um bom começo, mas sentir que isso ocorre de fato na vida de alguém é outra história. Gostaria de colaborar para que cheguemos a usufruir do que geralmente só é falado, discorrendo sobre alguns, digamos, caminhos equivocados que não levam a Roma mesmo. É… tem caminhos que não levarão a Roma. Comecemos por uma citação do psicanalista Jorge Forbes: “A neurose é a maneira perfeita de se dar sempre razão”. Sim, uma maneira perfeita de estar sempre na defensiva, achar que o que o outro diz é uma tentativa de prejudicá-lo, de desarrumar sua imagem, de “achar defeito” em você. Cuidado, você pode estar infectado com o vírus TSP (Tentativa de Ser Perfeito). Não se ofenda. Claro que não admitimos jamais esta possibilidade. Bem-dizemos que a perfeição é só para Deus. Pois é, “bem-dizemos”, mas não “bem-vivemos”. Quando alguma falha nos é apontada, dói lá no fundo da alma e nós, num gesto automático, empurramos o punhal e o apunhalador. Paulo Gaudêncio, um psiquiatra e terapeuta muito respeitado, diz que, quando erramos, os verdadeiros amigos falam para nós e os falsos (vulgos inimigos disfarçados) falam de nós. Perguntinha intrigante: por que será que, quando alguém nos critica, sentimos-nos ofendidos e em nossa fuga de nós mesmos, na neurose nossa de cada dia, nos damos sempre razão? Tem algo aqui que não combina! É que só nos damos razão externamente – “pra inglês ver”, para convencer o outro. Internamente, ficamos cozinhando nos caldeirões de enxofre de culpa e mal-estar do nosso inferno interno. Lição simples: fazermos de conta que não erramos e que temos sempre razão só resolve o externo, se é que resolve. Em nossa ingenuidade (neurose é sempre infantil, não se esqueça), não vemos que os outros nem mesmo acreditam em nosso teatrinho. Mas como eles fazem o mesmo, o bairrismo e o medo de sermos descobertos nos levam ao “faz de conta” universal. Uns protegendo as babaquices dos outros. Outro caminho que não leva à Roma do gostar de si mesmo é outro teatrinho, se me permite a repetição. Confesso que fico enternecida pelo afinco com o qual algumas pessoas se aferram ao papel e por isso quero contribuir para que possam um dia – quem sabe? – sair da condição de teatro e cair na vida vivida. De quem estou falando? Das “poderosas” e dos “machos alfa”, que também deixam escapar, em seu esforço indisfarçável de mostrar e convencer o outro de sua enorme potência, umas rachaduras – que são as de todos nós. Vale o esforço de buscar de fora a confirmação, mas o caminho é para dentro. É perguntar o que você de fato gosta e quer. Se você gosta de café e toma chá para parecer chique, isso te tira o pequeno prazer de ser o que é. A soma de todas as negações do seu ser dá como produto a palavra INFELICIDADE. O efeito do “gostar de si” se manifesta numa certa serenidade, uma alegria indizível de pele, de olhar, de gestual. Um jeito de quem está confortável dentro de sua própria pele. Bem vestido de alma, bem calçado da segurança de ser o que se é. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 26 de novembro de 2015.
Em Paris, mortos matam gente
Luciene Godoy // Paris está em guerra. O mundo ocidental está sob surda ameaça em cada esquina. Quem estaria fora? Cada um de nós toma esses acontecimentos a sua maneira. Tenho o hábito de ir anualmente à jornada da École de la Cause Freudienne, que começaria no dia 14, sábado. Na véspera, tudo aconteceu. A jornada foi cancelada antes mesmo de começar. E eu, que tinha optado por não ir este ano, não vivi tudo de perto. Ainda assim, estou dentro. Tão dentro quanto todos mais, ouso dizer. Cabe a cada um de nós “re-agir” com o que tem. A minha praia é o estudo do psiquismo, então lá vai minha contribuição torcendo para que cada um, somando, ponha a sua, em um mundo que possa ter as melhores sementes de “agires” eficazes. O material do qual mais se tem escassez no planeta Terra é o amor. Não todos os tipos de amor, mas um especificamente. Esse material tão raro ao qual me refiro é o amor a si mesmo. Falamos de individualistas, egocêntricos, de quem só pensa em si mesmo. São justamente esses tipos os “perdidos de si mesmos”. Não se esqueça: o narcisista é aquele que não vê a si mesmo. A consequência é que ele tampouco vê o outro, que nada mais é do que um objeto do qual ele pode se servir. É como o zumbi que toma o corpo de alguém para que possa voltar a viver no mundo, mas não funciona. Fica vagando num corpo que não é mesmo dele num mundo idem. Quem não tem corpo, existe na imagem. Isso explica a enorme violência perpetrada pelos terroristas que assassinaram os chargistas do Charlie Hebdo. Eles se sentiram atingidos em seus “corpos” nos desenhos. Para eles, os desenhos não os representavam. Os desenhos “eram” eles, portanto, matar com a metralhadora um outro que já os havia “matado” com a caneta era muito justo. É por isso que eles não têm medo de morrer. Já se sentem mortos pelo desenho – como índios que não se deixavam fotografar porque sua alma ficava nas mãos de quem possuísse a sua imagem. O que se fizesse na imagem acontecia no corpo. Esse é o funcionamento no Registro Imaginário de Lacan – o espelho no qual vivo no corpo-imagem do outro e que produz relações do tipo da frase gritada por um dos terroristas que atiravam em Paris: aquilo era pelo seu “irmão” que mataram na Síria. Morreu, pois, sem medo. Já estava morto com o “irmão” que tinha sido, de fato, aniquilado. Amar a si por intermédio do outro, ou destruir-se porque o outro foi destruído, tudo isso faz parte do mesmo processo psíquico: a Unificação Narcísica (em espelho), processo pelo qual passa todo ser humano dos seis meses aos 2 anos de idade – período em que nos tomamos pela imagem do outro – quando, ao dizermos “eu”, apontamos o dedinho para o próximo. Crescer é saber e sentir-se aqui, batendo no peito, nesse corpo que lhe pertence. É não misturar-se com os outros, mesmo quando os chamamos de irmãos, porque irmãos também são outros. Quando me misturo com o outro, todo aquele que me frustra vira meu inimigo mortal, pois está me destruindo. Essa certeza é que me leva a tentar destruí-lo para salvar a minha pele. Destruição do outro para que eu possa existir. No desaparecimento do outro, eu revivo. Porém, essa questão tem outro lado e outras respostas. Muitos estudos antropológicos demonstram que, quanto mais uma cultura recebe seus bebês e deles cuida no primeiro ano de vida com contato tátil, menos violenta ela é. Quanto mais contato físico no começo da vida, mais corpo sente-se que se tem, mais condições para sentir/amar a si mesmo, menos se toma o corpo do outro como seu. Amor por si, amor pelo outro, amor pelo mundo. Ou o contrário disso: o corpo próprio internamente destruído direciona-se para fora e… consequência… morte ao mundo externo. E pensar que tudo começa na mais tenra infância… — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 19 de novembro de 2015.
Carreira, trabalho e diversão
Luciene Godoy // Quando pensamos na palavra trabalho, o primeiro sentido que nos ocorre geralmente é o relacionado ao econômico, em que a palavra se refere a qualquer atividade exercida com o fito de um retorno material. É o “ganhar o pão nosso de cada dia”. O tipo de trabalho que escolhemos para nos sustentarmos materialmente na vida constitui o que chamamos de profissão. Da profissão faz-se uma carreira, um caminho, um percurso na vida. Pergunta para o dia: será que trabalho e profissão rimam com diversão? Aparentemente não, pois a atividade produtiva que se exerce para ganhar dinheiro não costuma agradar a muita gente, mesmo àquelas pessoas afortunadas que ganham seu dinheiro “suado” e ele é suficiente para os luxos em geral. Afortunados, mas nem tanto, porque seu dinheirão também é ganho com esforço e sacrifício. Diversão é outra coisa. Por definição, diversão é uma distração, um passatempo e até mesmo um desvio da atenção das preocupações para coisas prazerosas. Como podemos trabalhar, nos concentrar e sermos produtivos nos divertindo, se para isso temos nossa atenção desviada da atividade em questão? Quer dizer que se divertir só é possível desviando-se do trabalho? Se considerarmos que não dá para sentir alegria, descontração e prazer no trabalho, sim. Estas são coisas reservadas só para os momentos de relaxamento e descanso (trabalho cansa, não se esqueça). Trabalho exige concentração e seriedade. Graça a gente acha de palhaço no circo. É nisso que acreditamos, influenciados, acima de tudo, pelo velho ditado: “Primeiro a obrigação, depois a diversão”. Obrigação e diversão em campos opostos… agora não dá mesmo para sonhar em juntar os dois. É, mas alguém anda propondo o contrário. Seu nome é Domenico de Masi, sociólogo italiano que escreveu o livro O Ócio Criativo. Ali ele diz que, no Século 21, trabalho, estudo e lazer podem estar juntos numa mesma atividade. Concordo com ele, inclusive em termos freudianos, pois a teoria da sublimação nos esclarece sobre a possibilidade de, ao mesmo tempo, termos prazer e ganhar a nossa subsistência com o nosso trabalho. O detalhe a levar em conta é que Freud se refere aos artistas. Ele afirma que aquele que consegue colocar no mundo algo de sua subjetividade, algo que diz respeito somente a si mesmo, e é pago por esse prazer exerce o caminho da sublimação – de tornar sublime uma atividade que lhe traz ganhos em prazer e também em sustento. Lembre-se que já estamos num mundo onde não temos que nos esforçar dramaticamente para caber nos papéis “pré-determinados”, onde cada vez mais a criatividade não só é tolerada como também incentivada. Isso quer dizer que um professor pode dar aula à sua maneira, que um médico cheio de amor pelo que faz pode agir de maneira única no seu tratar com o paciente… Vale para qualquer profissão. Claro, ainda temos os caixotinhos nos quais querem nos obrigar a encaixar. Ainda temos profissões super mal remuneradas, ainda temos muitas insuficiências, mas o viés a que me refiro aqui é o das pessoas que já se encontram na posição de ter e usufruir e não o fazem. Não são poucas as pessoas que já podem escolher e desenvolver uma relação sublime com o ato de trabalhar e não o fazem. Estamos sendo conclamados a vivermos como artistas: fazendo o que gostamos, colocando no mundo e nos sustentando pelo nosso trabalho que não é arte, mas é significativo, é escolha, é valorizado pelo que é para nós. Costumo dizer que somos herdeiros dos iluministas do Século 18 e dos desconstrutivistas dos séculos 19 e 20, que tanto fizeram para que chegássemos a ter o que temos hoje e nós descuidadamente “pisamos nas estrelas distraídos” sem nos darmos conta do que temos já conquistado para o nosso usufruto. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 12 de novembro de 2015.