Em Paris, mortos matam gente

Cain Killing Abel (Lucas van Leyden, 1524) - www.metmuseum.org
Cain Killing Abel (Lucas van Leyden, 1524) – www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

Paris está em guerra. O mundo ocidental está sob surda ameaça em cada esquina. Quem estaria fora?

Cada um de nós toma esses acontecimentos a sua maneira. Tenho o hábito de ir anualmente à jornada da École de la Cause Freudienne, que começaria no dia 14, sábado. Na véspera, tudo aconteceu. A jornada foi cancelada antes mesmo de começar. E eu, que tinha optado por não ir este ano, não vivi tudo de perto. Ainda assim, estou dentro. Tão dentro quanto todos mais, ouso dizer.

Cabe a cada um de nós “re-agir” com o que tem. A minha praia é o estudo do psiquismo, então lá vai minha contribuição torcendo para que cada um, somando, ponha a sua, em um mundo que possa ter as melhores sementes de “agires” eficazes.

O material do qual mais se tem escassez no planeta Terra é o amor. Não todos os tipos de amor, mas um especificamente. Esse material tão raro ao qual me refiro é o amor a si mesmo.

Falamos de individualistas, egocêntricos, de quem só pensa em si mesmo. São justamente esses tipos os “perdidos de si mesmos”.

Não se esqueça: o narcisista é aquele que não vê a si mesmo. A consequência é que ele tampouco vê o outro, que nada mais é do que um objeto do qual ele pode se servir.

É como o zumbi que toma o corpo de alguém para que possa voltar a viver no mundo, mas não funciona. Fica vagando num corpo que não é mesmo dele num mundo idem.

Quem não tem corpo, existe na imagem. Isso explica a enorme violência perpetrada pelos terroristas que assassinaram os chargistas do Charlie Hebdo. Eles se sentiram atingidos em seus “corpos” nos desenhos. Para eles, os desenhos não os representavam. Os desenhos “eram” eles, portanto, matar com a metralhadora um outro que já os havia “matado” com a caneta era muito justo.

É por isso que eles não têm medo de morrer. Já se sentem mortos pelo desenho – como índios que não se deixavam fotografar porque sua alma ficava nas mãos de quem possuísse a sua imagem. O que se fizesse na imagem acontecia no corpo.

Esse é o funcionamento no Registro Imaginário de Lacan – o espelho no qual vivo no corpo-imagem do outro e que produz relações do tipo da frase gritada por um dos terroristas que atiravam em Paris: aquilo era pelo seu “irmão” que mataram na Síria. Morreu, pois, sem medo. Já estava morto com o “irmão” que tinha sido, de fato, aniquilado.

Amar a si por intermédio do outro, ou destruir-se porque o outro foi destruído, tudo isso faz parte do mesmo processo psíquico: a Unificação Narcísica (em espelho), processo pelo qual passa todo ser humano dos seis meses aos 2 anos de idade – período em que nos tomamos pela imagem do outro – quando, ao dizermos “eu”, apontamos o dedinho para o próximo.

Crescer é saber e sentir-se aqui, batendo no peito, nesse corpo que lhe pertence. É não misturar-se com os outros, mesmo quando os chamamos de irmãos, porque irmãos também são outros.

Quando me misturo com o outro, todo aquele que me frustra vira meu inimigo mortal, pois está me destruindo. Essa certeza é que me leva a tentar destruí-lo para salvar a minha pele. Destruição do outro para que eu possa existir. No desaparecimento do outro, eu revivo.

Porém, essa questão tem outro lado e outras respostas. Muitos estudos antropológicos demonstram que, quanto mais uma cultura recebe seus bebês e deles cuida no primeiro ano de vida com contato tátil, menos violenta ela é.
Quanto mais contato físico no começo da vida, mais corpo sente-se que se tem, mais condições para sentir/amar a si mesmo, menos se toma o corpo do outro como seu.

Amor por si, amor pelo outro, amor pelo mundo. Ou o contrário disso: o corpo próprio internamente destruído direciona-se para fora e… consequência… morte ao mundo externo.

E pensar que tudo começa na mais tenra infância…


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 19 de novembro de 2015.

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