Two Young Peasant Women (Camille Pissarro, 1891–92) - metmuseum.org
Two Young Peasant Women (Camille Pissarro, 1891–92) – metmuseum.org

Luciene Godoy //
Como será a nossa forma de amar quando nossa identidade não for mais tão fortemente determinada pela identificação que fazemos ao outro, nos tornando parecidos ou o oposto do que vemos?
Como amaremos se tivermos uma identidade essencial e flexível e não mais precisarmos de “parasitar” o corpo do outro para sentir que existimos?
Todo o avanço tecnológico e o acesso à informação de que somos usufrutuários nos conduzem numa rota de independência, de individuação. Essas mudanças da vida em sociedade nos darão um novo arcabouço psíquico.
Não vamos mais ter a necessidade de nos completar no outro. Quando estivermos juntos, será uma união pelo prazer do usufruto das características reais da pessoa e não uma complementação do que nos faltou.
As relações não serão a repetição dolorosa de marcas “incompreendidas” no corpo clamando por uma resposta, por um encontro aliviador.
Não haverá mais a necessidade do “sofrimento e reencontro” com o “objeto aliviador” para que o amor aconteça. Haverá a possibilidade de encontros e não de reencontros das experiências de dor e prazer do que se viveu. O que contará é o que se vive.
O amor como um prazer deriva do fim da dor do desamparo, exige que esses dois momentos sejam muitas vezes construídos por nós: o momento doloroso e desagradável e a irrupção de algo que vai nos conduzir à homeostase de um estado de serenidade, de paz e segurança, que mais ou menos rapidamente será retirado e o carrossel dor/alívio começará de novo. Veja que essas são características do chamado amor romântico.
Neste modo de amar, de se ligar ao outro, fundado no momento em que, em espelho, descobrimos o outro salvador – aquele que eu amo e que me ama ou não – , a tônica da relação é o sofrimento e o alivio. Se não se tem, sofre. Assim que se tem, começa outro tipo de sofrimento: o do medo da perda. Se não perde, o que se perde é o interesse intenso e aí o amor intenso acaba de qualquer forma.
Aí fica no eterno “eu não te quero, mas não te deixo”. Como disse o psicanalista Contardo Calligaris em palestra recente no Café de Ideias do Centro Cultural Oscar Niemeyer: tem muitos casais que vivem três anos felizes e depois dez infelizes pensando em se separar sem conseguir fazê-lo. E isso se dá por estarem misturados, o que torna o medo de perder-se de si ao perder o outro uma ameaça muito palpável. É por necessidade e não por prazer.
Ou está fusionado, dependente, mesmo sem amar mais, ou se separa drasticamente.
Será que outros movimentos mais eficazes e sutis são possíveis? Por exemplo: a sensação pulsante de “ter e perder” já existe naturalmente quando vivemos com alguém que não tenha se tornado nosso reflexo nem “parte de nosso corpo”.
Pois alguém que é o que é, que vive conforme o seu singular modo de ser nos acontecimentos do dia-a-dia já traz um mundo de surpresas e de imprevistos que nos tira a possibilidade de nos sentirmos “garantidos”.
Além do mais, por ser outro – e não simplesmente o nosso espelho – a pessoa amada será um olhar que nos vê, nos descobre em coisas que nós mesmos não podemos e nem temos o aparato para ver – e por isso nos enriquece com o reconhecimento que sozinhos não podemos obter.
Se o corpo próprio existe porque foi e é prazerosamente marcado pelo fato de ser habitado, o encontro amoroso não estará aprisionado ao espelhamento, ao “achei a mim mesmo”, fazendo do outro meu escravo e meu algoz.
O encontro amoroso será o usufruto prazeroso e desafiador do estar com alguém numa presença com sua diferença, de uma diferença que não está lá nos completando ou frustrando, mas fazendo parte da nossa vida em suas ausências e em suas presenças, nos possibilitando, assim, nada menos do que amar e desejar.

Artigo publicado originalmente no jornal O Popular em 17 de dezembro de 2015.