Eu sou o máximo!

Luciene Godoy // Acho louvável o esforço que as pessoas estão fazendo para se sentirem bem consigo mesmas, para se valorizarem e, por isso mesmo, conseguirem gostar de si mesmas. Acho um feito alguém conseguir, deveras, gostar de si mesmo. Louvo as tentativas, já são um bom começo, mas sentir que isso ocorre de fato na vida de alguém é outra história. Gostaria de colaborar para que cheguemos a usufruir do que geralmente só é falado, discorrendo sobre alguns, digamos, caminhos equivocados que não levam a Roma mesmo. É… tem caminhos que não levarão a Roma. Comecemos por uma citação do psicanalista Jorge Forbes: “A neurose é a maneira perfeita de se dar sempre razão”. Sim, uma maneira perfeita de estar sempre na defensiva, achar que o que o outro diz é uma tentativa de prejudicá-lo, de desarrumar sua imagem, de “achar defeito” em você. Cuidado, você pode estar infectado com o vírus TSP (Tentativa de Ser Perfeito). Não se ofenda. Claro que não admitimos jamais esta possibilidade. Bem-dizemos que a perfeição é só para Deus. Pois é, “bem-dizemos”, mas não “bem-vivemos”. Quando alguma falha nos é apontada, dói lá no fundo da alma e nós, num gesto automático, empurramos o punhal e o apunhalador. Paulo Gaudêncio, um psiquiatra e terapeuta muito respeitado, diz que, quando erramos, os verdadeiros amigos falam para nós e os falsos (vulgos inimigos disfarçados) falam de nós. Perguntinha intrigante: por que será que, quando alguém nos critica, sentimos-nos ofendidos e em nossa fuga de nós mesmos, na neurose nossa de cada dia, nos damos sempre razão? Tem algo aqui que não combina! É que só nos damos razão externamente – “pra inglês ver”, para convencer o outro. Internamente, ficamos cozinhando nos caldeirões de enxofre de culpa e mal-estar do nosso inferno interno. Lição simples: fazermos de conta que não erramos e que temos sempre razão só resolve o externo, se é que resolve. Em nossa ingenuidade (neurose é sempre infantil, não se esqueça), não vemos que os outros nem mesmo acreditam em nosso teatrinho. Mas como eles fazem o mesmo, o bairrismo e o medo de sermos descobertos nos levam ao “faz de conta” universal. Uns protegendo as babaquices dos outros. Outro caminho que não leva à Roma do gostar de si mesmo é outro teatrinho, se me permite a repetição. Confesso que fico enternecida pelo afinco com o qual algumas pessoas se aferram ao papel e por isso quero contribuir para que possam um dia – quem sabe? – sair da condição de teatro e cair na vida vivida. De quem estou falando? Das “poderosas” e dos “machos alfa”, que também deixam escapar, em seu esforço indisfarçável de mostrar e convencer o outro de sua enorme potência, umas rachaduras – que são as de todos nós. Vale o esforço de buscar de fora a confirmação, mas o caminho é para dentro. É perguntar o que você de fato gosta e quer. Se você gosta de café e toma chá para parecer chique, isso te tira o pequeno prazer de ser o que é. A soma de todas as negações do seu ser dá como produto a palavra INFELICIDADE. O efeito do “gostar de si” se manifesta numa certa serenidade, uma alegria indizível de pele, de olhar, de gestual. Um jeito de quem está confortável dentro de sua própria pele. Bem vestido de alma, bem calçado da segurança de ser o que se é. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 26 de novembro de 2015.

Quem semeia desejo colhe muita coisa!

Rejane Ferreira // Aquele dito popular de que “Quem planta, colhe” pode não estar funcionando direito. Ao menos não numa sequência linear. Estamos numa fase de muitas mudanças rápidas e podemos adaptar o plantio para outra finalidade a qualquer momento. Em um mundo hipermoderno, de um homem desbussolado (parafraseando o psicanalista Jorge Forbes), as possibilidades são tantas que podemos iniciar o preparo do terreno para receber um tipo de semente e, de repente, nos arriscarmos num outro tipo que nos sugere maior entusiasmo. Isso não quer dizer que as pessoas deixaram de ter sonhos e empenho com seus sonhos. Não é um raciocínio que afunila para o caos! É apenas um ser humano que está se permitindo ser mais flexível consigo mesmo. E, por certo, vão surgir ventos uivantes, seca árida, chuva pesada, além de olhares carregados de ervas daninhas… Tudo isso requisitará cuidados! E que venham os adubos do prazer com a tarefa, assim como os inseticidas íntimos contra as desaprovações alheias! Investimento naquilo que decidirmos fazer: dedicação, observação e entrega. Tudo isso numa inclusão da incerteza sobre aonde essas ações vão nos levar. Isso mesmo! Suportar a angústia de não saber quando, como ou quanto vai colher. E tem gente que colhe e só depois descobre que não era bem aquilo que deveria ter plantado… Mas, nos dias de hoje, o “agora é tarde” pode ser assumido juntamente com um “posso recomeçar”. Lacan ressaltou: “Por nossa condição de sujeitos somos sempre responsáveis”. Eu sou sim a dona da horta! E, mesmo que uma intercorrência caia sobre os meus projetos, não poderei passar para outras mãos os cuidados da minha seara de desejos. Alguns optam por uma dedicação exclusiva a um tipo de plantação. Outros escolhem repartir a terra e fazer um combinado agrícola. Tem aqueles que aguardam o descanso do solo para que os nutrientes sejam revitalizados. Ainda se ouve de uns que continuam na arcaica técnica de queimar o terreno antes de plantar… Cada um apostando que frutos chegarão! Essa aposta é necessária! Afinal de contas, não estamos com todos os frutos nas mãos! Ainda bem! A falta deles nos faz desejá-los! O que contraponho é que os tais frutos poderão ser bem diferentes dos imaginados… É que a arte agrícola passará por variáveis antes não identificadas… É que o próprio agricultor, que se julgava tão apto em sua tarefa, poderá se deparar com situações de baixíssimo controle próprio. Mas, então, o que poderá sustentar a sobrevivência desse ser humano tão permeado por vulnerabilidades? Primordialmente, vem o desejo de se realizar. Ah, o desejo! Essa fonte íntima que nos conduz! O desejo inspira, alavanca, turbina nosso poder de realização! Também podemos contar com nossa capacidade de adaptações. O recriar, a reinvenção, tudo isso viabiliza um novo contorno às nossas ações. E também a inserção neste mundo atual que está menos rígido, que comporta uma redução de sofrimentos com os reajustes de rotas. Outra preciosidade que nos faz firmar as sementes de desejo ao solo é saborear o que já está sendo colhido! Não estamos somente aguardando a colheita chegar… Alguns frutos já estão disponíveis! Cabe a mim recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão e me fartar de pão! — Rejane Ferreira é neuropsicóloga, psicoterapeuta e professora universitária. *Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 29 de outubro de 2015.

Parentalidade, ser pai e mãe hoje

Luciene Godoy // Será que já nos demos conta de que nos mudamos do planeta “Terra 1” e hoje vivemos no “Terra 2”? Tudo mudou de forma incontrolável, diz o psicanalista Jorge Forbes, que nos define hoje como seres desbussolados, pois a maneira de se nascer, crescer, se casar, estudar, trabalhar, se aposentar não é mais a mesma. Aviso aos navegantes: a ciência também não é mais aquela que desde o século 17 afirmava que “a missão da ciência é conseguir conhecimento que pode ser usado para dominar e controlar a natureza”. Já não temos mais essa certeza, uma vez que hoje é a própria ciência que ameaça o planeta com suas descobertas com poderes tanto construtivos quanto destrutivos. Cientistas da Nova Biologia, como Bruce H. Lipton, acreditam que é o ser humano que necessita entender como nós podemos nos incorporar à comunidade que chamamos de Natureza. Não para dominar, mas para participar e nos perpetuar. Criar filhos tem tudo a ver com isso. Não se trata de uma relação de inimizade, de necessidade de se subjugar ao outro lado a fim de que o melhor aconteça, mas sim de uma busca de convivência entre partes distintas que podem se complementar e se enriquecer. Desde a revelação, com a conclusão do projeto Genoma Humano em 2001, de que não temos os 140 mil genes que eram esperados, mas apenas 34 mil, descobriu-se também que as múltiplas informações que fazem com que sejamos como somos, do ponto de vista biológico e comportamental, têm muito mais a ver com as relações que mantemos com o ambiente do que com nossa genética. Foi, então, criada a epigenética, que é a parte da genética que estuda as influências do meio ambiente sobre nosso gene. A corrente do determinismo genético pregava que éramos constituídos e limitados pelos nossos genes, passados pelo óvulo da mãe e pelo espermatozoide do pai na concepção. A Nova Biologia da qual a epigenética faz parte vai na contramão dessas afirmativas dizendo que o ambiente é que funciona como um interruptor que aciona ou neutraliza o que nos faz “ser como somos”. Grande surpresa! O que nos controla são nossas crenças, nossas atitudes, emoções e percepções. Parentalidade é o estado ou condição de quem é pai ou mãe. De que forma se daria ser pai ou mãe dentro de valores como esses? Os pais de hoje, que não são mais os donos da verdade nem aqueles que “sempre sabiam o que era melhor para os filhos”, podem crescer e aprender a serem pais junto com filhos que estão aprendendo a crescer. Valéria, mãe de Sofia, uma adolescente que de repente se vê gravando suas músicas prediletas da aula de canto em um estúdio de verdade. Presente da mãe e presença da mãe, que enxergou o peso e o valor que aquele acontecimento poderia trazer à filha E emoção total! Amigos e parentes embasbacados ao ouvirem a doce voz, um dia antes desconhecida e que de repente surge no meio de todos. Mãe que ajuda a filha a se descobrir, a corajosamente ir atrás do que quer. Que se expõe e cria o inesperado e depois curte os efeitos deliciosos. Janaína, que, na mesa do café da manhã, ao folhear os desenhos do filho Pietro, de 8 anos, tomada de emoção resolve lhe fazer uma surpresa: enquanto o garoto ainda dorme, prepara uma “exposição íntima”, colando lindamente os desenhos na parede da sala. Quando o pequeno se levanta é recebido pelos pais com um café da manhã especial – feito no último momento – e ovacionado pela pequena família que no íntimo da convivência doméstica saúda a beleza produzida pelo filho. Filho esse que depois disso não mais se verá da mesma forma. Pais que estão juntos com os filhos, aprendendo a serem pais e mães, se deixando emocionar pelos seus feitos e conquistas. Ser pai e mãe é um way of life, é o nosso estilo de vida, é como vivemos em nossa verdade. A genética tem menos poder do que supúnhamos. As nossas relações com nossos filhos, essas, sim, criam a sua maneira de ser. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 9 de julho de 2015.

Não é comigo

Luciene Godoy // Penso que “não é comigo” é a frase menos falada e mais vivida em nossas relações diárias com os outros e com nós mesmos. Não falamos, mas fazemos. Não falamos, mas agimos guiados por esse princípio: o princípio da irresponsabilização pelo que nos acontece. No livro Inconsciente e Responsabilidade, o psicanalista Jorge Forbes escreve sobre a responsabilização como o caminho tomado por pessoas que habitam um mundo em que cada vez mais é difícil convencer que somos impedidos de fazermos o que queremos. Ele nos presenteia com uma frase que, embora catastrófica, é também engraçada: “A neurose é a forma perfeita de ter sempre razão”. Ter razão é muito bom, concordemos. Só fica ruim quando descobrimos que, para ter razão, adulteramos a nossa percepção dos fatos e isso não muda as consequências. Sobre o mesmo tema, Forbes, em Da Palavra ao Gesto do Analista, afirma que “há uma certa comodidade na neurose. É fácil pensar-se industrial quando não se tem uma indústria; ou escritor, sem nunca ter escrito uma página, ou comerciante, sem nunca ter aberto uma loja; ou intelectual, sem nunca ter se debruçado sobre os livros”. Uma comodidade que nos garante um mundo fictício, no qual acreditamos, sem ter de confrontar aquilo que pensamos sermos ou termos com aquilo que efetivamente conseguimos realizar. Dizemos para nós mesmos – e o pior, acreditamos – que, “se não realizamos ainda, é por causa de alguém ou alguma coisa que nos atrapalhou. Ou é por causa do tempo que ainda não correu o suficiente para que o fato se tornasse realidade”. E isso nos casos em que o tempo já passou e vive passando e a gente esperando, esperando que a nossa vez chegará. Fato é que a neurose protege mesmo o sujeito de se jogar na vida, como salta o nadador para dentro da água que vai colhê-lo e ao mesmo tempo ser o desafio: nadar em menos tempo, mergulhar, fazer belas acrobacias aquáticas. A neurose protege o sujeito da realidade porque ela é o instrumento de colocarmos a culpa, ou a responsabilidade, ou o poder de realizar e fazer acontecer, no outro. É divertido ver como isso opera nas pessoas que estão vendo uma partida de futebol. Olhos pregados nos corpos que jogam, transportados para o campo, correndo com os jogadores de seu time aos quais se identificam, chutando no ar quando o outro chuta a bola. Se a imagem do meu corpo lá no jogo dribla bonito, rouba uma bola difícil ou, glória total, faz o tão desejado gol, aí então é um verdadeiro orgasmo expresso no pulo e no grito de prazer que escapa arranhando a garganta pela potência da emoção. Se o jogador-minha-imagem falha ou, miséria das misérias, se o mesmo acontece com todo o time, aí viram todos inimigos, transformam-se naqueles que não mais me representam, pois “eu não faria aquela besteira”. Não é comigo, é com o time. Na vida, como no jogo, é a mesma coisa. O que foi bonito fui eu que fiz ou sou eu que faria se chance tivesse tido. É um prazer indizível colocarmo-nos no corpo do outro. Todos vencíamos quando o Ayrton Senna vencia. No domingo, todos nos sentíamos brasileiros, disciplinados, talentosos, ousados, ricos e famosos com ele. Na segunda-feira, voltávamos para nossa vidinha sem muitos acontecimentos. Viver a vida no outro tem prazo de validade e não nos exime de “fazer” uma vida que também nos agrade muito como a que imaginamos que o outro tem. Os que assumem a potência de ter feito algo que tenha dado certo ou errado são os que agem sob o princípio do “é comigo mesmo”, daqueles que se responsabilizam e assumem a autoria de seus feitos, sem serem vítimas, mas os provocadores das consequências que chegam. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia, em 17 de abril de 2015.

Eu sou uma mentira

Luciene Godoy Comecemos com cuidado porque essa frase é, no mínimo, desagradável de se ouvir. Confessar assim em público que somos um engodo, quem sabe mesmo um produto falsificado. Será a já propalada “síndrome do fake” – uma sensação de não sermos o que mostramos? Tenho um amigo que ao se apresentar para mim, há muitos anos, ao final de nossa primeira conversa, num momento de emoção e confiança, disse curto e grosso, em tom de desabafo: “Eu sou um engodo. Pra você eu posso dizer isso. Eu não sou nada do que as pessoas pensam de mim. Eu não sou quem eu apresento ser.” Passado todo esse tempo, me vejo pensando em quanto sofrimento essa pessoa deve ter passado por pensar que tinha algo errado com ela. E com quanta irritação ela deve ter tratado os seus próximos, pois a irritação de um mundo interno sofrido passa para fora em forma de agressividade. Por mais contida que seja, e geralmente é, a pessoa escapa e atinge quem está próximo. Magoamos nossos amados sem motivo aparente e nos sentimos culpados, o que gera necessidade de punição para nos aliviarmos. E alivia mesmo? Não. O castigo apenas faz girar o carrossel negro da infelicidade, que dá voltas e voltas em torno do mesmo eixo sem saída, sem mudança. A prisão de nos sentirmos uma mentira… Será que alguém consegue sempre mostrar o que é? Ou pior, será que alguém consegue mesmo mostrar o que é? Uma abelha mostra e mostrará sempre o que é. Podemos esperar dela as mesmíssimas ações. Para cada animal, teremos uma lista do que é ou não possível esperar. Para o ser humano, a lista é infinita, se ele não estiver morto. Não estranhe se sentir um engodo, uma mentira, algo que falseia e que aparece sempre onde não é esperado. É isso que somos mesmo e a isso damos o nome de subjetividade. É próprio do ser humano não saber nunca inteiramente dele mesmo. Repetir-se é doença, é neurose, é a fixação buscada para não sair do lugar e se arriscar. Seres vivos mudam a cada momento em muitos aspectos. Nós então, nem se fala. A doença não é mancar, não é errar – essa é a condição de quem faz. A doença é a “repetição”. É a cegueira neurótica, como afirma o psicanalista Jorge Forbes: “A neurose é a forma perfeita de se ter sempre razão.” Uma tentativa inglória de não se sentir errado e falso porque nada de novo está acontecendo. Então não mudar é o que nos dá consistência? Estarmos sempre onde é esperado? Isso é para as abelhas. O ser humano, se estiver vivo, muda o tempo todo, aprende o tempo todo. O próprio do ser humano é ser paradoxal, ser inesperado, ser inventivo, e isso se não estiver morto, como falo sempre – quer dizer, se não estiver fixado. O psicanalista Lucien Israël diz que toda subjetividade é louca, porque ela sai das referências da “normalidade”. O normal, a regra para o ser humano, é ser diferente. Diferente do outro, diferente do que ele mesmo supõe, diferente do que é esperado. Um ser que a cada passo é outro e que, se não for, está dodói da subjetividade. Nesse caso, esse seu jeito único de ser está trancafiado dentro de algum porão obscuro sendo impedido de sair pelo medo do inesperado que pode causar. Pena! A surpresa, o novo, o movimento são tão prazerosos que, quando acontecem, costumamos gostar muito. Só que, covardemente, fugimos do que não controlamos! Para os que estão sofrendo por se sentirem não verdadeiros, Lacan propõe uma maneira inusitada e bastante eficaz para nos enxergarmos e nos posicionarmos como somos de fato, seres inclassificáveis. O grande analista francês nos convida a estar na vida com nossas construções de sentido, com nossas interpretações, sabendo que nos sustentamos com as nossas “verdades mentirosas”. C’est ça! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 10 de abril de 2015.