Ou com quem você fica quando o amado se vai?
Proponho os dois títulos porque se completam ao mesmo tempo em que são paradoxais.
O que importa não é a quem se perde, mas com quem se fica quando se está só.
O amado se foi, não me quis mais, me abandonou, deixou de me amar. E eu fiquei a deixada, a desvalorizada, o lixo?
O que penso de mim quando alguém me deixa? A resposta faz toda a diferença.
Recebi um e-mail de uma amiga dizendo que estava viajando. Depois ela me explicou que estava viajando para outros lugares em seu dia-a-dia.
Disse que estava conseguindo viver de uma maneira completamente nova para ela e que a mudança veio de uma conversa entre nós. Nessa conversa eu teria lhe dito que para casamento não deixar de ser namoro era só viver “junto e separado”.
Viver “junto-separado” é não ser o pinico do outro. É não ser o espelho do outro e não fazê-lo de seu, perguntando com os olhos o tempo todo “como estou?” e também “mostrando quem você é”. Ou seja, confirmando sua imagem dia e noite. Enche o saco! Cansa e depois de algum tempo se torna uma vida torturante, repetitiva e infeliz.
Viver “junto-separado” é não fazer do outro o seu vomitório quando o estômago está enjoado. É não fazer dele o muro das lamentações nem o saco de lixo e muito menos o saco de pancadas.
A criança faz o teste de realidade batendo na mãe. Quer ver se ela sobrevive ao ataque para provar-lhe que não é uma fantasia, mas a realidade. Nem pense que vai dar para ficar fazendo o teste de realidade dando pancadinhas reais e emocionais no outro para ver como reage. Você não tem mais dois anos de idade para fazer isso e os frutos são amargos.
O eu parasita o outro. Estamos sempre no outro prestando atenção no que faz conosco, como nos olha, como nos julga, e isso para sabermos quem somos.
Parasitamos o outro no sentido de usá-lo o tempo todo para dizer quem somos – como se fosse nosso espelho. E espelho tem que estar disponível toda vez que necessitamos dar uma olhadinha no visual para nos reassegurarmos de como estamos.
Se o “espelho” fechar a cara é porque não gostou do que fizemos e não porque não está satisfeito com alguma outra coisa. Se o “espelho” sorri e está feliz, achamos ingenuamente que é conosco. Pode ser que não lhe diga respeito. A tristeza ou alegria do outro pode não lhe dizer respeito e ponto final. Você é só mais um dos objetos da vida dele.
É uma dolorosa dependência, achando que o outro está alí sempre para me mostrar quem eu sou.
A pessoa pode possuir qualquer coisa, inclusive a sua imagem, mas só será capaz de usufruir ela se já tiver se re-encontrado consigo mesma. Ficar sozinho e bem é pra quem consegue ter um bom encontro consigo. Quem aprendeu a gostar de sua história sem querer ser o que não é.
Quem se reconhece no olhar do outro fica na dependência enjoada. Se nos reconhecemos naquilo que desejamos podemos habitar o nosso corpo no tempo presente e usufruir da vida a cada segundo.
Voltando à pergunta: “Com quem você fica quando o outro vai embora?” Respondo com outra pergunta: “Com quem você mora quando mora com o outro?”
A resposta para as duas perguntas é rigorosamente a mesma.
Você sempre vai morar é com você mesmo até quando dorme todas as noites na cama com o companheiro.
Tendemos a achar que o inferno é o outro porque não nos separamos dele – dentro da relação. Não estou falando de divórcio, estou falando da capacidade de viver “juntos-separados”.
Quando gostamos da nossa própria presença, e somente aí, poderemos afirmar de boca cheia que: ficar sozinho é ótimo e… surpresa! Ficar junto também!