Gala Eluard (Max Ernst, 1924) - www.metmuseum.org
Gala Eluard (Max Ernst, 1924) – www.metmuseum.org

Luciene Godoy //
O dicionário diz que compulsão é uma força que nos obriga a fazer algo.
No dia a dia as pessoas costumam utilizar o termo em expressões como “comprar por compulsão, comer por compulsão”, de uma maneira muito apropriada. Entende-se que quem compra por compulsão não tem domínio sobre o seu ato, só se dá conta quando já está feito.
Dizer que compulsão é uma força está absolutamente correto, pois a palavra deriva de pulsão, um conceito muito usado na psicanálise. Se podemos assim dizer, ela é o correlativo humano para o que chamamos nos animais irracionais de instinto.
Quem ensina ao salmão que ele “tem que” subir o rio para desovar? Qual cadela fica latindo tentando obter de seu filhote um comportamento semelhante? Ele late por si. Quem ensina a abelha a dançar mostrando às outras onde encontrar mais pólen? Está escrito no seu gene e se reproduz automaticamente, sem a interferência da vontade de quem quer que seja – isso é instinto.
Pois é, embora usemos a palavra instinto para indicar algo que fazemos sem pensar, uma resposta que demos “por instinto”, não é bem isso que se dá com o humano.
É a pulsão a força que nos impele a cumprir uma ação, a agir sem pensar, sem escolher, quase como um espirro que brota de uma necessidade corporal, uma excitação no nariz, seguida por aquela premência de resolver aquele desconforto, até que a explosão de ar liberadora nos salva de um desprazer insuportável. Olha só o que é um simples espirro – descrição que, grosseiramente, valeria também para pulsão.
Além de acontecer de forma acéfala – não raciocinamos e nem escolhemos quando se trata de pulsão, obedecemos cegamente como escravos submetidos à uma força maior – ela também se manifesta de forma repetida e, pasmem, previsível.
Se podemos prevê-la, podemos evitá-la, não é mesmo? Não é não, pois ela é repetição e previsível para quem está de fora. Para a própria vítima, só depois de ter feito o que fez. Depois que deu o espirro incontrolável para obter o alívio de um incômodo inominável.
Se agir por compulsão nos aprisiona, se a própria pulsão é uma força que nos domina, o que fazer com isso?
Instituir pulsação em nossas vidas.
Viu como temos mais uma palavra da família? Pois é, só que pulsação é outra coisa! Pulsação é o contrário de pulsão ou de compulsão, pois nos leva a pensar exatamente no movimento dos contrários, produzindo, dessa forma, o tão desejado movimento libertador. A pulsação está muito relacionada com o latejo de uma artéria, o sangue correndo nas veias – a própria metáfora do movimento da vida. O coração se contraindo e se soltando, preso e solto, fabricando o movimento constante que leva alimento e vida a cada milímetro do nosso corpo.
Se começarmos a deixar de lado nossas velhas identidades – “eu nasci assim, vou ser sempre assim” -, a repetição acéfala vai ceder lugar para acontecimentos sempre novos. O presente não se repete, é sempre um novo dia, aquele que começa. Se for o mesmo, desconfie. Olha que o dia nasceu e você ficou morto, parado no passado.
Se for presente, tem que ser novo, nem que seja em mínimos detalhes, que, se forem percebidos, podem fazer toda a diferença.
A pulsação é a convivência dos opostos dentro de nós e não a sua negação em nosso recuo para viver só em um dos dois lados. Até mesmo pelo medo da vertigem de estar pulsando e mudando de lugar, se movimentando, sendo o coração que manda sangue, energia para nossa vida ser bem vivida.
Gente, a onda é pulsar e não ser presa da compulsão e da repetição!
Vida é movimento, vida é pulsação, é se jogar nos opostos, é terminar o nosso compromisso com a mesma velha e conhecida identidade.
Pulsar é se permitir renovar – ser a gente mesmo e ao mesmo tempo um outro.

Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 8 de maio de 2015.