Por que a gente não se entende
Por Luciene Godoy e Valéria Belém
Nem sempre a gente entende a língua que o outro fala porque está tudo lá, na cabeça dele. Então, somos os felizes proprietários de milhões de palavras que só fazem sentido para nós mesmos, uma linguagem própria e intransferível.
Com que olhos você me vê?
Por Luciene Godoy
Apesar do descompasso do tempo, da posição e do parceiro, a primeira relação de amor é tudo o que possuímos para nos ajudar a mudar o que é necessário, para ser bem-sucedido neste mesmo/novo tipo de amor.
Eu sei o que é, mas não sei explicar
Luciene Godoy // Dias atrás, preparando uma aula do Seminário 20 de Lacan, me vi dizendo uma frase que certa época povoou minha infância em Caldas Novas. Uma de minhas amiguinhas saiu com a brincadeira de “dicionário”. À queima-roupa, éramos conclamadas a dar uma definição de palavras corriqueiras. Instalou-se uma angústia generalizada, porque descobrimos que não saía nada de nossas bocas. Os olhos viravam, mãos se esfregavam, pezinhos batiam no chão, risinhos sem graça e nada. Perguntas do tipo “o que é derramar?” ficavam sem resposta. Imaginávamos o líquido caindo para fora de um recipiente, imaginávamos a sujeira, a imagem estava lá, mas a definição não saía. Mas, com tudo isso, descobrimos algo bem importante: podemos saber o que algo é e ainda assim não saber explicá-lo. Mesmo coisas muito familiares e fáceis. Talvez hoje possamos tirar lições mais úteis ainda: nem tudo precisa de explicação para existir nem para que possamos fazer algo com a tal coisa que não sabemos explicar, mas que sabemos o que é. Isso quer dizer que podemos desbancar um verdadeiro vício que nos domina que é achar que conversar, “dialogar”, fazer uma “DR”, ou o contrário, quebrar o pau, brigar feio (ou bonito) são os únicos caminhos para se encaminhar um impasse. No século 21, temos muitos outros instrumentos para agir sem saber a razão daquilo, mas ainda assim achar saídas. Vamos a um exemplo doméstico de uma mãe que chega para sua sessão de análise bufando de raiva da filha de 9 anos que está lhe tirando do sério. A menina pede para ir a um determinado passeio com coleguinhas e a mãe – calmamente – argumenta que naquela semana já tinha tido passeio. A menina, aumentando o tom da voz, insiste que as outras mães deixaram suas filhas participarem. A pobre e desconsolada mãe, já nos limites da paciência, anuncia a tão conhecida expressão: “Eu não sou as outras mães”. Tiro perdido. A menina continua, agora, com desespero e pressão ao máximo: ”Deixa, mãe! Deixa, mãe!” A mãe explode de raiva, se sentido desrespeitada, perde a paciência e grita. Sai da cena envergonhada, sentido que perdeu a parada quer a filha vá ou não ao tal passeio. História bastante corriqueira, os pais de crianças e adolescentes bem sabem disso. Diante de mim, a mãe desconsolada afirma que não dá conta de não entrar no jogo da filha. Eu digo que não acredito que ela não possa ser mais esperta, competente e forte do que uma criança ou adolescente. “É só uma questão de se usar instrumentos eficazes”, eu digo, “Você está usando fósforo riscado, frases pasteurizadas que já perderam o efeito”. Proponho à mãe perdida uma nova estratégia que eu chamo de “fazer-se de espelho”. Quando a menina começar com o seu teatrinho, à mãe caberia fazer a repetição minuciosa das palavras, tons de voz e trejeitos da garota. Na semana seguinte, a mãe chega com um sorriso exultante e os olhos brilhantes: “Deu certo, deu certo! Parecia que nada mudaria aquele tipo de situação”. No primeiro pedido que mereceria uma negação, tudo aconteceu como sempre. A menina expressou o novo pedido, a mãe respondeu calma e respeitosamente. Começou o segundo ato, que era onde a pequena roubava as forças da mãe. A menina seguiu seu ritual subindo a tensão de nível e a mãe começou a imitá-la. A filha respondeu com uma expressão intrigada, do tipo: “O que está acontecendo por aqui?” Voltou à carga e a mãe fez igualzinho. Aí foi a filha que se perdeu e começou, já em desespero, a pedir para a mãe parar. Saiu com o rabinho entre as pernas sabendo que foi desmascarada. Cadê a mãe? Não havia mais mãe ali para ser manipulada. Ela era só um espelho e a filha pôde ver a si mesma no espelho-mãe. Funcionou! Resolveu e não teve explicações (que já tinham passado da conta). Falar, acredite, muitas vezes pode ser o maior atrapalho para algo mudar. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 3 de março de 2016.
O que é o amor?
Luciene Godoy // Lacan dizia que amar é querer fazer “Um”, tentar a partir de dois fazer um. Quanto a isso, ele não deixa a menor dúvida no seu Seminário 20, em que afirma: “Nós dois somos um só. Todo mundo sabe, com certeza, que jamais aconteceu, entre dois, que eles sejam só um, mas, enfim, nós dois somos um só. É daí que parte a ideia do amor”. Será que tentamos nos ligar a um outro querendo fazer “Um” porque somos só a metade? É sim. Por estrutura, somos seres incompletos. E o que podemos fazer com seres incompletos? Tentar completá-los, ora bolas! Tentar encher o buraco com um outro ser humano. Ah, mas… E se o outro ser humano não couber dentro do tamanho do seu buraco? E se o seu “tapa-buraco” não se adaptar a suas necessidades, como fazer? Dá-se sempre um jeito: corta daqui, preenche com uma fantasia aqui, uma ilusãozinha de lá, e a coisa se completa de novo. E não nos esqueçamos: buraco cheio, vida boa. Buraco cheio, a solidão caça rumo. Buraco cheio, a felicidade voltou para casa. Mesmo? Até quando? A cola Tenaz que colou meu mal-estar, o elixir que encheu o meu pote, tem pernas, vontade própria e pode – horror dos horrores – me deixar. Mas temos outras coisas no que pensar. A busca de tapar o vazio é a “solução” encontrada. A grande questão é de que se trata esse tipo de sofrimento. Na verdade, tudo começa porque existe o buraco, a falta, a incompletude. Sim, é verdade, mas isso pode ser uma riqueza. Seres incompletos são aqueles que se fabricarão para sempre. O ser que é incompleto não precisa pedir para que fechem o buraco. É para ter prazer com ele: decorando-o com múltiplas peças, surfando, deslizando, entrando e saindo, curtindo os momentos. É estar mais cheio às vezes e mais vazio em outras ocasiões. É ter chuva, depois sol, é estar frio e calor. É o ir acontecendo do fluxo da vida bem vivida. Não se completa a incompletude. Ela é como o joguinho de “falta um”, aquele que tem uma peça faltando para você se divertir mudando as outras peças, tendo o prazer de inventar a partir de um buraco. Porque existe o incompleto é que podemos dar novas respostas, inventar – palavra sinônima de criar – incessantemente uma vida nova. Ser incompleto pode ser fantástico se você tomar por esse viés: o do renascimento e aprendizado eternos. Ser incompleto é poder ir tendo vida nova, gostosa de ser vivida. Vida que é significativa e intensa, mas também com a serenidade de quem usufrui dos momentos e está bem nutrido dela – a vida gostosa. Amor “tapa-buraco” não foi feito para esta vida incompleta, que é muito boa para se criar viveres únicos – nós já vimos. Não é para completar, é para ir trocando de móveis, de pensamentos, de certezas e de escolhas. Tem, é claro, partes fixas, mas o pedacinho incompleto onde a construção continua, onde o novo é gerado, fica lá, no seu cantinho necessário e importante. A ilusão da completude é a trava que faz a máquina parar. A vida parar. Nosso amor pode ser o azeite para a máquina funcionar macia e deliciosamente. Pode ser o companheiro de desafios, conquistas e folguedos. Nosso amor pode ser uma presença que não preenche tudo, que não dá todas as respostas, que não cuida de nós como se fosse uma mãe, mas é um adorno para a vida incompleta e boa para ser preenchida sim, mas obstruída não. O amor-sofrimento é que mata o encontro no amalgamento do medo de perder, tentando possuir e garantir. O amor é o coroamento da vida e não a morte do encontro de dois. Amor-tapa-buraco, amor-sofrimento, amor-usufruto, amor-gostoso, amor-visita-nova-em-casa, amor-alegria, amor-prazer… Tantos amores possíveis… — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 25 de fevereiro de 2016.
Ser homem&mulher
Luciene Godoy // Qual é o sexo forte? Hã?! Será que esta pergunta ainda faz sentido? É… não estamos mais em situação de cair na armadilha de acreditar que tem UM sexo forte ou mesmo UM sexo frágil, mas a resposta a respeito do sexo forte é possível, sim: os dois, se estiverem juntos na mesma pessoa. Freud termina seus últimos anos de vida numa reflexão sobre a eficácia da psicanálise em ajudar as pessoas a, de fato, alcançarem mudanças consideráveis em suas vidas. Ele chega à conclusão – um tanto desconsolado – em seu texto Análise terminável e interminável que o homem não consegue abrir mão de ser homem à moda que lhe foi ensinado pela cultura e do mesmo modo a mulher. O homem, obsessivo, preocupado em proteger seu lugar de privilegiado; e a mulher, histérica, se sentindo desvalorizada e insatisfeita para sempre. Mas tudo isso são águas passadas. Tem gente vivendo assim, mas já no encerrar das cortinas históricas desse período. Os homens de hoje, embora perdidos ainda no que podem vir a ser, já sabem que não cabe mais o estereótipo. As mulheres, por sua vez, já conseguiram, por terem sido convidadas a participar do mercado de trabalho substituindo os homens na Segunda Guerra Mundial e não mais terem abandonado a possibilidade de ocupar a posição masculina. Os homens timidamente começam a transitar pelos domínios antes só femininos. Vejo isso por onde passo, mas, principalmente, no Curso para Gestantes da Unimed, onde ministro palestras sobre a exterogestação, o Bebê-Canguru. Lá é onde vejo os olhos brilhantes de pais superinteressados e participantes que mostram o quanto eles desejam fazer parte do cuidado dos seus bebês de forma intensa e afetuosa. Tudo isso já se apresenta como fruto da época contemporânea que pretende liberar o ser humano cada vez mais de suas origens culturais, morais, religiosas e genéticas. O que está em questão é a invenção de si. Os papéis também estão mudados na relação amorosa. O amor romântico nos ensinou que o ser humano só fica bem – em última instância, só é feliz – se achar a sua “metade” e se fundir com ela. O ditado “É impossível ser feliz sozinho” vale até o último fio de cabelo. Assim, o homem, à sua maneira, precisa de uma mulher que o complete naquilo que lhe faz falta e a mulher, idem. Lacan, em suas fórmulas da sexuação, ao falar das posições sexuais, as divide em dois campos – dois quadrados que se sucedem: o campo feminino e o masculino. O homem se dirige à mulher como o seu objeto de desejo: uma boca, um bumbum, um sorriso, o atributo específico que lhe atrai. Por seu lado, o que a mulher deseja do campo masculino é a sua potência fálica, ou seja, o valor que ele tem, simplesmente pelo que é – homem – e não necessariamente pelo que faz. Hoje já poderíamos criar um terceiro campo. O campo do encontro. Uma composição que une em nós mesmos o nosso ser feminino e o masculino. Estas duas maneiras de ser que, no fundo, habitam cada um de nós em uma mistura única que cada um faz de si, dependendo de sua história e suas escolhas. A revolução racional, com seu avanço tecnocientífico que promove grandes mudanças nas relações sociais, criou um mundo que “pede” pessoas mais autônomas, mais inteiras em si. E isso por terem desenvolvido um força pessoal em sua forma de se colocar no mundo sem tanta dependência das informações, da aprovação, da permissão e tudo o que já não vem mais do interesse ou da boa vontade que o outro tem para nos dar, mas, sim, de nossas conquistas – sejamos homens ou mulheres. Não somos mais metades buscando a completude no outro, mas pessoas buscando um relacionamento amoroso não mais entre duas metades (a feminina e a masculina), e sim entre duas unidades. E cada unidade possui em si o masculino e o feminino, que são formas múltiplas, integradoras, ricas, e por que não dizer, amigas, de se lidar com a vida em sociedade. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 10 de dezembro de 2015.
Em Paris, mortos matam gente
Luciene Godoy // Paris está em guerra. O mundo ocidental está sob surda ameaça em cada esquina. Quem estaria fora? Cada um de nós toma esses acontecimentos a sua maneira. Tenho o hábito de ir anualmente à jornada da École de la Cause Freudienne, que começaria no dia 14, sábado. Na véspera, tudo aconteceu. A jornada foi cancelada antes mesmo de começar. E eu, que tinha optado por não ir este ano, não vivi tudo de perto. Ainda assim, estou dentro. Tão dentro quanto todos mais, ouso dizer. Cabe a cada um de nós “re-agir” com o que tem. A minha praia é o estudo do psiquismo, então lá vai minha contribuição torcendo para que cada um, somando, ponha a sua, em um mundo que possa ter as melhores sementes de “agires” eficazes. O material do qual mais se tem escassez no planeta Terra é o amor. Não todos os tipos de amor, mas um especificamente. Esse material tão raro ao qual me refiro é o amor a si mesmo. Falamos de individualistas, egocêntricos, de quem só pensa em si mesmo. São justamente esses tipos os “perdidos de si mesmos”. Não se esqueça: o narcisista é aquele que não vê a si mesmo. A consequência é que ele tampouco vê o outro, que nada mais é do que um objeto do qual ele pode se servir. É como o zumbi que toma o corpo de alguém para que possa voltar a viver no mundo, mas não funciona. Fica vagando num corpo que não é mesmo dele num mundo idem. Quem não tem corpo, existe na imagem. Isso explica a enorme violência perpetrada pelos terroristas que assassinaram os chargistas do Charlie Hebdo. Eles se sentiram atingidos em seus “corpos” nos desenhos. Para eles, os desenhos não os representavam. Os desenhos “eram” eles, portanto, matar com a metralhadora um outro que já os havia “matado” com a caneta era muito justo. É por isso que eles não têm medo de morrer. Já se sentem mortos pelo desenho – como índios que não se deixavam fotografar porque sua alma ficava nas mãos de quem possuísse a sua imagem. O que se fizesse na imagem acontecia no corpo. Esse é o funcionamento no Registro Imaginário de Lacan – o espelho no qual vivo no corpo-imagem do outro e que produz relações do tipo da frase gritada por um dos terroristas que atiravam em Paris: aquilo era pelo seu “irmão” que mataram na Síria. Morreu, pois, sem medo. Já estava morto com o “irmão” que tinha sido, de fato, aniquilado. Amar a si por intermédio do outro, ou destruir-se porque o outro foi destruído, tudo isso faz parte do mesmo processo psíquico: a Unificação Narcísica (em espelho), processo pelo qual passa todo ser humano dos seis meses aos 2 anos de idade – período em que nos tomamos pela imagem do outro – quando, ao dizermos “eu”, apontamos o dedinho para o próximo. Crescer é saber e sentir-se aqui, batendo no peito, nesse corpo que lhe pertence. É não misturar-se com os outros, mesmo quando os chamamos de irmãos, porque irmãos também são outros. Quando me misturo com o outro, todo aquele que me frustra vira meu inimigo mortal, pois está me destruindo. Essa certeza é que me leva a tentar destruí-lo para salvar a minha pele. Destruição do outro para que eu possa existir. No desaparecimento do outro, eu revivo. Porém, essa questão tem outro lado e outras respostas. Muitos estudos antropológicos demonstram que, quanto mais uma cultura recebe seus bebês e deles cuida no primeiro ano de vida com contato tátil, menos violenta ela é. Quanto mais contato físico no começo da vida, mais corpo sente-se que se tem, mais condições para sentir/amar a si mesmo, menos se toma o corpo do outro como seu. Amor por si, amor pelo outro, amor pelo mundo. Ou o contrário disso: o corpo próprio internamente destruído direciona-se para fora e… consequência… morte ao mundo externo. E pensar que tudo começa na mais tenra infância… — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 19 de novembro de 2015.
Quem semeia desejo colhe muita coisa!
Rejane Ferreira // Aquele dito popular de que “Quem planta, colhe” pode não estar funcionando direito. Ao menos não numa sequência linear. Estamos numa fase de muitas mudanças rápidas e podemos adaptar o plantio para outra finalidade a qualquer momento. Em um mundo hipermoderno, de um homem desbussolado (parafraseando o psicanalista Jorge Forbes), as possibilidades são tantas que podemos iniciar o preparo do terreno para receber um tipo de semente e, de repente, nos arriscarmos num outro tipo que nos sugere maior entusiasmo. Isso não quer dizer que as pessoas deixaram de ter sonhos e empenho com seus sonhos. Não é um raciocínio que afunila para o caos! É apenas um ser humano que está se permitindo ser mais flexível consigo mesmo. E, por certo, vão surgir ventos uivantes, seca árida, chuva pesada, além de olhares carregados de ervas daninhas… Tudo isso requisitará cuidados! E que venham os adubos do prazer com a tarefa, assim como os inseticidas íntimos contra as desaprovações alheias! Investimento naquilo que decidirmos fazer: dedicação, observação e entrega. Tudo isso numa inclusão da incerteza sobre aonde essas ações vão nos levar. Isso mesmo! Suportar a angústia de não saber quando, como ou quanto vai colher. E tem gente que colhe e só depois descobre que não era bem aquilo que deveria ter plantado… Mas, nos dias de hoje, o “agora é tarde” pode ser assumido juntamente com um “posso recomeçar”. Lacan ressaltou: “Por nossa condição de sujeitos somos sempre responsáveis”. Eu sou sim a dona da horta! E, mesmo que uma intercorrência caia sobre os meus projetos, não poderei passar para outras mãos os cuidados da minha seara de desejos. Alguns optam por uma dedicação exclusiva a um tipo de plantação. Outros escolhem repartir a terra e fazer um combinado agrícola. Tem aqueles que aguardam o descanso do solo para que os nutrientes sejam revitalizados. Ainda se ouve de uns que continuam na arcaica técnica de queimar o terreno antes de plantar… Cada um apostando que frutos chegarão! Essa aposta é necessária! Afinal de contas, não estamos com todos os frutos nas mãos! Ainda bem! A falta deles nos faz desejá-los! O que contraponho é que os tais frutos poderão ser bem diferentes dos imaginados… É que a arte agrícola passará por variáveis antes não identificadas… É que o próprio agricultor, que se julgava tão apto em sua tarefa, poderá se deparar com situações de baixíssimo controle próprio. Mas, então, o que poderá sustentar a sobrevivência desse ser humano tão permeado por vulnerabilidades? Primordialmente, vem o desejo de se realizar. Ah, o desejo! Essa fonte íntima que nos conduz! O desejo inspira, alavanca, turbina nosso poder de realização! Também podemos contar com nossa capacidade de adaptações. O recriar, a reinvenção, tudo isso viabiliza um novo contorno às nossas ações. E também a inserção neste mundo atual que está menos rígido, que comporta uma redução de sofrimentos com os reajustes de rotas. Outra preciosidade que nos faz firmar as sementes de desejo ao solo é saborear o que já está sendo colhido! Não estamos somente aguardando a colheita chegar… Alguns frutos já estão disponíveis! Cabe a mim recolher cada bago do trigo, forjar no trigo o milagre do pão e me fartar de pão! — Rejane Ferreira é neuropsicóloga, psicoterapeuta e professora universitária. *Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 29 de outubro de 2015.
As crianças do futuro
Luciene Godoy // Ultimamente, tenho recebido em meu consultório mães e pais de crianças – veja bem, não de “aborrecentes” (perdoe-me o interessado no assunto, fica aqui a promessa de dar o meu viés muito mais simpático a essa fase da vida) – que se sentem perdidos e impotentes diante do que suas crianças fazem. Elas os deixam completamente deslocados porque em suas próprias infâncias aquele comportamento era impensável. Como sabemos, o ser humano não é abelha, que a cada geração reproduz-se exatamente da mesma forma. Nós, que recriamos o mundo a cada geração, temos o chamado “choque de gerações”. Não é choque, é mudança de tipo de relação social, que sai do modelo vertical – relações de comando e poder – para um modelo horizontal, em rede, com a troca de informação de um para o outro e não do líder, pai, mãe, donos da verdade, para os pobres cidadãos comuns. Hoje, o cidadão comum cada vez mais se empodera pelo acesso ao saber que vem da informação “no ar” e não nas cátedras. Note bem: o mundo dos adultos mudou e o das crianças, que se nutrem do que esses adultos lhes dão, também mudou. Hoje, o adulto valoriza muito mais a criança. Claro que a sociedade de consumo se apropria disso e tenta transformar esse valor em um empurrão para o consumo. Se o mundo não é calcado na obediência cega a um líder ou a regras, isso quer dizer que a criança não vai se curvar a uma posição, a um título, mas a uma competência. Não é porque o pai é pai, mas por quem ele é. É isso que significa estarmos num mundo de relações horizontais. Ele é mais justo. Não adianta ter um título de doutor ou um anel no dedo, ou nome de pai ou mãe; é a competência naquilo que se diz ser ou fazer que pesa. É ser coerente com o que se diz. Não vale mais a mãe irritada falar para o filho se acalmar e culpá-lo de ser agitado. Nós, adultos, “somos” o alimento emocional e comportamental dos pequenos. Por isso, os grandes centros de estudos da primeira infância estão dando ênfase na ajuda aos pais para se transformarem também enquanto pais, pois o modelo de sua própria infância simplesmente virou de cabeça para baixo. Tem também muita gente preocupada dizendo que as crianças estão deixando de viver o lúdico e vivendo demais a vida de adulto. Perguntinha: a criança aprende brincando de quê? Brincando de ser adulto, ora bolas! Agucemos o nosso olhar e poderemos ver que essas atividades do dia a dia que dizemos serem coisas de adultos, com responsabilidades demais, aula disso, aula daquilo, tal e tal compromisso, até festa de aniversário dos amiguinhos que se torna “um compromisso que é um saco”, podem der ser vividos de forma lúdica. Estudar, fazer esportes e aprender línguas podem ser deliciosos. Depende do estresse ou da leveza com qual são vividos. Porém, o mais bonito é o que Lacan diz: que ser criança é ter ainda o frescor de um ser em formação que não está engessado pela expectativa dos outros. A criança fala coisas inesperadas, faz conexões profundamente aguçadas a respeito de fatos que nunca tínhamos visto daquela maneira. Ela renova o mundo com seu olhar. Triste é ver a criança que não brinca de ser adulto, que “é” um adulto porque não faz para seu prazer e sim para o olhar dos outros. Lacan nos convida, no fim de uma análise, a voltarmos a ser crianças, a termos um olhar curioso para o mundo, a inventar e usufruir do prazer de sermos como queremos e não como os outros querem. É um chamado para “ir além do Pai em tendo se valido dele”, quer dizer, ultrapassar as regras da cultura , mas sabendo segui-las, sabendo viver em grupo e pensar na coletividade. Ser responsável não é só coisa de adulto, testemunhamos hoje crianças ativas e conscientes. Ser lúdico não é só coisa de criança. Tem muito adulto livre, leve e solto. Podemos ser crianças brincando de adultos e adultos brincando de crianças e, assim, sermos livres e felizes, sustentando nossas escolhas e dando conta de nossas vidas. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 8 de outubro de 2015.
Nossos “eus”
Luciene Godoy // Será que nós já nascemos com “eu”? Curto e grosso, não. Não nascemos com um “eu”. Então, quando é que ele nasce? Ops! Será que o “eu” nasce? Será que ele é desenvolvido? Será que aparece de repente? Você já pensou no assunto? Será que o meu “eu” é quem eu sou? Muitas e interessantíssimas interrogações. Nós não nascemos com um “eu”, não. Nascemos, isto sim, com o corpo biológico e prematuro, ainda por cima. Se você duvida, dê uma lida na teoria evolutiva que você vai ver que, com o advento da bipedia – o ser humano assumir a posição de marcha sobre as duas pernas –, tivemos que fazer uma adaptação em nossa espécie. Como a pélvis da fêmea se estreitou, os bebês tiveram que começar a nascer antes do tempo para que mãe e bebê pudessem sobreviver. Isso aconteceu entre sete e quatro milhões de anos atrás. A título de curiosidade, muitos estudiosos, dentre eles Leakey (1997), afirmam que, para atingirmos a condição do mamífero que somos, deveríamos nascer com 21 meses de gestação, ou seja, com um ano de idade após o nascimento. E o “eu”, o que tem a ver com tudo isso? Segundo Lacan, nosso nascimento precoce, que ele chama de Complexo do Desmame, nos relega a viver os primeiros seis meses de vida sem termos a percepção do nosso corpo, pois o inacabamento neuronal nos dá a sensação de corpo fragmentado. Veja só, nascemos incompletos, ainda em acabamento, como uma casa que já tem alguns fios, mas ainda precisa de outros. Que tem canos colocados, mas carece de algumas conexões para o funcionamento geral. Pode ser que uma parte do telhado ainda esteja incompleta, nos deixando meio expostos e desamparados. Aos seis meses, nossa visão já consegue focar com justeza e nós, bebês, passamos a ver o que antes não tinha muita forma. Quando o bebê “vê” a mãe, figura já muito presente, ele vai tomar a imagem dela por si mesmo. Depois disso, demora mais de um ano para compreender que o “eu” está aqui nesse corpo e não no outro. Sim, meu querido, o primeiro “eu” é lá, no espelho que é o corpo do outro. Lacan chama este momento de “Estádio do espelho”. É por isso que nos afetamos tanto com o que o outro é e faz. Nosso primeiro “eu” já foi o outro. Mas, o título do artigo fala de “eus” no plural. Mais essa agora: será que temos mais de um “eu”? É, temos, sim. É um “eu” primitivo que funciona antes do “eu especular” – redundância porque esse “eu” que já conhecemos é sempre especular – é sempre na imagem do outro. O segundo “eu”, na verdade o primeiro, que lhe apresento agora é o que o psicanalista francês Didier Anzier chama de “eu-pele”. É que a pele é o nosso primeiro grande sentido que nos permite nos situarmos. O primeiro lugar de troca com o outro. A própria visão que tanto nos orienta depois dos seis meses é um desdobramento do tato, segundo muitos estudiosos. Ou seja, o primeiro “eu” que nos orienta e nos situa na vida vem do sentir. Do sentir a pele do outro e, a partir disso, ter a sensação de sua própria pele, de seus próprios limites, de seu próprio corpo. Se o nosso “eu-pele” for bem constituído num contato pele a pele intenso nos primeiros meses de vida, o nosso “eu-espelho” – que é um “eu-no-outro” – não vai ficar tão violentamente predominante em nossas vidas. Teremos mais paz dentro do nosso corpo e menos dependência e medo da não aprovação do outro. Moraremos mais no “eu-pele” quentinho, gostoso e nosso, do que no sapato apertado que é o corpo do outro. Daí poderemos dizer: “Sai do espelho que está lá e entra no seu corpo que ele te pertence!” — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 10 de setembro de 2015.
Especial Namorados (I): Dançar com a vida
Luciene Godoy // Dançar com o outro, com o ser amado, é também dançar com a vida. Dançamos em muitos lugares à condição de termos corpo. Não estranhe essa afirmativa. Ter corpo não é coisa para qualquer um. Ter um organismo todos têm, mas ter corpo é só para quem faz conjunto. Gente que consegue fazer junção, por exemplo, entre o que diz e o que faz, o que sente e o que vive. Dançar como metáfora de bem-viver, de usar o corpo que se tem, não é a segregação de partes desse corpo – nem do corpo com a alma pela divisão subjetiva – mas a “Unificação”, a conexão dessas partes. A Unificação é a fala do corpo, é um entendimento entre as partes. Nem é desligar uma parte para ligar a outra, mas conseguir mantê-las ligadas e conectadas para dar o sentido de Unidade, de existência, para o corpo. É como um circuito elétrico. Como se cada membro do corpo tivesse um interruptor. Quando você desliga um e liga outro, você corta a corrente, fica um broken body, um corpo quebrado, despedaçado, sem unidade. Trata-se de não colocar 100% da atenção em uma só parte, mas ter um percentual de atenção/luz/consciência nas mais diferentes partes. Ao caminharmos, as pernas “falam” com os braços, com o tronco, com o resto do corpo. É o que Freud chamava de catexia. Podemos catexizar, quer dizer, colocar uma energia extra, perceber, fazer viver partes do corpo, palavras, situações, etc. E isso numa determinada harmonização, pois, se ligássemos todos os interruptores em um só lugar do corpo, eles adoeceriam de sobrecarga. Dá tanta dor de cabeça! Literalmente. Nesse caso, a divisão é a melhor resposta. Dividir para unir, como num caleidoscópio, que poderíamos a justa medida chamar de “caleidoscorpo”. Para se conseguir dançar, a música precisa ter entrado dentro de nós. Música não nos aceita quebrados, ela só entra se estivermos completamente entregues, levados em seus braços. A música é um tipo de Unificação – que na teoria lacaniana é ter corpo. É o que nos dá a inebriante sensação de estarmos vivos, pulsantes, ensolarados. Ensina-me o Felipe Perin, meu professor de dança, que, para dançar, primeiro sentimos o nosso corpo. Depois, só depois, sentimos o do outro. Na dança, sentimos numa quase sincronia o nosso corpo e o do outro. Cada movimento é fruto de um desejo de se jogar em algo desconhecido e fazer arabescos no ar – desenhar no Real, no indizível lacaniano. Na dança não há errado. Na dança que eu danço, não tem erro porque não tem regra fixa, tem liberdade e invenção – o mesmo é possível na vida, se nos libertamos da eterna culpabilização e cobrança de perfeição do supereu. Também é não estar na passividade nem na pressa. É só estar presente. Sem a ansiedade do que virá e a morte de estar parado. O prazer de dançar a dois está em atingir parcialmente o imenso prazer de voltar a ser “dois em um” – de dois corpos se faz um –, como no começo da vida, quando parasitávamos o corpo materno. O primeiro dos muitos paraísos que conheceremos ou não, vida afora. Dançar assim com o amor e com a vida nos dá o prazer do inesperado. Saber antes o que vai acontecer, saber o que o outro vai fazer, é mais fácil e mais pobre. O previsível parece seguro, mas só é tão seguro por ser fixo e morto. O imprevisível pode parecer caótico, mas é uma força que nos leva a criar, inventar novas respostas que nos libertam da mesmice das mesmas respostas, da tal rotina que ouvimos tanto e que mata o amor. Não só o amor. A repetição é a morte da própria vida. Nunca pensei (logo eu, que tanto adoro saber) que viveria para dizer que, como na música, na vida, saber antes é empobrecedor. Viva o desconhecido! Viva a surpresa! Viva a criação e a invenção! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 11 de junho de 2015.