Especial Namorados (I): Dançar com a vida
Luciene Godoy // Dançar com o outro, com o ser amado, é também dançar com a vida. Dançamos em muitos lugares à condição de termos corpo. Não estranhe essa afirmativa. Ter corpo não é coisa para qualquer um. Ter um organismo todos têm, mas ter corpo é só para quem faz conjunto. Gente que consegue fazer junção, por exemplo, entre o que diz e o que faz, o que sente e o que vive. Dançar como metáfora de bem-viver, de usar o corpo que se tem, não é a segregação de partes desse corpo – nem do corpo com a alma pela divisão subjetiva – mas a “Unificação”, a conexão dessas partes. A Unificação é a fala do corpo, é um entendimento entre as partes. Nem é desligar uma parte para ligar a outra, mas conseguir mantê-las ligadas e conectadas para dar o sentido de Unidade, de existência, para o corpo. É como um circuito elétrico. Como se cada membro do corpo tivesse um interruptor. Quando você desliga um e liga outro, você corta a corrente, fica um broken body, um corpo quebrado, despedaçado, sem unidade. Trata-se de não colocar 100% da atenção em uma só parte, mas ter um percentual de atenção/luz/consciência nas mais diferentes partes. Ao caminharmos, as pernas “falam” com os braços, com o tronco, com o resto do corpo. É o que Freud chamava de catexia. Podemos catexizar, quer dizer, colocar uma energia extra, perceber, fazer viver partes do corpo, palavras, situações, etc. E isso numa determinada harmonização, pois, se ligássemos todos os interruptores em um só lugar do corpo, eles adoeceriam de sobrecarga. Dá tanta dor de cabeça! Literalmente. Nesse caso, a divisão é a melhor resposta. Dividir para unir, como num caleidoscópio, que poderíamos a justa medida chamar de “caleidoscorpo”. Para se conseguir dançar, a música precisa ter entrado dentro de nós. Música não nos aceita quebrados, ela só entra se estivermos completamente entregues, levados em seus braços. A música é um tipo de Unificação – que na teoria lacaniana é ter corpo. É o que nos dá a inebriante sensação de estarmos vivos, pulsantes, ensolarados. Ensina-me o Felipe Perin, meu professor de dança, que, para dançar, primeiro sentimos o nosso corpo. Depois, só depois, sentimos o do outro. Na dança, sentimos numa quase sincronia o nosso corpo e o do outro. Cada movimento é fruto de um desejo de se jogar em algo desconhecido e fazer arabescos no ar – desenhar no Real, no indizível lacaniano. Na dança não há errado. Na dança que eu danço, não tem erro porque não tem regra fixa, tem liberdade e invenção – o mesmo é possível na vida, se nos libertamos da eterna culpabilização e cobrança de perfeição do supereu. Também é não estar na passividade nem na pressa. É só estar presente. Sem a ansiedade do que virá e a morte de estar parado. O prazer de dançar a dois está em atingir parcialmente o imenso prazer de voltar a ser “dois em um” – de dois corpos se faz um –, como no começo da vida, quando parasitávamos o corpo materno. O primeiro dos muitos paraísos que conheceremos ou não, vida afora. Dançar assim com o amor e com a vida nos dá o prazer do inesperado. Saber antes o que vai acontecer, saber o que o outro vai fazer, é mais fácil e mais pobre. O previsível parece seguro, mas só é tão seguro por ser fixo e morto. O imprevisível pode parecer caótico, mas é uma força que nos leva a criar, inventar novas respostas que nos libertam da mesmice das mesmas respostas, da tal rotina que ouvimos tanto e que mata o amor. Não só o amor. A repetição é a morte da própria vida. Nunca pensei (logo eu, que tanto adoro saber) que viveria para dizer que, como na música, na vida, saber antes é empobrecedor. Viva o desconhecido! Viva a surpresa! Viva a criação e a invenção! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 11 de junho de 2015.
Ajudando os pais a serem pais
Luciene Godoy // Como, afinal, nós, psicanalistas, podemos ajudar pais e mães a ajudarem seus filhos a crescerem saudáveis e felizes? Sem divagar muito, nosso primeiro passo é informar a esses pais conhecimentos muito recentes sobre as necessidades e a importância que as relações têm para a produção de um ser humano. Os estudos sobre as competências e sistemas interativos precoces do ser humano nos tem fornecido uma outra imagem do que conseguimos e necessitamos adquirir e construir nos primeiros anos de vida, para, exatamente, podermos usufruir dela em nossas relações de trabalho e de amor. Há, para nós, uma eclosão da vida psíquica que se realiza no encontro do corpo com o outro. A criança é desafiada a descobrir a realidade que a cerca, integrar a existência de outros objetos no mundo além de si mesma (superar o narcisismo de se achar “o mundo inteiro”) e simbolizar essas experiências. Para que isso aconteça, é preciso que haja o encontro emocional com os adultos que dela cuidam. A qualidade desses encontros e desencontros é o alimento ingerido pelas percepções do pequeno, que virá a ser um bem alimentado e saudável ser humano. Ou um subnutrido e raquítico emocional com sequelas maiores ou menores do investimento que recebeu dos pais no começo da vida. A atividade de pensar é uma das competências que será construída pela intermediação do outro. Segundo pesquisadores franceses como Albert Ciccone, para a criança aceder a essa habilidade terá de contar com três partes: primeiro, deverá ter o “equipamento somático-neurofisiológico” em bom funcionamento; segundo, ela necessitará de um meio que pense; terceiro, e aqui entra a parte mais importante dos pais, ela precisará do “investimento” desses adultos que vão lhe “emprestar” os pensamentos. Estranho falar isso. É um investimento que não é de dinheiro, é de presença. E um empréstimo que não é empréstimo, é doação, pois, ao ser depositário do investimento, o pequeno tomará posse para si do que ganhou dos pais nas relações que mantiveram no dia a dia. Não há outra maneira de se ajudar um ser humano a se humanizar e a crescer senão por intermédio do que o adulto “vive” com ele. A criança nasce com um equipamento neuro-anátomo-fisiológico e psíquico para aprender a ser o que testemunhar do mundo que a rodeia. Criança não aprende com conselhos, ela aprende com o que presencia, com o que existe (e que, muitas vezes, fingimos que não). Até mesmo por isso é que, no conto de Hans Christian Andersen, foi uma criança que gritou que o rei estava nu, enquanto todos participavam da mentira coletiva de ver o que não existia para agradar a todos. Dizemos isso não para pesar ainda mais nos pais a tarefa de bem criar os filhos – que eles já sentem muito frequentemente como árdua. Não, isso é para que entendamos o que de fato conta nessa história, para que dessa forma ela possa ficar mais leve, eficaz e – por que não? – divertida e prazerosa. Para que essa parte boa seja muito mais frequente do que os parcos momentos emocionantes em que vemos um filho dar conta de se sair bem na vida ou qualquer outro momento que nos informe que conseguimos como pais. Podemos ter a sensação diária de conviver com pequenos seres que ensinamos e que nos ensinam. Mas isso só acontece se, como adultos, tivermos nos separado das expectativas do outro sobre nós e tivermos vivendo nossa vida como nossa. Se, mesmo sendo pai e mãe, ainda existe o peso de ser o filho dependente e carente da aprovação adulta, você não cresceu ainda. Você ainda está no estado infantil de dependência da avaliação do outro e, portanto, não dá para ser o adulto que a criança precisa para crescer. Você não passará de outra criança tentando conduzir uma mais novinha. É um cego conduzindo outro. Lição numero um, pois, para ajudar uma criança a um dia dar conta de ser um adulto: só se os pais já tiverem conseguido crescer tendo se libertado da dependência exacerbada do outro. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 5 de junho de 2015.
Consumismo, o enfeite do “eu”
Luciene Godoy // Ao vestirmos uma roupa nova, por exemplo, passamos a possuir um objeto que não tínhamos. Sentimos um bem-estar que pode durar minutos, horas, dias ou até mesmo muito tempo. Durar muito tempo é a exceção, não a regra. A sensação costuma durar o tempo da percepção, ou seja, o tempo do sentimento de presença do objeto novo. Mas geralmente o “enfeite do eu” logo murcha, tal qual o buquê de flores tão lindamente fresco na hora que foi recebido e que no outro dia já não é mais o mesmo. Não é preconceito contra o velho. É que o que chamamos de novo nada mais é do que o presente. O que chamamos de velho e novo são o vivido e o que estamos vivendo. O passado e o presente. É como se cada objeto “novo” que compramos fosse para nos dar a ilusão de estarmos vivos e presentes. E viver cada dia, viver cada momento, é já estar no “novo”. É esse o raciocínio. Novo não é o último celular lançado no mercado. Novo é o sentir-se vivendo o presente, degustando momentos que por mais banais que sejam são, por definição, únicos e novos – sem serem comprados como a última sensação do mercado. O seu café da manhã de ontem não é o de hoje. Não tem como ser porque de fato é um outro dia. Se é outro dia, as coisas não podem mesmo ser iguais. Ah, mas uma cabecinha doente pode, sim, fazer com que todos os cafés da manhã pareçam os mesmos e até se esforçar para que sejam, comendo o mesmo pão com manteiga e bebendo o mesmo leite com café na mesma e velha amiga xícara de todos os dias – uns iguais aos outros. Mas espera aí. Não tem jeito de comer o mesmo pão, que a essas alturas já se encontra no esgoto! Cabeça doentinha, fixada, come sim o mesmo pão porque a boca que come igual não se lembra de que quem come é sempre outra pessoa. Simples assim. Quem come o pão a cada manhã não é a mesma pessoa, pois já foi transformada por mais 24 horas de vida. E se nessas 24 horas não aconteceu “nada” de novo? Acontecer, aconteceu. Se a pessoa não quis registrar, não valorou nem deu peso e importância – a importância das pequenas coisas –, aí o novo só vai ser sentido como novo se adquirir o que “todo mundo vê como novo”. Não os novos mundos, maiores ou menores que povoam o seu dia a dia, mas os que seus olhos cegos não vêm, seus ouvidos surdos não escutam, sua pele morta não sente. O “eu”, para se sentir vivo, precisa de comida nova (igual ao corpo, a comida do dia anterior só sustenta por um tempo). Então, não tem jeito: é consumir mesmo para dar a sensação de vida ao eu? Nada disso. Tem muita gente descobrindo que enfeite vem de dentro. Vem dos pensamentos e dos atos que nos agradam, que por alguma razão nos deixam felizes com a gente mesmo. Pode ser qualquer coisa, inclusive comprar um celular novo. Que dessa forma não será um enfeite externo e sem sentido pessoal. Será para usufruir e não para mostrar quem se é pelo que se tem. Enfeitar-se com os mais novos objetos de desejo oferecidos pelo mercado para atrair os olhares, conquistar um lugar garantido pela marca X ou Y, nada mais faz do que tornar-nos iguais e, efeito mais do que indesejável, sozinhos. Sozinhos de nós mesmos. Vazios de nossa própria companhia. Enfeite externo é muito bem-vindo. Os melhores produtos podem tornar nossa vida muito gostosa mesmo. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Os enfeites são carregados por quem tem corpo. É ele que porta o que adquirimos. Se não estivermos bem dentro da nossa própria pele, não é um penduricalho qualquer que vai conferir riqueza ao nosso corpo. Com os “enfeites do eu”, ficamos, isso sim, feito cachorros que caíram da mudança, de pires na mão, perguntando aos outros o que acham de nossa mais nova aquisição: “Uma esmolinha, pelo amor de Deus. O que você acha de mim?” — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 29 de maio de 2015.
Novas interações pais e filhos
Luciene Godoy // Dizemos que a função dos pais é a de educar seus filhos e que quando estão ensinando, dando lições e explicações, mostrando o que é certo e o que é errado, estão exercendo tal função. É isso educar? Os filhos aprendem com os pais, é fato, aprendem inclusive aquilo que não estava nos planos. Se os filhos aprendessem com os ótimos conselhos que os pais lhes dão, o mundo seria um paraíso. Pais só dão bons conselhos para os filhos. Então qual é o problema? Os pais ensinam tão bem por que será que os filhos não ouvem, não obedecem, não fazem a coisa certa? Seria tudo tão mais fácil. Primeiro, vamos pensar um pouquinho sobre o que as crianças precisam, além dos conselhos prodigamente distribuídos? De acordo com um dos maiores centros de pesquisa em primeira infância do mundo, o Center on the Developing Child (CDC), da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, sabemos hoje, como nunca antes, das necessidades das crianças. Isso é possível graças ao gigantesco desenvolvimento das neurociências, da biologia molecular, das ciências do desenvolvimento e da genética. Os pesquisadores do CDC afirmam que a criança necessita ter adultos confiáveis, que possam lhes oferecer relações protetivas e uma presença tranquilizadora que a ajude a lidar com as adversidades ininterruptas que fazem parte do processo de crescimento. Adversidade é aquilo que não é esperado e que irrompe em nossa vida e causa surpresa. Só se não for bem manejada é que a adversidade pula da surpresa para o susto, para o medo, para a certeza da repetição do ocorrido. Aí sim, ela é incorporada como algo ruim. E poderia ter sido algo diferente e novo, que passaria a ser conhecido e a ter um lugar na vida da criança. O corpo responde à ausência daquilo que é esperado. O novo assusta e precisa de um adulto que auxilie a criança a lidar com a frustração ou o estranho. Na ausência física ou emocional dos pais a criança não tem alguém do seu lado vivendo as experiências de vencer cada obstáculo que vem. Andar, por exemplo: a criança precisa da mão que a segura quando ainda não dá conta, mas também da voz encorajadora, do olhar que brilha diante de seus sucessos. Quando algum sucesso vem e não tem a chancela de um adulto, ele parece não se confirmar, e ficam aqueles adultos que vivem perguntando com os olhos e gestos se o outro viu o que ele fez. Se aquilo de fato existe ou não. Tivera tido ele as confirmações necessárias à construção de suas apreensões da vida, teria muito mais autonomia, pois teria introjetado as certezas que o adulto lhe deu, transformando-as em autoconfiança. Esses cientistas norte-americanos afirmam que as experiências da primeira infância – de zero a cinco anos de idade – constroem o nosso corpo, constroem a arquitetura de nosso cérebro, o sistema imunológico, metabólico e cardiovascular –, pois presidem o seu funcionamento. Ora, mas o corpo e seu funcionamento não eram herança genética? A epigenética – parte da genética que estuda hoje a influência do meio sobre o ser humano – está aí para nos demonstrar a imensa força que tem os fatores relacionais no corpo do ser humano. Desta forma, os pesquisadores se deram conta de que, sim, as crianças precisam de tudo isso para se tornarem adultos que “trabalhem e amem bem”, como disse Freud. Também perceberam que esses pais não existem por aí facilmente, é preciso ajudá-los a ser, para só depois conseguirem passar aos filhos. Precisamos construir nos pais esses meios para que eles tenham o que oferecer aos filhos. Não é conselho e nem boa intenção, e sim a capacidade de transmitir a segurança e a tranquilidade necessárias para que o ser humano que foi “educado”, tendo sido atendidas essas necessidades, consiga sofrer menos e ser mais feliz por saber o que fazer com as adversidades colocadas pela vida. E isso não só no começo, mas até o último dia de sua existência. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 22 de maio de 2015.
A felicidade de ser vitrine
Luciene Godoy // Não dá para negar que é bom agradar aos outros. É bom, não. É uma verdadeira delícia. Menos para aqueles para os quais desagradar ou irritar é a forma de pedir amor e arrancar a atenção do outro na marra e na violência. Que ninguém diga a eles, mas é tão manjado! Tem um “porém”. E um “porém” bem grande: para garantir que teremos sempre essa apetitosa e sempre tão bem-vinda aprovação, em geral faz-se necessário viver para os outros. E isso para ganhar o quê? O brilho no olhar do outro e a doce aprovação expressa em seu sorriso de Mona Lisa? Tem isso sim, mas não só. Ao sermos confirmados pelo outro, é a própria sensação de existir que ganhamos. É o outro dizendo que te vê e que você é real. Se não queremos dar espaço a alguém, por outro lado, é só não olhar para ele, ou olhar com o “olhar de peixe morto”, aquele que você olha, mas parece que está vendo o nada. Transformar o outro em nada dói no fundo da alma. Mata o sujeito que está diante de você te perguntando o que você acha dele, já que ele não se vê mesmo. Não tem jeito, maldição humana, só nos vemos no espelho ou no olhar do outro – espelho por excelência. O próprio Freud, quando apresentou a teoria da sexualidade infantil, teve os médicos da audiência saindo um por um e mais anos de viradas de cara na rua. Não era visto pelos seus pares. Não existia em Viena? Pelo contrário, ele se via com seus olhos internos e só por isso sobreviveu e nos deu de presente a psicanálise, que hoje nos ajuda a viver melhor, para dizer pouco dela. Para quem não sustenta nem se firma em seu jeito único de ser, não dá para continuar existindo quando o outro vira a cara. É para garantir o olhar confirmativo do outro que nos fazemos de vitrine. Pegamos as melhores roupas e colocamos nos manequins, disfarçando com alfinetes a que está grande demais, escondendo um rasgado dos embates com a vida. Maquiamos o que somos para o outro olhar, se sentir atraído e nos querer de alguma forma. É isso que é ser vitrine. É ser uma montagem para atrair o outro para mim. Ser vitrine é um pedido de amor, um pedido de atenção. Mesmo daqueles que, ao contrário, desarrumam, rasgam, sujam a vitrine, só para atrair de uma outra forma a atenção preciosa que garante a confirmação de que existe para o outro. Só assim podemos nos sentir existindo para nós mesmos. Essa é a relação em espelho de Lacan. Esse é o sujeito-vitrine que sobrevive do que mostra ser. Isso porque ele ainda não descobriu que viver sozinho, estar quentinho aqui dentro do peito, é melhor do que a vitrine de vidro frio. Além do íntimo prazer de habitar o próprio corpo, também tem o efeito colateral – pois ele não é buscado prioritariamente como no corpo-vitrine – de tocar e seduzir quem está por perto. É o perfeito exemplo de quem não procura, mas acha. Nada mais atraente do que a autenticidade. Imitação não agrada mesmo. O corpo-vitrine é só para ser olhado mesmo, do lado de fora, e lá se vai a nossa confirmação quando o passante que sorriu e gostou de nossas roupas bem exibidas se foi e deixou a pobre vitrine vazia e sem sentido, à cata do próximo olhar para reanimá-la, fazê-la se sentir viva. Oposto disso, entrar em si, bancar o que se é e o que se quer, malgrado os desagrados, é para quem decidiu deixar de ser vitrine e virou parque de diversões para si e para o mundo. Gente feliz faz bem para o planeta. Vamos, então, instaurar uma “homoecologia”? Seria uma ciência que lida com o mundo do homem interno antes de ele entrar na natureza. Nosso lema bem que poderia ser: “Gente feliz faz bem para o outro ser humano e para o planeta Terra”. Então, vamos lá? Mãos à obra? — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 15 de maio de 2015.
Acabar com a compulsão
Luciene Godoy // O dicionário diz que compulsão é uma força que nos obriga a fazer algo. No dia a dia as pessoas costumam utilizar o termo em expressões como “comprar por compulsão, comer por compulsão”, de uma maneira muito apropriada. Entende-se que quem compra por compulsão não tem domínio sobre o seu ato, só se dá conta quando já está feito. Dizer que compulsão é uma força está absolutamente correto, pois a palavra deriva de pulsão, um conceito muito usado na psicanálise. Se podemos assim dizer, ela é o correlativo humano para o que chamamos nos animais irracionais de instinto. Quem ensina ao salmão que ele “tem que” subir o rio para desovar? Qual cadela fica latindo tentando obter de seu filhote um comportamento semelhante? Ele late por si. Quem ensina a abelha a dançar mostrando às outras onde encontrar mais pólen? Está escrito no seu gene e se reproduz automaticamente, sem a interferência da vontade de quem quer que seja – isso é instinto. Pois é, embora usemos a palavra instinto para indicar algo que fazemos sem pensar, uma resposta que demos “por instinto”, não é bem isso que se dá com o humano. É a pulsão a força que nos impele a cumprir uma ação, a agir sem pensar, sem escolher, quase como um espirro que brota de uma necessidade corporal, uma excitação no nariz, seguida por aquela premência de resolver aquele desconforto, até que a explosão de ar liberadora nos salva de um desprazer insuportável. Olha só o que é um simples espirro – descrição que, grosseiramente, valeria também para pulsão. Além de acontecer de forma acéfala – não raciocinamos e nem escolhemos quando se trata de pulsão, obedecemos cegamente como escravos submetidos à uma força maior – ela também se manifesta de forma repetida e, pasmem, previsível. Se podemos prevê-la, podemos evitá-la, não é mesmo? Não é não, pois ela é repetição e previsível para quem está de fora. Para a própria vítima, só depois de ter feito o que fez. Depois que deu o espirro incontrolável para obter o alívio de um incômodo inominável. Se agir por compulsão nos aprisiona, se a própria pulsão é uma força que nos domina, o que fazer com isso? Instituir pulsação em nossas vidas. Viu como temos mais uma palavra da família? Pois é, só que pulsação é outra coisa! Pulsação é o contrário de pulsão ou de compulsão, pois nos leva a pensar exatamente no movimento dos contrários, produzindo, dessa forma, o tão desejado movimento libertador. A pulsação está muito relacionada com o latejo de uma artéria, o sangue correndo nas veias – a própria metáfora do movimento da vida. O coração se contraindo e se soltando, preso e solto, fabricando o movimento constante que leva alimento e vida a cada milímetro do nosso corpo. Se começarmos a deixar de lado nossas velhas identidades – “eu nasci assim, vou ser sempre assim” -, a repetição acéfala vai ceder lugar para acontecimentos sempre novos. O presente não se repete, é sempre um novo dia, aquele que começa. Se for o mesmo, desconfie. Olha que o dia nasceu e você ficou morto, parado no passado. Se for presente, tem que ser novo, nem que seja em mínimos detalhes, que, se forem percebidos, podem fazer toda a diferença. A pulsação é a convivência dos opostos dentro de nós e não a sua negação em nosso recuo para viver só em um dos dois lados. Até mesmo pelo medo da vertigem de estar pulsando e mudando de lugar, se movimentando, sendo o coração que manda sangue, energia para nossa vida ser bem vivida. Gente, a onda é pulsar e não ser presa da compulsão e da repetição! Vida é movimento, vida é pulsação, é se jogar nos opostos, é terminar o nosso compromisso com a mesma velha e conhecida identidade. Pulsar é se permitir renovar – ser a gente mesmo e ao mesmo tempo um outro. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 8 de maio de 2015.
Não é comigo
Luciene Godoy // Penso que “não é comigo” é a frase menos falada e mais vivida em nossas relações diárias com os outros e com nós mesmos. Não falamos, mas fazemos. Não falamos, mas agimos guiados por esse princípio: o princípio da irresponsabilização pelo que nos acontece. No livro Inconsciente e Responsabilidade, o psicanalista Jorge Forbes escreve sobre a responsabilização como o caminho tomado por pessoas que habitam um mundo em que cada vez mais é difícil convencer que somos impedidos de fazermos o que queremos. Ele nos presenteia com uma frase que, embora catastrófica, é também engraçada: “A neurose é a forma perfeita de ter sempre razão”. Ter razão é muito bom, concordemos. Só fica ruim quando descobrimos que, para ter razão, adulteramos a nossa percepção dos fatos e isso não muda as consequências. Sobre o mesmo tema, Forbes, em Da Palavra ao Gesto do Analista, afirma que “há uma certa comodidade na neurose. É fácil pensar-se industrial quando não se tem uma indústria; ou escritor, sem nunca ter escrito uma página, ou comerciante, sem nunca ter aberto uma loja; ou intelectual, sem nunca ter se debruçado sobre os livros”. Uma comodidade que nos garante um mundo fictício, no qual acreditamos, sem ter de confrontar aquilo que pensamos sermos ou termos com aquilo que efetivamente conseguimos realizar. Dizemos para nós mesmos – e o pior, acreditamos – que, “se não realizamos ainda, é por causa de alguém ou alguma coisa que nos atrapalhou. Ou é por causa do tempo que ainda não correu o suficiente para que o fato se tornasse realidade”. E isso nos casos em que o tempo já passou e vive passando e a gente esperando, esperando que a nossa vez chegará. Fato é que a neurose protege mesmo o sujeito de se jogar na vida, como salta o nadador para dentro da água que vai colhê-lo e ao mesmo tempo ser o desafio: nadar em menos tempo, mergulhar, fazer belas acrobacias aquáticas. A neurose protege o sujeito da realidade porque ela é o instrumento de colocarmos a culpa, ou a responsabilidade, ou o poder de realizar e fazer acontecer, no outro. É divertido ver como isso opera nas pessoas que estão vendo uma partida de futebol. Olhos pregados nos corpos que jogam, transportados para o campo, correndo com os jogadores de seu time aos quais se identificam, chutando no ar quando o outro chuta a bola. Se a imagem do meu corpo lá no jogo dribla bonito, rouba uma bola difícil ou, glória total, faz o tão desejado gol, aí então é um verdadeiro orgasmo expresso no pulo e no grito de prazer que escapa arranhando a garganta pela potência da emoção. Se o jogador-minha-imagem falha ou, miséria das misérias, se o mesmo acontece com todo o time, aí viram todos inimigos, transformam-se naqueles que não mais me representam, pois “eu não faria aquela besteira”. Não é comigo, é com o time. Na vida, como no jogo, é a mesma coisa. O que foi bonito fui eu que fiz ou sou eu que faria se chance tivesse tido. É um prazer indizível colocarmo-nos no corpo do outro. Todos vencíamos quando o Ayrton Senna vencia. No domingo, todos nos sentíamos brasileiros, disciplinados, talentosos, ousados, ricos e famosos com ele. Na segunda-feira, voltávamos para nossa vidinha sem muitos acontecimentos. Viver a vida no outro tem prazo de validade e não nos exime de “fazer” uma vida que também nos agrade muito como a que imaginamos que o outro tem. Os que assumem a potência de ter feito algo que tenha dado certo ou errado são os que agem sob o princípio do “é comigo mesmo”, daqueles que se responsabilizam e assumem a autoria de seus feitos, sem serem vítimas, mas os provocadores das consequências que chegam. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia, em 17 de abril de 2015.
Eu sou uma mentira
Luciene Godoy Comecemos com cuidado porque essa frase é, no mínimo, desagradável de se ouvir. Confessar assim em público que somos um engodo, quem sabe mesmo um produto falsificado. Será a já propalada “síndrome do fake” – uma sensação de não sermos o que mostramos? Tenho um amigo que ao se apresentar para mim, há muitos anos, ao final de nossa primeira conversa, num momento de emoção e confiança, disse curto e grosso, em tom de desabafo: “Eu sou um engodo. Pra você eu posso dizer isso. Eu não sou nada do que as pessoas pensam de mim. Eu não sou quem eu apresento ser.” Passado todo esse tempo, me vejo pensando em quanto sofrimento essa pessoa deve ter passado por pensar que tinha algo errado com ela. E com quanta irritação ela deve ter tratado os seus próximos, pois a irritação de um mundo interno sofrido passa para fora em forma de agressividade. Por mais contida que seja, e geralmente é, a pessoa escapa e atinge quem está próximo. Magoamos nossos amados sem motivo aparente e nos sentimos culpados, o que gera necessidade de punição para nos aliviarmos. E alivia mesmo? Não. O castigo apenas faz girar o carrossel negro da infelicidade, que dá voltas e voltas em torno do mesmo eixo sem saída, sem mudança. A prisão de nos sentirmos uma mentira… Será que alguém consegue sempre mostrar o que é? Ou pior, será que alguém consegue mesmo mostrar o que é? Uma abelha mostra e mostrará sempre o que é. Podemos esperar dela as mesmíssimas ações. Para cada animal, teremos uma lista do que é ou não possível esperar. Para o ser humano, a lista é infinita, se ele não estiver morto. Não estranhe se sentir um engodo, uma mentira, algo que falseia e que aparece sempre onde não é esperado. É isso que somos mesmo e a isso damos o nome de subjetividade. É próprio do ser humano não saber nunca inteiramente dele mesmo. Repetir-se é doença, é neurose, é a fixação buscada para não sair do lugar e se arriscar. Seres vivos mudam a cada momento em muitos aspectos. Nós então, nem se fala. A doença não é mancar, não é errar – essa é a condição de quem faz. A doença é a “repetição”. É a cegueira neurótica, como afirma o psicanalista Jorge Forbes: “A neurose é a forma perfeita de se ter sempre razão.” Uma tentativa inglória de não se sentir errado e falso porque nada de novo está acontecendo. Então não mudar é o que nos dá consistência? Estarmos sempre onde é esperado? Isso é para as abelhas. O ser humano, se estiver vivo, muda o tempo todo, aprende o tempo todo. O próprio do ser humano é ser paradoxal, ser inesperado, ser inventivo, e isso se não estiver morto, como falo sempre – quer dizer, se não estiver fixado. O psicanalista Lucien Israël diz que toda subjetividade é louca, porque ela sai das referências da “normalidade”. O normal, a regra para o ser humano, é ser diferente. Diferente do outro, diferente do que ele mesmo supõe, diferente do que é esperado. Um ser que a cada passo é outro e que, se não for, está dodói da subjetividade. Nesse caso, esse seu jeito único de ser está trancafiado dentro de algum porão obscuro sendo impedido de sair pelo medo do inesperado que pode causar. Pena! A surpresa, o novo, o movimento são tão prazerosos que, quando acontecem, costumamos gostar muito. Só que, covardemente, fugimos do que não controlamos! Para os que estão sofrendo por se sentirem não verdadeiros, Lacan propõe uma maneira inusitada e bastante eficaz para nos enxergarmos e nos posicionarmos como somos de fato, seres inclassificáveis. O grande analista francês nos convida a estar na vida com nossas construções de sentido, com nossas interpretações, sabendo que nos sustentamos com as nossas “verdades mentirosas”. C’est ça! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 10 de abril de 2015.
Seres do passado
Luciene Godoy // Quem não conhece sua história está condenado a repeti-la – frase de Freud ou de Mao Tsé-tung? Dos dois, pois Freud afirma que o que foi recalcado aparece na repetição neurótica. Já Lacan diz que o que foi foracluído – mantido fora – retorna nos atos impensados. Muitas maneiras de se falar que o passado retorna. Retorna sendo reencenado no presente, sem o conhecimento do ator, note-se bem. Quem repete o passado não vê o que está fazendo. Notam os que estão perto ou o próprio – quando vê as consequências do que fez – e aí pode afirmar: “De novo, não! Fiz a mesma besteira”. Mas não se iluda! Na próxima oportunidade fará o mesmo de novo. Qual é a maldição? É que o ser humano parece uma máquina de transformar presente em passado!Um processador implacável em que tudo o que acontece e é fresco é imediatamente jogado no lado fétido do morto/acontecido. Para fugir do sofrimento, nos precipitamos sobre ele, o incorporamos de novo, o revivemos incessantemente. E no tormento de estar no passado, sem saber, tememos o avançar dos acontecimentos como se o futuro nos reservasse mais sofrimento. Se você duvida, vamos a algumas histórias reais. Uma linda moça, quando criança, tinha apanhado muito do pai e não deixava nenhum namorado tocá-la quando faziam amor. Dizia ela que o toque do ser amado era um desprazer insuportável. Seu corpo continuava sendo possuído pelas chicotadas do pai depois de 30 anos. Um senhor de 60 anos tinha sido separado da família aos 15, após a morte da mãe, e passou uma vida inteira sofrendo a síndrome do “boi de bicheira”. Tendo se casado e tido filhos amorosos, além dos amigos que lhe queriam calorosamente – com razão, pois conquistava a todos com seu jeito afetuoso –, não conseguia pegar as enormes manifestações de amor e inclusão que lhe eram frequentemente oferecidas. Lutava para consegui-las, mas, quando vinham, eram rejeitadas. Nesse momento ele recuava e pegava, de novo, o papel do enjeitado e se excluía. O bem-sucedido executivo que teve uma mãe ausente e fria e que se casou com uma calorosa e apaixonada mulher, que era incessantemente – não é força de expressão – atormentada com cobranças de ausências inexistentes. Ao invés de viver com a esposa que era tudo o que ele queria na vida, deixava-a no presente e fugia para o passando para continuar a viver com a mãe ausente. Todos somos o que fomos. Mesmo? Isso não é justo conosco! A vida é movimento! Temos uma cegueira do que conseguimos transformar. Conseguimos sair de sapos a príncipes e princesas e nunca o notamos, nunca estamos satisfeitos com nada do que fazemos nem do que somos. Também não aceitamos os “novos reconhecimentos: quando alguém vê o que somos, logo, logo, o reconhecimento volta para a antiga imagem, cai no passado. Máquina de transformar presente em passado. Máquina que tritura o novo e o torna o mesmo de antes. Máquina de não deixar a vida andar, de não reconhecer o novo, a mudança, o momento, o presente. A verdadeira máquina mortífera que nos afunda no lodo do mesmo, na prisão de uma história vivida, mas que não mais existe. Se quisermos mesmo, podemos pôr o passado no passado. Parar de sentir sempre o mesmo é possível. O ser humano é uma metamorfose ambulante, se você ainda não experimentou isso, não sabe o que está perdendo. Está perdendo viver o presente, se refugiando no passado. Está perdendo a vida e escolhendo a morte do fixo. As três histórias que contei são de pessoas que tinham escolhido viver no passado, mas não sabiam exatamente que era uma escolha. Agora que você já leu esse artigo, sabe que tem escolha. Passado eterno ou presente pulsante? — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 3 de abril de 2015.
O maior inimigo das mulheres
Luciene Godoy // No começo do século 20, Freud chamava as mulheres de “o continente negro”. Referia-se à ilustre desconhecida de todos os homens que inutilmente tentavam entender os seus desejos. Maria Rita Kehl, em sua poesia psicanalítica, diz que não tem nenhum mistério não. Que o que a mulher não podia mesmo era “querer para si”, fato que a destinava a se fazer o desejo do homem. No patriarcalismo, a mulher é mesmo uma posse do homem. O tão famigerado segredo de Estado do desejo feminino para o seu homem é que ela tentava ser o seu objeto de desejo, e isso para sobreviver. Não podia assumir claramente o que queria. Seu desejo só saía – porque sempre sai – por caminhos disfarçados, dando e motivo para o “mistério do desejo feminino” que deixava tontos os maridos bem intencionados. Chegam os anos 30 e 40, os homens se embrenham na guerra e as mulheres passam a substituí-los nas fábricas, nos escritórios e mesmo na família. Daí em diante as mulheres nunca mais voltaram a se trancar novamente no reino doméstico. Passaram, cada vez mais, a ter o que tinham os homens. E para não nos esquecermos, de fato caminhamos muito. Há poucas décadas atrás uma mulher que não fosse a escolhida de um homem podia ter todas as insígnias do valor social, mas não passava de uma coitadinha, boa profissional, que ganha bem, MAS tinha ficado para titia. Essa mulher que ganhou o mundo com seus pés foi e ainda é desvalorizada em relação aos homens. Ganha menos em funções similares etc, etc. De fato, o que veio de fora ao longo dos anos sempre foi desvalorizador para a mulher. Quero falar agora, porém, de um outro desvalor, que é o desvalor que a própria mulher joga sobre si? Muito sutil isso… É que todo esse desvalor que sempre veio da cultura – patriarcal, não nos esqueçamos – também está DENTRO dessa mulher e isso nós não vemos. Não vemos a força que temos meeeesmo! Não temos a serenidade dos que SE SABEM ser. O desvalor maior é o de dentro. Que faz com que nos sintamos desvalorizadas mesmo quando não é bem assim. O marido que espancou a mulher não encontrou diante de si um olhar que o assustasse e o paralisasse (e isso é possível). Será que dá para pensar que muito do que acontece conosco é porque ficamos esperando que aconteça? Paralisadas sem vislumbrar novas respostas? Acho muito delicado falar o que eu estou falando. Com o risco de ser mal interpretada, digo que hoje o nosso maior inimigo JÁ NÃO ESTÁ MAIS DE FORA, mas de dentro, e isso porque não vemos a hora que dá para ser diferente, que dá para virar a mesa, e não o fazemos porque continuamos a nos sentir menos, a nos sentir vítimas. Falo de algo muito sutil dentro de nós que os discursos de valorização da mulher não alcançam: é o costume de nos sentir da mesma forma mesmo depois que já nos vestimos com vestimentas diferentes. Mesmo quando falamos palavras diferentes, continuamos a nos SENTIR em desvalor. O inimigo maior é o interno. Mulheres abusadas que poderiam ter dado um chute naquele lugar do cara e não se sentiram capazes de fazê-lo. Nem de perto lhes ocorre que podem fazer algo. O que podem fazer? Vão descobrir na hora. Vão se tornar a fúria, a placidez, a palavra, o gesto ou o que se fizer necessário para virar a situação a seu favor. Mas, para conseguir fazer isso, só se ela, internamente, para si mesma, se valorizar, se ver como potente, não ficar esperando que alguém a valorize e reconheça. Acordemos! Nossa maior fragilidade hoje não vem mais de fora, mas de dentro, por possuirmos uma autoimagem que já não corresponde mais à realidade. Não olhe apenas para fora procurando onde está o preconceito contra a mulher. Olhe também para dentro de você mesma e você pode ter uma surpresa ao vê-lo disfarçado de mulher superpoderosa, por exemplo. As mulheres ainda não usufruem do sentir tudo o que mudou e é esse o seu maior entrave hoje, não o externo. O gênero já não tem mais o peso que tinha. Os desafios são outros. — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 27 de março de 2015.