Ter razão para morrer

Não somos animais irracionais e por isso mesmo todos nós sabemos que vamos morrer. Poucos, no entanto, chegam a saber o porquê. Ter um valor tão forte na vida a ponto de se tornar uma razão para morrer é privilégio de poucos. É ter algo sagrado pelo qual valeria a pena morrer. O que seria sagrado a esse ponto para cada um de nós? A vida de uma pessoa amada? A vida de outro ser humano em risco? Ter uma razão para morrer é um luxo! É um luxo que só possuem as grandes almas, os seres humanos admiráveis, que transcendem a nossa, também, condição de simples bichos. Somos mais do que bichos. Somos mais do que um corpo biológico que nasce, cresce, se reproduz e morre. O que nos transcende é o que é maior do que a sobrevivência. É o que nos faz maiores do que nós mesmos. Bem aventurados aqueles que conseguem ter momentos da sua vida em que o valor da sobrevivência é ultrapassado por algum valor transcendental – que ultrapassa o mundo material. Essa é uma das marcas do humano: a escolha de morrer por algo que excede a própria vida, como por exemplo, o amor (em suas mais diversas formas). Senão, somos apenas um corpo biológico que come, dorme e espera a morte chegar. A morte desse mesmo corpo que não teve nenhum motivo maior que o desviasse da condição biológica, nada que fosse mais forte do que ele mesmo. Pensar que podemos escolher a morte diante de certos impasses, que podemos escolher morrer por algo dá um arrepio de medo, tira-nos da inconsequência de viver uma vida no automático, no desperdício de tempo e de momentos banais que, se valorizados, seriam memoráveis. Como me disse alguém recentemente: “Eu estou fazendo do meu dia a dia uma poesia”. Viver é uma poesia para quem valoriza os pequenos milagres que nos mantêm vivos. Vive-se uma vida de morto com medo da morte. Com dias mortos, na mesmice pela preguiça (leia-se: falta de querer investir) ou na covardia de não fazer as pequenas coisas se tornarem especiais. O arroz com feijão, se feito com carinho, vira um banquete que nos traz doces lembranças, que tem gosto de infância. Bem aventurados aqueles que, tendo ultrapassado a escravidão do medo de se arriscar a fazer com que as pequenas coisas fiquem grandes, descobriram uma razão para viver. Bem aventurados aqueles que, tendo ultrapassado a condição da lei da sobrevivência, têm uma razão para morrer. Esses podem viver uma vida rica e, por paradoxal que seja, ter a morte transformada também em vida pelo valor de seu ato. O sagrado é o que concerne às coisas divinas, ou seja, o que ultrapassa o banal, é o que torna qualquer coisa muito maior do que se supunha. A vida de alguém pode ser de um banal sagrado quando essa pessoa encontra algo que a torna maior do que a própria necessidade de preservá-la a qualquer custo. Veja que não faço um convite ao heroísmo, faço um convite a se valorizar as pequenas e triviais coisas tão maltratadas em nosso dia a dia. Atos heroicos podem acontecer, mas o convite é para transformar o cotidiano em milagre, em divino, em sagrado, pelo valor que lhe damos. Pelo “a mais” que acrescentamos. É essa e não outra coisa a maneira mais sutil de dar um valor maior ao ato de viver. Não, não há um pote de ouro no fim do arco-íris. Não, não há um palco iluminado para recebermos os aplausos do mundo pelos nossos grandes feitos. Há nossa vidinha cotidiana que pode, sim, ser mágica sem os holofotes externos. O bem estar é profundamente interno, só você com você. Pare de esperar e comece a usufruir. De onde você tirar razões para ser feliz virá mais felicidade. Faça o teste! Use o produto e veja se funciona. Se funcionar, dê a dica aos amigos e faça o mundo melhor.

Histeria masculina

Isso existe?   Histeria e masculino são termos que, dentro do nosso costume, não se aproximam.   Histeria é eminentemente feminina. Vem do grego hystéra, referente a útero. Portanto, nada mais feminino.   Tradicionalmente, nomeia-se de mulher histérica aquela a quem falta o controle das emoções, que converte em doenças corporais fatos da vida emocional.   Depois, começou-se a usar o termo para falar de uma posição subjetiva de um ser humano que não consegue se sentir capaz, potente, tendo valor. Em termos psicanalíticos: não tem o falo.   O termo falo, por sua vez, é o símbolo do masculino. É a representação do pênis em sua manifestação de potência. Falar que alguém tem o falo é uma maneira de dizer que tal pessoa está em uma situação de potência.   Numa sociedade patriarcal como a nossa, esta é a lógica dominante, o homem que tem o pênis (membro reprodutor) é o mesmo que tem o falo (símbolo da força e do valor social).   Freud morreu em 1939 dizendo-se descrente da possibilidade de os homens conseguirem se deslocar da posição agarrada cegamente ao falo, enquanto à mulher também ficaria vetada a possibilidade de se sentir como tendo o falo.   Acho que já dá pra pensar diferente no século 21.   Temos muitas mulheres que, embora não tenham pênis, são portadoras de falo, já que enfrentam a vida sem intermediários, cuidando com potência de construir o mundo no qual vive.   Por outro lado, há homens perdidos na seguinte condição: têm o pênis, mas e daí? É preciso fazê-lo funcionar como falo. Antes o valor já estava dado só no possuir, hoje é no exercer.   A histeria é um termo hoje usado para designar a posição do ser humano que tem potência, mas não usa ou não admite que tem.   Por isso dá pra pensar a histeria como sendo masculina também. Como uma doença que ataca homens que estão num momento de fragilidade.   Ok. Que ela é, hoje em dia, também dos homens já entendemos, mas como é que ela se manifesta?   Segura essa… Ela se manifesta, por exemplo, naquele homem que só é homem quando bebe. Que só dá conta da vida social com algumas na cabeça. Que passa os eventos do fim de semana com seu chopinho na mão. Aquele homem que precisa beber para se sentir forte e capaz. Por isso muitos dele agridem – emocional e fisicamente – suas mulheres (não só): porque estão na sua viagem de potência.   Pois é, estes, por sua posição subjetiva (não veem o poder que têm no mundo), encontram-se no lugar da “mulherzinha”. Veja bem: não da mulher que se dá o devido valor, mas daquela cobradora incessante ou da “poderosa” que disfarça na arrogância o poder/valor que na verdade não sente em si.   É delicado dizer isso, mas o homem que precisa da bebida para se sentir apto às relações está na posição da mulherzinha.   Se você é um desses, depois de ter lido até aqui não dá mais pra fazer de conta que não sabe. Se não é, avise a algum amigo que esteja nessa posição que ela é a posição da criança sem potência. Será que ele vai querer continuar?   O caminho não é disfarçar, mas se lembrar de que você pode, sim, ser homem, se sentir um homem, sem a bengala da bebida, que nada mais faz do que lhe manter na posição do fraco.   Quantas brigas e agressões acontecem por esse motivo?   Muitas mulheres confessam uma imensa solidão com seus homens, que, na hora da diversão, refugiam-se em seu mundo autista e se iludem que estão se divertindo com os outros.   Podemos fazer a escolha de ser homem ou mulher. E por que escolher ser uma mulherzinha/criança escondida por detrás da bebida? Deixemos isso para os covardes.   Fazer a escolha de estar com os outros e com o companheiro de cara limpa e orgulho de si mesmo é um caminho possível.   De qualquer forma, vale lembrar: “A felicidade não é para os covardes”.    

Máscaras em família

Nas festas em família cada qual fica na mira de tiro da confirmação do grupo. Confirmação da máscara social, do lugar que nos deram e queremos ver confirmados ou, ao contrário, queremos nos ver livres dele, nos comportando como o oposto do lugar marcado para nós. Acreditamos demais nas máscaras. Agredimos, explodimos, ficamos acuados. A nossa identidade é móvel, mutante e flexível. Pode-se deixar de ser algo a qualquer momento que se queira. Porque é sempre de lugares que se trata. Não é “eu sou”, é muito mais “eu estou”. Dou o exemplo de uma criança de 2 anos de idade que, no momento em que entrei no carro de seus pais, ocupando o banco de passageiro, lugar sempre ocupado pela mãe, começa a gritar e a dizer: “Não, não, não é a mamãe”. Ele já sabia que o lugar marca a identidade, mas como não somos uma poltrona de carro, aquele lugar é somente o que eu frequento e que me dá um nome temporário, muito pouco para dizer quem eu sou. Vou continuar a ser o que sou estando fora dele. Disso aquela criança ainda não sabe… e muitos adultos também não. Quando alguém bole com nossa identidade, vem a fúria e o ataque. Puro engodo o de achar que estamos correndo perigo de deixar de existir, como se estivéssemos sendo ameaçados de morte. Puro engodo. É só mais uma casca – e temos tantas – sendo remexida. Podemos repô-la, modificá-la e, quem sabe, até viver melhor sem ela. No entanto, nos debatemos, vendo o outro como o inimigo que quer nos tirar a vida. Não é tirar a vida, é tirar (ou colocar) uma outra capa, uma outra roupa. Poderemos vesti-la ou não. A identidade é a roupa que vestimos para estar no mundo. Melhor dizendo, são “as roupas”, porque são várias. Mesmo aquelas pessoas que escolhem sempre os mesmos trapinhos surrados e previsíveis para se apresentar poderiam ter estiloso e variado guarda-roupa. Mas há o medo da não aceitação do grupo. É melhor não arriscar porque ser reconhecido com meia dúzia de trapinhos, ou deslumbrante alta-costura, que nos dão um lugar, é melhor do que ficar à deriva, fora do pertencimento, sem existência. Se sabemos qual é o nosso eixo principal, a nossa “unicalidade”, aquelas características básicas que nos constituem, aquilo sem o qual não seríamos quem somos, não nos sentiríamos tão ameaçados. Este é o nosso cerne. O resto pode mudar circunstancialmente, mas continuaremos a ser nós mesmos. Exemplos da “vida como ela é”: a irmã afirma que a outra é preguiçosa e vive por conta da mãe. A acusada, enfurecida, derruba a mesa de Natal para mostrar que não o é, que a acusação é inaceitável. Será que não pode mos aguentar outra pessoa pensar de nós o que não somos? Talvez um dia a verdade venha a tona, ou não. Não dá pra depender. Existem muitas respostas possíveis ou será que não podemos prosseguir sendo o que sentimos que somos, mesmo quando o outro diz o contrário? Está vendo por que encontros de pessoas que fazem parte de nossa história ou do dia-a-dia – família e trabalho – mexem tanto com a gente? É que neste momento as máscaras (leia-se: identidades) se encontram e o que não faltam são mãozinhas tentando arrancá-las, ou colocá-las de volta, quando porventura tenhamos conseguido mudá-las. Os “eus” ficam ameaçados. A atmosfera é tensa. Festas de semelhantes ficam cheias de homens e mulheres-bombas. Ameaçados e ameaçadores. Não é nada disso e ao mesmo tempo é tudo isso. A ameaça existe, mas não é letal. Dá pra trocar de roupa sem trocar de cerne. Temos uma imagem aos olhos dos outros, é fato, mas o que mais tem peso é a imagem que temos de nós mesmos e que nos mantêm no nosso cerne. Conscientes dela, poderemos, inclusive, mostrar que não somos o que o outro vê. Somos nós, em últ ima instância, que comunicamos ao outro quem somos.

A relação não é com o outro

Estamos sempre ligados, preocupados com o que o outro pensa de nós. Achamos que é muito importante que ele saiba quem nós somos para que a relação seja possível e prossiga. Achamos que é muito importante que o outro nos reconheça, seja justo conosco em suas avaliações, que nos perceba como somos meeesmo para que o amor vingue. Eu também pensava assim até o dia em que caiu a ficha: o que, de fato, determina a relação não é o que um pensa do outro, como um vê o outro, mas sim o que cada um pensa de si mesmo. Já que temos um olhar projetivo – que projeta, que desenha, que faz ter forma e que jogamos de dentro para fora – vamos dizer que o outro está pensando determinada coisa de nós, sem nos darmos conta de que somos nós mesmos que, mais ou menos conscientemente, acalentamos tal pensamento. É exatamente por termos essa maneira muito particular de ver, o olhar projetivo, que o outro tende a pensar que estamos pensando o que, na verdade, ele pensaria naquela situação. Que estamos sofrendo o que ele sofreria. Que intencionamos o que ele intencionaria naquela circunstância. Ou seja: o que determina o que o parceiro pensa de nós é o que ele pensa de si. Eureka! É isso! É por isso que ele/ela insiste em fazer coisas que detestamos  – mas ele ama – com aquela cara de anjo feliz como se estivesse nos dando um presente valioso. É por isso que ele/ela “não entende” que gostemos de algo, que desejemos aquilo outro, ou que detestemos o que ele adora. Não é que eles “não entendem”. Eles “não aceitam”. E com razão. Não briguem comigo, mas é com razão, sim, já que não sabem (aceitam) que nós não somos eles e que, portanto, não faz sentido gostarmos do que eles detestam. Sequer existe a possibilidade de não correspondermos, já que somos tomados como sendo eles. Eureka de novo! O que o outro pensa de si é o que determina o que ele vai ver em mim. É que o mundo interno do outro é que determina a sua capacidade ou não de viver e ver certas coisas. Por exemplo: você está na sua, ali, sereno, e o outro pode dizer/interpretar que você está desatento. Se você dá atenção, o outro acha que você “aprontou alguma” e que está puxando o saco para ajeitar as coisas e/ou para calar a própria culpa. Se o outro se desvaloriza, ele vai ver tentativas suas de desvalorizá-lo o tempo todo. Se o outro é inseguro e ciumento, vai ver você fazendo manobras para traí-lo o tempo todo. Peraí, então o inferno é o outro? Nada disso. O que o outro pensa de si vai determinar a qualidade do que ele vai ver. Quando alguém gosta e admira a si mesmo, vai projetar isso para fora também, podendo até chegar a dar valor a quem não tem. O que estou propondo é: o que o outro vê em você não é o mais importante para a relação amorosa, mas sim o que ele pensa de si, mesmo porque é isso que vai dar a tônica, o rumo, de tudo o que ele pensa de você, da relação e do mundo. Um exemplo que gosto de dar com o maior prazer é o de como algumas pessoas intelectualmente bem dotadas, com maior capacidade de se expressar, chegam à análise teorizando um mundo feio, cheio de injustiças e erros, e que, depois de enxergarem sua singular beleza não padronizada, mudam o discurso, vendo um mundo bem mais belo. Mais uma vez: a interpretação do fora vem do dentro. Projetamos o que pensamos de nós mesmos, o que sentimos que somos. Dica útil: ao começar uma relação, tente observar o que o outro sente por si mesmo – sem se deixar enganar pelas máscaras que o excesso denunciam – porque você será o cabide no qual o parceiro dependurará a fantasia de quem ele acha que é. Libertadooor! Você não é tão determinante assim. Ou seja: a relação com o outro é, antes de tudo, uma relação consigo mesmo.

Diferença não é mais doença

Uma propaganda recente na televisão mostrava uma criança com síndrome de Down vencedora em um esporte e terminava com a frase: “Síndrome de Down não é doença”.   Fiquei encantada com a ideia, porque, se formos ao dicionário, ele nos informará que a síndrome de Down é um distúrbio genético por deficiência mental, crescimento retardado e anormalidade física bem definida: crânio e faces pequenos e achatados, traços semelhantes aos dos mongóis.   O que parece incongruente nada mais é do que mais uma evidência de que o século 21 é o tempo em que as diferenças do ser humano não serão mais vistas como doença. Daí decorre o fato de se poder dizer que a síndrome de Down não é doença, ela é uma diferença. E diferenças – quaisquer que sejam elas – são próprias do ser humano.   No fundo a ideia subjacente àquela propaganda é que ter algum tipo de diferença não é ser doente. Veja o que os Downs trazem ao mundo com o seu jeito particular de ser, marcado por um jeitinho de criança. Eles falam e fazem coisas surpreendentes que nos tiram de um olhar fossilizado. Ou então nos enternecem profundamente pela sua capacidade de serem carinhosos.   Eles também colorem o mundo com o seu jeito único de ser.   Hoje, começa-se a ver os autistas de forma muito diferente de antes. A mudança se dá a partir de escritos dos próprios autistas que começaram a comunicar sua visão muito particular de mundo. Eles também trazem um modo de ser e viver que desconhecíamos, e aí tachávamos de doença e ponto final.   Num mundo edípico com grupos definidos, você tinha que pertencer e ser igual a um deles para poder existir. O que não entrava era errado, pecado ou, pior, era doença, deformidade, anomalia.   As abelhas são iguais, as formigas e os cupins também. São sociedades, mas não formam uma cultura. Não renovam conhecimento, criando um novo mundo a cada geração. Humanos, sim, criam um mundo a cada geração.   Se fossemos abelhas, a cada geração a casa das abelhas teria um formato, cor e dimensões diferentes da anterior. Já pensou cupins fazendo cupinzeiros em pilotis, quadrados, retorcidos, triangulares etc? A natureza enlouqueceria porque cada espécie perderia suas características, ficando indefinível. Caos total.   O ser humano é indefinível. Só o apreendemos em pequenas partes, algumas sempre escapam.   Nunca saberemos exatamente quem somos e do que somos capazes. Somos uma eterna surpresa ou pelo menos uma surpresa latente, em potencial, só contida na tentativa de não mudar para não sofrer.   Conta-se que no século 18 os grandes pensadores da época propuseram um desafio: qual deles conseguiria cunhar uma frase irrefutável do que distinguiria o ser humano do animal? Todas do tipo “O homem é inteligente” foram desbancadas (porque os animais têm sua inteligência também), menos a que é atribuída a Rousseau. Algo como: tanto o homem quanto os animais aprendem, só que o animal tem um limite para aprender e aí para tudo. Somente o ser humano aprende indefinidamente até a hora da morte.   Agora, no século 21, momento em que já se pode ver a insuficiência dos padrões para nos unir, temos formas mais sofisticadas para darmos conta de viver juntos. Podemos nos saber como seres de uma diferença radical uns dos outros, mas unidos em algumas coisas, como, por exemplo, a necessidade e o amor que temos uns pelos outros.   Ao que chegamos finalmente foi à liberdade de poder pertencer sem ter que nos mutilarmos para nos fazermos iguais. Somos iguais em muitos itens e isso já nos une suficientemente sem precisarmos nos adulterar.   Então, e por isso, “Síndrome de Down não é doença” pode ser lido como “Ser diferente não é doença”.   E ainda tem gente que diz que o mundo não melhorou!

O mundo merece ser habitado só por crianças

Veja bem que não estou dizendo que o mundo tinha que ser para as crianças, ou pelas crianças, mas de crianças. E os adultos deveriam morrer todos? Um mundo com as montanhas de chocolate e nuvens de algodão doce. Folhas e flores de confeitos. Areia de batatas fritas. Cães voadores, peixes andando sobre o chão. O mundo de não crescidos loucamente surfando no pensamento mágico tornado real. Seria mesmo isso o ser criança do qual falo? De jeito nenhum. Não falo dos infantilóides. Falo daqueles que cresceram, se libertaram do outro e podem reivindicar o direito a maioridade infantil. Crianças que cresceram e permanecem crianças são aquelas pessoas perto das quais nos sentimos vivos, porque ela respira o não convencional ela tem uma autenticidade uma diferença que nos surpreende. Não diz o esperado, diz o revelador de cada momento. Já notaram como as crianças têm um pendor por quererem melhorar o mundo, gostam de respeitar o que sentem que é certo e não aceitam o que é injusto e mentiroso? Pois bem, o adulto que atingiu a maioridade infantil também é assim. É uma luz de criatividade e de renovação no mundo. Sempre acreditei que cada ser humano que nasce é para todos nós uma esperança de um mundo melhor porque, no seu início de vida ele vai ter tantos sonhos – que quando for adulto terá abandonado por ter passado por tantos sofrimentos. Crianças nascem da barriga da mãe, mas também de um adulto feito. Sim, um adulto pode renascer criança quando para de querer atender o que se espera dele e começa a conquistar o que deseja para si. Aí ele tem o caminho para se tornar uma criança feliz. Feliz por ser cheia de entusiasmo e energia por ter descoberto que a vida é muito boa para quem a vive sem o medo da desaprovação. A infelicidade é termos vergonha do que somos pelo fato de não sermos perfeitos como pensamos que o outro nos quer. Um mundo cheio de gente que vive sua singularidade e se une em torno de um laço social, um laço de amor que não necessita da igualdade para ser lícito é um mundo de gente, se não feliz, pelo menos não tão infeliz como se vê por aí. São as pessoas infelizes que têm covardia, inveja e disputa. Agridem porque estão colocando pra fora o horror que têm dentro de si. O horror de existir para as convenções. Acho que podemos dizer que um adulto feliz é uma criança. O mundo merece ser habitado por crianças. Certamente não me refiro aos seres humanos que não tem nenhuma razão para serem felizes, os que passam fome que não têm acesso a saúde e educação , ao direito de sonhar e realizar seus sonhos. Essas pessoas não têm sequer o primeiro passo para conseguir crescer para depois virarem adultos-crianças. A conquista das condições para todo ser humano ter escolhas a fazer pode ser alcançada mais facilmente se o movimento for feito por adultos felizes que têm potência e boa intenção, já que não precisam comer o fígado do outro para conquistar um lugar. Gente infeliz não faz mudanças para o outro, mas só para se locupletar. Quem está bem quer espalhar amor, bem estar pelo mundo afora. O frescor que a criança tem para ver os sentidos convencionais nos joga a cada momento numa descoberta prazerosa de algo inesperado. Aí a vida fica mais cheia de sentidos, caminhos e possibilidades de usufruto. O mundo merece adultos que conseguiram não serem vencidos pelas dificuldades e permanecem com os olhos brilhantes, olhando tudo como um mundo mágico, que é o milagre de existir – é mágico ter vindo de um óvulo e de um espermatozoide, é mágico viver no planeta Azul, é mágico amar as pessoas, ter o sol, sentir o vento… inventar novas vidas. O mundo merece ser habitado só por crianças … de todas as idades.

A vida passa e eu acho graça

O mundo está cheio de gente que olha o presente, mas vê o passado. Passa a vida andando de costas, com os olhos voltados para o que foi e não para o que é. Quando chega a falar algo do presente, olhe com mais atenção e você verá que por baixo tem sempre alguma cobrança, algum lamento, algo visando o passado.   Somos, é claro, feitos de passado, mas um passado que se refaz no presente. Quando remoemos dores e significações do passado estamos parados lá. Esperando que algo seja reparado, como um mecânico que venha concertar algo, para que, só então, a vida possa caminhar bem dali para frente.   O que, afinal, conseguimos ao entrar na fila de pires na mão esperando o reparo? Apenas manter fixo o nosso olhar lá pra aquelas bandas, pra aquele rumo e não ver a vida passando diante da gente, oferecendo seus pratos e a gente olhando os pratos embolorados do passado que a gente queria ter comido. Podemos ainda nos grudar em algo que tivemos e não temos mais, mas não aceitamos a perda e insistimos a todo custo em continuar tendo o prato que já se foi.   É como aquela história da garagem de gaveta que só existe em nossa cabeça. Parece que a vida não anda, que a gente não se sente bem e feliz porque sempre tem alguém ou algo impedindo a nossa saída. A realidade é que estamos livres, nada nos impede de sair, caminhar ou degustar a comida fresquinha do dia.   Se o seu passado só está servindo de justificativa para as suas dificuldades presentes que estão sem cuidado, o cotidiano vai ficando um inferno. O dono da casa viajou para outra dimensão, outro mundo, como naquele seriado antigo O Túnel do Tempo, e a casa do presente está deixada às traças.   Uai! E o dono da casa do presente que não é cuidada está viajando pra onde? Pra novas plagas, abrindo novos territórios, aprendendo algo útil?   Nada disso. Ele está viajando para o passado a fim de tentar pegar o que não teve.   Dessa viagem ele não traz novos objetos e descobertas.   Dessa viagem ele traz bolor, rancor, estagnação e o seu fruto maior: a queixa e a infelicidade.   Mas, veja bem, não vamos crucificar quem não quer viver o melhor de hoje porque quer ser vítima. Ser justificado pelo passado também tem seus ganhos inquestionáveis.   Há o que Freud chama de “o benefício secundário da neurose”. Gente sempre doentinha, que todos ao redor sabem que se agarra à doença e que, no fundo, não quer se curar, tem seus ganhos.   Gente sempre mal humorada, que deixa aquele clima pesado e tem o poder de ver todas as carinhas ao seu redor amedrontadas, feito “galinha que queimou o pé”, com medo de mais uma cena, também tem seus ganhos.   Eles ganham a compaixão e a assistência, ou a sujeição dos outros.   Para vivermos a construção presente sem a desculpa do passado, corremos um risco grande de sermos felizes, o que é assustador, porque felicidade é sair da normalidade, é suportar a nossa diferença e as nossas qualidades, e isso incomoda muita gente.   Já perceberam que o sucesso – e ser feliz é um deles (talvez o maior) – é solitário e que o sofrimento, este sim, é solidário?   Ok, se a tragédia chega e todos se juntam para ajudar, essa é, a meu ver, uma das 7 maravilhas subjetivas do ser humano. Mas é pura burrice ficar reeditando uma dor para obter os benefícios da aceitação dos outros. Há a deliciosa possibilidade de se ter também o prazer de, sozinho, curtir o que se é, sem o aval do outro.   A vida passa, queira você ou não. Se a sua tiver a graça que você puser nela, bom pra você, porque senão ela passará sem graça mesmo, e ninguém vai lhe salvar desse destino – construído por você, apaixonado pelo passado, adorando comida embolorada.  

Eu sou normal?

Esta era uma pergunta muito comum nos consultórios de psicanálise há alguns anos.   Assim era traduzida a angústia de se sentir estranho e diferente.   Mas, estranho e diferente em relação a quê?   Em relação a um padrão, ao jeito que era o ideal que perseguíamos para nos tornar parte de uma igualdade “normal”.   No mundo padronizado as pessoas tinham medo de serem diferentes, pois o risco era grande sempre que aparecesse nossa cara, nosso jeito único de ser.   Era uma lógica que funcionava desta forma: mostrar-se diferente provocava um risco de desaprovação e consequente exclusão – morte social e morte do sentimento de identidade, pois ela só existe sendo confirmada pelo outro. Esse era o fato terrível: mostre sua diferença e será banido porque o grupo pode ser destruído, esfacelado, pelo diferente.   O estranho é que esta pergunta desapareceu nos últimos anos de minha prática. Ninguém mais pergunta se é normal. Eu diria que as pessoas já estão imersas nesse novo mundo que eu chamei em outro artigo de pós-edípico, mesmo que não saibam teorizar sobre o fato. Se assim não fosse, continuariam com a mesma pergunta.   As realidades são únicas. Cada um vê o mesmo fato de maneira diferente. As pessoas “viajam na maionese” ou, para usar uma expressão nova, “vivem no Império Brizantino” e tudo bem, é assim que somos.   Jacques Alain Miller – o grande analista francês que estabelece os seminários de Lacan – afirma com naturalidade a frase: “Todo mundo é louco, todo mundo delira”.   Quando Gilberto Gil e sua filha afirmam numa propaganda que “ser diferente é normal”, eles nada mais fazem do que marcar as novas bases de uma nova era nos modos do laço social, de como as pessoas convivem.   Há uma falta de ordem no momento atual que faz com que muitos busquem abrigo em crenças asseguradoras do tipo “vou perguntar ao pastor”. Elas dão a segurança que antes as regras estritas ofereciam cobrando em troca apenas a obediência.   Hoje obedecer é mais difícil. Crer cegamente é mais difícil. Há os insistentemente enceguecidos, que não só voltam ao mesmo caminho que se mostrou exaurido como o fazem com a intensidade dos desesperados, agarrando-se à última tábua de salvação.   Sem correr para trás assustado, dando conta de usufruir desse nosso tempo com menos amarras, podemos – por exemplo – parar de brigar com o jeito do outro ser. Como mostra a história do marido que, irritado com a “mania” da mulher de gostar tanto do mar, brigava toda a vez que ela começava com o comichão para ir à praia. Era briga na certa porque o marido “não entendia” o porquê da tal necessidade sem pé nem cabeça.   Não por acaso – porque só a um sujeito do século 21 ocorreria tal solução –, o filho adolescente vira para o pai e diz: “Pai, o senhor já sabe que está escrito no manual de uso da mamãe para mergulhar em água salgada de 6 em 6 meses que o produto vai funcionar bem. Siga as instruções e para de brigar com a realidade porque a experiência já demonstrou que é assim que funciona”.   Nem tudo se entende. Aliás, muito do outro de nós mesmos não se entende mas se pode curtir, rir, mandar ver, seguir e viver. Desta forma também funciona.   Hoje pode-se fazer um grupo, sem que ele seja unido numa igualdade artificial e fora de cada um. Podemos estar juntos, unidos por afinidades parciais, situações momentâneas, arranjos oportunos e válidos. Enfim, podemos nos unir pelo que nos toca e nos interessa sem que tenhamos que abdicar do que somos.   Nossas esquisitices não são mais pecados contra uma pretensa igualdade. Os seres humanos não vão se destruir se forem diferentes. E, pelo fato de não se mutilarem, vão, isso sim, serem mais felizes e mais amorosamente cuidadores de si, do outro e do mundo que compartilhamos.  

O casamento por amor

Que os franceses chamam lindamente de “marriage d’amour” – casamento de amor. O “nosso” casamento por amor enfatiza a escolha (por amor ou por interesse, por covardia, por sujeição, etc) e o francês o conteúdo (cheio de amor e não de obrigação, de compromisso, etc). O casamento por amor nem sempre existiu. Afirmativa que nos parece difícil até de imaginar hoje. Para relembrarmos basta olharmos um pouco para trás. Para nós de meia idade, provavelmente a maior parte de nossas mães tenham escolhido seus maridos. Quanto a nossas avós algumas, talvez não muitas. Voltando mais um pouco, vamos ver quando isso começou. Na Idade Média as pequenas comunidades tinham um poder sem limites sobre cada membro do grupo. Por isso os casamentos eram decididos em relação às necessidades dos mesmos. Para associar tais famílias ou reunir tais parcelas de terras. Para sobreviver com seus interesses acima de tudo a comunidade se apropriava do poder de escolher pelas pessoas porque o fito era manter a existência da dita comunidade. A cada um era dada a tarefa de vigiar o vizinho mais próximo para ver se ele não estava saindo da linha e fazendo algo fora do interesse grupal. Parece um início plausível da fofoca sistemática que perpassa até hoje a vida de quem é infeliz por não fazer o que quer e tem inveja e ódio de quem consegue. Reflexão a parte, voltemos ao tema com um exemplo arrepiante: o marido traído pela esposa a qual não soube “segurar” era arrancado de sua casa sob tremendo barulho da multidão enlouquecida que, batendo caixas e gritando, o colocavam em cima de um burro com o rosto virado para trás jogando sobre ele todo tipo de comida podre e fétida. Ia o triste cortejo espancando e escarnecendo o pobre diabo até os limites da cidade retornando à casa do dito cujo, deixando-o de volta coberto de vergonha e escárnio. Era um exemplo inesquecível para quem afrouxasse a vigilância e obediência. O tempo passou, algumas coisas mudaram, outras nem tanto. Há quarenta anos atrás, os pais vigiavam ferozmente a virgindade das filhas (não se escandalizem os mais novos – acreditem – isso acontecia bem aqui). A mãe vigiava para mostrar serviço para o pai, pois, caso a tragédia acontecesse, ele arrasava com a mãe descuidada, enquanto a comunidade arrasava com o pai que se tornava um fracassado social. Dizia-se “A filha do seu Mário se perdeu, ele falhou.” O Pai dizia para a mãe “A sua filha se perdeu, você falhou”. E a filha? A que quis usar o seu corpo como desejava? Virava lixo… e não tinha recuperação não. Esse horror não está muito longe. Hoje graças ao fato das mulheres terem, depois da década de 50, começado a se sustentar do seu próprio trabalho, passaram a ser respeitadas cada vez mais. A sociedade nova precisava de consumidores com dinheiro e não mais de pessoas obedientes a projetos comuns. Esse tipo de mudança, dentre outras, é que pode nos trazer históricamente onde nos encontramos hoje: escolhendo livremente nossos parceiros. Podemos ter namoridos, esposas gostosas que não deixam motivos para se pular a cerca por não dar conta de se juntar a mãe dos nossos filhos e a amante. Podemos nos dar ao luxo de sermos amigos de nossos cônjuges porque não dependemos mais do que eles fazem para sermos avaliados pelos outros. Estamos num mundo em que cada um de nós responde pelo que nos acontece. Não é mais “Olha só o que o filho, a mulher, o marido, a filha de fulano fez”. Agora é: “o/a fulano/a fez, bom ou ruim pra ele/a”. Tem muito menos gente infeliz no mundo para nos vigiar em nossa felicidade. O casamento de amor e por amor é uma das grandes construções da história da humanidade. Que bom! E por isso mesmo, feliz dia dos namorados que a história está lhe dando.

E Neymar chorou…

Aqui está uma analista que não tem o menor apreço por futebol e que vai falar de um jogador… e de um que chorou! Vi – por acaso, diga-se de passagem – a cena da despedida de Neymar do Santos e confesso que não resisti à vontade de compartilhar com vocês o que em mim ela suscitou. Comovente, impactante, sei lá… me tocou… profundamente. Depois de seu discurso em catalão, deixando os próprios torcedores nativos ensandecidos, não me segurei mais. Não dá pra segurar: explode, coração! Gente, Neymar deixou companheiros e amigos com os quais construiu sua história não somente de jogador, mas também de ser humano, porque para o adulto a profissão é a sua maior marca identitária. Quando vamos nos apresentar falamos “quem” somos: professor, dentista e tc. Foi-se o tempo em que se dizia que, pra conhecermos bem e verdadeiramente alguém, era melhor não saber a sua profissão, como naquela historinha que já ouvi de que as verdadeiras amizades são as de infância e adolescência porque, quando crianças, não temos amizades de “interesse”. Hoje, porém, num mundo de escolhas, a escolha profissional que alguém faz fala sim de quem ele é. A profissão forma o homem – essa é a idéia. Então aquele menino recém-adulto se despede de seus companheiros de crescimento e seu choro nos comove porque sabemos que ele tem tanto, tem tudo o que o dinheiro pode comprar. Mas dinheiro não compra companheirismo, não compra uma história escrita no dia a dia. História longa que não se encontra à pronta entrega pra se comprar. Vejo aquele rosto sempre brincalhão, feliz, moleque, a própria imagem de quem faz o que gosta e curte, naquele momento com lágrimas descendo incontroláveis, escorrendo pelo queixo, pela boca, caindo na camisa. O que pode nos transmitir o choro de um menino-homem que tem tudo o que a maioria das pessoas sonha ter? O que será que ele não tem? Ah, mais dinheiro. Lá ele ganhará muito mais? Aí ele chega lá e diz que está realizando um sonho (olha o menino que não deixou de sonhar). Ele fala com o coração e isso inflama a multidão. Ele é desejo. Quantos de nós já deixamos algo precioso e fomos atrás de outra coisa que naquele momento se fazia mais preciosa ainda? Não nos acovardamos no que as pessoas iriam pensar. Se iriam se sentir rejeitadas por nós ou dizer que estávamos cuspindo no prato que tínhamos comido. Que estávamos nos vendendo. Esse brasileirinho está dando um show de amadurecimento em saber equilibrar o que deixa e o que abraça. E ele convence. O seu desejo particular faz com o que o “perdoemos” por nos deixar. Não é pelo vil metal, é por desejo. E pelo desejo vale. Meus leitores me desculpem o mico de, sendo uma completa ignorante do assunto, falar de futebol. Tem um atenuante: não falei de futebol mas de desejo. Quero mesmo falar do lugar daquele que não sabe mas sente. A esc olha de Neymar, da maneira como ele viveu esse momento, tomo como o maior exemplo que pude ter ultimamente da grandeza que é ir atrás de seu próprio desejo, pagando-se o preço, mas vivendo o que se quer viver. Dinheiro não geraria toda aquela emoção. Ninguém me convence do contrário: aquilo é desejo na sua forma mais pura. Quando aqui na coluna escrevo de novo e de novo sobre os valores que estamos construindo no século 21, o choro de Neymar é uma vitrine do que tento clarear. Ele chorou por deixar seres humanos significativos ao seu redor e exulta por estar adentrando ao seu conto de fadas. Estamos num mundo em que, segundo a psicanálise, os seres humanos vivem um tipo de laço social que leva o nome de “novo am or” –  o mundo onde o outro ser humano é o bem mais precioso da vida. Eu diria que Neymar vive isso e é essa a razão de todo o seu charme e sedução.