As coisas acontecem ou não acontecem em nossas vidas, e quem é o grande responsável por isso?
Posso até escutar o coro de vozes dizendo: “A gente mesmo, é claro”.
Tem muita gente, mas muita meeeeesmo, que não concorda com isso de jeito nenhum.
Quem são eles?
Pertencem a várias categorias das quais forneço agora a listinha. São eles: os queixeiros, os expliqueiros, os justifiqueiros, os tira-o-deles-da-reteiros e, mais disfarçados, mas não menos terceirizadores da vida, os tarefeiros.
Partamos para a definição das categorias: os queixeiros, como indica o “prefixo queix”, formam toda uma imensa gama de derivados: queixoso, queixume, queixas, queixar. Será que queixo tem alguma ligação? Acho que tem. Fico imaginando um queixoso batendo o queixo – não de frio – mas pelo fluxo rápido e continuo de suas intermináveis queixas.
No dicionário encontrei significações conhecidas como reclamar e lamentar-se e outras surpreendentes: ato de convencer pela palavra, ludibriar, ter lábia. Fez muito sentido porque o queixoso é aquele que tenta convencer a todos, para convencer a si mesmo, de que ele não tem nada a ver com o que lhe aconteceu. De que é vítima da ação ou da falta de ação de alguém.
Os expliqueiros pertencem à categoria dos que tiram da cartola milhares de explicações sobre o porquê disso ou daquilo: “O trânsito estava terrível hoje”. Como se não soubesse desde sempre – e ele não pudesse ter feito algo para driblar as circunstâncias tão conhecidas.
Devo confessar que tenho dificuldades em distinguir os justifiqueiros dos expliqueiros. Parece que são híbridos: o justifiqueiro usa as explicações para se eximir e o expliqueiro se justifica ao explicar. Porém, os dois buscam sempre e inexoravelmente atingir o mesmo fito – não se responsabilizar: “Eu não tenho nada a ver com o desenrolar dos fatos”. Terceirizou a sua capacidade de escolha.
E por falar em desenrolar dos fatos, cadê o culpado? Justifiqueiro e expliqueiro que se prezem acham sempre o culpado. Terceirizou a sua potência.
O gênero tira-o-dele-da-reteiro é o que apresenta fortes contornos de covardia diante da vida. Também terceiriza a vida dizendo que não é com ele. A sua covardia, o medo de assumir, de criar, de correr riscos e dizer “topo, é comigo mesmo”, o deixa protegido de viver.
Ser salvo da morte… muito bom! Ser salvo da vida… burrice!
Estamos aqui para viver ou o quê, afinal?
Ah! Tem muita gente que, ao invés de viver, busca, em manobras cegas e ininterruptas, fugir da morte. É o medo do câncer, da queda do avião, do efeito estufa. Ou o medo da opinião dos outros, o horror à maledicência e à desaprovação social, que também é uma morte.
O tal sujeito passa todo o seu tempo de vida fugindo da morte e dos riscos. Tão preocupado com ela que ela está sempre junto dele, e a vida fugindo pela janela. Esse terceirizou a vida para a Dona Morte.
O último tipo que terceiriza a vida é mais disfarçado, o tarefeiro. É aquele que não trabalha por prazer, não se diverte com os desafios, é mal-humorado diante das dificuldades que promovem nosso aperfeiçoamento e experiência.
Nem sonham que é possível criar, inventar, fazer de maneira nova o mesmo. Nunca lhe passou pela cabeça que um dia jamais é igual ao outro e que, portanto, a rotina está na maneira que olhamos e executamos os atos para viver.
Sem se responsabilizar, não se vive a própria vida, ela fica terceirizada.
O que é uma vida terceirizada?
É aquela que não sou eu, mas o outro que fez isso ou aquilo comigo, que não me deixou, que não me ajudou, que me atrapalhou.
Não terceirizar a vida é se responsabilizar pelas escolhas e consequências do que nos acontece. Com isso, degustamos o doce e o amargo.
Simplesmente porque escolhemos viver e não queixar, explicar e justificar.