Recalque é o que mesmo?

Segundo Freud, existe no sujeito um conflito entre o que ele quer e o que ele deve querer. Isso se manifesta em nossas vidas de maneira muito invisível. As pessoas não veem como as situações do dia a dia e até mesmo o rumo que tomam nossas histórias de vida têm a ver com o funcionamento do recalque. Tentando clarear um pouco: um amigo teve seu primeiro filho e, no fundo, esperava que ele fosse um grande sucesso. Afinal, descendia de um homem muito inteligente e bem sucedido e que dava à cria as melhores oportunidades. O filho cresce, não estuda, não segue nenhuma carreira específica e de bico em bico vai levando a vida no mais ou menos. O que teria causado tamanho desvio de rota? Coisas do mundo emocional… É que esse pai tinha, em sua infância, sido muito disciplinado pela mãe, talvez um pouco em excesso, já que ter a justa medida não é atributo comum entre os humanos. E por isso o que queria para o filho era que fosse poupado de esforços maiores. Que o filho nunca sofresse o que ele mesmo tinha sofrido na infância. Assim, não deixou que o filho se esforçasse para se tornar o que poderia na vida, mas ao mesmo tempo esperava os resultados. O que o pai fazia com uma mão, tirava com a outra. E onde mesmo é que está o recalque? Na cegueira do pai, que não via o quanto poupava e justificava o filho devido a um recalque do seu próprio desejo. Esse pai não podia confessar: ele detestava esse aspecto de sua infância e desejava o contrário para o filho. Lógico que se ele admitisse claramente o seu desejo não haveria nenhum drama, nenhum enigma do porquê esse rapaz não decolou na vida. O pai não sabe que ele também – e é isso o recalque – queria duas coisas para o filho: que fosse um grande sucesso e que não se esforçasse e nem tivesse disciplina na vida. Samba do crioulo doido. Sim, mas nossas famílias estão marcadas por histórias parecidas. É a mãe seriíssima, fechada e compenetrada que tem uma filha fútil e vulgar. Quando examinamos mais de perto vemos que aquela mãe nutre grande rancor pela maneira como foi criada para a seriedade e imperceptivelmente passa para a filha que é horrível ser séria. E passa isso com tanto excesso que a filha bate no outro lado da escolha. Ou o sexto filho de uma mãe que queria demais uma menina. Não admitindo o quanto não aceitava mais um filho, deixa escapulir o quanto gostaria de ter uma filha. Ele então se torna uma menina dentro de si para o desejo da mãe. Quando crescido se torna travesti, uma das formas de ser mulher para alguém. Ou ainda a quinta filha de um casal que queria muito ter um filho. Ela se torna uma linda mulher, adorada pelos homens e que fracassa nas relações porque, ao se ver amada, estraga tudo para ser novamente fracassada enquanto mulher. São exemplos resumidos e insuficientes, mas esclarecem um pouco mais a força que têm em nossas vidas os desejos não reconhecidos e assumidos. O que vira problema é que o sujeito busca a realização cega do desejo inconsciente e faz coisas ilógicas, conflitantes e excludentes. Essa é, sem dúvida, a causa de muiiiito sofrimento desnecessário em nossas vidas. Negamos o que queremos e ao mesmo tempo propiciamos a sua existência. O que fazer? Escutar o que as pessoas ao nosso redor dizem a respeito dos nossos excessos, que não notamos, mas nossos amigos e parentes sim. E eles falam, mas somos não só cegos como também surdos. Quando alguém lhe chamar a atenção para uma repetição, um jeito de ser meio pendendo sempre para o mesmo lado, desconfie… de você. Pode ser que você esteja cegamente lutando por um desejo que não reconhece e que é o impedimento de alcançar o que realmente mais quer.
Mostrar que se está feliz pode?

No mundo edípico – do século 20 – não podia não. Para ilustrar o fato, conto a história verídica de uma amiga, hoje com mais de 80 anos. Certo dia ela me disse que acabara de se dar conta da importância do comentário de uma tia que, durante uma festa na roça, ao ouvi-la, então uma jovenzinha de 16 anos, dando uma risada de felicidade, disse: “Ela parece uma sirigaita”. “Nunca mais fui a mesma”, confessou-me. “Passei a vida toda com medo de que me achassem arreganhada e fútil. Fui sempre vista como fechada e séria. Quantos momentos de riso e alegria deixei de viver!” Em contrapartida, numa noite dessas, vi uma amiga fazendo malabarismos para fotografar um pássaro pousado perto do carro cheio de crianças entusiasmadas com a aparição. Eu, de lado, podia ver o sorriso em seus lábios, a satisfação de uma peraltice. Iria postar o momento. E olha que nem era um falcão maltês. Mas aquela corujinha banal mereceu tratamento especial. Quantas coisas triviais postadas nas redes! Pequenas coisas do dia a dia que recebem uma dose extra no prazer de mostrar, de se fazer ver, que em si é também um prazer. Antes, isso seria criticado e desaprovado – como ainda é pelos guardiães do passado, os chatos-infelizes disfarçados de intelectuais preparados para ler o mundo ou pelos ignorantes sabições de plantão, vulgos “donos da verdade”. Nosso mundo de hoje promove o mostrar-se feliz. Excessos sempre existirão. Forçação de barra para mostrar o que não se é faz parte. Mas, apostar na transformação é o fito. O fato que aqui se discute é que o mostrar-se feliz com as pequenas coisas do cotidiano valoriza a vida que não é um palco iluminado no qual damos shows luxuosos, mas que tem os luxos da vidinha bem vivida e valorizada. Coisas banais, porém, coisas da vida, do palco da vida cotidiana, se quiserem, já que esse é também um palco onde vivemos nossas ficções, mas não o palco de Ivete Sangalo, onde se pagam milhões pela performance elaborada e cara. Porque no palco de nossas vidinhas cotidianas vivemos nossos personagens: mãe, marido, profissional, amigo… Fato é que esse pequeno palco está sendo valorizado. Mostramos a foto de um belo bolo que fizemos e os amigos curtem ou comentam. Quer dizer: “Fui visto, fui aprovado, curtido, festejado”. E isso é ruim? Paremos com o preconceito de dizer que se exibir para o seu grupinho aplaudir é de uma pobreza inominável. Afinal, um estudioso, um cientista, não se exibe para os seus pares e busca aceitação e aplauso? Aí fomos longe demais: comparar uma produção séria e de peso, como uma descoberta científica que vai melhorar o mundo, com coisas pequenas e irrisórias?! É isso mesmo: podemos nos orgulhar também das pequenas coisas. Essas pequenas coisas, como propagar a receita ou entusiasmar as pessoas a fazerem seus belos bolos, também fazem o mundo melhor. Pequenas coisas valorizadas, compartilhadas, podem, sim, fazer nosso planeta melhor e mais bonito. Orgulhemos-nos das grandes, mas também das pequenas coisas porque são elas que povoam o nosso cotidiano, e é com ele que contamos para nos nutrir. Nutramo-nos mutuamente das pequenas-grandes coisas e sorriremos mais, nos empolgaremos mais, coloriremos mais o mundo e isso já é muito. Nunca ganharemos o Prêmio Nobel, mas ganharemos as chamas de entusiasmo participativo do nosso próximo. Chamas que se juntarão para fazer uma grande fogueira que aquecerá o nosso coração tão deserto e tão só. Mostrar um momento de felicidade não é mais pecado, é uma tentativa de dar mais consistência ao fugidio de cada momento, obtendo a participação do outro pela palavra: curti, vi, achei isso ou aquilo.
E é a sogra que leva a fama…

Fala-se muito mal das sogras. Parece que ninguém olha de lado e vê a participação do filho-comandado na questão. É… atrás de uma sogra poderosa sempre tem um(a) filho(a) banana. Mas, continuando o assunto desagradável, façamos uma lista dos defeitos que se atribuem à sogra: intrometida, palpiteira, censuradora, vítima, chantagista, possessiva e outros. Faço o convite para listarmos os atributos do filho, homem ou mulher, que, não vivendo sua condição de adulto, continua sendo o filho-teleguiado por mamãe. No fundo é o(a) filhinho(a) “querendo” continuar a ser criança e ter mãe. Para a psicanálise mãe não existe, existe a função materna que é: pensar pelo filho, adivinhar o que ele precisa e quer porque o bebê não sabe de nada mesmo. E isso é muito bom. Quanto mais uma mãe (de um bebê – bem entendido), sabe no lugar dele, menos ele é frustrado em excesso e pode crescer com mais segurança. Porém, para o horror das mães-magestades (não todas, só aquelas que se agarram ao bebê, quer dizer, ao poder), esse tempo em que nossos filhos são bebês passa e aí vem a necessidade de uma outra função: a paterna. Função é a atividade própria de um cargo, é uma serventia, uma utilidade em uma determinada situação, e a função paterna é a que se segue à função materna – ou pelo menos é o que se espera, se as coisas evoluírem. A função paterna é, ao contrário da materna, mostrar a potência que o filho tem. É convocar o filho a fazer por si e para si. É agir de tal forma que provoque no final a capacidade do filho se ver como sendo potente. Se são funções, são lugares que podem e devem ser ocupados por vários. Todo adulto que se arvora em parasitar a mente e os atos de um ser humano no momento em que ele já poderia ter aquela autonomia está fixado na função materna. A função materna é constituidora. Quando passa do limite da necessidade, torna-se debilitadora. É o excesso que é danoso. A função paterna é fortalecedora. Uma precisa da outra para que a tarefa de ajudar uma criança a virar adulto possa ser bem sucedida. Ok, ok… mas onde é que fica a sogra nessa história? Onde? Fixada, ora! Feito uma estátua no pedestal de mãe-eterna. Onde deveria haver uma função vital, importantíssima no começo de nossas vidas de humanos, fica uma eternização. Eternização de quê? Da mãe-fóssil. Porque, se ela evoluído tivesse, teria começado a fazer a função paterna. A se comprazer com os vôos e audácias dos filhos. E exatamente por não ter se fossilizado na posição de mãe, nem conseguiria ser a sogra-malvada, quer dizer, bruxa malvada. Sogras que evoluíram da função materna seriam amigas, exemplos de sabedoria, de vida vivida, para o próprio filho(a) e também para o genro/nora. Mas não nos esqueçamos o que parece óbvio: só tem mãe se tiver filho e filho-bebê. Porque mãe é só de bebê. Mãe de adulto é um outro adulto – muitíssimo especial, sem dúvida, mas um adulto. Então, filhos, depois de terem crescido, deixem o infantilismo. Mãe merece o respeito que elas conquistaram por todos os seus atos e não porque levam o nome de mãe. Se os filhos, homens ou mulheres, tomarem as rédeas de suas vidas e seus casamentos, o mundo será poupado de ter sogras. Adultos serão adultos e não criancinhas cuidadas até a morte pela mamãezinha prestimosa. Abaixo às sogras? Discordo. Abaixo, isso sim, aos filhos -bananas, desejosos de não crescerem jamais, que deixam as sogras invasivas reinarem sobre seus casamentos. Crescer é estar só na vida. É estar sobre suas próprias pernas e não carregados no regaço de mamãe como quando, de fato, não tínhamos pernas fortes o suficiente para caminhar. Sogra só existe na vida de quem não cresceu.
Apertem os cintos, o piloto sumiu

A mulher no mundo patriarcal era o gênero desvalorizado. Dependia de ter um homem para ter valor. Tinha que se virar de múltiplas formas para atender ao desejo daquele homem que a possuía. Tinha as exigências universais de cuidar da casa e dos filhos, ser a rainha do lar e fazer sexo quando seu amo e senhor assim o desejasse – as obrigações conjugais. Mais ainda: tinha – e isso é muito confuso – que satisfazer os desejos singulares de seu marido. Desejos cuja origem era a infância. Desejos neuróticos de ter o que não teve ou de continuar a ter para sempre o que já passou da hora de acabar. Ou seja, cada esposa tinha que também de ser a mãe de seu marido, tentando atender demandas incompreensíveis – porque de outra cena, de outro tempo e sempre com o final infeliz porque a frustração é certa. Ninguém consegue atender ao desejo de gozo sem limites de uma criança disfarçada de adulto, e ainda mais dona do brinquedo. Coitada daquela mulher, uma infeliz submetida ao outro. Coitado do homem também. Sim, porque, à sua maneira, o homem era submetido ao desejo de um Outro – a cultura – que, sendo patriarcal, o valoriza mas cobra obediência irrestrita. Existe mesmo diferença? O gênero feminino era escravizado ao gênero masculino, mas os homens, por sua vez, também eram escravizados às regras de um Pai intransigente, ou seja, à cultura que queria a organização e não o prazer. Falando em prazer, onde é que ele ficava? Cada um se virava como podia: vivendo e escondendo. O homem podia ter a “mãe” em casa e a amante fora. Pulava a cerca – porque tinha habeas-corpus – para escapar da prisão sem prazer para uma festinha temporária. Mas voltava sempre para assumir o seu posto. Ou então bebia, bebia grande parte do tempo livre do trabalho, bebia com os amigos, brincando de ser criança, livre dos constrangimentos, férias a que tinha direito nos fins de semana. Isso para os mais “pidões”. Porque os que se submetiam obedientemente às cobranças sociais tinham que ser bons filhos, bons maridos e bons pais, trabalhar muuiiito, ganhar dinheiro… E aí morriam cedo, é claro. Mas até para morrer morriam dentro do padrão. Morriam cedo, deixando a família “bem”, quer dizer, com dinheiro para não pesar materialmente aos outros homens da família, que já teriam muito trabalho em gerir os bens pela viúva que nada sabia das questões da vida pública. As mulheres obtinham prazer nas infinitas reclamações, nas insatisfações eternas, nas doenças recorrentes, fazendo-se de vítimas sofredoras, sacrificadas pelos filhos e pela família. Felizmente esta fase do nosso desenvolvimento social e histórico está com os dias contados. Porque, com a queda dos ideais, a falência da crença nas lideranças, nos grupos, na pátria, na organização social que tínhamos como capaz de cuidar de nós, ficamos sem pai nem mãe. Expressões como “todo mundo tá meio louco”, deprimido, “panicado” nos descrevem muito bem. Por outro lado tem tanta coisa nova acontecendo, tanta invenção, as pessoas querendo viver bem, viajar, descobrir, curtir a vida antes da morte, fazer isso e aquilo antes de morrer… O homem se libertou da sujeição ao social e a mulher, do homem. Agora podem ser amigos e amantes, porque livres. Se não tomarmos as rédeas e pilotarmos cada um o nosso avião, ele vai cair; porque estamos num mundo sem piloto externo, sem ideais, sem padrão. Assuma o leme que o piloto sumiu. No século 21 não temos a quem chamamos de culpado pela nossa infelicidade ou por as coisas não darem certo, a não ser nós mesmos. No nosso século não dizermos: “Apertem os cintos, o piloto sumiu”, apavorados e submissos. Mas sim: “Levantem, façam alguma coisa, peguem o leme, que piloto não há.
O que é uma obra de arte

Uma obra de arte é algo da intimidade da pessoa e que, ao ser colocado no mundo, toca as outras naquilo que têm de mais íntimo. Penso que cada um de nós é uma obra de arte. No século 21 temos as condições históricas para funcionarmos como artistas. Ou seja, aqueles seres privilegiados que proclamam sua singularidade, o seu jeito único de ser ao mundo, e ainda por cima se sustentam sendo o que são. Não nos esqueçamos que o nosso tempo dá boas vindas à criatividade, à inovação, ao diferente e, portanto, à unicalidade de cada um. No entanto, jogamos tantas obras de arte no lixo. Isto é, a meu ver, o que promove a pobreza no mundo, a pobreza das relações, principalmente. As pessoas nos dão belos presentes, que são suas jóias e obras de arte: um sorriso, o brilho no olhar, uma frase tirada do fundo de sua experiência. E nós? O que fazemos nós? Nem notamos. Jogamos no lixo. Dia desses tive uma história banalmente rica. Estava esticada na cadeira da dentista, que habilmente consertava um dente quebrado. Com aquele avental sobre mim, a boca cheia de objetos diversos entrando e saindo, e eu ali completamente impotente. De repente, a mão da Alessandra, a auxiliar, com imenso carinho e delicadeza, aliviou-me retirando um tufo de cabelo que me caía sobre a testa. Aquela mão delicada sobre minha fronte me trouxe imenso conforto naquele momento. Não bastasse isso, de vez em quando ela ajeitava meu avental ou secava uma gota d’água na bochecha. Isso é belo. Isso é arte. Arte de viver, respeitar e amar o ser humano que precisa da gente em dado momento. Silvia, a dentista, com grande preocupação com o meu conforto e com a perfeição que exigia de seu trabalho, era também um tesouro, que eu registro, reconheço e agradeço. Ou o dr. Rafael, que, na manhã em que meu marido dormia na UTI, me viu no corredor, chegou com um sorriso, pegou minha mão, me olhou fundo nos olhos e disse que estava tudo bem. Eu quis pular em seu pescoço ao agradecê-lo. O que acabei fazendo, sem conter as lágrimas no aeroporto, num encontro casual em que chegava com sua mulher grávida de sua filhinha Júlia. Dinheiro paga o profissional. Nada paga o cuidado humano respeitoso e o carinho. Retribuo jogando essas experiências no mundo para animar a galera a parar com esse desperdício de obras de arte. Quantos presentes ganhamos no dia a dia e não registramos nem degustamos? É o caixa que faz um gracejo, o motorista do carro que te dá passagem no corre-corre… Obra de arte é o ser humano lutando para viver feliz sabendo que pode morrer a qualquer momento. Que pode perder um ente querido, ser visitado pela desgraça. Somos todos artistas da arte de viver. Não nos esqueçamos de dar a isso o justo valor.
O que mantém as pessoas apaixonadas?

Li, há alguns anos, um artigo sobre casais apaixonados e que estão juntos há muito tempo. E olha que esse é um encontro difícil de acontecer: paixão e tempo longo. Pois bem, resultado da pesquisa: uma característica que perpassava todos os casais entrevistados era o fato de que os cônjuges tinham uma imagem do companheiro melhor do que a que os amigos, com o olhar mais objetivo, tinham dele. Quer dizer que o amor é cego mesmo? Cego e otras cositas más, pois não só deixamos de ver defeitos como vemos qualidades que as outras pessoas ao redor não se dão conta. Qual seria o nome desse “a mais” que os outros não veem, mas que o apaixonado vê? Eu, que vivo apaixonada há 33 anos, sou a mais interessada em saber. Qual será o nome da aura que só um apaixonado vê e que não existe para os demais? Chama-se magia. Já ouviu falar? É ela que transforma um café com leite, pão e manteiga num breakfast no Plaza da Avenue Montaigne em Paris ou no Mandarin em Nova York. Magia é o que se sente com o coração, como diz o Pequeno Príncipe. A magia não está fora de nós. Não se compra magia vestindo Dior, nem tendo casa de veraneio em Saint-Tropez ou Miami. Magia é uma viagem dentro de nós mesmos. É degustar o que “de fora” trazemos para dentro. É como sorvemos os acontecimentos. Não é príncipe encantado, Brad Pitt ou Angelina Jolie que nos fará levitar na magia. É, isto sim, o que sentimos por nós mesmos. Não culpe o seu companheiro (a) de não ser merecedor de sua paixão. Se não for mesmo, seja corajoso(a) para deixar a relação sem conserto. Se não existe magia, é, muito mais frequente que seja incapacidade de tê-la dentro de nós do que do outro que não nos conquista. Tem gente que nem Deus dá jeito na infelicidade, nas cobranças e no rancor. São pessoas que estão sempre carregando na mão o papel das cobraças eternas do que você fez e reclamando o ressarcimento. Somos mortos, não gostamos de nós mesmos e esperamos a fada ou fado-madrinho com sua varinha mágica para transformar a nossa vida de sapo. Mas é o contrário, veja só. É você que tem que ter a sua varinha mágica e sair tocando os objetos do mundo para vê-los vivos e felizes como você. Magia é você saber que tem a varinha mágica das significações que você dá às coisas. Varinha que transforma drama em comédia, vitimismo em responsabilidade, fezes em adubo, cobrança em projetos e projetos em realizações. Magia só existe no coração de quem está livre de cobranças porque conseguiu se colocar numa posição na vida que lhes agrada e não tem nada a cobrar de ninguém. A magia de viver momentos deliciosos só é possível para quem acertou as contas consigo mesmo.
Para que mundo criamos nossos filhos?

A frase é conhecida e repetida de boca cheia por pais orgulhosos em demonstrar que não fazem parte do conjunto dos pais egoístas que criam os filhos para si. Bem, já que os criamos para o mundo, para qual mundo mesmo? Não se arrepie. A pergunta tem cabimento. Antes, os pais criavam seus filhos para o mundo do século 20, o mundo edípico – aquele com lugares marcados, com o certo e errado, com a segurança do adulto experiente que “sabia o que era melhor para os mais jovens”. Eles tinham que criá-los para entrar no conjunto dos iguais. Esse mundo gerava dois tipos de pais. Os primeiros ficavam ainda no lugar dos que têm que saber, engessando seus filhos em moldes sociais e deixando-os dependentes. São filhos obedientes e tristemente perdidos de si mesmos. Os bons meninos obedientes que nem chegam a saber do que realmente gostam para além de agradar aos outros. Os pais modelo século 20 geravam – e geram – também rebeldes sem causa. Eles se revoltam contra o saber paterno, mas não sabem o que pôr no lugar. Geralmente se dão mal porque não inventam, só aprenderam a obediência. Os pais culpados são o segundo tipo. Eles sentem um vago sentimento de que estão fazendo a coisa errada porque num mundo de ideais estamos sempre fazendo algo errado. Esses pais também geram filhos inseguros, porque protegidos pelo olhar solícito e culpado dos genitores, que sentem o desconforto de parecer que estão errando. Hoje já vejo pais que criam seus filhos para a autonomia. Sorriem de prazer ao ver os pequenos inventarem soluções para seus pequenos problemas e não posam de eternos mestres: “mamãe/papai-sabe-o-que-é-bom-pra-você”. Seus filhos não são crianças perdidas, mas crianças que vão construindo um caminho de descobrir o que querem, mostrando que é possível estar no mundo de forma nem obediente e nem rebelde. Seres que respeitam suas escolhas são necessariamente felizes, alegres. Seres obedientes e do contra estão, no fundo, contra o semelhante que os aleijou e fez mal. Esses não têm razão para ter ética, para amar o outro que lhe fez e faz sofrer. O mundo não edípico não tem “pré-conceito” do que é certo ou errado a priori porque isso depende de muitas circunstâncias. O que foi uma boa escolha numa situação pode ser péssima numa ocasião parecida, mas que, por um pequeno detalhe, fica muito diferente. É o savoir-y-faire – saber fazer a cada momento – que vai funcionar num mundo que é um canteiro de obras das relações. Num mundo de construção e de viver momento a momento o que se tem e que se pode mudar. Isso pode assustar ou ser prazeroso. Não há mais razão para se agarrar numa bússola quebrada que não aponta para o norte que não existe mais. Vivemos em rede, em trocas, em parcerias, em amizade. Os pais do século 21 vão sabendo o que é bom a cada momento, não são os guardiões do saber para os filhos. Eles criam filhos que, por terem pais felizes, seguindo o caminho que escolheram, são referências para que achem os seus. A regra “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não vale no mundo pós-edípico, que não é um mundo de “blá blá blá”. É um mundo de “mão na massa”, um mundo de causa e consequência, de fazer e colher rapidamente os frutos plantados. Não estamos num mundo no qual dá pra falar e não fazer porque o explicar para justificar já não tem o mesmo peso. O que tem valor hoje é o que se vive e não o que se fala. E filho que aprende vivendo a vida que os pais vivem crescem vigorosos para suas próprias escolhas e suas próprias construções autônomas. Pais inconsistentes, que falam uma coisa e vivem outra serão cartas fora do baralho no século 21. Se quiserem se assustar, se assustem. Mas façam alguma coisa para mudar porque o mundo já mudou.
Como não ser o Outro do outro

Na teoria psicanalítica lacaniana, chamamos de Outro Primordial o encontro com o desejo dos adultos ao nosso redor – principalmente e normalmente o da mãe, por ser a figura mais presente e, por isso mesmo, mais determinante da nossa vida. O desejo desse Outro Primordial (que é escrito em maiúscula) não é exatamente o que ele quer da gente, mas sim como ele nos vê, como ele nos interpreta: “Esse menino é tão quietinho”, “Ela vai ser a minha companheirinha de vida”, “Ele tem o jeitinho de médico” etc, etc. Saímos da infância impregnados do que o Outro “viu” em nós , interpretou de nós. Saímos da infância vestindo a roupa que o Outro nos deu, “sendo” o que o Outro disse que éramos. É vestido com essa roupa/interpretação dada pelo Outro que viveremos as relações amorosas. Então, se na infância eu era visto como irresponsável, por exemplo, o meu novo outro vai ser interpretado como sendo o velho Outro, aquele que me viu irresponsável (ou eu interpretei como). Desta forma, passamos a ser o espelho das projeções da imagem de si que o nosso companheiro tem. Ele nos armará mil armadilhas de forma que o final sempre seja o mesmo: “Você me acha irresponsável”. Situados que estamos a esta altura do artigo, cabe de novo a pergunta: como não ser o Outro do outro? Como conseguir sair fora da linha de tiro do nosso amado/a, tentando nos colocar como o Outro de sua infância, o Outro que o formou lhe dizendo quem ele era? Manobras úteis para que você, sendo o outro do presente, não seja tomado pelo Outro do passado: 1. Quando você for alvejado com afirmações descabidas, descontextualizadas, em momentos em que você já sabe que seu amor entrou no “túnel do tempo”, caia na gargalhada e confirme o absurdo. O sonâmbulo vai ficar chocado. 2. Faça humor negro. Isso vai deslocá-lo da certeza absoluta de que está vivendo hoje o que, na verdade, viveu no passado. 3.E o principal: não reaja em espelho, não faça par, pois se ele/a lhe acusa e você se sente acusado/a (isso é ser espelho), você confirma o ato do sonâmbulo. O contrário de se fazer espelho é se fazer um vazio: quando o outro lhe acusa e você faz outra coisa, dá atenção a outro detalhe, você o desloca de sua certeza. Digo mais: tente com todas as suas forças não ser arrastado pela piração do amado/a. Tente com todas as forças não ser o espelho que reflete e confirma a viagem na maionese do outro. Abaixo a neurose e viva a vida presente! Traga o presente, não avalize o passado, não faça render, corte, saia da cena, não fale, faça outra coisa. Mire para outro rumo e as coisas tenderão a mudar de direção. Porém, o grande instrumento para se conseguir não ser o Outro do nosso outro é conseguir se distanciar adequadamente: às vezes, um sutil passo para o lado e você deixa a batata quente (ou seja, a imagem falsa) que o outro lhe arremessa se esborrachar no chão, não tendo encontrado suporte para enganchar em você por causa da sua reação. Não seja o cabide das projeções do outro. Viva o presente e o passado virará passado. Não deixe o outro lhe enfiar goela abaixo as interpretações que ele construiu do mundo, da vida e do que as pessoas são. Desconfirme a fantasia dele/a e tenha a presença de espírito para não ser pego na rede das certezas neuróticas de seu amor. Ao não ser o eco da história do seu/sua bem amado/a, você pode, desta forma, inventar um novo discurso no qual vocês dois viverão a sua vida presente e não a terrível e trágica repetição do que foi bom ou ruim. Que o eco vire um novo discurso e invenção. Assim a vida sai da repetição mortífera e fica tão mais divertida!
Roubar fruta no quintal do vizinho

Você se lembra de que o cúmulo da audácia de jovens de uma geração atrás era roubar fruta nos quintais das redondezas? Era desta forma que testávamos os nossos limites, a nossa capacidade de atuar no mundo. A capacidade de transgredir, de impor nossa vontade, num faz-de-conta que está lesando o outro. Fazíamos isso para sentir alguma potência de interferir no mundo dos adultos, de sermos “mais fortes” do que eles. De desdenhar de suas cercas e de seus portões. Era uma brincadeira séria. Brincadeira de colocar à prova as fronteiras do que seria possível desrespeitar e ainda ter algum ganho: diversão, comer o fruto proibido, dar conta de arriscar. Existe um fenômeno psicológico que se passa com a criança no fim do primeiro ano de vida. Ela ataca a mãe para testar a realidade. Se a mãe não faz nada, a criança sente que ela nada provocou; se, ao contrário, a reação da mãe é por demais acentuada, a criança pode sentir que é destrutiva. A posição frutífera é sobreviver à agressão, mostrando, desta forma, que potência é diferente de destruição. Voltemos ao nosso mundo atual. Um mundo que confere cada vez mais poder ao indivíduo comum. O que temos visto são jovens “testando” seus limites de forma cada vez mais violenta: matando estranhos e parentes, incendiando escolas… E os pais, atônitos, se perguntam se deveriam castigar ou ignorar seus filhos. O “certo” e o “errado” não respondem mais, a priori, às questões do nosso tempo. Saímos da organização social em que funcionavam as respostas padronizadas e hoje temos de, a cada momento e de forma contextualizada, decidirmos o que é certo ou errado naquela circunstância. O mundo evoluiu e caminhou nessa direção. Tanto que, neste mesmo momento em que vivemos gestos de agressividade inusitada, vemos também jovens inventando formas de interferir no mundo, de redesenhá-lo, de colocá-lo mais a seu gosto. Eles nos surpreendem pela ousadia e pela autonomia com que o fazem. Conheci um grupo de jovens organizados espontaneamente que, ao invés de agredirem para mostrar seu desacordo com o mundo herdado de seus pais, ao invés mesmo de roubarem fruta no quintal do vizinho, vão de casa em casa pegando donativos e tomando para si a responsabilidade de distribuir livros, roupas, material escolar… E não só, mas de estudar e organizar a casa de quem receber os objetos. Doam objetos, mas também o conhecimento prático e intelectual que sua posição social privilegiada lhes deu. Renovar o mundo humano a cada nova geração é um enorme desafio. Desafio de organizar outros modos de distribuição de bens e de conhecimento. É uma aventura. É divertido. É um delicioso exercício de potência. O mesmo poder que temos hoje na ponta dos dedos para destruir temos também para construir. Construir e amar também dão potência. O prazer de se saber forte, capaz de fazer acontecer. Que diferença pode contar na hora da escolha? Que esse jovem aprendeu ou não a amar o humano, amar o outro, amar a si mesmo. Enquanto estivermos marcados pela necessidade de perfeição para sermos amados, estaremos impossibilitados de gostarmos do que vemos em nós, que necessariamente é imperfeito, feio aos olhos de um mundo que não aceita a diferença como bela. Se não gostamos de nós, se o mundo não nos vê e aceita, não gostaremos desse mundo. Não teremos uma relação de amor com ele. Já se amamos, queremos construir – assim como cuidamos bem de nossos amores. Nesse caso, o nosso objeto de amor será nada mais nada menos do que o mundo inteiro com tudo o que há nele. Como me disse certa vez uma analisante apaixonada: “Quero beijar as árvores, o céu, todo mundo na rua”. Ela estava, sim, apaixonada por um rapaz, mas também estava apaixonada pelo mundo!
Passando fome no banquete

As pessoas costumam dizer que quem procura a análise é porque está sofrendo. Recentemente ouvi de uma analista chamada Cláudia Riolfi uma afirmativa, no mínimo, intrigante: que alguém procura uma análise porque fugiu da festa da vida. Difícil de engolir porque, primeiramente, todos sabemos que a vida não é uma festa. Segundo, a gente não foge de festa. É a festa que foge da gente, que não acontece em nossas vidas. Nós bem que queremos! Mas festa, festa mesmo, das boas, só para os “few privileged” – os poucos privilegiados. Grupo dos quais, logicamente, não fazemos parte. Quem fugiu da festa se diz triste por tudo que lhe aconteceu e ainda acontece na vida. Se esconde atrás das palavras que lhes foram dirigidas, do desamor, da injustiça, de… um monte de coisas ruins. Não buscam satisfação própria porque estão ativamente implicados em corresponder às supostas expectativas alheias. Ao invés de se satisfazer, querem ficar bem na foto. O banquete está posto e eles viram a cara para o outro lado, fingindo que não têm fome nem sede. Agem como burros que negam que estão famintos de prazer, de alegria e de liberdade, imaginando o que os outros vão pensar. É verdade que a tirania social acha ridículo presenciar nosso prazer, que, em última instância, é nossa sexualidade. Sexo explícito? Não. Prazer explícito. Prazer que não necessita ser escondido entre quatro paredes por seu conteúdo perverso e inconfessável. Prazer que, por ser vivido, não se manifestará como rancor e mágoa por meio das maledicências e agressões a quem tem a coragem de vivê-lo. Não dá para comer a omelete sem quebrar os ovos. Satisfazer a expectativa social e ser feliz, muito frequentemente, não caminham juntos porque nossa singularidade não é mesmo o que o outro espera. O que é esperado é o conhecido e nós, se saudáveis formos – leia-se: se estivermos no fluxo da vida e não agarrados à “segurança” da fixidez e do conhecido -, seremos sempre uma surpresa. Quer dizer, um susto mesmo. Pouca gente desenvolveu o paladar para apreciar novos sabores o tempo todo. Porque a vida não para e nem nós dentro dela. Só quando estamos mortos, estado de muitos que nem sabem disso. Os zumbis dos quais tanto falo. Zumbis que abandonaram sua própria vida para viver outra, aquela aprovada socialmente. O que dizer a esses zumbis? Deixem seus corpos e almas terem fome em paz. Assumam que eles querem sim, ter prazer e alegria e busquem, corajosamente, os meios para dar a eles o que lhe pedem. Inventem, ousem fazer o que lhes agradam sem ter que explicar o porquê. Se não tiver nome, inventem um e enriqueçam o mundo com mais uma possibilidade para quem nele se reconhecer e quiser usar, como uma amiga que inventou o verbo “prazereirar”. É lindo ver o seu sorriso aberto e olhos brilhantes dizendo: “Gente, vamos prazereirar este texto!” Ler, comentar, refletir, mas prazereirar não existia. Agora existe, para o nosso uso e deleite. Ou seja, além de viver suas “loucuras”, a pessoa pode ainda inventar um nome para elas e depois pô-lo no mundo, e, veja bem, não é pô-lo no mundo para ser chamada de louca ou esquisita, mas para assim fazer parte dele. Trazer a riqueza do diferente e não a ameaça que dantes significava. Temos nossas fomes inomináveis, mas elas não são ilícitas. Elas são apenas só nossas, não vividas nem compreendidas pelos outros. Busquemos encontrar maneiras de atendê-las, de assumi-las diante do mundo, dando-lhes muitas vezes um novo nome ou usando os que existem de forma inventiva, que falem da sua “unicalidade” – palavra inventada por Danuza Leão em um dos seus artigos. Como diz a Riolfi: “A vida pode ser divertida quando não se fica tentando adivinhar as expectativas alheias para se fazer amar”.