Os olhos internos

  Ele era um homem “casado com o inimigo”. Uma mulher nada a ver com ele. Falava-me que em seu casamento tinha aprendido a sentir, na sua mais profunda acepção, o que significava a expressão “solidão a dois”. Em seus longos anos de casamento, ele com frequência e tristeza desviava os olhos ao ver casais em cenas de carinho e intimidade para não doer ainda mais o imenso buraco que tinha no peito. Lembro-me de uma história muito tocante que me contou em um dia de especial emoção. Disse que quando a solidão se anunciava maior ele se lembrava de um determinado casal que um dia vislumbrara ao longo de uma estrada. Estavam ele e sua distante esposa em viagem, confortavelmente sentados em seu carro luxuoso, quando ele, ao passar por um povoado desses no fim do mundo, à beira da estrada, viu um casal que andava ao longo do caminho vindo em direção ao povoado. Os dois caminhavam e conversavam animadamente, com os rostos sorridentes e os braços cheios de produtos que, com certeza, eles cultivavam juntos e vinham vender na feira de sábado. Enquanto seus olhos seguiam a cena, em sua cabeça se desenrolava o enredo de um grande desejo: o de ter uma “mulher companheira”. Quem dera sua mulher o enxergasse mais, vivesse com ele e com os filhos, ao invés de estar sempre ligada ao desejo de ser aceita pela própria mãe – com o coração na casa paterna, sem jamais ter assumido o seu lugar de mãe e mulher de um homem com quem havia casado para ter um lar, intimidade e companheirismo. Mas, Deus é pai e o seu dia chegou. Ele já havia se separado daquela com a qual nunca estivera junto e veio a conhecer uma outra mulher, cuja grande característica era ser uma pessoa companheira. Recebeu o presente que a vida lhe dava? Claro que não. Quando queremos algo com muita intensidade. Algo que desejamos de maneira muito marcante e que não alcançamos nunca, ao invés de pensarmos que somos azarados, começemos a desconfiar de nós mesmos. Muito provavelmente estamos vivendo uma “repetição neurótica”. Aquilo que transborda em nossa lista de desejos costuma ser algo que nunca tivemos, portanto não sabemos distinguir quando o temos. Idealizamos, imaginamos que seja isso ou aquilo e nos perdemos quando a coisa acontece, pura e simplesmente porque o nosso cérebro não sabe do que se trata. Temos um desejo na teoria, na prática não sabemos o gosto que ele tem nem o formato. Nosso querido amigo em princípio reconheceu e começou a viver com a mulher que tinha os atributos que ele procurava. Geralmente é assim: no princípio aguentamos a “não repetição”, mas logo em seguida o novo barquinho começa a “fazer água” e vai aos poucos afundando também como o outro. Moral da história: quando temos, não vemos que temos porque recobrimos a realidade com nossos “olhos internos”. Jogamos nela as imagens que estão em nossa mente e não o que de fato acontece no mundo externo. Olhos internos são o nosso olhar para a história infantil, um olhar que só vê o que aconteceu e que joga sobre a realidade presente os mesmos significados de fatos semelhantes que ocorreram no passado. Como parte de minha campanha “Pare de jogar luxo no lixo”, chamo a atenção de todos para o fato de que muitas vezes estamos de posse de coisas muito almejadas, mas não as reconhecemos e não as usufruímos. Muito pelo contrário, estamos sempre inquietos olhando de lado, buscando, procurando e a cada vez que encontramos essas coisas as jogamos no lixo como o saco do sanduíche recém-comido. Pensamos que estamos jogando fora o resto, o que não tem valor. Sinto dizer, mas na maioria das vezes estamos jogando fora aquilo que representaria o maior luxo em nossa vida. Acabamos, quase sempre, jogando inadvertidamente o nosso luxo no lixo e continuamos morrendo de vontade de possuí-lo.  

Irresponsável de mim

  Andreia de Paula Olhamos e não entendemos, prestamos atenção e não compreendemos. Assim vamos entendendo que existem e existirão muitas circunstâncias e situações que nunca serão compreendidas, que não têm explicação. Isso é o que a Clínica do Real nos apresenta, nos demonstra com tanta insistência. Não existe mais aquele senhor sabe tudo que nos orienta e nos dá respostas que nos deixavam tranquilos. Muitos de nós também éramos muito felizes acreditando em qualquer resposta, qualquer resposta do senhor sabe tudo era tranquilizadora, apaziguadora. E agora ele não existe mais. Não é que ele tenha ido embora. Não, não é isso. Nós é que não temos como aceitar suas respostas prontas, as respostas padronizadas não nos servem mais. Agora o médico, o terapeuta, o chefe, o pai nos dão uma informação ou uma ordem e nós vamos procurar nos informar sobre a veracidade, a procedência, se é a melhor opção. Nós podemos questionar, nós queremos questionar. Então nossas dúvidas acabaram? Não, as nossas dúvidas não só não acabaram como aumentaram. Por mais que possamos escolher as respostas que melhor nos representem, nós também passamos a ter que nos responsabilizarmos pela consequência da nossa escolha. Antes, era “ELE” quem respondia por nós. Só precisávamos perguntar. E se desse errado… Ufa, que alívio! “Tinha sido ‘ELE’ quem nos mandou fazer assim”. Não tínhamos nada a ver com isso. Éramos irresponsáveis. Totalmente irresponsáveis. Com o passar do tempo, muitos de nós começamos a perceber que, apesar desse outro todo poderoso definir nossas escolhas, apesar de ele saber o que era melhor para nós, éramos nós que saíamos perdendo e prejudicados. Éramos nós os acusados de incompetentes, imprudentes, incapazes, mesmo quando dizíamos que não era nossa culpa. Os malefícios das atitudes eram nossos. Éramos nós que sofríamos as consequências e ainda tínhamos que ouvir que não bem assim que haviam nos dito, que não havíamos feito do jeitinho combinado. Enfim, as consequências sempre recaíam sobre as nossas costas ou sobre o nosso corpo inteiro. Por mais que esperneássemos, a responsabilidade era chamada para nós. Assim, a lei do mal entendido era soberana. Enquanto todos brigávamos para ver de quem era a culpa, o tempo passava e não saímos do lugar. A tão sonhada promoção nunca chegava, o relacionamento amoroso era sempre ruim ou meia boca, as viagens de férias eram as piores, éramos multados no trânsito porque o guarda é incompetente e assim por diante. O que então nos restou a fazer foi tomar a responsabilidade para nós mesmos. Correr os riscos de tomar a decisão que considerávamos a melhor ou correr o risco de acatar a sugestão ou ordem ou conselho de alguém e assumir as consequências por estas escolhas também. Restou-nos assumir a responsabilidade. Agora somos por nós mesmos. É uma sensação de solidão. É preciso coragem. O grande Deus que resolvia tudo para nós deu lugar ao deus que há em cada um de nós. E nós que nos viremos com ele, que o defendamos. Não temos mais com quem compartilhar nossas incompetências, e nem mais temos em quem jogar o lixo de nossas irresponsabilidades. Ninguém mais quer se sentir culpado. Essa é uma nova maneira de viver: sustentando nossas escolhas. Sermos felizes porque nos responsabilizamos por nossos desejos. Responsabilizamo-nos por qualificar nossas escolhas e não nos colocarmos em fôrmas modeladas por qualquer um que saiba o que é melhor para nós. A fôrma mais adequada é aquela escolhida por nós e para nós mesmos. A felicidade e o sucesso são de responsabilidade única e exclusiva de quem tem a coragem de se responsabilizar por suas próprias escolhas. — *Andreia de Paula é psicanalista e personal organizer.  

Viver ou terceirizar a vida?

    As coisas acontecem ou não acontecem em nossas vidas, e quem é o grande responsável por isso? Posso até escutar o coro de vozes dizendo: “A gente mesmo, é claro”. Tem muita gente, mas muita meeeeesmo, que não concorda com isso de jeito nenhum. Quem são eles? Pertencem a várias categorias das quais forneço agora a listinha. São eles: os queixeiros, os expliqueiros, os justifiqueiros, os tira-o-deles-da-reteiros e, mais disfarçados, mas não menos terceirizadores da vida, os tarefeiros. Partamos para a definição das categorias: os queixeiros, como indica o “prefixo queix”, formam toda uma imensa gama de derivados: queixoso, queixume, queixas, queixar. Será que queixo tem alguma ligação? Acho que tem. Fico imaginando um queixoso batendo o queixo – não de frio – mas pelo fluxo rápido e continuo de suas intermináveis queixas. No dicionário encontrei significações conhecidas como reclamar e lamentar-se e outras surpreendentes: ato de convencer pela palavra, ludibriar, ter lábia. Fez muito sentido porque o queixoso é aquele que tenta convencer a todos, para convencer a si mesmo, de que ele não tem nada a ver com o que lhe aconteceu. De que é vítima da ação ou da falta de ação de alguém. Os expliqueiros pertencem à categoria dos que tiram da cartola milhares de explicações sobre o porquê disso ou daquilo: “O trânsito estava terrível hoje”. Como se não soubesse desde sempre – e ele não pudesse ter feito algo para driblar as circunstâncias tão conhecidas. Devo confessar que tenho dificuldades em distinguir os justifiqueiros dos expliqueiros. Parece que são híbridos: o justifiqueiro usa as explicações para se eximir e o expliqueiro se justifica ao explicar. Porém, os dois buscam sempre e inexoravelmente atingir o mesmo fito – não se responsabilizar: “Eu não tenho nada a ver com o desenrolar dos fatos”. Terceirizou a sua capacidade de escolha. E por falar em desenrolar dos fatos, cadê o culpado? Justifiqueiro e expliqueiro que se prezem acham sempre o culpado. Terceirizou a sua potência. O gênero tira-o-dele-da-reteiro é o que apresenta fortes contornos de covardia diante da vida. Também terceiriza a vida dizendo que não é com ele. A sua covardia, o medo de assumir, de criar, de correr riscos e dizer “topo, é comigo mesmo”, o deixa protegido de viver. Ser salvo da morte… muito bom! Ser salvo da vida… burrice! Estamos aqui para viver ou o quê, afinal? Ah! Tem muita gente que, ao invés de viver, busca, em manobras cegas e ininterruptas, fugir da morte. É o medo do câncer, da queda do avião, do efeito estufa. Ou o medo da opinião dos outros, o horror à maledicência e à desaprovação social, que também é uma morte. O tal sujeito passa todo o seu tempo de vida fugindo da morte e dos riscos. Tão preocupado com ela que ela está sempre junto dele, e a vida fugindo pela janela. Esse terceirizou a vida para a Dona Morte. O último tipo que terceiriza a vida é mais disfarçado, o tarefeiro. É aquele que não trabalha por prazer, não se diverte com os desafios, é mal-humorado diante das dificuldades que promovem nosso aperfeiçoamento e experiência. Nem sonham que é possível criar, inventar, fazer de maneira nova o mesmo. Nunca lhe passou pela cabeça que um dia jamais é igual ao outro e que, portanto, a rotina está na maneira que olhamos e executamos os atos para viver. Sem se responsabilizar, não se vive a própria vida, ela fica terceirizada. O que é uma vida terceirizada? É aquela que não sou eu, mas o outro que fez isso ou aquilo comigo, que não me deixou, que não me ajudou, que me atrapalhou. Não terceirizar a vida é se responsabilizar pelas escolhas e consequências do que nos acontece. Com isso, degustamos o doce e o amargo. Simplesmente porque escolhemos viver e não queixar, explicar e justificar.    

Não sabemos o que temos

  Vou logo avisando: este é mais um artigo na linha da minha campanha “Pare de jogar luxo no lixo”. Você se lembra que tem os pés lindos? Que consegue fazer uma torta de galinha como ninguém? Que escreve bem? Que tem um sorriso cativante? Quantas e quantas pequenas e grandes coisas você possui e tem anos que delas não se lembra – todas no fundo do baú e você carente de autoestima, carente de sentir orgulho de si, carente de uma alma flutuante de felicidade? Há quanto tempo você não chama você mesmo para dançar? Não sai voando pelas nuvens, sentindo o vento em sua pele? Você sabe mesmo o que tem? Você sente o que tem? Você curte suas realizações presentes, passadas e futuras? Ou será que você está, como muita gente, remexendo o passado ruim que magoou ou que foi bom e não volta mais? É, felicidade do passado não volta nunca mais. Tristezas também não, só que disso ninguém se lembra. Pode ser que você esteja também no futuro, prevendo os ganhos fantasiosos que dão prazer, mas não se tornarão realidade se não vivermos o presente que é de onde ele nasce. No futuro também ficamos tentando prever as ameaças e achando modos de escapar das desgraças anunciadas ou não. Mexer no futuro é um ótimo passatempo para não viver. Aliás, ficar no passado e no futuro são ótimas alternativas para não viver a vida. Fica-se fixado em um tempo que já foi ou que ainda não é para não correr os riscos do presente, vivido na carne, onde se sente mesmo a dor e o prazer. Fugimos dele para trás e para frente. Ficar nele é só para quem tem “cojones”, seja homem ou mulher. Ah! É verdade. Não costumamos saber o que temos e principalmente no momento em que temos. Só temos o que estamos vivendo, curtindo, fazendo… qualquer verbo no gerúndio. Condição inelutável do ser humano ter mesmo só o gerúndio, só poder existir no gerúndio, porque passado e futuro só se tem por força de expressão. Vou deixar aquele bom-dia que poderia ter dado, aquele abraço, aquele sorriso, para depois. Depois quando? Depois, ora, depois sempre tem. Tem mesmo? Que tal pensar que não tem depois? Como ficariam nossos dias se pensássemos que o depois não está garantido? Insisto. Como ficariam nossos dias se neles houvesse a certeza da não garantia do depois? Juro que estou tentando experimentar. Não tem prateleira no supermercado para você comprar mais vida quando for vendo que já não lhe resta mais muita. Já ia esquecendo de lhe perguntar: você se lembra de que tem vida para viver – um dia de cada vez. Talvez menos do que isso: um momento de cada vez. Porque sabemos que de um momento para outro: kapummmm! A vaca vai pro brejo e acaba o que era doce. Sem ser sorumbática: você se lembra que vai morrer? É… a morte também é nossa e com ela só temos uma maneira de lidar: vida nela, que mais longe ela ficará. Digo sempre que nós, no fundo, nos adoramos, assim como somos mesmo. Quem não gosta da gente é aquele parasita que nos suga a alegria que é o supereu e que eu batizei de SUBEU. Esse não nos deixa gostarmos de nós mesmos porque no seu controle de qualidade só passa a perfeição. E como a perfeição é só para Deus, ficamos sempre devendo, em falta, envergonhados, como criminosos escondendo sempre alguma coisa: as marcas de nossa imperfeição. Além do quê, lembremo-nos que o mundo padronizado fez com que cada um de nós nos tornássemos os nossos maiores inimigos, pois passamos a negar a nossa singularidade absoluta, a nossa “unicalidade”, para ser igual ao grupo. Temos, temos e temos, mas será que sabemos tudo o que temos ou continuamos a procurar no outro, no olhar, nas palavras, na aprovação? Tenha uma relação mais direta com você. Tenha algo que está acima de qualquer outro objeto… Tenha você mesmo.  

Ficar sozinho é ótimo

    Ou com quem você fica quando o amado se vai? Proponho os dois títulos porque se completam ao mesmo tempo em que são paradoxais. O que importa não é a quem se perde, mas com quem se fica quando se está só. O amado se foi, não me quis mais, me abandonou, deixou de me amar. E eu fiquei a deixada, a desvalorizada, o lixo? O que penso de mim quando alguém me deixa? A resposta faz toda a diferença. Recebi um e-mail de uma amiga dizendo que estava viajando. Depois ela me explicou que estava viajando para outros lugares em seu dia-a-dia. Disse que estava conseguindo viver de uma maneira completamente nova para ela e que a mudança veio de uma conversa entre nós. Nessa conversa eu teria lhe dito que para casamento não deixar de ser namoro era só viver “junto e separado”. Viver “junto-separado” é não ser o pinico do outro. É não ser o espelho do outro e não fazê-lo de seu, perguntando com os olhos o tempo todo “como estou?” e também “mostrando quem você é”. Ou seja, confirmando sua imagem dia e noite. Enche o saco! Cansa e depois de algum tempo se torna uma vida torturante, repetitiva e infeliz. Viver “junto-separado” é não fazer do outro o seu vomitório quando o estômago está enjoado. É não fazer dele o muro das lamentações nem o saco de lixo e muito menos o saco de pancadas. A criança faz o teste de realidade batendo na mãe. Quer ver se ela sobrevive ao ataque para provar-lhe que não é uma fantasia, mas a realidade. Nem pense que vai dar para ficar fazendo o teste de realidade dando pancadinhas reais e emocionais no outro para ver como reage. Você não tem mais dois anos de idade para fazer isso e os frutos são amargos. O eu parasita o outro. Estamos sempre no outro prestando atenção no que faz conosco, como nos olha, como nos julga, e isso para sabermos quem somos. Parasitamos o outro no sentido de usá-lo o tempo todo para dizer quem somos – como se fosse nosso espelho. E espelho tem que estar disponível toda vez que necessitamos dar uma olhadinha no visual para nos reassegurarmos de como estamos. Se o “espelho” fechar a cara é porque não gostou do que fizemos e não porque não está satisfeito com alguma outra coisa. Se o “espelho” sorri e está feliz, achamos ingenuamente que é conosco. Pode ser que não lhe diga respeito. A tristeza ou alegria do outro pode não lhe dizer respeito e ponto final. Você é só mais um dos objetos da vida dele. É uma dolorosa dependência, achando que o outro está alí sempre para me mostrar quem eu sou. A pessoa pode possuir qualquer coisa, inclusive a sua imagem, mas só será capaz de usufruir ela se já tiver se re-encontrado consigo mesma. Ficar sozinho e bem é pra quem consegue ter um bom encontro consigo. Quem aprendeu a gostar de sua história sem querer ser o que não é. Quem se reconhece no olhar do outro fica na dependência enjoada. Se nos reconhecemos naquilo que desejamos podemos habitar o nosso corpo no tempo presente e usufruir da vida a cada segundo. Voltando à pergunta: “Com quem você fica quando o outro vai embora?” Respondo com outra pergunta: “Com quem você mora quando mora com o outro?” A resposta para as duas perguntas é rigorosamente a mesma. Você sempre vai morar é com você mesmo até quando dorme todas as noites na cama com o companheiro. Tendemos a achar que o inferno é o outro porque não nos separamos dele – dentro da relação. Não estou falando de divórcio, estou falando da capacidade de viver “juntos-separados”. Quando gostamos da nossa própria presença, e somente aí, poderemos afirmar de boca cheia que: ficar sozinho é ótimo e… surpresa! Ficar junto também!  

Adulto acalma criança

             Recebi recentemente um vídeo que chega a assombrar.             Seria o assassinato a sangue frio de alguém? Um horroroso acidente de trem com dezenas de mortos ou qualquer coisa do gênero?             Nem de perto. Era uma cena de um menino de uns 6 anos de idade que tenta acalmar o irmãozinho que chora desesperado, provavelmente em seu primeiro dia de escola.             É chocante! Um choque delicioso! Puxa vida, é possível que um menininho tenha capacidade para tanto!             No vídeo, ele acalma o irmão em prantos usando vários recursos. Um deles é o da palavra, trazendo figuras de potência. “Lembra que mamãe e papai dizem que você já é um homem?”, diz, tentando infundir autoconfiança no irmãozinho.             Outro recurso que ele usa é o do olhar: ele olha firmemente, pega o rosto do pequeno e o conduz a olhar dentro de seus próprios olhos e continua falando para sossegá-lo.             Usa também do recurso tátil: passa a mão sobre o braço e o rosto do irmão choroso, tentando acalmá-lo pelo carinho. O irmão o empurra. Ele volta e continua acariciando-o com segurança e carinho.             No meio daquela situação de impasse, com o garoto chorando inconsolável, ele não perde o rumo. Continua buscando situar e acalmar o irmãozinho. Faz o irmão se lembrar do pai e da mãe, afirmando que eles chegariam na hora de buscar. “Se lembra, se lembra…” – veja bem que ele não fala na hora “certa”, mas na hora de chegar.             Para nos matar de admiração, ele não para por aí. Toma o rosto do irmão nas mãos e diz: “Respira fundo, respira fundo”. O danadinho sabe usar o recurso da respiração como apaziguador da angústia.             Essa criança dá um passeio de habilidade de ajudar alguém a se acalmar.             Ele foi, com certeza, tratado da mesma forma e aprendeu a fazer o mesmo. Tem recursos no seu arsenal para lidar com o medo, com o estar perdido e ameaçado.             Quem tem pânico é porque não consegue dizer para si mesmo (e acreditar): “Respira fundo, você vai achar a solução, você vai dar conta” .             O lado adulto é o lado que dá conta de cuidar de si e que começa a ser fabricado em nossa infância. O desse menino já está em pleno funcionamento.             Pais que exigem coisas fora da realidade – do tipo: “Vou exigir 100% para ver se consigo pelo menos 70%” – criam superegos enceguecedores. Como uma analisante que, chegando em casa com a nota 98 numa prova que valia 100, ouviu da mãe: “Que pena, só faltaram dois pontos”. Ela passou a vida enxergando o pouco que faltava e não o muito que tinha conseguido.             O supereu é a atitude dos pais internalizada. Ele cria crianças que, quando adultas, se julgam imperfeitas o tempo todo – e somos mesmo, o tempo todo mesmo, só que isso não é errado. É a condição humana. E olha que eu não estou falando de descaso, de preguiça nem de falta de empenho.             Não trate seu filho como um incapaz. Tampouco trate-o como o pinico de suas culpas: “Já que não dou tempo (e trata-se de presença e não de tempo), dou tudo o que ele pede”. Aí cria o infeliz e perdido saco sem fundo que quer tudo e não consegue sentir que tem nada. Fique com os filhos não pela quantidade, mas pela inteireza de gostar de estar junto. Quando o desejo está só em outro lugar o filho sabe que não é ele. É possível ser uma grande profissional e uma mãe também. Não estou falando das quatro jornadas da mãe – “mulher maravilha” que “tem que” ser mãe, amante, profissional, dona de casa, linda e malhada. Não é tudo isso. É estar presente em cada momento – com todas as falhas – não é a busca da perfeição.             Ser muitas coisas todos somos. Viva cada qual no seu momento, sem desespero.             O sentimento de se estar sempre aquém, vem quando se está aqui, mas já se preocupando com o lá. Assim não se para e não se vive nunca mesmo.             Isto sim, dá a sensação desagradável de não conseguir nunca alcançar “tudo o que se tem que fazer e ser”.

QUEM MELHORA O MUNDO?

Valéria Ávilla  Caso eu tivesse 50 anos, mesmo num período libertador – o auge das bandas nacionais de rock dos anos 80 – ainda seria uma cinquentona. Como o mundo melhorou muito, hoje sou uma cinquentete: Eu? Otimista? Vejamos.   Àquela época, era filiada ao PT, PV e ainda mais fiel ao PPC – Partido dos Pessimistas de Carteirinha. Certificados por grandes filósofos, como Schopenhauer e uma má leitura de Nietzsche, inconformados revolucionavam o mundo. Meu poema preferido era Tabacaria, de Álvaro de Campos – o álter ego pessimista de Fernando Pessoa: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.” – Como ele havia me descrito antes de eu nascer? Ser pessimista? Éramos nós que movíamos o mundo. Orgulhosa de mim e de meus comparsas quase era feliz! Quase… Faltava um pouco, um tantinho abismal.    Então, comecei a trabalhar. “Um colega mais velho me adotou, e ouvia conselhos sérios:” Isso vai dar errado, você vai ver. Fulano vai puxar seu tapete, cuidado! Não converse sobre tais assuntos. Ali você vai perder dinheiro”. Vivia confortada por essas advertências desconfortáveis. Anos se passaram e ele foi obrigado a tirar longas férias, há muito vencidas. Afinal, um pessimista não precisa de férias, para quê? É tudo uma droga mesmo. “ Mas e agora? – me afligi – quem iria me avisar dos perigos?” Resultado? Meu humor melhorou muito, e a ansiedade quase desapareceu. Desamparada e feliz? Muito estranho… Quando ele retornou, é que percebi que as tragédias anunciadas de fato aconteciam mesmo, como uma profecia, mas na vida dele, e não na minha. Dizer que meu amigo era amargo, um derrotado? Nem tanto. Ele conseguiu construir muitas coisas na vida, fazer boas amizades, mas agora entendo que ele poderia ter ido além e com menos sofrimento.    Após um tanto de análise, inadvertidamente, folheava poesias e reencontrei Tabacaria. Que susto delicioso! Nada me dizia. Terrível! Saí pela porta de Tabacaria e o dia reluzia em promessas. Nomeei-me otimista – avessa aos pessimistas. Afinal, reclamando não fazem nada de objetivamente bom, nem para terceiros, nem para eles mesmos, umas hienas: “Oh dia! Oh morte!”.   Bem, ainda não me atinava para o risco dos opostos. Hoje vejo que os extremos são o meio do caminho para podermos aprender a bandear nessa estrada, de um ponto ao outro quando a situação exigir.    Indo além do Tejo, me tornei realista quando também me decepcionei com os otimistas. Lembrei-me de uma amiga da família que minha mãe acolheu em nossa casa. Dispunha-se sempre a ser um ombro: “Tudo vai dar certo, as coisas vão melhorar, você vai conseguir, não se irrite, não se aborreça, tenha esperança!” – não agia para mudar sua vida e seguia com essa “conversinha hospitaleira”, se servindo de sua hóspede. Otimista sim, mas uma parasita.   Nessa estrada há muita gente. O pessimista que critica o tempo todo fazendo piadas sarcásticas, ironias criativas e não realiza nada. O otimista, que de tão bon vivant, em nenhum momento é solidário e não reconhece os riscos, e o realista que é pessimista ou otimista quando lhe favorece. Parece-me que quem não constrói mesmo são os parasitas. Todos podem melhorar o mundo. O pessimista que faz disso um estímulo para fazer melhor. O otimista, que alegre, gera mais energia para produzir. O realista que pondera, erra menos e tem sucesso. Embora todos colaborem a minha aposta é que alguns são mais afortunados do que outros. Opto pelo “bando dos danados”- que em qualquer posição escolhe ser feliz. Rir da vida não destrói.      Escrever melhora o mundo, ler idem. Aos que me irritaram o bastante para eu escrever esse artigo: Olá parasitas! Grata por terem sido minhas musas inspiradoras hoje. Aos que me leem, grata sempre.

Se elogiar, estraga

            Conversava com uma amiga “bem casada” sobre o quanto achava que o marido gostava dela, quando ela me olhou espantada. Para a minha surpresa, ela não tinha a menor ideia daquilo que todos víamos cotidianamente entre o casal.             Eu disse: “Gosta não, seu marido é apaixonado por você”. Ela ficou literalmente aturdida e eu, idem. Era tão óbvio o encantamento por ela.             Passou o tempo e no próximo encontro eu a vi animadíssima, olhos brilhando, cheia de luz e malícia. Me disse de um jeito matreiro: “Comprei camisolas novas”. E eu pensei, dando pulinhos de alegria: “Beleza! O namoro recomeçou!”             Ela continuou: “Visto uma camisola sensual e fico passando na frente dele como quem não quer nada. Quando ele vem para cima de mim eu digo: ‘Agora, meu amigo, você tem que pagar, eu quero muito mais dinheiro’”.             Murchei! Entristeci, choquei, quase chorei de ver tanto mal uso da riqueza que é ser elogiado por alguém.             Um amigo em comum que tem uma tremenda presença de espírito e estava ouvindo o papo retrucou: “Menina, transar por dinheiro é coisa de garota de programa!”             Veja que forma deplorável de terminar algo tão belo.             Lembrei-me de outra cena ocorrida há muitos anos quando meu namorado me disse: “Vou te elogiar, sabendo que estou correndo o risco de você ficar mascarada”. Achei tão bobo. Como é que alguém vai ficar mascarado ao invés de seguro e feliz? Depois tive que admitir que ele tinha motivos de sobra para pensar daquela forma.             Lembrei-me ainda de outra amiga antiga que, sorrindo, dizia frequentemente: “Se elogiar, estraga”.             Juntei tudo, refleti, conclui: no passado recente elogiar alguém era dar arma para o inimigo. De fato, o elogio fortalece quem o recebe: olha só a minha amiga querendo arrancar mais grana do marido…             Claro, existe o elogio fingido dos puxa-sacos para amaciar o elogiado, que, abrindo a guarda, tornar-se-á uma presa mais fácil. Esse é, de fato, o uso mais corriqueiro do elogio e que nos coloca em guarda contra ele. Quando alguém elogia, pode estar querendo o seu fígado. Portanto, pé atrás com o elogio.             Tem outro tipo de gente que vê o elogio como se fosse uma cobra: a gente tem que fugir da picada (do elogio, veja bem). São pessoas que, ao serem elogiadas, ficam apavoradas, justificam, diminuem o feito, porque sentem que a partir dali vão ter que fazer muito melhor. São pessoas que sentem o elogio como uma cobrança.             Conclusão: elogio sempre é coisa perigosa. Em todos os casos, só nos traz prejuízos. Melhor viver sem ele.             Me recuso a aceitar tal lógica.             Reconhecer o valor, as qualidades, a raridade preciosa que é cada pessoa no mundo, não só é bom como necessário para que a vida seja bela. É um dos componentes do estar satisfeito consigo mesmo.             Façamos, então um outro uso do elogio.             Primeiro, é preciso entender que só pessoas infelizes (com e sem maldade) não podem ser elogiadas, pois, como diz a bíblia, quem dá pérolas aos porcos vai ser espezinhado pelos animais. Eles se voltam contra quem deu o presente imerecido. Fato.             Discrimine e use. Bem usado, o elogio é a chuva que rega o novo laço social de pessoas guerreiras que construíram uma vida para si e não têm que vampirizar o outro para se alimentar do sangue alheio.             Não use o elogio como sangue para vampiros, mas como o maná, o pão divino que alimenta as nossas almas.             Coitadinho do elogio no mundo padronizado: apanha feito cachorro sem dono. É maltratado. Vamos reabilitá-lo? Vamos reconhecer agora quem tem valor e não deixar para dizer depois – no discurso do velório, por exemplo?             Vamos tirá-lo desse lugar pouco honroso e dar-lhe status de um dos benfeitores da humanidade?

A felicidade dá medo

Claro, ela é perigosa mesmo, portanto, “antes que o mal cresça, corte-lhe a cabeça”. Estou pensando em escrever um manual que será muito útil: “Proteja-se dos perigos da felicidade”. Além do manual, vou propor… aliás, proponho agora mesmo: uma nova nomenclatura para o supereu (ou superego): o SUBEU. Já que o prefixo “super” quer dizer acima e esse “acima” quer dizer uma instância que está sobre o eu, regendo, mandando, cobrando, culpabilizando… e não menos, o que é terrível, enfraquecendo o “eu”, que se perde no meio de tanto dedo apontado: “Você fez errado”, ”Ainda não está bom”. Supereu  não quer dizer superhomem, mas sim subhomem: um ser humano arcado pelo peso de exigências inalcançáveis. Demandas eternas de per  feição, que o faz se sentir sempre incapaz. Incapaz de quê mesmo? De chegar “lá”. Lá onde? Em um lugar onde não tenha mais cobranças inatingíveis, eternas. Existe esse lugar? Claro que sim. Mas só se você resgatar a sua vida das “garras” do supereu. Somos imperfeitos, e com muito orgulho, porque essa é a nossa condição humana. Perfeição se espera só de Deus. Então para que sofrer quando não se consegue? Sabendo que fizemos o melhor já poderíamos nos dar por satisfeitos. Que mais o supereu produz além do subeu, do subser humano que vive para as exigências de um “outro” parasitando dentro de si? Produz – pasme – medo da felicidade, já que só a mereceríamos caso fôssemos aprovados no teste de perfeição! Ser feliz sendo falho é meio um pecado, não merecemos, dá medo do castigo. Algo assim: “Pegar o que não é meu é pecado e posso receber um enorme castigo. Só posso fazer o que papai deixou, o que papai disse que era correto. Não sou lá tudo isso, então não posso levar o prêmio. Caso eu o faça, serei um ladrão”. Se não for feliz, também não vou sofrer, por exemplo, o castigo de perder o objeto de minha felicidade. O que fazer para não perder? Basta não ter. Basta jogar fora no lixo aquela pessoa maravilhosa que você acaba de conhecer ou, o que é melhor, até aquela que vive com você há muitos anos e que está lá enfiada no lixo – você a tira de vez em quando, disfarçadamente, olhando para os lados para conferir se alguém está vendo você feliz, curte um pouquinho, depois briga, maltrata, empurra e “guarda” para uso futuro na lata de lixo. Aí você tira muitas fotos com os dentes escancarados, sorrindo e feliz da vida para disfarçar para o supereu uma “felicidade” consentida, contida, pequena, porque a grande, aquela na qual a gente joga todas as nossas fichas, essa não, essa é perigosa. Essa a gente corre o risco de perder. A solução está na cara: para não perder no futuro eu perco no começo. É um boa conta, convenhamos. Segundo as regras do subeu, é certo que vou ser castigado perdendo algo tããoo maravilhoso. É melhor não acostumar com tanta felicidade e jogá-la logo no lixo, antes de se apegar e começar a querer muito da vida. Antes que eu tenha um grande sofrimento perdendo algo que quero muito, algo de que preciso e que é um outro, portanto do qual dependo, sim, é melhor eu ter pequenos sofrimentos a cada vez que a vida me oferece o presentinho que poderia ser um presentão. Lógica fácil: antes que uma promessa de felicidade,vire presentão, eu a jogo no lixo. Desta forma estou jogando só um presentinho. Lógica falha: você está jogando fora o presentão que se anunciou e, por medo de perdê-lo, você acaba perdendo sempre. O que é deveras de cortar o coração é o tanto de presentões vivendo juntos e se jogando no lixo por medo de “viver feliz para sempre”. Felicidade é para ser sustentada e não jogada do lixo. E como enfrentamos esse subeu que nos torna covardes diante das coisas grandes? Dizendo para a gente mesmo: “Bicho papão não existe”.

O bem que você me faz

            Há muitos anos, em uma conversa íntima, um amigo me disse algo de tamanha beleza, profundidade e poesia que décadas depois me pego de vez em quando pensando em sua frase, sorvendo-a, maravilhando-me como fico diante do mar com o olhar perdido no infinito enquanto minha alma pasteja as belas palavras, se nutrindo de puro prazer.             Ele me disse com os olhos faiscando de felicidade: “Sabe qual é o maior presente que uma mulher pode dar a um homem?” Eu muda, num impasse, numa quase ânsia de ouvir aquilo que se anunciava, já pela pergunta e pelo tom de voz, como uma verdade inesquecível. Não deu outra. Meu amigo, baixando os olhos pensativos, continuou: “São seus gemidos de prazer na cama”. Falar o quê? Palavras não recobrem. É sentir as ondas de emoção. É verdade: certas pessoas ao nosso redor nos fazem muito bem com o seu jeito de ser, com suas atitudes ou com seus gostos. Acontece que quando uma mulher geme de prazer na cama ela está dando ao homem o atestado de competência masculina. O que é, por um lado, verdade; por outro, não. É que ela tem mesmo a capacidade de se deixar encantar, de se deixar amar e de ter prazer com o que lhe dão, mas também com o que ela consegue recolher. Imagino que deve haver muitos homens ou mulheres que se dão com competência, que se envolvem com tudo no amor, mas não têm a contrapartida porque o outro lado não é capaz de receber e retornar em forma de gemido ou de qualquer outra forma. O bem que o outro me faz é, de seu jeito único, me retornar que a vida é gostosa ao meu lado, que compartilhar seus momentos comigo é prazeroso. É genuinamente gostar e curtir a minha presença, não só por mim e pelo que eu sou, mas igualmente e principalmente pelo que a própria pessoa é. O bem que as pessoas nos fazem pode vir em diversos pacotes, não só no sexo, pois essas reflexões me vieram, e de novo me fizeram pensar na frase inesquecível de meu amigo, por causa do riso de uma amiga atual. Me peguei dizendo a ela, em diversas ocasiões, que aquela risada dela estava deliciosa. Me escutei falando isso… Me dei conta das diversas vezes em que já tinha falado para mim mesma que aquela sonoridade, naquele tom, com aquele sorriso nos lábios, aqueles olhos brilhantes buscando a cumplicidade dos meus numa explosão de gargalhadas, risos ou sorrisos estava me fazendo muito bem. Eu estava experimentando um prazer deliciosamente compartilhado. Depois disso, fui juntando uma coisa com outra e, mais uma vez me escutei, tendo conseguido me lembrar de como, em muitos momentos da vida, já havia dito esta frase aos mais íntimos: que acho a risada um presente dos deuses. Quando alguém ri, sonora e gostosamente ou mesmo meio timidamente, mas com aquele prazer indisfarçável, me vejo diante de um dos milagres da vida. A irrupção do riso no meio de um encontro, de uma conversa, é a deliciosa revelação de que sua presença é bem-vinda, é agradável e libertadora. Sim, porque o riso libera, deixa voar, como num balão de gás hélio, algo que estava lá dentro e que, ao ganhar o mundo, vira outra coisa. Vira leveza do corpo e da alma. Adoro ver quem está do meu lado rir! Adoro ver quem está do meu lado feliz! Como a vida fica mais ensolarada e ampla! Como a vida fica com muitos sinais de exclamação! Descobri hoje, neste momento em que escrevo, o bem que os que me rodeiam me fazem quando riem e são felizes perto de mim. O seu prazer me provoca prazer, o seu riso abre um outro riso em mim. O seu sol faz nascer um sol para mim também. Me dou conta, meio atordoada de emoção: não existe nada melhor do que compartilhar a vida com gente feliz.