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“Mantenha Distância”

 

A advertência escrita nos párachoques dos caminhões para evitar colisões é também muito útil para outros fins, como, por exemplo, manter a saúde de uma relação amorosa.

Antes de ter alguém a quem amamos, o desafio é achar essa pessoa que a nós nos parece especial e única. Que desperta aquele interesse a mais, que tem aquele brilho que faz a vida inteira ter cores diferentes, que nos atrai e nem bem sabemos por que.

Estando felizes com o nosso amor, queremos assim permanecer pelo resto de nossas vidas. Parece tão bonito e tão lícito. Desejar o quê mais quando já encontramos o que queríamos?

Queremos estar com o/a amado/amada o tempo todo. A tendência não é só ficarmos juntos, mas nos amalgamarmos, que quer dizer misturar, mesclar, mas também confundir coisas diversas. Essa mistura vira uma massa que tende a se fixar. Como aquela massinha de colar que uma é branca e outra preta e que ao se misturar fica um cinza que endurece e nunca mais tem flexibilidade. Fossiliza.

Depois disso não mais ficamos juntos e curtindo, mas sim juntos e cobrando. Começa a cachoeira de exigências e reclamações querendo enquadrar o outro na nossa neurose.

Isso não acontece porque o amor acabou — ainda não. Isso só acontece por falta de espaço. Tratamento prescrito: mantenha distância.

Ter vida própria, projetos e interesses é manter distância. Desejar para fora do par amoroso é manter distância.

Alimentar sua alma de carinho, aceitação e reconhecimento por meio de outras relações alivia a obrigatoriedade do parceiro ter que ser tudo pra gente.

Porém, pode-se argumentar que no mundo de hoje ninguém é de ninguém. Todos trabalham, ganham a vida, têm interesses variados…

Não é bem assim quando se trata de questões amorosas. A mulher gruda de um jeito como querendo tudo do outro. O homem, por sua vez, gruda de outra maneira, ainda querendo — apesar de negar — uma posição aquiescente da mulher.

Então o prazer de estarem juntos vira gozo — aquele do alcoolista que não bebe mais por prazer, mas por compulsão, porque não dá conta de querer fazer diferente. Aquele ato que poderia ser prazeroso se torna uma escravidão e perde o seu gosto de escolha, aprisionando os participantes numa dança macabra de cobrar e de querer submeter o outro.

É paradoxal, mas a proposta é esta: para ficar juntos e bem, mantenha distância.

Pois, não aceitamos as diferenças do outro. Exigimos compreensão quando “não há relação sexual”, o que nas palavras de Lacan quer dizer não há completude. O outro não vê como nós vemos e não tem que ver.

A distância adequada une. Um casal só vai dançar se estiver junto e separado. Se colar cai, fica sem movimento possível, perde a leveza, o gosto… Perde o amor, ficam as cobranças.

Relações sem distância tendem a se infeccionar, como uma ferida exposta. O bactericida que limpa a área se chama distância, que nos faz sentir a falta que o outro nos faz. Que nos faz ver que ele não é a causa de nosso mal-estar.

Saia com “seus” amigos e não só com os “nossos”. Tenha seus hobbes solitários, suas particularidades, não se mutile.

É preciso estar bem e ser feliz sozinho para ser feliz a dois. A relação não é pra nos fazer felizes,mas para continuarmos felizes.

Ter vida própria e não parasitar a do outro é, internamente, não querer ser dono do outro. É você com você. Trata-se muito mais de disposições do que de atos teatralescos para mostrar que não está cobrando.

Sabemos que a vida não é fácil e não deve ser a pessoa que está mais perto de nós, com a qual compartilhamos nossa intimidade, nosso alvo preferido para jogar a causa da dor de viver.

Difícil não é viver com o outro, difícil é aguentarmos nós mesmos com o que não aceitamos, não gostamos em nós e projetamos no outro.

 

Este post tem um comentário

  1. Maria Cristina

    SENSACIONAL!!! Primeiro a gente descobre isso a duras penas! Depois é outro momento pra internalizar! A partir daí fazer acontecer!!! É exatamente assim!! Tô chegando na terceira etapa.

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