Um mundo sem causa e consequência

Esse mundo existe mesmo? Existe e é o mundo da criança. Crescer é coisa pra poucos. Ser infantil é viver no mundo do pensamento mágico. É não ligar causa e consequência. Ser capaz de ver a conexão causa e consequência não é ser obediente e nem bonzinho. É arcar com as consequências de escolhas não avalizadas pelos outros. Difícil de distinguir? Vejamos algumas vinhetas. Não vê causa e consequência aquele cara que, para ser pai e orientar o filho, dizia sempre que ele (o filho) estava errado mesmo quando não era o caso, e isso para poder “ensiná-lo”, já que era esse o seu papel. Qual foi a consequência? Gerou um filho que ao longo da vida vai duvidando de si e dizendo que é confuso, não sabe escolher, não sabe o que é bom para si. O pai não via a consequência óbvia de dizer que o outro não sabe: ele vai pensar que não sabe. Outra vinheta. Aquela moça linda que se casa com o cara apaixonado pelo seu belo corpo e que depois de algum tempo, talvez o primeiro ou o segundo filho, vira aquela descuidada de si e perde a bela forma. Embola-se por fora e embota-se por dentro. Mãe bonita é coisa linda de se ver, mas algumas escondem atrás da maternidade a sua falta de garra, fazem dela um barranco pra deixar o mundo passar por cima. Consequência? O marido, cuja predileção pelos belos corpos não foi enterrada com a morte da bela noiva com quem se casou, vai morrendo como homem dessa mulher, mas não das outras. Aí cai o barranco que segura a preguiçozinha que se encostou nele pra dar uma descansadinha de uns 20 a 30 anos até a velhice chegar pra salvá-la eternamente dos trabalhos de se esforçar para ser mulher. E o homem… Hã? Ah! O homem? Já se foi. Vinheta 3. Aquele rapaz que se esforça pra caramba. É bom em tudo o que faz, mas não conclui nada. Fica sempre um restinho, um rabinho pra coisa ser acabada, curtida, perfeita. É o incauto com um sorrisinho amarelo, meio gozoso, que acha que está numa brincadeira até que se descobre aos 40 anos de idade sem ter seguido uma escolha, ficando perdido em brincar de labirinto. Achamos mais do que pensamos que o que fazemos não tem consequências reais em nossas vidas. Falamos brincando que somos burros para justificar a falta de empenho que nos levará a uma vida medíocre e depois queremos nos convencer de que não entendemos o porquê dela ser medíocre. Dizemos que somos feios mesmo (ou qualquer outro predicado), mas não nos esforçamos por melhorar em nada e depois queremos dar uma de lesos pelo fato de ninguém nos dar valor, sem ver que quem não nos dá valor somos nós mesmos. No fundo somos nós que convencemos as pessoas de que não valemos a pena. Convencemos as pessoas de que não valemos a pena quando nos ridicularizamos meio que disfarçadamente, quando mostramos aquela leve forma de não nos levarmos a sério, quando não aceitamos (por covardia, diga-se de passagem) os elogios que nos comprometem a estar à altura. Examine as sutilezas de sua vida e veja se não tem recônditos, buraquinhos, tentativas de infantilmente se sustentar no pensamento mágico. Coisas do tipo: “Eu vou beber e dirigir e nunca vai acontecer nada” ou “Eu vou me comportar como uma periguete e o cara vai me ligar no dia seguinte”. Acorde! Não se iluda! Os atos geram consequências. O plantio é optativo, mas a colheita é obrigatória. E não venha dar uma de bobinho e inocente dizendo que não sabe o que está plantando porque isto simplesmente não te salvará das consequências da colheita. Parece muito óbvio, mas muita gente vive se engrupindo dessa forma de novo e de novo sem se dar conta do prejuízo. Resumindo: sua vida tal qual se encontra hoje – boa ou ruim – é a mais pura consequência. A sua vida é uma consequência.
Ah, se eu tivesse!

Algumas pessoas têm me pedido para escrever sobre histórias reais, dar exemplos vividos, pois com eles a impressão fica mais forte e a gente não se esquece facilmente. Pois bem, aí vai uma história verdadeira para a gente não esquecer: conheci, há anos atrás, um cara e sua namorada. Jamais vi mulher mais apaixonada pelo seu homem. Ela passava da conta (no bom sentido), estava muito além de corriqueiros amores, de gestos pequenos, de atos comuns. A começar pelo nome que o chamava: “meu bem” ou “meu amor” era pouco. Ela o chamava por uma expressão ao mesmo tempo incomum, forte e carinhosa. Ela o chamava de “o vida”. Era mais ou menos assim: “O vida está viajando” ou “O vida vem almoçar comigo”. Era lindo de se ver. Bem, não bastasse isso, a tal moça também era muito bonita, competentemente independente, bom caráter (admirada e amada pelas amigas) e ótima dona de casa. Quanto ao rapaz: simpático, batalhador e sensível – veja só. Tinha tido um casamento desastroso com uma mulher com os piores predicados – como ele mesmo dizia em alguns momentos. Ela era péssima mãe, dona de casa relapsa – sendo essa sua profissão, já que não trabalhava fora. Gastava o que tinha e o que não tinha, relegando ao marido dívidas eternas. Por fim, para completar a lista de infortúnios, ela o traiu de forma escancarada, deixando o pobre homem em situação vexatória de exposição pública. Dele, ela só tirou. Não tinha nada para dar, parece. Para a minha surpresa, ao conviver mais de perto com o camarada, notei que ele vinha sempre com uma conversa sobre a “ex”. Muitas vezes se confundia e a chamava de “minha mulher” e até por um apelido carinhoso que usava com ela quando casados. Pirei! Pensei: “O que esse homem tanto fala nessa outra mulher, tendo essa namorada e companheira extraordinária e que é o que ele diz aos quatro ventos tudo o que quer de uma mulher?” Até que um dia a coisa chegou ao seu ápice. Estávamos um grupo comendo na casa de um casal amigo aquela comidinha caseira, fresquinha, servida na hora, quando o tal, com os olhos sonhadores, vem com a seguinte frase: “Ah! Fico imaginando ter uma mulher carinhosa, que fosse louca por mim e me fizesse um arroz branquinho com uma pimentinha de cheiro”. Pirei de novo! Só muitos anos depois, com o estudo da psicanálise, pude ter outra apreensão do acontecido. É que o ser humano tem a tendência de se ligar mais ao que não tem, à frustração e à decepção. É muito difícil ver a si mesmo e reconhecer o que se tem e é exatamente por isso que não se tem. Existe uma estruturação psíquica em nós que Freud chamava de pulsão de morte e que nos leva a nos apegarmos à perda. O que também expressa bem o fato é o chamado “gozo da insatisfação”. Existe o medo de admitir que se tem, e então correr o risco de se perder o objeto amado. Aí a dor seria maior, por isso a lógica empobrecedora que passa a operar é: ao invés de se perder, opta-se por não ter mesmo tendo (ou seja: não ver que tem) para não sofrer a dor da perda. Ou também o disfarce funciona com o sujeito eternamente correndo atrás do novo, do mais ou do melhor sem conseguir admitir que já tem o que procurava. O que estou dizendo parece impensável não é mesmo? Será que alguém chega a ponto de dizer que tem o que procurava? Que chegou “lá”? Podemos nos sentir satisfeitos sem estarmos acomodados. Podemos nos sentir tendo, porém sem perder o desejo de continuar a querer. Trata-se de poder ver o que se conquistou e degustá-lo. Há um impedimento na formação do psiquismo humano que nos dificulta o acesso a esse usufruto do presente, a essa “atualização” de nosso programa interno de computador. Mas acredite: seria mais frutífero se o “Ah, se eu tivesse!” fosse substituído pelo “Ah, se eu enxergasse o que tenho!”
Se Deus não existe, tudo é permitido

Esta frase de Dostoiévski – um dos maiores romancistas russos – pode soar como um habeas-corpus eterno. Até mesmo como uma absolvição a todos os pecados e a todas as maldades feitas no passado, no presente e no futuro. É o convite à farra do boi humana. Uns comendo o fígado dos outros. Até vejo o mundo virando aquelas cenas de inferno pintadas em certos quadros da Idade Média, com corpos contorcidos, fogo, enxofre, cabeças e membros despedaçados. Uivos e dor. Me vêm à cabeça também cenas da passagem de uma guerra, deixando atrás de si rastros de destruição e pilhagens. Homo homini lúpus – o homem é o lobo do homem – vai ser pouco. O planeta vai estar povoado de Hittlers. Claro, porque imagina: se com todo este aparato para conter a maldade que habita em cada um de nós, acontece isso, imagina a besta fera estando solta e à vontade no pasto verdejante, não só vai se fartar do capim como também pisotear o resto para que ninguém usufrua do que ela pode comer. Só dá para imaginar destruição, não é verdade? Talvez não. Se alguém deixa de crer no pecado e na condenação, ou até mesmo deixa de crer nesse Deus-babá (é que alguns acham que têm um Deus que cuida deles como uma babá cuida de uma criança), essa pessoa vai se responsabilizar muito mais não só pelo jeito que ela é e se comporta como também pela construção e destruição do mundo que a cerca. Ela vai se tocar de que não dá para continuar a fazer sujeira que o outro – no caso, o Deus-babá – vai limpar eternamente. O mundo de fato é redondo, disso ninguém duvida. Por isso a sujeira vai mas de alguma forma volta para sujar o quintal do sujismundo. Os maus-tratos de alguém vão sendo replicados em efeito dominó e voltando pra onde? Surpresa! Bate na porta da casa do babaca que acha que o mundo é quadrado e que causa não tem consequência. Agora o outro lado da Terra. Já que acabamos de enxergar o lado obscuro da Terra, e se o seu lado iluminado fosse ela ser habitada por pessoas que descobrissem o seu enorme poder de construção e não só de destruição? E se esse ser humano da face iluminada da Terra se deixasse levar pelo gosto não de vencer o outro, mas de vencer o seu narcisismo e se enlaçar em relações sustentadas no prazer de estar junto e não na necessidade de se impor e destruir? Convenhamos: é muito prazeroso estarmos em boa companhia. É bom demais estarmos juntos! Aquelas propagandas de construir um mundo melhor nos emocionam, mobilizam e parecem perfeitamente possíveis, mas por que é que tudo termina em pizza? Parece que tem sempre os espertinhos que se aproveitam, e algo que era para o coletivo vai para o bolso de algum desonesto, para a mulher dele, torrar fazendo suas comprinhas na Europa, para adquirir bens diversos e para se rodear de puxa-sacos (que, por serem uma mentira, não salvam ninguém da solidão). Em que prisão solitária e triste se metem os coitados incapazes de amar e respeitar! É verdade, isso acontece. O que é novo é o poder que tem cada cidadão do mundo hoje, em nossa Era da Comunicação, de com a ponta dos dedos alcançar os quatro cantos do planeta e fazê-lo ver e saber de um fato que deseje comunicar. De passar a sua mensagem sem intermediários. Tem muita gente sacando que, se passamos as pessoas para trás, ficamos sozinhos em nosso gozo. Pra que ter, se não for para a convivência? Sem o outro, não somos nada. Vamos cuidar do outro porque ele é parte imprescindível em nosso regime de prazer. Sem o outro,a festa da vida não se realiza. Se tudo é permitido, se podemos tudo, então por que não escolher ter o outro ao nosso lado e não como nosso inimigo? Por uma simples razão: precisamos do outro para viver. Ninguém é feliz sozinho, já dizia Vinicius de Moraes.
“Mantenha Distância”

A advertência escrita nos párachoques dos caminhões para evitar colisões é também muito útil para outros fins, como, por exemplo, manter a saúde de uma relação amorosa. Antes de ter alguém a quem amamos, o desafio é achar essa pessoa que a nós nos parece especial e única. Que desperta aquele interesse a mais, que tem aquele brilho que faz a vida inteira ter cores diferentes, que nos atrai e nem bem sabemos por que. Estando felizes com o nosso amor, queremos assim permanecer pelo resto de nossas vidas. Parece tão bonito e tão lícito. Desejar o quê mais quando já encontramos o que queríamos? Queremos estar com o/a amado/amada o tempo todo. A tendência não é só ficarmos juntos, mas nos amalgamarmos, que quer dizer misturar, mesclar, mas também confundir coisas diversas. Essa mistura vira uma massa que tende a se fixar. Como aquela massinha de colar que uma é branca e outra preta e que ao se misturar fica um cinza que endurece e nunca mais tem flexibilidade. Fossiliza. Depois disso não mais ficamos juntos e curtindo, mas sim juntos e cobrando. Começa a cachoeira de exigências e reclamações querendo enquadrar o outro na nossa neurose. Isso não acontece porque o amor acabou — ainda não. Isso só acontece por falta de espaço. Tratamento prescrito: mantenha distância. Ter vida própria, projetos e interesses é manter distância. Desejar para fora do par amoroso é manter distância. Alimentar sua alma de carinho, aceitação e reconhecimento por meio de outras relações alivia a obrigatoriedade do parceiro ter que ser tudo pra gente. Porém, pode-se argumentar que no mundo de hoje ninguém é de ninguém. Todos trabalham, ganham a vida, têm interesses variados… Não é bem assim quando se trata de questões amorosas. A mulher gruda de um jeito como querendo tudo do outro. O homem, por sua vez, gruda de outra maneira, ainda querendo — apesar de negar — uma posição aquiescente da mulher. Então o prazer de estarem juntos vira gozo — aquele do alcoolista que não bebe mais por prazer, mas por compulsão, porque não dá conta de querer fazer diferente. Aquele ato que poderia ser prazeroso se torna uma escravidão e perde o seu gosto de escolha, aprisionando os participantes numa dança macabra de cobrar e de querer submeter o outro. É paradoxal, mas a proposta é esta: para ficar juntos e bem, mantenha distância. Pois, não aceitamos as diferenças do outro. Exigimos compreensão quando “não há relação sexual”, o que nas palavras de Lacan quer dizer não há completude. O outro não vê como nós vemos e não tem que ver. A distância adequada une. Um casal só vai dançar se estiver junto e separado. Se colar cai, fica sem movimento possível, perde a leveza, o gosto… Perde o amor, ficam as cobranças. Relações sem distância tendem a se infeccionar, como uma ferida exposta. O bactericida que limpa a área se chama distância, que nos faz sentir a falta que o outro nos faz. Que nos faz ver que ele não é a causa de nosso mal-estar. Saia com “seus” amigos e não só com os “nossos”. Tenha seus hobbes solitários, suas particularidades, não se mutile. É preciso estar bem e ser feliz sozinho para ser feliz a dois. A relação não é pra nos fazer felizes,mas para continuarmos felizes. Ter vida própria e não parasitar a do outro é, internamente, não querer ser dono do outro. É você com você. Trata-se muito mais de disposições do que de atos teatralescos para mostrar que não está cobrando. Sabemos que a vida não é fácil e não deve ser a pessoa que está mais perto de nós, com a qual compartilhamos nossa intimidade, nosso alvo preferido para jogar a causa da dor de viver. Difícil não é viver com o outro, difícil é aguentarmos nós mesmos com o que não aceitamos, não gostamos em nós e projetamos no outro.
De onde vem a felicidade?

Por que será que se fala tanto em felicidade nos últimos anos? Pode-se ingenuamente pensar que sempre se falou. Será que na Idade Média falava-se muito em felicidade? Ou será que se falava em pecado, castigo, céu e inferno? Aliás, o céu e o inferno caíram de moda. Ouvimos que céu e inferno estão dentro de nós, que estão aqui mesmo na terra ou que são somente as consequências de nossos atos. Localizemo-nos melhor dentro do movimento da história para entender que a maneira que vemos e vivemos a questão da felicidade na contemporaneidade tem um caminho construído com muito esforço, que foi aberto no meio da escuridão. O lugar central que ocupa o desejo de ser feliz hoje testemunha uma materialização progressiva da questão da felicidade que durou dois séculos. No século 18, conhecido como o “século das luzes”, muitas vozes se levantaram para dizer que a religião não poderia ser a única fonte de explicação da vida e de seus fins. Voltaire, um dos iluministas, dizia que “A grande e a única questão que nós devemos ter é a de viver feliz”. Isso era muito revolucionário num mundo no qual só se pensava em salvar a própria alma do fogo do inferno. Todo o “século das luzes” reflete sobre o que é a felicidade e chega à conclusão que a felicidade é uma questão dos homens na Terra. Que tem a ver com o prazer que experimentamos no corpo e não a salvação da alma. Por isso, a ideia da salvação foi, segundo Michel Foucault (filósofo francês que pesquisava a filosofia da história), substituída pela busca da saúde do corpo – vê de onde vem toda essa ideia, às vezes até exagerada, de cuidado com o corpo e a saúde? Isso é totalmente novo. Por toda essa construção histórica é que Freud pôde, já no século 20, afirmar que a felicidade é uma aspiração universal e que ela é mesmo a finalidade da vida humana. Ele vai mais longe quando afirma que a aspiração à felicidade é essencial à constituição do sentido da vida. Que a crença na felicidade nos aponta os rumos a seguir, as escolhas a se fazer. É isso: Freud liga a busca da felicidade ao sentido da vida, o que não é pouca coisa. Sabendo de tudo isso, talvez agora você não aceite tão facilmente que se diga ao seu redor que felicidade é uma busca superficial de bem-estar, que só pessoas ingênuas e egoístas desejam alcançá-la. Estamos colhendo os frutos de 200 anos de história que passaram por quebras e reconstruções de padrões de comportamento e de crenças. Chegamos onde estamos: no limiar de um mundo com relações horizontais, em rede, com o poder diluído cada vez mais nos dedos de cada um. Hoje temos mais acesso ao direito de viver uma singularidade sem ser queimado na fogueira ou ver os rostos se virarem em desaprovação. Hoje já somos até aplaudidos quando assumimos o risco de fazer diferente, de inventar um jeito especial de fazer seja lá o que for. E essas são as condições da felicidade: não viver para a expectativa do outro, mas sim, segundo seu desejo, mesmo parecendo esquisito aos olhos dos outros. Estamos vivendo as conquistas de homens visionários que anteviram seres humanos podendo fazer o que fazemos hoje. Usufruirmos como nunca antes das descobertas tecnológicas em todos os campos, principalmente o da comunicação – o que, insisto, dá a cada ser humano a possibilidade de falar com o mundo inteiro –, privilégio antes só tido por homens detentores de grande poder. E se não bastasse todas essas conquistas, temos ainda uma nova forma de transcendência (aquele valor que nos coloca para além do material), que é o amor pelo outro ser humano sem que ele tenha que ser igual a nós. Desfrutemos com consciência e gratidão dos frutos que muitos plantaram para o futuro da humanidade. E esse futuro somos nós.
O alfabetizado analfabeto

Definição mais básica de analfabeto: aquele que não sabe ler nem escrever. Pode também ser aquele que não conhece determinado assunto. Ou então pode simplesmente designar uma pessoa muito ignorante e não exatamente que não saiba ler. Ignorante, por sua vez, é aquele que não está a par de algo. Mistério… De que estou falando afinal? Dos que apenas desconhecem algo? Ou seria dos que leem e não entendem o que foi lido e por isso seriam alfabetizados analfabetos? Nada disso. Estou falando dos acontecidos de nossas vidas que não sabemos ler. Estou falando de nossas histórias presentes e passadas que interpretamos como quem não sabe ler. Não sabe ler as entrelinhas. Não sabe ler de trás pra frente, nem de ponta cabeça. Tudo o que se passa entre os seres humanos tem essa riqueza imensa. Não dá para saber à moda de um robô — se ele existisse — nem à moda do computador, que corrige automaticamente algo que queremos mudar por uma questão de estilo. Uma máquina não entende o “mais além” que é expresso num tom de voz, num levantar de sobrancelhas, num desviar de olhar. O ser humano não só inventou a linguagem que significa algo especifico no código como também o sentido subjacente para além e para aquém do que foi dito. Se Deus escreve certo por linhas tortas, o ser humano também. Quantas vezes dizemos de maneira torta algo que, se formos esmiuçar, não era bem aquilo que saiu? Por isso é preciso aprender a ler além do bê-á-bá, ler o subjetivo, o sutil que está dito de formas inusitadas e fora do padrão. Lembro que passei anos de minha vida paralisada no meu escrever pelo que me fez uma professora de português de minha adolescência. Ela me chamou diante da turma, coisa que geralmente fazia para elogiar a melhor redação. Quando cheguei alegre e saltitante, pois sabia que tinha feito uma bela redação, a mestra me detonou diante do grupo dizendo da vergonha que era fazer uma cópia e apresentar como uma criação. Terminou afirmando que só não conseguira descobrir de que livro eu tinha plagiado o texto. Apesar de meus protestos, que foram sumindo diante de tanta convicção da indignada mestra, retirei-me dilacerada. Eu tinha tirado aquela história — de retirantes do nordeste, me lembro bem — do fundo de minha alma. Anos se passaram e um dia me dei conta de que aquela injustiça, se não fosse lida por um analfabeto, se fosse lida nas entrelinhas do fato, revelaria um tremendo de um elogio. A professora simplesmente não tinha conseguido conceber que uma adolescente de 12 anos de idade pudesse ter pensado e escrito aquilo. Reli minha história, refiz minha rota. Fica o convite para que você releia a sua história naquilo que lhe causa sofrimento ou que você lê como impedimento a que alcance o que deseja. Mude-as de lugar, faça com que portas fechadas sejam abertas, com que o que foi ruim franqueie coisas boas. Mude a história de sua vida e, assim, mude o seu presente. “Eu sofri porque não fui o preferido” pode virar “Que bom que me construí com muita autonomia!” Não é balela. Existe sempre um lado diferente e melhor para se considerar cada fato. Ressignifique e livre-se das leituras impróprias, ou pelo menos desfavoráveis, que você fez de sua história. Viva o personagem que você é hoje e não o que supõe que fizeram para você. Se eu estivesse ainda chorando o leite derramado da professora que me humilhou perante os colegas, não estaria hoje aqui no jornal, escrevendo para vocês que consegui fazer da vergonha o maior elogio que já recebi em toda a minha vida. Não podemos escolher certos fatos, mas podemos escolher a interpretação que damos a eles. E a nossa força reside nisso!
Você sabe o que é Complexo de Édipo?

Não é o mito grego de um filho que mata o pai para ficar com a mãe, mito esse que Freud toma para falar do castigo que a civilização impõe a quem não obedece suas leis? Quando mencionamos um mundo edípico, de que estamos falando? Estamos falando de um mundo com lugares muito bem definidos – não só o de pai, mãe, filho; mas também de definições fixas dos papéis sociais: ser professor é ser assim, ser médico é ser assado… Sair desses lugares nos custava um preço altíssimo a pagar pela desaprovação e crítica. Era mais ou menos como se cada um de nós fôssemos um “Edipinho” tirando as coisas do lugar. Mulher desquitada, gays, homens cooperando nas lides domésticas, todas essas e muitas outras quebras do costumeiro eram tidas como muito ameaçadoras ao mundo onde cada qual tinha o seu lugar e a transgressão era promessa de destruição do mundo. De fato, a igualdade era necessária para manter os grupos. A sociologia hoje usa termos como “globalização” ou “mundialização”, “sociedade liquida” e “hipermodernidade” para descrever o mundo contemporâneo. Já a psicanálise do século 21, para falar do mesmo momento histórico, afirma que estamos num mundo pós-edípico. Se o mundo edípico era o mundo de lugares marcados, então o mundo pós-edípico seria um mundo sem lugares pré-marcados? É isso e muito mais. Nas últimas décadas tivemos a Primeira Guerra Mundial, depois a Segunda, o fim das utopias políticas como o socialismo etc. E o ser humano foi olhando com descrédito para aquelas pessoas ou instituições que delegavam o poder de cuidar de seu bem estar. É o que chamamos de queda dos ideais. Ou seja, o Édipo se deu mal porque não respeitou as regras. E muitas pessoas nesse último período histórico andaram descobrindo que se deram mal por respeitarem sem questionamento pessoas e instituições. Conversinha perigosa essa. Aprendemos que em sociedade ninguém que respeita as regras pode se dar mal. Pode sim. Quantos de nós conhecemos quem foi torturado ou morreu por uma boa causa e depois o tempo demonstrou que a tal boa causa não passava de jogo de interesses pessoais? Quantos se empenharam em projetos admiráveis para depois ver seus sonhos em frangalhos? O que está se vendo é que o ser humano confia cada vez menos cegamente o seu destino nas mãos dos outros, sejam eles quem forem. Se munem de todas as informações disponíveis – e saber é poder, não se esqueçam – antes de se lançarem numa empreitada qualquer, uma consulta médica que seja. Se o mundo edípico era o da obediência cega porque os mais velhos sabiam o que era melhor para você, porque se você fizesse igual permaneceria não criticado, isso começou a dar mais sofrimento do que ganhos. O que se vê hoje são pessoas cada vez mais preferindo correr os riscos e inventar, ao invés de obedecer. Ser diferente não é mais uma doença contagiosa, mas o jeito de ser de cada um. Estamos num mundo pós-edípico porque ao se fazer algo de maneira diferente da habitual se é notado e aplaudido – e não temido e marginalizado. A invenção é bem vinda. A diferença não é maldita, mas uma fonte de riqueza. E por falar em mito grego, sabe por que a Grécia foi o berço da nossa civilização? Porque suas terras que avançavam sobre o mar receberam naquele período a visitação de gentes de todo o mundo de então. A Grécia se tornou uma aldeia global do conhecimento vigente e pôde gestar e dar à luz a uma civilização que nos proporciona até hoje instrumentos para nos pensarmos. Olha nós aqui falando de Édipo para nos definirmos na hipermodernidade. A riqueza que podemos esperar desse novo encontro de mundos no mundo é insondável. Uma nova civilização de conhecimento, invenção e liberdade. Dá pra apostar nisso.
Ser pai e mãe – a missão impossível?

Educar, governar e analisar, as tarefas impossíveis. Isso pode querer dizer que ser pai e mãe talvez seja uma tarefa triplamente impossível, já que dos pais se espera conjugar esses três verbos na educação de seus filhos e muitos outros mais. Lacan, ao abordar a questão, o faz em termos de funções. Para ele, não existem pai e mãe. Existem a função materna e a paterna. Cada uma delas com atribuições bem específicas, de uma certa forma opostas – e complementares. A função materna é o exercício de um cuidado do tipo: “Faça no lugar da criança que ainda não consegue fazer por si só”. É a pessoa que vê, escuta e percebe o que a criança precisa: “Esse choro é dor de barriga. Agora esse é de fome”. E, veja bem, não são só as genitoras, as mães biológicas, que têm essa percepção aguçada. Embora elas sejam as melhores candidatas, qualquer pessoa com real interesse na criança começará a perceber seus sinais sutis, mas evidentes, com o tempo. Essa é a função em que o adulto que cuida carrega aquele que não pode andar, alimenta o que não consegue sequer levar o alimento à boca, pensa por aquele que ainda não consegue saber do que se trata nem o que responder. É aquela história: “A mamãe/o papai sabe o que é bom pra você”. E nesse momento sabe mesmo! O probleminha são as mães e os pais que passam a vida inteira sabendo o que é bom para os filhos. Isso é tirá-los do centro de decisões de sua própria vida. É relegá-los a serem criaturas mais ou menos acéfalas, perdidas na vida sem papai ou mamãe. Este seria o caso de falta de função paterna. Vamos a ela. A função paterna é aquela que, da mesma forma que a primeira, poderá ser operada por todos os adultos que rodeiam e cuidam da criança. Essa função é a que vai separando, tirando a criança dessa dependência. É aquela que passa para o filho a mensagem: “Vai que você dá conta. Eu não faço por você o que já consegue fazer. Você está sozinho nessa”. Ou dizer lindamente para seu filho que está se constituindo: “Vai que a bola é suuuua!” E se aguentar. A função paterna se trata de deixar o mundo entrar na vida de seu filho com suas propostas e valores atuais. Não é só a sua história pessoal que vai contar na vida desse ser que você pôs no mundo. É o que o mundo tem a oferecer e que, muitas vezes, você não aceita. É o conflito entre gerações e contextos históricos: nós estamos inseridos em um; nossos filhos, em outro. Pode doer, mas o fato é que os nossos filhos pertencem sempre a um mundo que não é o nosso. Isso se aplica a nosso cônjuge também, a nossos irmãos e, pior, a nossos próprios pais. Estamos cada um em um planeta habitado por um só. Talvez com nossos filhos isso seja mais difícil de ser aceito, uma vez que eles nasceram de nós, deveriam ser nossa imagem e semelhança. Mas não. São eles mesmos, únicos, como todos nós. O ser humano, pela sua libertação da mesmice instintual e capacidade de comunicação, muda tanto de uma geração para a outra que há comumente um estranhamento. “Como posso ter gerado um ser tão estranho a mim?”, escuto, às vezes, de pais atordoados tentando reconhecer o filho que geraram. Coisas de ser humano… Cupins não sofrem desses males. Por tudo isso, o ser humano precisa dessas duas funções – a materna e a paterna – para ser formado. Não dá para dizer que mãe não pode trabalhar fora porque tem de cuidar dos filhos. Todos têm: pai, avô, avó, tios, amigos – já que são funções e não pessoas. Os lugares não são fixos. Quando uma criança está recém-nascida, os humanos ao seu redor exercem função materna. À medida que cresce, função paterna nela, para que cresça com a autonomia necessária para achar e construir um caminho que seja seu e que a faça feliz na sua vida inventada.
Você sabe o que é narcisismo?

Narcisistas são aquelas pessoas que se acham o máximo. Elas são melhores do que todo mundo. Tudo o que lhes pertence é mais isso, mais aquilo. Estas seriam respostas da maioria das pessoas. E se ser narcisista não significasse nem de perto o que se pensa comumente? E se a fanfarronice do dito narcisista não passasse de uma tentativa desesperada de parecer ser alguma coisa? O narcisismo é um modo de funcionamento psíquico em que o sujeito só consegue se ver refletido no que vê no rosto de outro ser humano. Se ele se mostra querendo ter a confirmação de sua inteligência, por exemplo, vai dizer algo impactante e olhar para o interlocutor. Se, e somente se, vir refletido no olhar do outro a confirmação de sua inteligência é que terá, momentaneamente, a convicção da existência dela. Quando digo momentaneamente é isso mesmo. Porque o narcisismo, ou seja, a dependência do olhar do outro, só se sustenta diante do olhar do outro. Quando passa um tempinho lá vai o cego procurar quem o vê para dizer-lhe quem é, como está naquele momento, etc. É o que se passa com as chamadas “pessoas inseguras” que ficam o tempo todo buscando, de formas mais escrachadas ou mais sutis, que digamos como elas estão. Coisas do tipo: “Você acha que essa roupa ficou bem mesmo?” Aí você responde que sim. Daí a pouco o saco sem fundo, sem nenhuma raiva nisso, porque é saco sem fundo mesmo, pergunta de forma enviesada: “Parece que a saia está meio curta, não é mesmo?” Então você, conclamado para ser o espelho-do-outro, retorna a imagem: “Não está curta não. Está bem assim”. No que você pensa que vai descansar, vem outra pergunta, desta vez disfarçada em reflexão em voz alta: “Sei não, mas essa blusa tá meio larga”. E você, resistindo bravamente, desta vez não diz nada. Vira de lado e finge de morto. Nem pense que funcionou porque lá vem o complemento da “…blusa tá meio larga, você não acha?” Meu amigo ou minha amiga, você não tem escapatória. Vai ter que achar algo. Afinal é algo terrível alguém se olhar no espelho e não ver nada. É muito angustiante. Aliás, é como os vampiros que não têm a capacidade de ver a si mesmos refletidos no espelho e vivem do sangue alheio.Afinal o que seria viver do sangue do outro? Há, desta forma, uma dependência do outro para me dizer quem sou. É como se eu precisasse da complementaridade, sem ela é o desgarramento, não sei de que maneira posso me apreender. Quando o outro não está lá onde eu o espero, dizendo o que quero ouvir, me dá uma crise de reconhecimento e eu não sei onde amarrar a minha égua. No entanto, até aqui ficaria tudo bem se não fosse o fato de que essa cegueira – que exige que eu utilize o olhar do outro para me ver – me deixa numa situação de desamparo frente a esse outro que detém as coordenadas de meu destino. Dai passo a viver na expectativa do reconhecimento do outro. Passo a viver uma vida de “escravo” da expectativa do outro”, segundo Jorge Forbes. Se me fio naquilo que o outro diz de mim fico indefinidamente em suas mãos, e não se esqueça de que todo olhar é interpretativo. Então eu coloco o meu destino nas mãos de alguém que “acha” isso ou aquilo, conforme a visão que tem da situação. É uma submissão impotente diante de alguém que não pode saber de você mais do que você mesmo. Arriscar-se sem a garantia do outro é uma saída que vai lhe dar potência. Se orientar no mundo sem perguntar o que o outro espera de você vai lhe abrir uma vida de invenções e não de tentativas de corresponder ao desejo do outro. E uma vida de invenção e não de submetimento é o caminho certo para dias vividos em um estado de bem estar com você mesmo. E por que não dizer descaradamente, dias felizes com você mesmo?
Cozinhando as preliminares

Refogue o frango em alho dourado e acrescente a pimenta de cheiro. Vá pingando a água quando tiver formado uma crosta marrom no fundo da panela. A água vai fervilhar uma espuma aromática e impregnadora de sabor e cor. Só então ponha a cebola picadinha, que dará, ao se derreter, cremosidade ao molho que ficará dourado, espesso e saboroso. Sirva numa linda travessa com cheiro verde picadinho, rodelinhas de cebola branca, pimentinhas de bico vermelhinhas e que mais o seu entusiasmo pedir para dar um ar festivo. Ou então… Ponha dois litros de água numa panela, jogue umas colheradas de extrato de tomate para dar cor. Acrescente alho cru amassado – dá muito trabalho dourá-lo, então deixe prá lá. Jogue também uma cebola cortada em quatro – cortar miudinho dá muito trabalho, não precisa. Quando a água vermelha com o alho cru e a cebola estiverem fervendo, jogue os pedaços de frango e deixe cozinhar até ficar mole. Nem tem necessidade de deixar o caldo engrossar porque pode levar muito tempo e o que a gente quer é evitar muito trabalho. Estando o frango cozido, mesmo que boiando feito aquela carne branca parecendo lixo descendo rio poluído, vai estar valendo, porque afinal, ele será comido em 5 minutos e tudo estará esquecido. A segunda versão – a de evitar trabalho inútil – era o jeito de uma amiga americana preparar a comida. Morei com sua família e, como sempre gostei de cozinhar, as panelas ficavam por minha conta. Quando eu me ausentava era ela que assumia a direção do fogão. Hoje entendo bem melhor os sorrisos largos e o brilho no olhar dos comensais com veementes frases de boas-vindas e felicidade pela minha volta. A comida da tal era horrível sem atenuantes. Era pra encher o bucho e tentar esquecer o que se comia. Se tentasse degustar era morte certa. Melhor “cobrir com a bandeira e comer por amor à pátria”. Uai, parece que conheço esta frase usada para outro tipo de situação – e ainda por cima relacionada com o verbo comer também! As preliminares do primeiro prato é que criam o sabor que vale a pena ser degustado. E veja que são usados os mesmos ingredientes, diga-se de passagem, porque além de alho e cebola – os temperos são uma lista pequena sem muitas opções – a diferença está no savoir-faire (saber fazer) da combinação e uso. É o capricho, a dedicação, o querer fazer acontecer. Exige investimento, dá trabalho meeesssmo! Seduzir horas, dias e semanas antes da cama dá outro sabor. Aliás, seduzir sempre, sendo uma pessoa desejável, ética, emocional, intelectual e carnalmente falando, só pode ser o máximo. Por que não tentar? O sabor final pode ser INESQUECÍVEL. Inesquecível a ponto de ficar com gostinho de “quero mais”, desejo de repetir o prato, que, melhor ainda, será sempre diferente, mas talvez não menos inesquecível. Podem me questionar que numa vida cotidiana isso não é possível. Mas aí é que que está a questão: a nossa vida cotidiana está cheia de momentos de separação e retorno. De vai-e-vens tão propícios a gerar desejo. É que não vivemos cada dia como se fosse o único e aí repetimos as velhas frases e comportamentos. Só usamos roupa velha suja e batida. Sem surpresas nem descobertas. Que é possível é. Por exemplo: o Taj Mahal, construído como uma homenagem de um homem apaixonado a uma mulher que já tinha lhe dado um monte de filhos e vivido um tempão com ele. Penso que esta é uma prova de um imenso amor e desejo que pode não só permanecer como aumentar com o tempo. O Taj Mahal nos mostra isso. Não se esqueça nós só desejamos gente viva. Gente que não parou no tempo, que não está na onda daqueles que dizem: “comeu a carne e agora tem que roer o osso”. O segredo da boa cozinha está no detalhe, no investimento para que haja sabor.