Onde está o seu descanso?

Por Luciene Godoy
Onde podemos descansar? Sabia que um bom travesseiro de descanso são os nossos pensamentos? As interpretações que fazemos de nós e do que nos acontece podem ser afagos ou espinhos para nossa alma.

Por que a gente não se entende

Por Luciene Godoy e Valéria Belém
Nem sempre a gente entende a língua que o outro fala porque está tudo lá, na cabeça dele. Então, somos os felizes proprietários de milhões de palavras que só fazem sentido para nós mesmos, uma linguagem própria e intransferível.

Convite à ciênçarte

Por Luciene Godoy
Estamos sempre “na melhor escolha” das nossas vidas. O que faz sofrer é a cegueira e a percepção que veio conosco de TerraUm, o mundo que habitamos no século 20, no qual o objetivo era viver para ser aceito.

Com que olhos você me vê?

Por Luciene Godoy
Apesar do descompasso do tempo, da posição e do parceiro, a primeira relação de amor é tudo o que possuímos para nos ajudar a mudar o que é necessário, para ser bem-sucedido neste mesmo/novo tipo de amor.

Quantos corpos nós temos?

Por Luciene Godoy
Ao deixarmos de parasitar o corpo do outro materialmente no útero, na imagem do outro e no simbólico, abrimos acesso para, finalmente, ter um corpo para chamarmos de nosso.

A angústia dos domingos

Luciene Godoy // Domingo é um dia meio triste para muita gente. Andei “pesquisando” entre amigos e analisantes e, mais uma vez, constatei: tem uma certa tristeza que paira na vida das pessoas no domingo. Nada muito grande, apenas tardes meio cinzas, paradonas, ao mesmo tempo cansadas do que foi e sem ânimo para o que vem… Olhando melhor, parece que o cansaço é mais do que virá. Assim, alguns tendem a pensar que dá uma tristeza pela “segundona braba” que se anuncia. Uma falta de energia de começar o “batidão” do dia a dia estressante. E daí o “cansaço antecipado” de um cotidiano que é percebido como tão pesado que as forças se esvaem só de pensar no esforço – inglório – de voltar à estaca zero no outro dia e esperar até o glorioso e salvador fim de semana finalmente chegar de novo. Para outros, não se trata da “morte anunciada” de uma semana de “ralação”, mas da incapacidade de usufruir de um dia feito só para o nosso deleite. São nossas escolhas do que fazer, do que curtir, do que viver. E isso, muitas vezes, deixa um vazio inexplicável. É que o ser humano, vindo do século 20, criado para se adequar à Era Industrial, também foi conformado à produção em massa e a ser ele também um produto padronizado, daí a estranheza de poder: escolher dói. Muito compreensível, pois o nosso conforto é ser igual, é pertencer a um determinado conjunto – amigos, parentes, colegas, conhecidos – que nós adotamos e vivemos na luta para manter a adoção válida, pois exclusão é a palavrinha maldita que nos mata em vida. Perguntar-se “O que quero?” é deveras muito angustiante para quem foi criado para perguntar “O que quer você de mim?” E no domingo a cultura nos diz: escolha (mesmo que dentro de opções limitadas: almoço com a família – ich!, muitas vezes de prazer vira obrigação! Ai do filho que deixar de prestigiar o almoço da mamãe –, ir ao cinema e dar um passeio no parque). Mas o que fazer com a angústia que causa a possibilidade de fazer a “escolha errada”, quando não dá para se esconder atrás do maior alívio para a dor e os riscos da escolha – o “eu tenho que”? Sim, porque o “eu tenho que” é a pílula salvadora da obrigação que os outros me impõem e eu, pobre oprimido, fico lutando para cumprir minha sina de obediente sem escolha. Você não sabia que é sua a dor e o prazer? Pois é… ninguém vai viver dentro de sua pele os sentimentos que geram as suas escolhas. Mas, sim, é verdade, “o desprazer de se ver desaprovado pelo outro é tão grande que vale a pena o sofrimento”. Quem diz isso está afirmando que vale a pena o sofrimento de tentar se adequar para o que mesmo? Ah! Sei.. para não sofrer. Se entendi bem, é sofrer agora para não sofrer depois. É isto? Não, acho que não entendi bem. Deixe-me clarear as ideias repetindo a pergunta: a escolha é preferir sofrer o sofrimento presente de não ser o que se quer ser, para evitar o sofrimento futuro de ser desaprovado ou excluído? A lógica da escolha é: sofra agora para não sofrer depois, ou seja, o sofrimento de depois eu não sei se virá, mas o de agora já está garantido. Sofro para não vir a sofrer. Gente, por mais que me esforce, não consigo ver o ganho da escolha. Principalmente quando me lembro de uma frase do pesquisador Clóvis de Barros Filho, professor de Ética da Universidade de São Paulo: “Felicidade é quando o momento vivido vale a pena pelo que é”. Rifar a felicidade que pode ser vivida no presente pela evitação de um sofrimento futuro parece… insano. Podemos, no entanto, fazer outras escolhas como a do carpe diem – aproveite o dia, o momento – ou a do amor fati nietzschiano – amor do que é, o amor pela realidade como ela se apresenta – e aí, sim, beber o vinho novo que é viver momentos que valem a pena pelo que são. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 24 de março de 2016.

Eu sei o que é, mas não sei explicar

Luciene Godoy // Dias atrás, preparando uma aula do Seminário 20 de Lacan, me vi dizendo uma frase que certa época povoou minha infância em Caldas Novas. Uma de minhas amiguinhas saiu com a brincadeira de “dicionário”. À queima-roupa, éramos conclamadas a dar uma definição de palavras corriqueiras. Instalou-se uma angústia generalizada, porque descobrimos que não saía nada de nossas bocas. Os olhos viravam, mãos se esfregavam, pezinhos batiam no chão, risinhos sem graça e nada. Perguntas do tipo “o que é derramar?” ficavam sem resposta. Imaginávamos o líquido caindo para fora de um recipiente, imaginávamos a sujeira, a imagem estava lá, mas a definição não saía. Mas, com tudo isso, descobrimos algo bem importante: podemos saber o que algo é e ainda assim não saber explicá-lo. Mesmo coisas muito familiares e fáceis. Talvez hoje possamos tirar lições mais úteis ainda: nem tudo precisa de explicação para existir nem para que possamos fazer algo com a tal coisa que não sabemos explicar, mas que sabemos o que é. Isso quer dizer que podemos desbancar um verdadeiro vício que nos domina que é achar que conversar, “dialogar”, fazer uma “DR”, ou o contrário, quebrar o pau, brigar feio (ou bonito) são os únicos caminhos para se encaminhar um impasse. No século 21, temos muitos outros instrumentos para agir sem saber a razão daquilo, mas ainda assim achar saídas. Vamos a um exemplo doméstico de uma mãe que chega para sua sessão de análise bufando de raiva da filha de 9 anos que está lhe tirando do sério. A menina pede para ir a um determinado passeio com coleguinhas e a mãe – calmamente – argumenta que naquela semana já tinha tido passeio. A menina, aumentando o tom da voz, insiste que as outras mães deixaram suas filhas participarem. A pobre e desconsolada mãe, já nos limites da paciência, anuncia a tão conhecida expressão: “Eu não sou as outras mães”. Tiro perdido. A menina continua, agora, com desespero e pressão ao máximo: ”Deixa, mãe! Deixa, mãe!” A mãe explode de raiva, se sentido desrespeitada, perde a paciência e grita. Sai da cena envergonhada, sentido que perdeu a parada quer a filha vá ou não ao tal passeio. História bastante corriqueira, os pais de crianças e adolescentes bem sabem disso. Diante de mim, a mãe desconsolada afirma que não dá conta de não entrar no jogo da filha. Eu digo que não acredito que ela não possa ser mais esperta, competente e forte do que uma criança ou adolescente. “É só uma questão de se usar instrumentos eficazes”, eu digo, “Você está usando fósforo riscado, frases pasteurizadas que já perderam o efeito”. Proponho à mãe perdida uma nova estratégia que eu chamo de “fazer-se de espelho”. Quando a menina começar com o seu teatrinho, à mãe caberia fazer a repetição minuciosa das palavras, tons de voz e trejeitos da garota. Na semana seguinte, a mãe chega com um sorriso exultante e os olhos brilhantes: “Deu certo, deu certo! Parecia que nada mudaria aquele tipo de situação”. No primeiro pedido que mereceria uma negação, tudo aconteceu como sempre. A menina expressou o novo pedido, a mãe respondeu calma e respeitosamente. Começou o segundo ato, que era onde a pequena roubava as forças da mãe. A menina seguiu seu ritual subindo a tensão de nível e a mãe começou a imitá-la. A filha respondeu com uma expressão intrigada, do tipo: “O que está acontecendo por aqui?” Voltou à carga e a mãe fez igualzinho. Aí foi a filha que se perdeu e começou, já em desespero, a pedir para a mãe parar. Saiu com o rabinho entre as pernas sabendo que foi desmascarada. Cadê a mãe? Não havia mais mãe ali para ser manipulada. Ela era só um espelho e a filha pôde ver a si mesma no espelho-mãe. Funcionou! Resolveu e não teve explicações (que já tinham passado da conta). Falar, acredite, muitas vezes pode ser o maior atrapalho para algo mudar. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 3 de março de 2016.

O que é o amor?

Luciene Godoy // Lacan dizia que amar é querer fazer “Um”, tentar a partir de dois fazer um. Quanto a isso, ele não deixa a menor dúvida no seu Seminário 20, em que afirma: “Nós dois somos um só. Todo mundo sabe, com certeza, que jamais aconteceu, entre dois, que eles sejam só um, mas, enfim, nós dois somos um só. É daí que parte a ideia do amor”. Será que tentamos nos ligar a um outro querendo fazer “Um” porque somos só a metade? É sim. Por estrutura, somos seres incompletos. E o que podemos fazer com seres incompletos? Tentar completá-los, ora bolas! Tentar encher o buraco com um outro ser humano. Ah, mas… E se o outro ser humano não couber dentro do tamanho do seu buraco? E se o seu “tapa-buraco” não se adaptar a suas necessidades, como fazer? Dá-se sempre um jeito: corta daqui, preenche com uma fantasia aqui, uma ilusãozinha de lá, e a coisa se completa de novo. E não nos esqueçamos: buraco cheio, vida boa. Buraco cheio, a solidão caça rumo. Buraco cheio, a felicidade voltou para casa. Mesmo? Até quando? A cola Tenaz que colou meu mal-estar, o elixir que encheu o meu pote, tem pernas, vontade própria e pode – horror dos horrores – me deixar. Mas temos outras coisas no que pensar. A busca de tapar o vazio é a “solução” encontrada. A grande questão é de que se trata esse tipo de sofrimento. Na verdade, tudo começa porque existe o buraco, a falta, a incompletude. Sim, é verdade, mas isso pode ser uma riqueza. Seres incompletos são aqueles que se fabricarão para sempre. O ser que é incompleto não precisa pedir para que fechem o buraco. É para ter prazer com ele: decorando-o com múltiplas peças, surfando, deslizando, entrando e saindo, curtindo os momentos. É estar mais cheio às vezes e mais vazio em outras ocasiões. É ter chuva, depois sol, é estar frio e calor. É o ir acontecendo do fluxo da vida bem vivida. Não se completa a incompletude. Ela é como o joguinho de “falta um”, aquele que tem uma peça faltando para você se divertir mudando as outras peças, tendo o prazer de inventar a partir de um buraco. Porque existe o incompleto é que podemos dar novas respostas, inventar – palavra sinônima de criar – incessantemente uma vida nova. Ser incompleto pode ser fantástico se você tomar por esse viés: o do renascimento e aprendizado eternos. Ser incompleto é poder ir tendo vida nova, gostosa de ser vivida. Vida que é significativa e intensa, mas também com a serenidade de quem usufrui dos momentos e está bem nutrido dela – a vida gostosa. Amor “tapa-buraco” não foi feito para esta vida incompleta, que é muito boa para se criar viveres únicos – nós já vimos. Não é para completar, é para ir trocando de móveis, de pensamentos, de certezas e de escolhas. Tem, é claro, partes fixas, mas o pedacinho incompleto onde a construção continua, onde o novo é gerado, fica lá, no seu cantinho necessário e importante. A ilusão da completude é a trava que faz a máquina parar. A vida parar. Nosso amor pode ser o azeite para a máquina funcionar macia e deliciosamente. Pode ser o companheiro de desafios, conquistas e folguedos. Nosso amor pode ser uma presença que não preenche tudo, que não dá todas as respostas, que não cuida de nós como se fosse uma mãe, mas é um adorno para a vida incompleta e boa para ser preenchida sim, mas obstruída não. O amor-sofrimento é que mata o encontro no amalgamento do medo de perder, tentando possuir e garantir. O amor é o coroamento da vida e não a morte do encontro de dois. Amor-tapa-buraco, amor-sofrimento, amor-usufruto, amor-gostoso, amor-visita-nova-em-casa, amor-alegria, amor-prazer… Tantos amores possíveis… — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 25 de fevereiro de 2016.

O POPULAR: Luciene Godoy lança livro que combate a ideia de que amar é sofrer

A psicanalista Luciene Godoy, titular da coluna Divã do POPULAR, lança hoje, às 19h30, o livro A Felicidade Bate à Sua Pele – Uma Teoria do Apaixonamento (Cânone Editorial). A sessão de autógrafos será realizada na Livraria Nobel do Shopping Bougainville. A obra trata, entre outros temas, de como não deixar que os arroubos de um coração apaixonado se tornem em algo negativo. À luz da psicanálise, Luciene vai contra o senso comum que acredita que sentimentos como o amor e a paixão resultam fatalmente em dor e sofrimento. (…) — A íntegra da reportagem está no jornal O Popular desta quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016, em suas versões impressa e online.

Às mestras, com carinho

Luciene Godoy // “O homem é produto do meio.” Frase bastante conhecida e aceita. Já “no princípio era o Outro”, nem tanto. Mas é assim que a psicanálise nos permite definir nossa relação com o mundo. Somos produto dos nossos encontros com o Outro que habita esse mundo no qual entraremos e habitaremos. De saída, em nossa origem biológica, somos produzidos pelo espermatozoide de nosso pai e pelo óvulo de nossa mãe. Daí nos multiplicamos tomando emprestado o corpo dela, nossa primeira morada – um incubatório no qual nos preparamos para vir à luz ou, melhor dizendo, vir ao ar – que é o mundo não aquático no qual passamos a viver. Ao nascer, temos braços que nos acolhem, corpos que nos estreitam, seios que nos alimentam, mãos que incessantemente nos zelam e cuidam. Verdade é que nascemos do desejo do Outro que, nos projetando em seus sonhos, nos esperou ou, sem nos esperar, nos desejou depois. Nascemos das palavras que nos ensinam, dos sentidos, das razões, dos objetivos. O Outro nos dá a civilização para nela vivermos, nos insere no simbólico para dele desfrutarmos. Tudo o que somos se origina no Outro. Não só pai e mãe, mas todos os encontros que vamos tendo na vida que nos esculpem e tomam parte do processo de nos tornarmos os seres que somos, como os professores, por exemplo. Dia desses, recebi uma “carta do leitor” no POPULAR, belíssimo presente-reconhecimento. De quem? Da minha professora do Lyceu de Goiânia Maria Helena Garrido. Sua carta nada mais foi do que a demonstração inequívoca do quanto ela, como professora de francês, entrou em minhas veias e hoje eclode em minha relação com o mundo e com a língua que ela me ensinou. Posso falar também da professora Maria das Graças, do CCBEU, que, além de tantos olhares confirmadores e animadores, um dia me entrega um boletim com enorme brilho no olhar e a frase: “Parabéns, você tem um futuro brilhante pela frente!” Com uma frase como esta se repetindo em nossa cabeça, quem não vai para frente e constrói uma linda vida? Nascemos, e vamos nascendo de muitas formas pela vida toda, de todas as relações que mantivemos. Nos influenciamos mutuamente de maneiras impensáveis. Como se deu com minha eterna (sim, minha eterna porque está aqui dentro de mim para sempre) professora Maria Helena, que não pode pensar que foi só francês que me ensinou. Lembro-me com clareza da sua sutil elegância ao entrar na sala, a maneira como carregava os diários de classe e livros e os depositava sobre a mesa. Ela, assim como Marlene Crotté e a professora Helenice – uma eterna princesa da Alliance Française de Goiânia -, foram juntas, para mim, exemplo e comprovação do quanto mulheres guerreiras e intelectuais podem ser também charmosas e femininas. Minhas queridas mestras, não só de francês, mas de respeitoso carinho, de presença que dá vontade da gente crescer para chegar perto do que nos parece tão bom, vocês me nutriram de tudo isso. Sim, porque nos nutrimos das pessoas com as quais nos relacionamos. Nos nutrimos dos encontros que a vida nos proporciona. Encontros marcantes que edificam uma vida. É a absorção de todos os encontros processados dentro de nós que produzem um ser único que será um presente para o mundo: mais um ser humano para enriquecer a vida na Terra. E ainda tem quem fique correndo atrás do elixir da eternidade sem perceber que também isso é dado ao ser humano: nós não morremos, nós continuamos a correr nas veias daqueles que aprenderam conosco. Honra a vocês, queridas mestras e fontes de inspiração, projetos e construções, e meu eterno agradecimento. A vocês também ofereço o presente de mantê-las vivas no mundo e passar os seus “genes de comportamento” para todos aqueles que de mim também se nutrirão. — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 18 de fevereiro de 2016.