Essa é uma frase que ultimamente, na psicanálise, é usada o tempo todo. Na filosofia e na sociologia podemos ver que as ideias vão por aí também.
Como é que você entende essa afirmativa? Seria o fato de as mulheres estarem competindo com os homens, finalmente vencendo a parada e se tornando as novas donas do mundo? Longe disso.
Resumindo, é que estamos superando uma organização social em que as relações entre os seres humanos eram marcadas pela busca de padronização. Vivíamos sempre nos perguntando se o que estávamos fazendo estava “certo ou errado”.
E por que isso? Porque havia a maneira certa e a errada de fazer tudo num mundo padronizado. Num mundo… masculino. Num mundo de regras, do racional, do viver para o grupo, do levar muito a sério todas as convenções – se convencionamos é porque é bom para todos.
Tudo isso é muito bom. São formas que encontramos historicamente para nos mantermos juntos como espécie. Sacrificávamos os nossos desejos particulares para entrar numa cultura que exigia a obediência às regras para que pudéssemos conviver juntos.
E o tal mundo feminino, o que tem a ver com isso?
Bem, o mundo feminino é definido como o mundo das emoções, das ligações amorosas na esfera da intimidade, o mundo do corpo com sua dimensão afetivo-carnal.
Tradicionalmente, esse mundo foi mais habitado pela mulher pelo próprio estilo de vida definido como sendo atributo de mulheres: presidir a vida doméstica e, com isso, viver muito de perto momentos de doença e de impasses afetivos.
A mulher dá à luz, dá seu corpo e sua alma com uma intensidade que só podemos viver na carne banhada pelas emoções.
É o espírito desse mundo que chamamos feminino que começa a se espalhar por todo o mundo. Um espírito de valorização da vida em todas as suas formas. Desde as crianças muito mais amadas, respeitadas e valorizadas, chegando até o amor à Gaia – nosso planeta, que hoje é visto como nosso grande lar.
Sim, parece absurdo, mas hoje muitos de nós podemos dizer uma frase impensável décadas atrás: “Eu amo meu doce planeta azul”.
Estamos em pleno caminhar para o rumo de adotarmos o amor como “o fundamento de uma nova visão de mundo”, como diz o filósofo Luc Ferry.
Se o século 21 é feminino, isto quer dizer que ele vai substituir o mundo masculino? Dou um grande NÃO como resposta.
Estamos entrando, como cultura, num acordo mais largo e profundo entre razão e paixão. Desta forma, desejo fazer uma alteração e, ao invés de dizer o século 21 é feminino, prefiro dizer que ele está se transformando em masculino-feminino.
Não se trata de acabar com o precedente, mas de acrescentar. Agora que as mulheres podem ser masculinas, os homens também podem ser femininos.
Cada ser humano existe se valendo dos seus vários lados, por isso o mundo vai ser mais rico, com pessoas mais felizes – pois somos felizes quando respeitamos nosso jeito de ser sem nos mutilarmos em modelos engessadores.
No Dia Internacional da Mulher, sinto dizer aos que alimentam a “guerra dos sexos”: o mundo feminino é exclusivo das mulheres, mas sim o mundo das mulheres e dos homens. Porque os homens poderão usufruir de uma maneira de viver mais emocional e a mulher, do seu lado racional, potente como um homem.
O século 21, não sendo o do padrão, é o da criatividade, da subjetividade, da possibilidade de se ser valorizado em sua diferença. É isso o que quer dizer feminino.
O século 21 é um mundo que se organiza também em padrões, não é o caos. Mas acolhe e fomenta cada vez mais que cada ser humano se jogue no mundo sustentado no paraquedas de sua “unicalidade”.
Por isso corrijo o título inicial: O século 21 é feminino-masculino.
Quem sabe um dia celebraremos o Dia Internacional do Ser Humano, masculino-feminino, porque é isso o que somos?!