Eu sou uma mentira
Luciene Godoy Comecemos com cuidado porque essa frase é, no mínimo, desagradável de se ouvir. Confessar assim em público que somos um engodo, quem sabe mesmo um produto falsificado. Será a já propalada “síndrome do fake” – uma sensação de não sermos o que mostramos? Tenho um amigo que ao se apresentar para mim, há muitos anos, ao final de nossa primeira conversa, num momento de emoção e confiança, disse curto e grosso, em tom de desabafo: “Eu sou um engodo. Pra você eu posso dizer isso. Eu não sou nada do que as pessoas pensam de mim. Eu não sou quem eu apresento ser.” Passado todo esse tempo, me vejo pensando em quanto sofrimento essa pessoa deve ter passado por pensar que tinha algo errado com ela. E com quanta irritação ela deve ter tratado os seus próximos, pois a irritação de um mundo interno sofrido passa para fora em forma de agressividade. Por mais contida que seja, e geralmente é, a pessoa escapa e atinge quem está próximo. Magoamos nossos amados sem motivo aparente e nos sentimos culpados, o que gera necessidade de punição para nos aliviarmos. E alivia mesmo? Não. O castigo apenas faz girar o carrossel negro da infelicidade, que dá voltas e voltas em torno do mesmo eixo sem saída, sem mudança. A prisão de nos sentirmos uma mentira… Será que alguém consegue sempre mostrar o que é? Ou pior, será que alguém consegue mesmo mostrar o que é? Uma abelha mostra e mostrará sempre o que é. Podemos esperar dela as mesmíssimas ações. Para cada animal, teremos uma lista do que é ou não possível esperar. Para o ser humano, a lista é infinita, se ele não estiver morto. Não estranhe se sentir um engodo, uma mentira, algo que falseia e que aparece sempre onde não é esperado. É isso que somos mesmo e a isso damos o nome de subjetividade. É próprio do ser humano não saber nunca inteiramente dele mesmo. Repetir-se é doença, é neurose, é a fixação buscada para não sair do lugar e se arriscar. Seres vivos mudam a cada momento em muitos aspectos. Nós então, nem se fala. A doença não é mancar, não é errar – essa é a condição de quem faz. A doença é a “repetição”. É a cegueira neurótica, como afirma o psicanalista Jorge Forbes: “A neurose é a forma perfeita de se ter sempre razão.” Uma tentativa inglória de não se sentir errado e falso porque nada de novo está acontecendo. Então não mudar é o que nos dá consistência? Estarmos sempre onde é esperado? Isso é para as abelhas. O ser humano, se estiver vivo, muda o tempo todo, aprende o tempo todo. O próprio do ser humano é ser paradoxal, ser inesperado, ser inventivo, e isso se não estiver morto, como falo sempre – quer dizer, se não estiver fixado. O psicanalista Lucien Israël diz que toda subjetividade é louca, porque ela sai das referências da “normalidade”. O normal, a regra para o ser humano, é ser diferente. Diferente do outro, diferente do que ele mesmo supõe, diferente do que é esperado. Um ser que a cada passo é outro e que, se não for, está dodói da subjetividade. Nesse caso, esse seu jeito único de ser está trancafiado dentro de algum porão obscuro sendo impedido de sair pelo medo do inesperado que pode causar. Pena! A surpresa, o novo, o movimento são tão prazerosos que, quando acontecem, costumamos gostar muito. Só que, covardemente, fugimos do que não controlamos! Para os que estão sofrendo por se sentirem não verdadeiros, Lacan propõe uma maneira inusitada e bastante eficaz para nos enxergarmos e nos posicionarmos como somos de fato, seres inclassificáveis. O grande analista francês nos convida a estar na vida com nossas construções de sentido, com nossas interpretações, sabendo que nos sustentamos com as nossas “verdades mentirosas”. C’est ça! — Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 10 de abril de 2015.
Nem junto nem separado
Luciene Godoy // “Tanto os apaixonamentos quanto as separações da nossa vida amorosa são decididas por dinâmica que pouco tem a ver com os defeitos do outro… ou com as circunstâncias”, afirma Contardo Calligaris em um de seus artigos. Em outras palavras: as razões das separações vêm de dentro e não de fora. É como se altos e baixos em nossa vida amorosa fossem, antes de mais nada, a expressão de um conflito entre liberdade e apego que está em nosso âmago e nunca se resolve”, continua ele. Cada vez mais vamos nos dando conta de que é aqui dentro de nós que tudo se resolve, ou não. O ser humano do jeito que o conhecemos hoje, e acreditamos piamente que esse é o seu funcionamento, passa a vida toda nesses conflitos “normais” e infindáveis. Será que tem que ser assim? Continuo citando Calligaris: “talvez a gente se apaixone e se separe, sobretudo conforme o ritmo do antigo e inesgotável conflito entre nossas aspirações de navegador solitário e nossa nostalgia de uma fusão na qual, enfim, poderíamos descansar de vez”. O que ele chama de “antigo conflito” e “nostalgia da fusão” nos conduz para as raízes, a origem, de algo que passamos a vida toda repetindo. Veja bem, o conflito que se põe é entre prender-se, desprender-se, voltar, sair novamente, encontrar, abandonar… Toda a nossa vida segue esse movimento permanente. Na primeiríssima fase de nossas vidas, vivemos nove meses no “planeta-água”, parasitando o corpo da mãe, vivendo envolto num tipo de pele que era o corpo que nos abrigava. Um casulo protetor. De repente, não mais que de repente, tudo se rompe. Vai tudo por água abaixo, inclusive a água que nos cercava. O “planeta-ar” vem em seu lugar. Ar é nada. Ar não se sente. Ar é vazio. Cadê tudo que nós tínhamos? Sumiu. Tudo que era se perdeu. Tudo que me prendia se soltou. Estamos soltos no ar. Cadê todos os barulhos que ouvíamos? Cadê a calefação que nunca falhou? Cadê o doce balanço que nos embalava todo o tempo? Sumiram, de repente. As últimas pesquisas em neurologia e psiquiatria perinatal que estuda a constituição da vida psíquica dos fetos e recém-nascidos nos informam que nos primeiros três anos de vida o cérebro do ser humano realiza mais conexões neurais do que na idade adulta. faz mais ligações neurais do que pelo resto da sua vida. Será que o maior corte que recebemos na vida – a saída de um mundo interno para outro externo – não traria consequência imensas? Agora que já se sabe o quanto os bebês sentem, inclusive dor, muita dor (ao nascer, somos hiperalgégicos por não termos ainda inibidores para dor funcionando eficazmente), agora que sabemos das competências de sensibilidade que o ser humano começa a ter já na sétima semana de vida intrauterina, será que poderemos levar mais em conta o sofrimento, a angústia (segundo Lacan) e a agonia (segundo Winnicott) da perda do suporte corporal que era nosso universo? Éramos parasitas de um corpo que nos é tirado abruptamente. Tem jeito de ser de outro modo? Essa é a proposta de minha pesquisa sobre “O desmame do corpo da mãe”. Ela deu origem à ONG Bebê Canguru, que tem como objetivo conscientizar as pessoas da imensa necessidade que o bebê tem desse amparo que vai intermediar a saída do “planeta-mãe” para o planeta Terra: a bolsa canguru. Não temos registro dessa ajuda, dessa dependência para depois construirmos a saída da independência. Simplesmente somos jogados para fora. O que nos leva a passar a vida tentando entrar novamente – o que todo mundo quer é voltar para o útero materno – porque não se aprendeu a gostar de viver com esforço, com movimento próprio. As questões de prender-se e soltar-se, de sair e voltar, têm suas raízes em um momento inaugural em que as percepções cinestésicas – de tato, calor, ritmo – funcionavam com gigantesca força. É nesse momento que sofremos nada menos que a pior perda da vida. Como não temos o processo de desmame, são só dois movimentos: temos tudo, perdemos tudo. E não conseguimos ao longo de toda vida dar conta de viver essa experiência nas incontáveis vezes que somos chamados a passar por ela. Não conseguimos ter e não conseguimos perder. Não conseguimos ficar juntos e nem separados. Sina de quem não aprendeu a ter e nem a perder no desmame-do-corpo-da-mãe e vai passar a vida toda feito alguém atropelado por um caminhão, tonto, sem rumo, tristemente filosofando: “Onde estou? Quem sou? Para onde vou?” — Artigo originalmente publicado na coluna Divã do Popular, do jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 13 de fevereiro de 2015.