Quantos corpos nós temos?

Por Luciene Godoy

Psicanalista, pesquisadora e escritora

Ao nascer nos separamos do corpo daquela que nos gerou. Seria o corpo do feto que habitava as entranhas da matriz o nosso primeiro?

Separados para sempre daquela unidade que éramos com a mãe, só teremos “pontos-de-encontro” que nos unirão doravante com o outro – e que se darão em lugares privilegiados que funcionarão como “pontos-de-contato” com o mundo.

O primeiro ponto-de-encontro com o outro no pós-nascimento será a pele. É que o tato é a competência sensorial mais desenvolvida no bebê quando ele nasce. O nosso primeiro eu é o “eu-pele”, como denominado pelo psicanalista Didier Weill.

Ao nascermos perdemos a referência tátil (que já existe na vida fetal) do líquido amniótico que marcava os contornos de nosso corpo (primeiro?). Portanto, após nascermos, nossa primeira necessidade é voltar a sentir que temos pele, que temos corpo, através de um “material” que, exercendo pressão sobre a pele, traga de novo a sensação de existir.

A pele do corpo da mãe é por excelência esse novo marcador que provê o recém-nascido com a sensação de ter corpo, de existir (segundo corpo?). Nesse processo de perder e reaver o próprio corpo, passa-se por um tipo de angústia que Lacan chama de “angústia nascida com a vida” que, podemos inferir, é um processo de dor brutal, já que longe de ser insensível, o ser humano ao nascer é hiperalgésico – a condição de ter exacerbada a sua sensibilidade à dor.

O próximo ponto-de-encontro com o outro será deflagrado mais ou menos aos sete meses de vida, quando os sistemas neurológico e visual estão num ponto de desenvolvimento que permite ao pequeno humano se dar conta de que o mundo não é uno, mas um mundo de muitos objetos. A partir da percepção da imagem do corpo da mãe – que a criança vai ainda tomar como sendo a dela por mais de um ano – o bebê dará outro salto na sua relação com o mundo, adquirindo nesse processo mais um corpo (o terceiro?).

Porém, esse outro, do qual o bebê tomou emprestado a imagem, também fala, também usa esse novo ponto-de-contato que é sonoro e que produz significações. Somos, assim, apresentados ao mundo dos sentidos. Deles vêm informações que confirmam ou desconfirmam, dão nome, dão razão de ser para aquelas imagens – de início só imagens, mas que agora vêm carregadas de palavras significados. Será que essas palavras criariam em nós mais um corpo?

Se raciocinarmos por essa lógica, nos constituímos em cinco momentos marcantes, que nos dão, cada um deles, um funcionamento específico, um relacionamento com o mundo típico daquele período, um ponto-de-contato com o outro, um corpo unificado naquelas condições.

O primeiro corpo seria o intrauterino – o corpo aquático, e por causa dele adoramos e nos sentimos renovados na água. O segundo, o corpo-pele ou corpo-angústia, se não obtiver a presença tátil que o ressitue para sair da morte-nascimento para a vida aqui fora.

O terceiro corpo é o corpo-imagem, aquele que se agarra ao outro, que ama e sente ciúmes, que sofre interminavelmente com o medo da perda, pois está lá à mercê do que o outro faz.

O quarto é o corpo-simbólico, que a cultura nos dá a partir das palavras que veiculam valores, lugares, permissões e proibições. É o corpo unificado naquilo que ganhamos de referências que nos estruturam para a convivência em grupo.

Há um longo processo de sair do corpo do outro e vir, um dia, a ter o nosso próprio (o quinto). Ao deixarmos de parasitar o corpo do outro materialmente no útero, na imagem do outro e no simbólico, abrimos acesso para, finalmente, ter um corpo para chamarmos de nosso. Não mais aqueles que nos deram, mas a síntese de todos eles num modelo único – a subjetividade absoluta que cada ser da nossa espécie se torna.

E finalmente alcançamos a potência criada e criativa de ser-o-que-se-é.

Originalmente publicado no blog Mundo Psi, da Revista Zelo, em 05/08/2016

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