Com que olhos você me vê?

Por Luciene Godoy
Psicanalista, pesquisadora e escritora

 “Geralmente a pessoa é compreendida já antes de começar a falar, e aí está o mal-entendido, a pré-compreensão.” Essa frase é de Jacques-Alain Miller e está no livro Lacan Elucidado, página 21.

Quem olha para o outro já se conta uma história a respeito do que vê. Interpretamos, damos um sentido a tudo o que acontece. O que damos como sentido depende de quem somos, como nos sentimos, como nos vemos. Pode-se dizer que o sentido que damos a tudo é sempre “o nosso”. Miller diz, citando Lacan, que todos monologam, portanto cada um vive sem ver nem escutar o outro. Porém, ao se admitir que as relações se dão desse modo, é possível monologar de outro modo.

Portanto, ao me olhar, você não me vê como eu sou, você me vê como você consegue, passando pelo que você deseja de mim, pelo que inveja, odeia, adora, relembra, sonha, anseia… de mim e de seus fantasmas, que projeta em mim. Não sou somente eu, sou todos os seus fantasmas, a sua história vivida e sofrida, tudo vem desabar sobre essa relação de amor.

Aqui você revive as emoções sem compreendê-las porque antes, na outra relação amorosa – a primeira –, elas também não foram compreendidas. É apenas a sua segunda lição. Porém, quem é o professor? Seu companheiro também é um aprendiz de amor em sua segunda lição.

É… talvez seja isso que do amor ninguém sabe: estão todos na segunda lição. A primeira foi com os pais e a segunda com o companheiro já adulto (é esta a única relação que se assemelha em intensidade à primeira).

O que se aprende na primeira lição não ajuda muito, pois o tempo é outro (a cultura muda), a posição é outra (não se é mais uma criança indefesa necessitando ser protegida); a pessoa do outro lado é outra (muuuito diferente dos seus pais no seu jeito de ser e nas suas expectativas sobre o objeto amado – no caso, você).

Apesar do descompasso do tempo, da posição e do parceiro, a primeira relação de amor é tudo o que possuímos para nos ajudar a mudar o que é necessário, para ser bem-sucedido neste mesmo/novo tipo de amor.

É preciso que se faça uma passagem aqui. Quem nos ajudará a fazer a passagem do primeiro para o segundo amor? Como se dará isso? Em que esses dois tipos de amor são diferentes? Em que são iguais?

Vejamos o Amor1: a criança nasce em total desamparo e só pode contar com quem cuida dela para todas as suas necessidades, que vão sendo satisfeitas parcialmente num processo de presença e ausência do cuidado oferecido. Mas o grande impasse se dá quando, no sétimo mês de vida, a criança começa a perceber a existência de objetos no mundo. O mundo não é mais só ela. Daí começa o inferno da percepção da necessidade que temos do outro, coisa que sempre existiu, mas como confundíamos nós mesmos com a mãe, tínhamos “em nós” tudo de que precisávamos.

No Amor2, para aqueles que chegam a se ligar profundamente a um outro ser humano na vida adulta, o que se coloca de novo são as percepções gravadas das experiências do Amor1 e todos os desdobramentos aos quais ele nos leva.

Qual a grande diferença entre Amor1 e Amor2?

Não há mais nenhuma criança desamparada e nenhum superpoderoso ajudador. Como as próprias palavras esclarecem, no Amor1 só há o potente – o outro é parasita; no Amor2 são dois potentes que se encontraram e querem compartilhar suas vidas e seus corpos.

Para que o Amor2 não retroceda ao Amor1 e desabe no precipício da dependência-cobrança-exaustão-desamor, só se os dois tiverem crescido e se separado de sua primeira história, na qual o outro o determinou, e tiver se transformado no adulto que se liga ao objeto de amor de maneira renovada.

Daí o Amor2 – o de dois adultos – vicejará.

Originalmente publicado no blog Mundo Psi, da Revista Zelo, em 13/09/2016

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