A gente não se encaixa

Por Valéria Belém

Jornalista, escritora e psicanalista em formação

Em que lugar você se encaixa na pós-modernidade?

Na verdade, essa pergunta é uma típica pegadinha. Aqui, agora, hoje, a gente não precisa mais se encaixar em lugar algum. E pode estar onde quiser, “se” quiser. E mudar amanhã, se der vontade. Esta é a vantagem de viver em um mundo em que as relações deixaram de ser verticais – aquelas do “eu mando, você obedece” -, no qual a resposta estava dada para toda a vida e você sabia direitinho, para o bem ou para o mal, qual era a sua parte neste latifúndio. Na pós-modernidade, médicos, padres, chefes, pais não têm mais esse tal espaço do outro que tudo sabe. A horizontalidade é o novo lugar de encontro entre as pessoas. Aí, pode mais quem é respeitado ou querido porque merece e não porque mete medo ou tem um título a lhe garantir.

Isso é bom? É ótimo, mas também bastante arriscado… Se ninguém tem mais a resposta pronta para dar, cabe a você buscar as suas. E se responsabilizar por elas. Sim, porque aquele papo de coitadinho e de vítima também caiu por terra, viu? Isso quer dizer que você fica em uma relação que é puro aprisionamento porque escolheu assim. Trabalha (ou não trabalha) em algo de que gosta em função de uma escolha pessoal. Não foi “a mamãe que não deixou” nem o “marido que implicava com isso”.  Foi você mesmo. Que responsa, hein? Você mandando em si mesmo. Quem poderia imaginar…

As mulheres, então, podem falar com orgulho do que conquistaram no último século. Quantas mudanças! Vestir calças, ter ou não filhos, ser presidente e tudo o mais para onde seus desejos as levaram – e continuam a levar. Interessante pensar nisso, justamente porque, em alguns momentos, as pessoas agem como se desejassem uniformizar aquilo que deveria ser o singular de cada um. Epa! Mas o que se quer, afinal, é ter opções, não? Escolher sem ter de dar satisfações ou sofrer preconceitos por isso? Se a opção é deixar as axilas cabeludas, ok. Se a escolha é não ter filhos e focar na carreira, tudo bem. Caso se queira ser mãe ou dona de casa em tempo integral, legal. Ou se decida ter um ano sabático mochilando vida afora, beleza.

Se para sair de um modelo preparado para as mulheres a gente tiver de se remeter a outro, tenha ele o nome que tiver (de intelectual, profissional bem-sucedida, etc) não tenho outra palavra para isso a não ser “retrocesso”. E nessa pós-modernidade arriscada, cheia de possibilidades, esse certamente é um lugar onde a gente não pode se encaixar.

 

Originalmente publicado no blog Mundo Psi, da Revista Zelo, em 15/06/2016

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