A angústia dos domingos

Sunday Morning (Dox Thrash, 1935–43) - www.metmuseum.org

Sunday Morning (Dox Thrash, 1935–43) – http://www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

Domingo é um dia meio triste para muita gente.

Andei “pesquisando” entre amigos e analisantes e, mais uma vez, constatei: tem uma certa tristeza que paira na vida das pessoas no domingo.

Nada muito grande, apenas tardes meio cinzas, paradonas, ao mesmo tempo cansadas do que foi e sem ânimo para o que vem… Olhando melhor, parece que o cansaço é mais do que virá.

Assim, alguns tendem a pensar que dá uma tristeza pela “segundona braba” que se anuncia. Uma falta de energia de começar o “batidão” do dia a dia estressante. E daí o “cansaço antecipado” de um cotidiano que é percebido como tão pesado que as forças se esvaem só de pensar no esforço – inglório – de voltar à estaca zero no outro dia e esperar até o glorioso e salvador fim de semana finalmente chegar de novo.

Para outros, não se trata da “morte anunciada” de uma semana de “ralação”, mas da incapacidade de usufruir de um dia feito só para o nosso deleite. São nossas escolhas do que fazer, do que curtir, do que viver. E isso, muitas vezes, deixa um vazio inexplicável.

É que o ser humano, vindo do século 20, criado para se adequar à Era Industrial, também foi conformado à produção em massa e a ser ele também um produto padronizado, daí a estranheza de poder: escolher dói.

Muito compreensível, pois o nosso conforto é ser igual, é pertencer a um determinado conjunto – amigos, parentes, colegas, conhecidos – que nós adotamos e vivemos na luta para manter a adoção válida, pois exclusão é a palavrinha maldita que nos mata em vida.

Perguntar-se “O que quero?” é deveras muito angustiante para quem foi criado para perguntar “O que quer você de mim?” E no domingo a cultura nos diz: escolha (mesmo que dentro de opções limitadas: almoço com a família – ich!, muitas vezes de prazer vira obrigação! Ai do filho que deixar de prestigiar o almoço da mamãe –, ir ao cinema e dar um passeio no parque).

Mas o que fazer com a angústia que causa a possibilidade de fazer a “escolha errada”, quando não dá para se esconder atrás do maior alívio para a dor e os riscos da escolha – o “eu tenho que”?

Sim, porque o “eu tenho que” é a pílula salvadora da obrigação que os outros me impõem e eu, pobre oprimido, fico lutando para cumprir minha sina de obediente sem escolha.

Você não sabia que é sua a dor e o prazer? Pois é… ninguém vai viver dentro de sua pele os sentimentos que geram as suas escolhas.

Mas, sim, é verdade, “o desprazer de se ver desaprovado pelo outro é tão grande que vale a pena o sofrimento”. Quem diz isso está afirmando que vale a pena o sofrimento de tentar se adequar para o que mesmo? Ah! Sei.. para não sofrer.

Se entendi bem, é sofrer agora para não sofrer depois. É isto?

Não, acho que não entendi bem. Deixe-me clarear as ideias repetindo a pergunta: a escolha é preferir sofrer o sofrimento presente de não ser o que se quer ser, para evitar o sofrimento futuro de ser desaprovado ou excluído?

A lógica da escolha é: sofra agora para não sofrer depois, ou seja, o sofrimento de depois eu não sei se virá, mas o de agora já está garantido. Sofro para não vir a sofrer.

Gente, por mais que me esforce, não consigo ver o ganho da escolha.

Principalmente quando me lembro de uma frase do pesquisador Clóvis de Barros Filho, professor de Ética da Universidade de São Paulo: “Felicidade é quando o momento vivido vale a pena pelo que é”.

Rifar a felicidade que pode ser vivida no presente pela evitação de um sofrimento futuro parece… insano.

Podemos, no entanto, fazer outras escolhas como a do carpe diem – aproveite o dia, o momento – ou a do amor fati nietzschiano – amor do que é, o amor pela realidade como ela se apresenta – e aí, sim, beber o vinho novo que é viver momentos que valem a pena pelo que são.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 24 de março de 2016.

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