Ter razão ou ser feliz?

A Discussion (Louis Moeller, ca. 1890–95) - www.metmuseum.org

A Discussion (Louis Moeller, ca. 1890–95) – http://www.metmuseum.org

Esta pergunta está no livro As Sete Vidas de Nelson Motta, atribuída por seu autor – o próprio – ao poeta Ferreira Gullar, que pergunta se o prazer de ter razão é maior que o de estar junto com a pessoa amada.

Ora, ora, muita gente pode pensar que “ter razão” é mostrar como se é e o que se pensa, portanto, lutar para ter razão é lutar por ser respeitado. Passar por cima de si mesmo é tudo o que não nos faz bem.

É verdade. Se tomado por aí, porém, não é essa a linha de raciocínio – a cadeia significante, como dizemos em psicanálise lacaniana – que o poeta tomou e que Nelson Motta pega para si ao discorrer sobre o tema, a ponto de, no texto, confundirmos se Motta está falando de si ou de Gullar.

O que, na verdade, pouco importa. É isto mesmo que acontece sempre que tomamos o que é do outro e o fazemos nosso: é o outro acrescido – fortalecido do nós – em sua obra que se avoluma com mais um adepto.
Pois bem, Nelson toma o viés do “ter razão” como a tentativa de convencer o outro na “guerra de opiniões” em que cada um só tem o fito de “provar” que tem razão, muitas vezes, mesmo à custa da verdade.

E parece mesmo que ele aprendeu o valor de sabermos para o nosso uso pessoal, de aprendermos aquilo que faz questão para a gente, de formulamos respostas para nós mesmos, sem querer impô-las aos outros.

Essa posição está tão bem expressa pelo autor, que só citando literalmente para a degustação de todos nós: “Há muito tempo me esforço para desistir da ideia de convencer alguém de qualquer coisa. Com minha intuição, experiência e convicções, ofereço minhas opiniões com sinceridade, apresento meus argumentos, me empenho em ser claro e objetivo. Se forem aceitas ou não, tanto faz”.

Acordaram do transe? Não é maravilhosamente exprimido pelo jornalista, compositor, produtor musical, roteirista, comentarista, escritor… o nosso Nelsinho Motta?

O aceitar ou não é de pleno direito de outro, e a busca de forçá-lo a tomar a nossa descoberta como dele é como – nas palavras de um amigo – “chupar o cérebro do outro”. Ele que pense no que foi oferecido e pegue o que lhe parecer útil e interessante.

Se você fica dependendo do aceite do outro, ou quem sabe da “derrota” do outro, que ao provar que você tinha razão dá mesmo que involuntariamente a confirmação da verdade da sua afirmativa, você vive de uma forma a só acreditar no que você mesmo descobre se o outro também tomá-lo para si, adotá-lo como fato, ou capitular diante da sua argumentação. Só assim você acreditará em você. Triste, não é? Triste e solitário…

Claro, você pode admitir facilmente, em um discurso, da boca para fora, que você não sabe quem é o outro, então podemos concluir que o outro também não sabe de você. Por que, afinal de contas, o que o outro pensa ou faz com o que você diz é tão importante a ponto de você forçar tanto a barra para ter razão?

Isto levanta também o ponto de que você não pode ensinar o outro – que pega o que quer – mas que, ao contrário, pode aprender do outro o que também Motta/Gullar afirmam de modo libertador: “Gosto de aprender, não tenho problemas para admitir meus erros e equívocos, não me sinto inferior por não ter razão. Nem culpado por me sentir feliz”.

Terminar falando em ser feliz por saber que não dá para esperar todos os seres humanos viverem dentro de um sistema político, econômico ou filosófico perfeito, e que a felicidade de cada um não depende “só” disto já é o Céu aqui na Terra.

Mas, “’só’ disto” o quê? “Comida, diversão e arte.” Sim, queridos Nelson/Gullar, com vocês eu afirmo: o buraco é mais embaixo. O buraco é de cada um em sua singularidade absoluta que encarna o que vem do mundo – social –, mas também a maneira que cada fato é significado e vivido por cada um de nós. Se mantemos ou descartamos, se damos importância ou rimos.

Onde pomos o que a vida nos apresentou ou apresenta está em nossas mãos e não no que o outro vê em nós.


Artigo originalmente publicado no jornal O POPULAR em 17 de março de 2016.

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Um Comentário

  1. Republicou isso em valeriaavillae comentado:
    Cabe muito ao momento atual…uma catarse através da política, sem escuta alguma, então, ok. né? É o momento de catarse Brasil. Agora…se alguém quiser pegar. Freud inventou a psicanálise, pois catarse só não foi suficiente…

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