Podemos estar seguros de nós e dos outros?

Se mira y no se ve (Leonardo Alenza y Nieto, 1807-45) - www.metmuseum.org

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Luciene Godoy //

Somos seres confiáveis? Podemos contar certo que conhecemos a nós mesmos e aos nossos? Podemos estar seguros da ajuda, do amor, da amizade ou até mesmo da desaprovação ou do ódio do outro?

A psicanálise nos descreve como seres paradoxais. O que vem a ser isso?
Se considerarmos o axioma fundamental da filosofia, princípio aristotélico da contradição, de que “nada pode ser e não ser simultaneamente”, a resposta está clara. Ou somos isso ou somos aquilo. Duas coisas simultaneamente, impossível.

Não temos nenhuma dificuldade maior em concordar com Aristóteles, mas não dá para dizer o mesmo quando lemos Hermann Hesse, falando pela boca de seu personagem Sidarta, que o “homem sábio é aquele que olha para uma criança e vê um velho”. A gente pira ou, no mínimo, fica meio intrigado.

Para engrossar um pouco o caldo, tem uma expressãozinha bem desconhecida do nosso linguajar cotidiano – que também descreve as “estranhices” que são tais ocorrências – que são as “palavras antitéticas”, nome difícil para uma coisa fácil.

Antitéticas de antítese, palavras opostas: feio e bonito, alto e baixo, grande e pequeno, etc, etc. Podemos pensar que essas palavrinhas nos são muito úteis para afirmarmos que ou se é uma coisa ou se é outra.

Que bom! Então estamos protegidos da surpresa. Se já conhecemos um objeto, já o definimos, já sabemos como funciona, quais são suas características – e isso vale para os seres humanos –, então já temos a receita na mão de que assim será sempre. Estamos seguros e pronto.

Mas que nada! As palavras antitéticas estão na origem das primeiras línguas conhecidas: o sânscrito, o egípcio e o árabe. E tinham, no começo, a mesma forma: ao se escrever alto ou baixo o símbolo era o mesmo!

Com o tempo, foram se juntando pequenas modificações e aí, sim, aparecia com clareza o que era o quê.

Pois é, esse também é o princípio do funcionamento do inconsciente freudiano: sem noção de tempo e de contradição. Em nossa constituição psíquica – mesmo que escondida da gente – tem um funcionamento – oposto ao consciente – que é paradoxal e inconsistente.

Será mesmo que não podemos ser bonitos e feios ao mesmo tempo? Não só podemos como somos, e de maneiras infinitas. Pensemos em algumas possibilidades: bonito por fora e feio por dentro, ou bonito o olho e feio o olhar, bonita a perna e feio o pé.

Olhar para um bebê e ver nele o velho não é de uma realidade incrível? Ver, por exemplo, o que muita gente só descobre quando está morrendo: que a vida é curta e de um salto passamos do começo para o fim.

Quantas outras lições podemos tirar desse flash criança/velho e de todos os que podemos vir a ter se começarmos a ver cada palavra como antitética? Quando começarmos a ver que os extremos estão muito mais ligados, muito mais próximos um do outro, do que supomos.

É por isso que, muitas vezes aqui na coluna, tenho usado uma forma de escrever ligando palavras pelo “&”. É para juntar dois “extremos” em uma coisa só que fortalece a sua expressividade e alcance pelo uso de seu oposto, que também é – diga-se de passagem, aos interessados – o funcionamento do que Lacan chama de significante.

Sendo assim, somos todos ricos & pobres, inteligentes & burros, potentes & impotentes, mulheres & homens. Temos de tudo um pouco. Características que se manifestam juntas ou separadas, mais evidentes ou totalmente escondidas. Amadas ou odiadas.

Somos esse Samba do Crioulo Doido tão fora do controle, no fundo. Sempre com um medinho de que as amarras próprias – como Ulisses, que se fez amarrar no poste para não sucumbir ao canto da sereia – se desfaçam e a gente perca o controle.

Pensar o ser humano assim é tão assustador, é tão inseguro.

É mesmo! No entanto, tudo isso é tão… libertador…


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 11 de fevereiro de 2016.

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