Não somos dignos de nós mesmos?

Jo, La Belle Irlandaise (Gustave Courbet, 1865–66) - www.metmuseum.org

Jo, La Belle Irlandaise (Gustave Courbet, 1865–66) – http://www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

“Os psicanalistas nunca foram dignos da psicanálise” é uma frase que corre o mundo psi. É uma frase triste, desanimadora, que nos deixa sem desejo, sem rumo do que buscar na vida. Afinal, para que andar se o lugar de chegada é um fracasso, é indigno. Pesado pensar isso…

Poderíamos dizer que os médicos nunca foram dignos da medicina ou que os advogados nunca foram dignos do direito; os professores, do magistério… Daí a pensar que o ser humano nunca foi digno da vida que lhe foi dada é só um passinho.

Já estou quase enfiando a cabeça na areia e dizendo que o mundo é horrível.

Porém, não sei se dá para negar essas afirmativas pura e simplesmente. Parece que a coisa é meio assim mesmo.

Beco sem saída!?

Se tomarmos as explicações filosóficas já conhecidas de que as coisas se dão dessa maneira pela idealização que fazemos. Ou seja, os nossos modelos são perfeitos, buscamos a perfeição que fica lá de fora e a gente correndo atrás e nunca alcançando.

Eu poderia até me contentar com essa explicação se não tivesse me ocorrido a ideia de que as invenções humanas como a psicanálise, a medicina, o direito e o magistério não são ideais colocados fora da vida. São objetos criados para serem usados.

“Ah! Mas aí é que está o problema: quando começamos a usá-los aparecem as nossas falhas.” Não só isso. Existem falhas também nas invenções citadas. Nada é perfeito.

Neste caso, onde estaria o imbróglio?

Para responder, vamos para o nível pessoal. Quantas pessoas você conhece que são melhores do que pensam que são? As mais distantes, com certeza; as mais próximas, e quanto mais próximas pior, são cheíssimas de defeitos mesmo.

Os mais próximos só são piores porque se tornaram nossos espelhos. Não olhamos para eles como estranhos, como outros, mas como “outreu” – o outro no qual nos refletimos. E isso gera graves consequências de perda de si mesmo.

Não ser digno de si mesmo é possível? Não só é possível como também é uma doença gravíssima que conduz à morte. Morte em vida. Um analisante que tive há muitos anos é um exemplo perfeito dessa doença da qual todo mundo tem um pouco.

Ele foi criado em uma família numerosa, com conflitos básicos: uma mãe nervosa-dedicada e um pai desorientado-afetivo. A mãe morre e ele é deslocado para longe dos seus. Sofre, estuda, refaz sua vida social, constrói uma carreira da qual se orgulha, se faz amar e respeitar por si só. Belíssima história de vida.

Mas o dito cujo não usufruía nem um pouco dela. Não era ele que tinha passado por tudo aquilo. Os olhos não estavam exatamente nos ideais, mas cegos em relação a seus próprios feitos. Feitos tão pequenos, tão… indignos.

Se fôssemos escrever a história de nossa vida, com certeza ela seria muito mais bonita do que usualmente pensamos. As pequenas grandes coisas que fazemos no dia a dia, que são conquistas difíceis.

Tendemos a nos esquecer do quanto custaram os anos da faculdade ou para adquirir a casa onde moramos… Há uma lista infinita do que conseguimos fazer e da qual vamos diariamente passando por cima, distraídos sobre as belezas insuspeitas das nossas pequenas grandes conquistas.

Será que não somos dignos da vida que nos foi dada ou, ao não nos reconhecermos (leia-se: valorizarmos o que somos e não o que deveríamos ser), ficamos pequenos demais, falhos demais, com medo até de receber um elogio e não ser digno dele?

Talvez exatamente por isso tenhamos, como esse meu antigo analisante, atitudes tão pequenas, tão covardes, tão indignas. Não que o sejamos, mas por acreditar que somos, quando o que de fato criamos na vida é o que verdadeiramente atesta quem somos.

Não falta dignidade, falta valorizar o que se fez e o que se é.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 28 de janeiro de 2016.

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