Ano novo, medos velhos

The Fear (Homage to Francisco Goya) (Corneliu Baba, 1987)

The Fear (Homage to Francisco Goya) (Corneliu Baba, 1987)

Luciene Godoy //

Então, estamos todos começando um ano novinho para ser vivido!

Com promessas, projetos, expectativas. Esperando muita coisa boa acontecer, não é verdade?

Bem, pelo menos esse é bem o discurso de começo de ano. Será que o que se vive é o que se fala?

Li algumas pesquisas recentemente que falam do que mais incomoda as pessoas, o que mais as faz sofrer. Tentei adivinhar: será doença, morte, ficar sem dinheiro? Olha que esses são sofrimentos barras-pesadas. Difícil concorrer com eles. Mas, não, o grande ganhador foi o medo.

Mais especificamente medo de quê? Medo generalizado. Medo de tudo. Medo de qualquer coisa que “pode” dar errada. Claro, incluso, o medo da doença, da morte, da pobreza. Mas, veja bem, medo de que venham a acontecer e não o próprio mal já evidenciado.

E esse medo é regado diariamente por vários comportamentos que são verdadeiros adubos e água fresca para o crescimento do mal (in)desejado.

Sem ironias! Sem piadinhas! Vamos logo incorporando esse “in” no desejado porque é claro que ninguém deseja o medo em sua própria vida.

Consertemos, pois: então, é verdade, ninguém deseja o medo, mas cultiva com muita competência a manutenção e, quem sabe, até a proliferação do hóspede indesejado.

Falta a consciência de que se está regando a planta errada. É isso. O enorme interesse de saber qual foi a última tragédia, onde o avião caiu, quantos morreram, se o piloto errou.

Ou será que é a última baixaria de casal, assassinato, marido que matou por quê? E os últimos assaltos, que comparamos com os antigos que já conhecemos para nos certificarmos que a coisa está piorando mesmo? E inevitavelmente, não sei por que, chegamos à conclusão de que estão, sim, piorando.

Talvez a razão da impressão de que as ameaças estão sempre aumentando venha do fato de que estão mesmo, em número e gênero, dentro de nossos arquivos mentais, pelo menos. É uma lógica óbvia: ao fim de 2016 teremos muito mais informações sobre conflitos, doenças novas e velhas, desastres naturais e produzidos pela mão humana do que tínhamos ao fim de 2015.

E daí? Vamos fechar os olhos para as desgraças que estão acontecendo ao nosso redor, e o que é pior, ao redor do mundo, já que nos tornamos uma aldeia global e queremos saber de todas as desgraças existentes porque todas nos concernem?

Olha a lógica maléfica. Mantenha o seu cérebro durante horas a fio observando, se questionando sobre as ameaças, que você passará horas de dedicação exclusiva ao aumento de seu medo em todas as direções, pensando, inadvertidamente, que está “se preparando” para quando a desgraça bater à sua porta.

Coisa que inevitavelmente ocorrerá, mas você nem sabe o que vai ser, quando ou como. Não seria melhor que ela – a desgraça da qual tanto fugimos – nos encontrasse fortalecidos com muita energia para ser gasta, com muita margem de manobra para fazer as coisas darem certo, do que encontrar seres exauridos, de olhar assustado, e cansados de tanto olhar na esquina para ver se seremos a próxima vítima?

Existe antídoto para não se alimentar o medo sem ter a mínima intenção de fazê-lo? Claro. E você, a essas alturas, já deve estar formulando suas novas respostas.

Fazer uma seleta escolha dos temas que vão ocupar nossas mentes no dia a dia é como escolher o alimento que entrará em nossas bocas. Nossa saúde emocional dependerá disso, acredite. Mais um avião que cai não mudará a sua vida. Mas descobrir que tem alguém que na sua idade está vivendo uma aventura que você tanto quis e achou que já não havia mais tempo pode lhe inspirar a viver a sua.

Você pode escolher viver cada dia – que é sempre novo, não se esqueça – tendo decidido começar a ver e fazer. O quê? O que há em seu contexto para ser visto e feito.

Trata-se de ultrapassar o medo de viver… o novo, a vida.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular em 7 de janeiro de 2016.

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