O que comemos quando comemos?

Woman Carrying a Basket of Fruit (Georges Braque, 1923) - www.metmuseum.org

Woman Carrying a Basket of Fruit (Georges Braque, 1923) – http://www.metmuseum.org

Luciene Godoy //

Quando o assunto é obesidade, a pergunta fundamental seria por que comemos tanto? Não. A pergunta é: o que comemos tanto?

Freud diz que, em princípio, o aparelho psíquico tem a função de evitar a dor e buscar o prazer. Outro viés sustentado pela psicanálise é que todas as nossas necessidades vitais são, de alguma maneira, ligadas à produção de um prazer ao serem realizadas.

Será que, se comer não fosse tão prazeroso, ou a fome tão incomodativa, faríamos tanto esforço para comer várias vezes por dia?

Mamãe natureza, sábia, coloca como o maior de todos os prazeres o orgasmo. Lembro-me de uma pesquisa com pessoas com profissões emocionantes, como pilotos de Fómula 1, e praticantes de esportes radicais, como escaladores de montanhas, sobre qual a experiência de suas vidas que lhes deu um prazer mais intenso. O orgasmo ganhou o primeiro posto.

Hoje, diante de um mundo que oferece prazeres variados e intensos e, por um lado, desfavorece os encontros entre os corpos, talvez o orgasmo perdesse a posição. Numa sociedade de consumo, tudo aquilo que atrai, que é desejado, pode facilmente tornar-se uma mercadoria,

Temos ofertas de prazeres aos montes, nos jogos, nas revistas… É o corpo bonito, são as viagens paradisíacas, os carros que nos fazem levitar em quatro rodas… Por detrás de todas, o prazer de ter uma identidade ligada a algo de valor e, portanto, sentir-se como prolongamento da mercadoria valorizada.

O prazer gastronômico vai em um rumo um pouco diferente. É um prazer direto da boca – que passa também, é claro, pelo sentido do que se está comento –, mas no qual muitos vazios podem estar sendo preenchidos. Por isso, a pergunta: o que será que comemos quando comemos?

Tem gente que come presença, a fome sendo sentida como uma ausência e o preenchimento da barriga como uma presença reconfortante de alguém.

A comida pode ser outro nome que se dá para um certo apaziguamento que ela, na sua utilização natural, provoca mesmo. Daí a razão para buscá-la mais e mais, igual àquele ratinho de laboratório que descobriu que a alavanca lhe dispensava um choque prazeroso no cérebro e que morre de tanto acioná-la para ter mais e mais prazer.

A comida é um caminho mais à mão, mais direto, para obtenção de prazer. As comidas que mais associamos ao prazer são as que nos dão mais calorias – pela nossa história de animais que tinham mais chances de sobreviver se comessem o que mais lhes dava energia. Hoje esse excesso de energia se torna excesso de gordura: o que antes nos salvava, agora nos mata.

Difícil manter o peso com tudo tão fácil, tão oferecido ao olhar. Tantas festas, tantas reuniões, happy hours. A diversificação de prazer não acontece, pegamos o que está mais a mão e, quando nos damos conta, aqueles quilões a mais já se instalaram. Dizer “não” a eles é outra história.

Quando o acesso ao alimento é dificultado, come-se menos. Entre um saquinho de nozes com cascas que que têm de ser abertas uma a uma e um saquinho com as castanhas prontas para pularem para a boca, qual você comerá mais?

Mas, paradoxalmente, onde ficaria o prazer de ter o corpo saudável e mais ao seu gosto?

Poderia ser mais fácil se não comêssemos tanta coisa como se fosse comida. Nossa boca está comendo chocolate, mas o nosso cérebro, presença. A nossa boca come um hambúrguer gigante, mas nosso cérebro está comendo apaziguamento.

Será que, se estudássemos um certo tipo de gastronomia para conseguir separar o que é prazer da comida e o que é prazer de saciar outras fomes, daria resultado? Será que, se tivéssemos a clareza para sentir do que temos fome e comêssemos o item correspondente, muitas outras comidas não entrariam necessariamente pela boca? Procedendo assim, não sobrecarregaríamos nossas células adiposas.

Quem sabe inventaremos aulas de “psigastronomia” para aprendermos o que é da boca e o que é da alma comer?


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 15 de outubro de 2015.

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Um Comentário

  1. Comemos beleza e status também, mas o que me intriga mesmo são as pessoas que não gostam de comer. Na psiquiatria anorexia é mais difícil tratar do que a obesidade. Penso que vamos levando o paciente a olhar para outros prazeres. Mas quando o paciente foge do prazer… Aí é mais difícil.
    Meus amigos gostam de comer, amigos que cozinham costumam ser amorosos e generosos. Isso não é regra, mas observem.

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