Os úteros que a vida nos dá

Bedroom from the Sagredo Palace (Stuccowork probably by Abbondio Stazio of Massagno, 1718)

Bedroom from the Sagredo Palace (Stuccowork probably by Abbondio Stazio of Massagno, 1718)

Luciene Godoy //

Quando tudo está desabando em nossas cabeças, às vezes dizemos que queríamos voltar para o útero materno. Cultivamos a sensação de que, antes de começarem todas as mudanças, conflitos, desafios a serem vencidos, tínhamos a paz do útero materno.

Verdade! Lacan nos fala em seu livro Os Complexos Familiares que o habitat pré-natal se mantém em nosso inconsciente e sua representação aparece em formas simbólicas primitivas como a caverna ou a cabana, nos apontando para a busca do “paraíso perdido de antes do nascimento”.

Definimos o útero como abrigo e proteção. Ah! A doce nostalgia de nos sentirmos seguros e protegidos…

Pois é, será que o único útero que teremos na vida é o da mãe, antes de nascermos? Acho que não.

Um dia desses fui pega de surpresa ao chegar no meu quarto, depois de um dia cheio, e ser acolhida com uma sensação de estar entrando num lugarzinho protetor e agradável, que me recebia e abraçava. Tapete macio sob os pés descalços, cortinas diáfanas fechadas, lençóis brancos, sedosos e cheirosos. Se aquilo não for algum tipo de útero, me diga então o que é.

Tomada pela sensação, entrei no meu banheiro e idem, impressão de entrar num território circunscrito, numa bolha minha onde a água gostosa me acariciava o corpo, os produtos me limpavam e perfumavam a pele. Útero com água.

Depois fui me dando conta de quantas vezes tinha entrado naquela casa e sentido que estava chegando ao meu “lugar”. Só agora me dou conta de que era o meu “grande útero”.

O carro é outro útero que temos. Esse se parece muito com o materno, pois até se deslocar com a gente dentro ele faz. É por isso que carro acalma bebezinhos. Acalma a gente também, é só curtir a sensação.

Estar dentro do abraço de uma pessoa amada é o “útero-pele”, um toque de vida. Tem tantos outros lugares que nos dão a sensação de estarmos dentro e protegidos, só que nem notamos, nem degustamos, nem nos nutrimos do bem estar oferecido.

Tem “útero-cinema”, “útero-teatro”… Sem contar que tem também os “úteros abertos”: uma praia, um campo, um cerrado, o topo de uma colina, o topo de um prédio, que nos presenteiam com a amplidão acolhedora e aberta. O suave vento da liberdade que também abraça. Abraço aberto que convida para sair e curtir o mundo.

Aliás, nosso mundão – o Planeta Terra –, com seus ruídos, movimentos, cheiros e texturas, é um grande útero pulsante com o dia e a noite, o inverno e o verão, a chuva e a seca.

Diante de tantos úteros, por que não pensar no útero dos úteros que pode muito bem ser o nosso próprio corpo? Esse corpo que nos abriga. “Útero-corpo”, dentro do qual entramos, fechamos a porta e nos deleitamos com o sentirmo-nos. Ou nos abrimos para sentir os outros.

Temos, pois, tantos abrigos, tantos mundos que nos protegem: o “útero-eu” é a casa mais próxima, mais nossa e mais amada.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia, em 17 de setembro de 2015.

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