Quando eu tiver um tempo…

TheElephantClock (Al-Jazari, 1315) - www.themetmuseum.org

“The Elephant Clock”, Folio from a Book of the Knowledge of Ingenious Mechanical Devices by al-Jazari (dated A.H. 715/A.D. 1315) – http://www.themetmuseum.org

Luciene Godoy //

Vivemos dizendo que faremos um montão de coisas quando tivermos um tempo.

Cabe perguntar: o que podemos fazer para termos tempo? Esperarmos pacientemente ou, quem sabe, ansiosamente? Fazermos as contas do tempo comprometido para ver quando será a próxima brecha? Jogarmos um dadinho e contarmos com a sorte de “aparecer” um tempinho extra para realizar aquele pequeno sonho? Afinal, quando é que teremos um tempo para fazer aquelas coisinhas que nos são prazerosas, mas ficam sempre esperando pela “oportunidade” que nunca chega?

O que não notamos é que estamos sempre “tendo um tempo” – favor não confundir com “dando um tempo”, expressãozinha que de tão usada pede desesperadamente substituição.

O que você faz quando está subindo o elevador? Vejamos algumas possibilidades: imagina que está atrasado e qual justificativa vai dar? Consome-se de raiva pensando no trânsito pesado que te fez perder mais tempo que o previsto? Bate os pés no chão de ansiedade lembrando-se que após aquele compromisso “tem que” buscar o filho na escola ou ir para uma reunião de trabalho etc., etc.?

Tenho uma amiga que quando sobe o elevador realiza contrações no glúteo para manter – e, benza Deus, mantém – aquela parte linda do seu corpo, deixando a ginástica para outros detalhes. Ela achou um tempo onde não havia. Quando está no carro escuta livros em francês para curtir, relaxar no trânsito e incrementar seu aprendizado da língua. De novo, ela achou um tempo onde não havia.

Um analisante desenvolveu uma capacidade de organização e logística que é deliciosamente eficaz. Ele afirma que seu dia a dia é um jogo de videogame em que se esgrima para conseguir a melhor performance. Isso lhe dá o prazer da vitória e o relaxamento de ter a vida bem cuidada, do tipo dois em um, vantagem em dobro em uma só atividade. Exemplo? Ele faz o bife do almoço de hoje e deixa enfarinhado e tostado o que será o filé à parmegiana de depois de amanhã. Pula um dia, ele cobre o filé com queijo, orégano e molho de tomate e o cardápio (o mesmo) não se repete. Ele achou um tempo onde não havia.

Assim, para essas pessoas, o tempo vai se multiplicando e fica três em um, quatro em um. No entanto, geralmente o que acontece é que fazemos o usual: entramos no elevador e nos preocupamos, por exemplo. Não dá para fazer algo mais produtivo e prazeroso? Algo que, como os exercícios de minha amiga, faça você se sentir vivendo intensamente, fazendo acontecer e não um pobre coitado que mais se assemelha a um cachorro correndo atrás da roda do carro sempre mais veloz que ele?

Não é ter um tempo, é usar o tempo. Usar e não simplesmente deixar escorrer entre os seus dedos um tempo precioso, enquanto nos “pré-ocupamos” com o que não podemos fazer naquele momento.

Estar presente é descobrir o que podemos usufruir daquela exata situação que estamos passando. Enquanto espero a consulta, leio um livro de piadas, ao invés de fritar meu cérebro de raiva do atraso (ficar bem humorado vai ajudar nessa circunstância, não duvide).

Que tal ouvir aquelas palestras maravilhosas que você gravou no congresso, enquanto o dentista remexe a sua boca? Múltiplos ganhos: você, concentrado nas mensagens da gravação, nem terá tempo para sentir o desconforto da situação, deixará o dentista feliz e se enriquecerá profissionalmente num momento nem um pouco previsto para isso. E tem mais ganhos. É só procurar que você acha.

Podemos finalmente responder à pergunta: “Quando tivermos um tempo” é agora. Ter tempo não é sobra de tempo, é uso de tempo. É sentir-se inteiro dentro de cada circunstância de forma que outras oportunidades são, por isso, engatilhadas.

Ter tempo é estar no presente, é usufruir dele, é degustá-lo, é inventá-lo e se sentir senhor de sua vida… aos pedaços… pedaços de presente.


Artigo originalmente publicado no jornal O Popular, de Goiânia (GO), em 30 de julho de 2015.

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